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1973
– Eu
queria ser o homem invisível
María
Esther Gilio
MEG
- Jorge
Luis Borges tomava o café da manhã. Havia uma rutilante toalha
individual com desenho da bandeira inglesa, sob o café. Sua mãe,
uma mulher frágil e pálida, contemplava-o com expressão
ensimesmada ou ausente.
Borges
se pôs de pé e me estendeu sua mão, que passivamente deixou-se
apertar.
“Ter
que viver 97 anos, não o desejo a ninguém”, disse a mãe.
Eu
gostaria de viver muitos anos.
“Quando
se depende de outros para viver, viver não é agradável. É um
grande sacrifício.” Disse, e se encaminhou até à sacada com
pequenos passos vacilantes. “Me dizem que caminhe, eu não quero
caminhar; não quero caminhar mais”.
“Agora
vá até a sacada, mãe”, disse Borges, e sentou-se. Tinha a
expressão vagamente feliz, que o conheço já de outras
entrevistas e que poderia sintetizar: “Não me incomoda falar,
ao contrário, me diverte”.
Da
rua, entre vozes, zoada de freios e buzinas, subia descontínua a
melodia de um tango. “Não se pode viver aqui com tanto ruído.”
Não
lhe agrada o tango?
JLB
- Detesto tango - disse
enfaticamente. Tão sentimental. Quando penso nas origens
infames do tango, inventado nos prostíbulos da rua Junín do ano
80, ou talvez nos prostíbulos da rua Yerbal, em Montevidéu, na
mesma data. Tem uma origem infame que se percebe.
MEG
- A
origem das coisas… quem pensa nisso? Além do mais, pouco tem a
ver este tango com aquele.
JLB
- Este é pior do que aquele.
MEG
- Não
gosta de Piazzolla?
JLB
- Oh Piazzolla! Que
tem Piazzolla de tango, é o último que pode haver… Bem, na
realidade, tive problemas com ele.
MEG
- O
que houve? Musicou alguma letra sua?
JLB
- Sim, desgraçadamente pôs música em uma milonga, mas de
milonga não tem nada.
MEG
- Fale-me
de sua infância.
JLB
- Bem - disse, e parou
pensativo. Lembro meus largos verões de então. Alguns no sítio
de meu tio Francisco Haedo, em Montevidéu, no Paso del Molino, na
rua Lucas Obes, sobre um arroio que se chamava Quitacalzones. Meus
verões nas fazendas. Quando criança era bastante ginete, bom
como todo mundo.
MEG
- Como
todo mundo que pertence à sua classe.
JLB
- Ser ginete?
MEG
- Seguramente
as crianças não são ginetes, salvo que sejam do campo ou da
classe alta. As crianças da cidade jogam futebol.
JLB
- Isso é verdade, mas quando eu era criança a palavra futebol
era desconhecida, exceto nos colégios ingleses. Ao contrário,
quase todo mundo gostava das rinhas de galos.
MEG
- Quando
criança, via rinha de galo?
JLB
- Crianças e mulheres não iam às rinhas. Vi mais tarde.
MEG
- Enquanto
fala belisca as mãos, aperta os dedos em um gesto que repete
interminável, inevitavelmente. São os gestos que corresponderiam
a um nervoso. Contudo, são realizados com uma tal lentidão e há
tanta desconexão entre eles e a expressão serena, um pouco
alheia a tudo, de seu rosto, que mãos e rosto parecem pertencer a
pessoas diferentes.
Que
mãos tão jovem tens! - disse aproximando as minhas. Com um gesto
sobressaltado retirou as suas.
JLB
- Sim, sim… jovens.
MEG
- E
de imediato:
JLB
- Gosto do campo.
MEG
- Recorda
com prazer, verdade?
JLB
- Sim. Gostava de nadar. Aprendi no arroio Ramallo. Minhas lembranças…
Bem, tenho essas lembranças comuns a todas as crianças. As férias
no campo, os peões.
MEG
- Ficava
com eles, escutava suas conversas?
JLB
- Os peões são muito parcos. Possivelmente porque se sentem
diferentes - disse, e ficou
pensando.
MEG
- Era
uma criança feliz.
JLB
- Sim, talvez. A outra lembrança importante para mim é a
biblioteca de meu pai. Uma grande biblioteca com uma maioria de
livros ingleses, porque sua mãe era inglesa. Ele me deixava ler
qualquer coisa.
MEG
- Via
bem, quando criança?
JLB
- Via mal, mas os míopes vêem o que está próximo. Aproximava
bem os livros e lia - disse,
e aproximou as mãos do rosto como se se tratasse de um livro.
Eu me eduquei na biblioteca de meu pai. Como disse Bernard Shaw:
“Minha educação foi interrompida por meus anos escolares”.
Talvez a educação de todas as crianças seja interrompida pelos
anos escolares, não?
MEG
- Outra
vez devo lembrar-lhe sua classe.
JLB
- Acredita? Por que?
MEG
- Porque
para as escolas vão os filhos de todo mundo. Na maioria dos casos
o professor está em melhor situação para educar uma criança do
que seus pais.
JLB
- Parece-me horrível retardar alguém.
MEG
- Por
que pensou nisso?
JLB
- Não sei. Sou professor de literatura inglesa, e em vinte anos
somente reprovei dois alunos.
MEG
- Seria,
em definitivo, o sentimento de que não se pode ser juiz de outro?
JLB
- Sim… pode ser isso.
MEG
- Ou
é a dor que lhe dá produzir dor a outro?
JLB
- É, talvez, a sensação de que cada um deve salvar-se a si
mesmo, e aqui retorno a Bernard Shaw. Quando ele ouvia dizer que
Jesus Cristo era Deus que havia tomado forma humana e permitido
ser crucificado, dizia: “Um cavalheiro não pode aceitar a salvação
que lhe oferece outro, tem que salvar-se ele mesmo” - disse
e animou-se, com esse riso que nunca é muito mais do que um
projeto, que morre tão logo nascido. Desculpe se a estou
escandalizando. Não creio no céu nem no inferno, e nem creio que
um fato alheio possa salvar-me ou condenar-me, porque se fosse
assim eu seria culpado de todos os crimes que se cometem também.
Retornando à minha infância, essas são minhas lembranças
fundamentais, a biblioteca de meu pai… Nessa época vivíamos
num subúrbio: Palermo. O de valentões e payadores.
MEG
- Esse mundo de valentões e
payadores,
você o via, imaginava ou era uma coisa sobre a qual ouvia?
JLB
- Não, não, não. Tudo isso estava muito próximo, e por
demasiado próximo não me interessava. Evaristo Carriego[1]
era amigo nosso e vinha à nossa casa quase todos os domingos, mas
não me interessava sua poesia, me interessavam mais os contos de
Stevenson ou As mil e uma
noites.
MEG
- Que
idade tinha quando começou a ler?
JLB
- Não me lembro de mim mesmo quando não sabia ler. Não poderia
dizer quando comecei a ler. Se não soubesse que aos três anos não
poderia ter lido diria que sempre li. Tanto em inglês como em
espanhol porque… possivelmente a estou aborrecendo? Eu tinha uma
avó criolla.
MEG
- De
origem espanhola.
JLB
- Não, não, de origem criolla, aos espanhóis não podia vê-los. Chamava-os “os
godos”. E tinha também uma avó inglesa. Eu sabia que tinha que
falar de dois modos diferentes. De certo modo com minha avó criolla
e de outro com minha avó inglesa. Ao final de um tempo, me foi
revelado que esses dois modos de falar, inteira ou quase
inteiramente distintos, eram a língua castelhana e a língua
inglesa. Minha avó criolla sabia a Bíblia de memória.
MEG
- Foi
educado em alguma religião?
JLB
- Vou explicar-lhe. Minha mãe era católica como todas as
senhoras argentinas, ou seja, sem entender absolutamente nada de
religião. Meu pai era livre pensador, como todos os senhores
argentinos também. Como Spencer. Minha avó paterna era muito
religiosa, protestante. Quando chegou o momento da primeira comunhão,
meu pai me disse: “veja, para mim é uma cerimonia absurda, mas
para tua mãe é muito importante. Queres fazer a primeira comunhão
ou queres esperar até chegares a alguma conclusão sobre estes
fatos?” Minha irmã escolheu fazer a primeira comunhão e é católica;
eu escolhi não fazê-la e sou livre pensador ainda, embora isso
pareça antiquado.
MEG
- Considera
que haja algum fato em sua infância que tenha marcado de alguma
maneira você ou sua literatura?
JLB
- Muitas coisas. As espadas de meus avôs, por exemplo.
MEG
- Em que sentido?
JLB
- Provocavam minha fantasia. Também o retrato de meu bisavô
coronel Suárez, me impressionava muito. Ele ganhou a batalha de
Junín. Saiu de Buenos Aires com San Martín aos dezesseis anos.
Quando retornou, aos 27 anos, a família não o reconheceu. E meu
avô Borges, que iniciou sua carreira militar defendeu a praça
sitiada de Montevidéu, a praça sitiada pelos brancos de Oribe, e
tinha naquele momento catorze anos, depois tomou parte na batalha
de Caseros, na divisão oriental de César Díaz, e tinha
dezesseis anos. Depois disso veio uma larga carreira militar: duas
balas na guerra do Paraguai, as campanhas com…
MEG
- Você
tem uma grande saudade de tudo isso. Teria gostado?
JLB
- Sim, sim, sim. Mas não sei se teria servido.
MEG
- Independente
de se teria servido ou não. Talvez sua saudade seja também de não
ter servido. Nota-se em seus contos, em “Sur”, por exemplo.
Esse personagem é você mesmo.
JLB
- Sim, sim. Esse é um conto autobiográfico, em parte.
MEG
- Ali
está escolhendo sua morte. Preferiria morrer esfaqueado na planície
do que em uma sala de cirurgia.
JLB
- Sim. Matar ou ser morto acaso não seja pior que envelhecer,
morrer na cama ou sofrer a noite, disse certa vez.
MEG
- Sofrer
a noite. Sofre realmente a noite? Porque lendo-o às vezes tem-se
a sensação de que você sente certa felicidade não vendo, de
que isso não lhe pesa, bem ao contrário. No conto sobre Homero,
o herói descobre que deixou de ver. Você diz: “Sentiu como
quem reconhece uma música ou uma voz”, e depois: “O havia
encarado com temor, mas também com júbilo, esperança e
curiosidade”.
JLB
- Não, uma certa felicidade não. Mas eu nunca vivi em um mundo
visual. Por exemplo… -
disse, e ficou calado por tão largo momento que pensei que havia
me esquecido.
MEG
- Que
quer dizer com nunca ter vivido em um mundo visual?
JLB
- Por exemplo, eu sei que tenho, me garantiu minha mãe que não
me engana, duas gravatas. Em outras épocas tive mais, mas nunca
soube quantas.
MEG
- Parece-me
que isso tem mais a ver com outras características suas. Você
disse: “Nunca vivi em um mundo visual”. Tampouco tátil. Você
não sabe quantas gravatas tem porque não lhe interessam as
gravatas, simplesmente.
JLB
- Não sei qual a cor da roupa que uso. Por exemplo, me aconteceu
de estar apaixonado por uma mulher, muito apaixonado, este…
este… e não poder imaginá-la.
Explique-me
o que quer dizer exatamente.
JLB
- Imagino o ambiente dela, a felicidade de estar com ela. Isso eu
imagino. Mas se me perguntam a cor de seus olhos, a forma de seu
nariz ou de sua boca, eu não saberia responder.
MEG
- Então
o que lhe chega de uma mulher? Sua maneira de falar, por exemplo?
JLB
- Ah, não! mas… mas…
MEG
- Outra
vez tornou a distrair-se. Disse-lhe:
Estávamos
falando das mulheres que o apaixonam.
JLB
- Não, mas é que creio que há algo misterioso ali, ainda no
tema da inteligência. Vamos a uma reunião, conversamos com várias
pessoas. Entre essas pessoas há uma que faz observações agudas
e outra que não diz nada ou que diz trivialidade. Ao sair dali
pensamos: Fulana de tal é uma imbecil e a outra é inteligente.
MEG
- Qual
é a inteligente, a que disse as coisas agudas ou a outra?
JLB
- Não, a que não disse nada. Sentimos a inteligência de um modo
misterioso. Ao contrário, uma pessoa pode dizer coisas
inteligentes e deixar a impressão final de que é idiota.
Possivelmente isso ocorra porque uma pessoa brilhante é
facilmente uma pessoa vaidosa, então sentimos antipatia por ela,
não? Que lhe parece se paramos?
MEG
- Assim,
de repente? Por que?
JLB
- Parece-me que estou falando demasiado.
MEG
- Gosto
de ouvi-lo. O que você não quer que eu diga não vou dizê-lo.
Quer que apague tudo que acaba de dizer sobre as mulheres?
Muito
enfadado:
JLB
- Você pode dizer o que quiser.
MEG
- Bom.
Quer seguir?
JLB
- Você prefere?
MEG
- Certamente.
JLB
- Siga então.
MEG
- Você
me dizia que não podia descrever fisicamente a mulher que ama.
JLB
- Sim. Isso é tudo.
MEG
- Vejamos
algumas das constantes de sua literatura: as bibliotecas. Você
viveu a maior parte de sua vida entre bibliotecas, a de seu pai, a
Nacional… em que momento escreveu essas histórias de
bibliotecas?
JLB
- Enquanto trabalhava na de Almagro. Na Nacional comprovei que
estava rodeado de novecentos mil livros, um paraíso de livros que
me estava negado porque não podia ler. Só lia as capas, os títulos.
Agora nem isso. A única coisa que vejo são sombras, vultos,
luzes, a cor branca e a cor amarela.
MEG
- Como
se sentiu ao perceber que não podia mais ler?
JLB
- Quando senti isso, foi ali, na biblioteca. Um dia me dei conta
que só via as letras muito, muito grandes. Então lembrei uma
frase do filósofo alemão Steiner: “Quando algo conclui - não
sei, uma mulher deixa alguém, o que for, ou se perde a vista -,
deve-se pensar que algo novo começa”. Claro que esse conselho
é um pouco inútil porque sabemos o que perdemos mas não o que
começa. Contudo, disse: “Aqui vai começar algo”.
MEG
- No
momento em que sentiu que havia perdido a vista?
JLB
- Sim.
MEG
- Você
o relata no conto de que eu falava: “Uma neblina pertinaz apagou
as linhas da mão, a noite se despovoou de estrelas”.
JLB
- Sim, falando de Homero. Então resolvi estudar anglo-saxão,
inglês antigo. Mais tarde comecei a escrever com uma amiga um
livro sobre Spinoza e, além do mais, estou agora corrigindo minha
obra que Emecé publicará completa. Tenho 74 anos e minhas
faculdades imaginativas e inventivas estão diminuindo.
MEG
- Você
sente isso ou dizem-no seus críticos?
JLB
- Não, não. Não sei. Talvez o digam meus críticos. Eu sinto
isso. Bem, vou fazer algo que não requeira essas faculdades.
MEG
- O
que entende por corrigir suas obras?
JLB
- O que em geral se entende por corrigir. Além do mais, penso em
deixar cair certas coisas que não me agradam.
MEG
- Que
coisas? Não coisas inteiras.
JLB
- Sim, coisas inteiras. Estou tratando de fazer um livro que me
desagrade menos que os anteriores. Há certas composições que
vou deixar cair de todo porque me parecem muito sentimentais,
muito tontas.
MEG
- O
que, por exemplo?
JLB
- Não, não é questão de fazer-lhes propaganda. Vou deixar cair
livros inteiros, porque não me agradam, me parecem ridículos.
MEG
- Será
um bom crítico de você mesmo?
JLB
- Não sei, mas sou o único crítico de que disponho.
MEG
- Pelo
menos com um critério que você respeita.
JLB
- Bem, afinal de contas escrevi essas coisas com meu critério
também. Suponha que estou escrevendo e me ocorra fazer uma
modificação. Por que não vou usar esse mesmo critério dois
anos depois? Isso é propriedade minha e eu mesmo não me vou
fazer nenhum pleito.
MEG
- Como
se sente quando pensa que deixará uma obra tão vasta?
JLB
- Dessa obra se encarregarão o pó e o esquecimento.
MEG
- Está
seguro de que vai ser esquecido?
JLB
- Estou totalmente seguro.
MEG
- Sério?
JLB
- Mas se o que escrevi não vale nada - disse,
e sua afirmação teve o acento da sinceridade e da humildade não
fingida.
MEG
- Mas
você está falando sério?
Impaciente:
JLB
- Não me agrada o que escrevo. Terei alguns contos que são bons,
porque haverá algum eco de Kipling, por exemplo.
MEG
- Mas
por que não lhe agrada o que escreve? Nunca lhe agradou ou olha
agora para trás e não lhe agrada?
JLB
- Não sei, escrevemos o que podemos e não o que queremos. Não
se toma a decisão de ser Shakespeare.
MEG
- Mas
toma a decisão de ser Borges, e há toda uma geração que o
aplaude em vários idiomas. Uma geração de críticos, de
leitores.
JLB
- Esse é um critério estatístico.
MEG
- Sim,
é um critério estatístico, mas me parece válido. Não conheço
um só crítico que o impugne. Para nos orientarmos não temos
hoje muitas outras pautas objetivas.
JLB
- Com esse critério teríamos que aceitar todos os governos que
se elegem pela maioria.
MEG
- Você,
como liberal, tem que aceitá-los.
JLB
- Quem disse que sou liberal? - disse
com ar impertinente e por um largo momento ficou calado.
Não
lhe perguntei nada. Esperei silenciosa para ver o que tirava do
ignoto poço de sua memória. E quando falou lamentei largamente não
haver podido segui-lo através de suas singulares associações.
Disse:
JLB
- Estou seguro de que não há nada depois da morte. Esteja segura
de que não há; pode estar tranqüila.
MEG
- O
que o levou a pensar nisto agora?
JLB
- Oh.
MEG
- Você
pensa que se houvesse outra vida cairia no inferno?
JLB
- Não, como vou cair no inferno! Nem no inferno nem no céu. Não
mereço nem castigo nem recompensa. Vivi como pude. Tratando de
ser uma pessoa justa, razoavelmente justa. Há tantas coisas no
sentido contrário que eu não entendo… Por exemplo, a não
entendo a vingança.
MEG
- No
entanto, em seus contos costuma referir-se à vingança e é possível
pensar que lhe causa prazer.
JLB
- Sim… meus contos… mas se uma pessoa que fez uma injúria, e
tenho motivos de ressentimento, a esqueço quase em seguida, de
modo que não estou brigando com ninguém, não desejo mal a ninguém.
A ninguém.
MEG
- Essa
é uma forma de desprezar o outro.
JLB
- Ah, pode ser, mas… mas…
MEG
- É
mais útil. Lhe parece mais útil? Socialmente mais útil?
JLB
- Não!, que socialmente! Porque se você está pensando em uma
pessoa, odiando-a - tudo isto está escrito, estou plagiando a mim
mesmo -, você depende da outra, é um pouco escravo da outra. É
seu servidor. Como um homem quando uma mulher o deixa, a única
coisa a fazer é esquecê-la, caso contrário condena a si mesmo
à desventura. Sobretudo se se torna sentimental, se busca
encontrar-se com ela, se retorna ao bairro onde ela vive. Tudo
isso é incômodo para a outra pessoa que o sabe e desafortunado
para quem o faz. Claro, o valor não é tão fácil. Mas quando
passa o tempo, o valor chega, não?, porque chega o esquecimento.
Porque a vida traz outras coisas. A realidade é muito inventiva,
a realidade nos traz interesses novos e pessoas novas. Claro que
para uma pessoa na minha idade é bastante difícil; ao 74 anos não
é fácil esperar novidades; então temos que inventá-las. Aos 55
inventei o estudo de anglo-saxão e depois do escandinavo antigo.
MEG
- Para
ler o que?
Vacila,
resmunga, diz duas ou três palavras ininteligíveis.
Essa
pergunta não lhe agradou, já vejo.
JLB
- Não, não, não. Sim, me agrada. Desgraçadamente, de todas as
nações germânicas da Idade Média, a que produziu uma
literatura mais rica é a escandinava. A literatura anglo-saxã, a
inglesa, é rica. Mas não sabiam escrever em prosa. Quando
cheguei à Islândia meus olhos se encheram de lágrimas.
Sentia-me tão comovido de pensar que estava na Islândia.
MEG
- Que
estranho! Por que o comovia tanto a Islândia?
JLB
- Falam a língua como há sete séculos. Desprezam os noruegueses
e os suecos porque sua língua se deformou. Foi no outono, o sol
estava muito baixo no horizonte. A luz era a que corresponderia ao
nosso entardecer. Além do mais, é um país de classe média. Não
há nem grandes misérias nem grandes fortunas. Para mim a classe
média é uma classe superior. A aristocracia é muito parecida
com o povo.
MEG
- Sim?
JLB
- Em todos os países.
MEG
- Em
que se parecem?
JLB
- São muito nacionalistas e o povo também o é. Gostam das
mesmas coisas. Lhes interessa o luxo, as carreiras.
MEG
- Deveras?
Mas, o que encontra de bom na classe média? É a classe que mais
teme as mudanças. A que está mais cheia de travas, a mais
conservadora.
JLB
- É bom que seja conservadora! Quando me convidaram ao México - disse,
e caiu na mais total distração.
Ao
final de trinta ou quarenta segundos voltou a falar.
JLB
- Eu… se pudesse ir…
MEG
- Para
onde?
Mudando
a voz:
JLB
- Não sei… para outra parte.
MEG
- Gostaria
de ir viver em outro lugar?
Bem
pensativo:
JLB
- Não, gosto de Buenos Aires, porque viajar… para um cego…
MEG
- Mas
queria ir.
JLB
- Creio que vou acabar ficando aqui.
MEG
- Sim?
JLB
- Sim, gosto muito de Buenos Aires, mesmo que seja uma cidade tão
feia.
MEG
- Buenos
Aires não é feia; é muito parecida com Paris.
JLB
- Paris é muito feia e Buenos Aires também. Veja Florida, com
esses vasos que lhe puseram no meio. No México, por exemplo, as
pessoas são muito mais educadas do que aqui.
MEG
- Essa
deve ser uma impressão de viajante.
JLB
- No México ninguém levanta a voz. Em uma reunião havia uma
senhora que falava aos gritos, me aproximei: argentina. Notícias
policiais quase não há.
MEG
- Como
dizer isso?
JLB
- Além do mais, acredita que ali se comem pimentas?
MEG
- Sim.
JLB
- Não, eles comem à maneira americana - disse,
e outra vez se distraiu.
Finalmente:
JLB
- Lembro-me do carão que me deu meu pai no dia que lhe contei que
havia estado no mercado do Abasto e havia comido tripas de vaca e parrillada[2].
Me disse: “Não te envergonhas?, um criollo
comendo essas coisas! Essas coisas se reservam para os mendigos e
para os negros. Nenhum senhor come essas coisas.” A verdade é
que são imundas. São as vísceras dos animais, a parte mais ignóbil.
MEG
- É
muito interessante o que dizia seu pai. Conhecer os pais de alguém
às vezes pode aproximar-nos de explicações de coisas que
pareciam incompreensíveis.
JLB
- Bem, mas estamos nos afastando do tema, onde estávamos?
MEG
- Você
me contava de quando deixou de ver.
JLB
- Eu era um bom latinista, e sinto ter perdido o latim, é uma lástima,
um idioma tão lindo, e atualmente já não o sei. No entanto,
deveria insistir, não - murmura
algo ininteligível e diz: Que estamos fazendo? Estamos
falando uma espécie de geringonça do latim.
MEG
- Mas
a esta altura nossa língua já tomou seu caminho.
JLB
- Pertenço à Academia e é muito mal isso de amontoar palavras.
Quanto menos palavras tenha um idioma, melhor.
MEG
- É
certo?
JLB
- Que vantagem pode haver em que tenha muitas palavras?
MEG
- As
palavras dão matizes.
JLB
- Não dão matizes.
MEG
- Como
não?
JLB
- Somente acumulam, nada mais. Na América temos uma vantagem, a
de que, exceto o Brasil, falamos o mesmo idioma. O que deveria
fazer a Academia é eliminar diferenças: não incluir nem
americanismos nem andaluzismos.
MEG
- De
que serviria? À língua não importa a Academia.
JLB
- São os jornais que estão pondo a perder o idioma. Falam de uma
mesma pessoa e chamam-na de um modo diferente: o senhor fulano em
uma linha, o primeiro mandatário em outra, o senhor presidente em
outra. Se não mudou a pessoa, para que fazer gênero nomeando-a
de maneiras diferentes! Estive no México e não tive nenhuma
dificuldade de me entender com ninguém. Falava com todo mundo,
todo mundo me entendia. Quanto a tudo isto de “rapaz, olha só”,
encontra-se somente nos filmes. Contudo, a Academia vai
incorporando argentinismos e americanismos. Uma vez jogaram na
cara de Robert Arlt[3]
sua ignorância total do lunfardo[4].
Bem, disse ele, eu me criei em Villa Luro, ali nos arrabaldes,
junto da gente pobre, entre malandros, e não tive tempo de
estudar o lunfardo. Imagine se alguém na conversa dissesse: “Fulana era um
mosaico diqueiro” ou “A rantifusa milongueira”. Fui amigo de
muitos suburbanos, até de valentões também, e jamais os ouvi
dizer uma palavra em lunfardo.
MEG
- De
imediato, como com um golpe de impaciência:
JLB
- Bem, que outra coisa quer saber?
MEG
- Como
se dá a situação de escrever entre dois? Não lhe pergunto por
libretos, porque me parece mais fácil. Refiro-me a um livro sério.
JLB
- A única maneira de fazê-lo é esquecer que são dois.
MEG
- Como
pode ser isso? Como pode esquecer-se?
JLB
- Se temos amizade com a outra pessoa, aceitamos a idéia do outro
quando é melhor e não quer impor a própria por vaidade.
Pensa-se simplesmente na outra idéia. Se você me pergunta qual
frase dos livros feitos com Bioy é minha ou dele, eu não sei.
Tampouco ele sabe.
MEG
- Mas,
na prática, como ocorre isto?
JLB
- Na prática dedicamos duas ou três noites a estudar o
argumento.
MEG
- Nunca
vai saindo à medida em que escrevem?
JLB
- Ah, não, não.
MEG
- E
quando escreve um conto sozinho?
JLB
- Quando o escrevo só, sei muito bem qual é o princípio e qual
é o final, o que ocorre no meio vai-me sendo revelado na medida
em que o escrevo.
MEG
- Você
sempre utiliza a palavra revelado. “Me foi revelado”, como se
uma voz alheia a você o ditasse.
JLB
- Não, é como se o conto já existisse e eu fosse vendo-o cada
vez mais próximo. Ao princípio, o que vejo é uma forma geral
vaga, com mais claridade nas duas pontas.
MEG
- Onetti[5]
me disse uma vez: “Sei o que vai se passar, não sei como vai se
passar”.
JLB
- Vem a ser o mesmo. Às vezes me ocorre com um conto que escrevi
duas páginas e de imediato me dou conta de que as coisas não
sucederam assim. Então apago-as e recomeço.
MEG
- Quanto
tempo leva para escrever um conto?
JLB
- Muito, muito. Escrevo muito lentamente. De uma só vez fiz um
que se chamava… espere… espere… O conto de um homem que
sonha com outro…
MEG
- “Ruínas
circulares”.
JLB
- Sim, esse conto eu o fiz em uma semana, o que para mim é uma
grande velocidade.
MEG
- E
no caso da poesia?
JLB
- A poesia eu trabalho muito. Quando termino um conto ou um poema
deixo-o, não os nove anos que recomendava Horácio[6],
mas uns nove dias. Escrever me é muito custoso.
MEG
- Nunca
se propôs escrever romance?
JLB
- Romance não, não. Não. Sei que é um esforço inútil, pois
antes do quarto capítulo o abandonaria. Não se pode escrever
trezentas páginas valiosas. O romance terminará por desaparecer.
O melhor romance tem largas confidências inúteis, destinadas
simplesmente a servir de ponte entre um episódio e outro,
verdadeiro recheio.
MEG
- Você
acredita que o problema de sua vista influiu em seus temas?
JLB
- Não na eleição. Influiu em outros sentidos. Influiu na maior
simplicidade com que escrevo. Há palavras que nos atrevemos a
escrever e não nos atrevemos a ditar porque as consideramos
rebuscadas. Creio escrever agora de um modo mais simples. Com uma
sintaxe que se parece mais com a linguagem oral. Claro que isso
muda segundo as pessoas. No caso de Henry James, ele se acostumou
a ditar e, como era um conversador brilhante, ocorriam-lhe frases
larguíssimas.
MEG
- Seu
problema determinou, em definitivo, modificações de tipo formal.
JLB
- Sim. Sou uma pessoa muito torpe para a expressão oral, por isso
tenho tendência a abreviar, ao contrário de Henry James. Ele era
um homem que falava muito pomposo, então quando caminhamos de uma
ponta à outra da peça sentíamos…
MEG
- Genial.
JLB
- Sim, genial, saíam parágrafos de meia página.
MEG
- Nunca
pensei que uma circunstância exterior pudesse modificar um
estilo. Quando lhe fiz a pergunta me referia mais à sua visão do
mundo que se reflete em suas obras. Pensei que suas obsessões
literárias eram as de alguém a quem foi se fechando um dos
acessos ao mundo exterior.
JLB
- Não, não.
MEG
- Lembro
uma conferência sua; você disse: “As casas são para mim
labirintos”.
JLB
- Sim… mas sempre foram labirintos, não somente quando deixei
de ver.
MEG
- Seu
mundo literário com espelhos, tigres…
JLB
- Facas.
MEG
- …facas,
não é o específico mundo que recria alguém que só vê luzes,
sombras…?
JLB
- Não, não, não. Sabe? Atualmente trato de fugir desse mundo
para não me parecer demasiado com Borges; quando faço uma frase
muito característica minha, censuro-a.
MEG
- Por
que?
JLB
- Para que não digam: aqui está Borges, repetindo-se a si mesmo.
MEG
- Também
podem dizer: “Aqui está Borges na busca de algo novo que não
se possa comparar, evidentemente, com o anterior”.
JLB
- Bem, isso não me importa. Já foram escritos não sei se
quarenta ou cinqüenta livros sobre mim. Desses quarenta ou cinqüenta
li apenas um.
MEG
- Realmente
não lhe importa o que dizem de você?
JLB
- Não me importa.
MEG
- Isto
quer dizer que não vai ler esta entrevista?
JLB
- Não a lerei - disse
e me perguntou se podia voltar no dia seguinte, pois já eram duas
da tarde.
MEG
- Sim,
posso, mas amanhã é Natal.
JLB
- Mas pode vir?
MEG
- Posso,
sim.
JLB
- Então venha.
MEG
- Quando
cheguei, no dia seguinte, Borges se despedia de um amigo. Enquanto
esperava, percorri lentamente os móveis construídos com velhas
madeiras já quase desconhecidas ou esquecidas: raiz de mogno,
nogueira, faia. Porcelanas, seguramente inglesas, ocupavam seu
lugar nas estantes, parecia que desde sempre e para sempre. Sua mãe,
como uma sombra indecisa, caminhava em um e outro sentido pelo
corredor. Uma irredimível melancolia, que não ventilavam o sol
nem os ruídos alegres do verão, enchia a casa por todos os
cantos.
O
amigo se foi e me sentei. Assim recomeçou a absurda cerimônia.
Em
qual de suas histórias lhe parece que você esteja presente de
uma maneira mais consciente? Já me respondeu, sei, mas talvez
queira estender-se um pouco mais.
JLB
- Em todas elas. Ainda que nas fantásticas me sinta mais cômodo.
Estou narrando uma história que sucede em outra época, em outro
país, posso soltar-me. O leitor não tem porque supor que haja
ali nada pessoal. Ao contrário, se estou falando de um homem de
agora e o descrevo parecido comigo, o leitor pode rastrear-me e
isto me inibe.
MEG
- Quer
dizer que através do fantástico você pode dar livre curso ao
que quer dizer.
JLB
- Sim, creio que em definitivo tudo o que se escreve é finalmente
autobiográfico. Só que isso pode ser dito: “nasci em tal ano,
em tal lugar” ou “havia um rei que tinha três filhos”.
MEG
- Em
vários de seus contos, em “El ajedrez” ou em “El condenado
a muerte”, aparecem pesadelos e insônias. Isso tem relação
com sua vida concreta?
JLB
- Sim, eu tenho agora pesadelos quase todas as noites.
MEG
- Pesadelos?
Você tem pesadelos?
JLB
- Você acaba de me perguntar sobre pesadelos. De que se
surpreende?
MEG
- Pensei
que ia dizer: “nunca tive pesadelos”.
JLB
- Não era lógico.
MEG
- Como
são esses pesadelos?
JLB
- Contados não são horríveis, mas sonhados, sim.
MEG
- Conte-me.
JLB
- Noites passadas sonhei com um senhor alto, ruivo, muito janota,
à maneira do século XIX. E eu sabia que ele era inglês, como se
sabe as coisas nos sonhos. Esse senhor tinha juba e uma cara que
era quase a de um leão. Rodeava-o um semicírculo de pessoas que
tinham um pouco cara de leões, embora menos que ele.
MEG
- Parece-me
um sonho bem estranho.
JLB
- E ele vacilava. Tudo isso estava fotografado em um grande quadro
e abaixo dizia: “Leões”. E havia outro senhor, de costas para
mim, que gesticulava e dava conta de tudo o que se passava no
quadro. Ele era judeu e eu o sabia, como se sabe as coisas nos
sonhos, sem que sejam ditas. Esse senhor estava no meio, assim,
apaixonado.
MEG
- Apaixonado?
JLB
- Sim, e ao redor dele esse semicírculo de pessoas todas vestidas
como ele, com jubas e barbas. Alguns, me dei conta, quase não
tinham cara de leões. Simplesmente buscavam esse posto e haviam
se caracterizado. Isso contado não tem nada de particular.
MEG
- E
o que será que o angustia tanto, então?
JLB
- Bem, isso é o que não sei, mas despertei tremendo.
MEG
- Não
buscou uma explicação?
JLB
- Como você vê, esse sonho em si é disparatado mas não terrível.
Essas figuras não me ameaçavam. Como? Como?
MEG
- Não,
nada. Eu não disse nada. Queria saber o que resultava tão
terrificante. Qual interpretação você daria ao sonho?
JLB
- Eu? Nenhuma. Creio no que dizia Coleridge, o poeta inglês, que
na realidade os fatos produzem emoções. Por exemplo, se entra
aqui um leão sentimos medo, ou se nos apoia um animal no ventre
sentimos opressão. Mas nos sonhos começa-se por uma emoção
para depois, de modo dramático, inventar-se uma explicação.
MEG
- Que
é o sonho.
JLB
- Sim. Quer dizer que eu, adormecido, por alguma razão senti medo
ou senti horror, e então inventei essa explicação disparatada.
MEG
- O
sonho seria uma explicação para seu medo.
JLB
- Sim.
MEG
- Que
você mesmo se dá.
JLB
- Sim, eu poderia lhe contar muitos outros sonhos.
MEG
- Conte-me,
então.
JLB
- Não, não, não. Escolhi este porque, precisamente, em si mesmo
não é terrificante, é disparatado. Imagine o desatino de uma
pessoa que tem cara de leão e procura um acompanhante parecido
consigo.
MEG
- A
verdade é que eu não o vejo tão inocente; vejo-o bastante
terrificante.
JLB
- Não, não é terrificante. Simplesmente é raro. Possivelmente,
se víssemos um quadro…
MEG
- Esses
tipos, com caras de leões vestidos de pessoas…
JLB
- É que eram pessoas! De leões só tinham a cara. E esse senhor
tinha uma bengala muito lindo, estava vestido de negro, creio que
de fraque, não estou seguro deste detalhe. Este sonho em si não
é horrível, no entanto quando o sonhei era um pesadelo, e quando
despertei estive vários minutos aterrorizado, até que pensei que
antes de tudo o sonho não era terrível, e que além do mais era
um sonho. Quando me dei conta disso voltei a dormir em cinco
minutos.
MEG
- Não
sofre de insônia?
JLB
- Sofri muito de insônia e escrevi um conto que reflete isso.
MEG
- Por
isso lhe perguntava. Pensava em “Funes el memorioso”.
JLB
- Esse conto… vou contar-lhe um detalhe que talvez possa lhe
interessar. Eu padecia muito de insônia. Deitava e começava a
imaginar. Imaginava a cama, os livros nas estantes, os móveis, os
pátios. O jardim da quinta de Adrogué, isto era em Adrogué.
Imaginava os eucaliptos, a grade, as diversas casas do povoado,
meu corpo estendido na escuridão. E não podia dormir. Dali saiu
a idéia de um indivíduo que tivesse uma memória infinita, que
estivesse esmagado por sua memória, não pudesse esquecer-se de
nada e, por conseqüência, não pudesse dormir. Penso em uma
frase comum: “recordar-se”, que é porque alguém se esqueceu
de si mesmo que ao despertar recorda. E agora vem um detalhe quase
psicanalítico: quando escrevi esse conto acabou-se a insônia.
Como se houvesse encontrado um símbolo adequado para a insônia e
me liberasse dela mediante esse conto.
MEG
- Como
se escrever o conto tivesse uma conseqüência terapêutica.
JLB
- Sim.
MEG
- O
que suporta melhor, sua escuridão de antes ou sua situação de
agora com medalhas, honras, os jornalistas que o acossam?
JLB
- Lembro-me que quando eu era jovem meu pai me presenteou O
homem invisível, de Wells, e me disse: “Aqui tens este
livro que é muito bom. Eu queria ser o homem invisível.”
MEG
- Ele
disse?
JLB
- Sim, e de certa forma sou, disse, porque ninguém me conhece. Eu
sinto isso.
MEG
- O
que é que sente?
JLB
- O desejo de ser o homem invisível.
MEG
- Lhe
incomoda a fama, então?
JLB
- Sim… Estive dez dias na Escócia. Um dos países que mais
quero. Fiquei na casa de um poeta amigo meu. Então conheci seus
amigos. Saímos a caminhar à beira do mar. Sabe-se ali que do
outro lado do mar está a Noruega. De algum modo fui um cidadão
escocês. Mas estando uma semana no México participei de mesas
redondas, reuniões de jornalistas, conversas com políticos,… e
a mim não me interessa a política…, não sei até onde posso
dizer agora que conheço o México. Provavelmente não conheço
nada, além do mais, estando cego… O México é um país muito
culto onde ninguém ergue a voz. E em Montevidéu, você observou
que quando fala por telefone e pergunta: “Falo com a família
tal?”, respondem-lhe: “É verdade”.
MEG
- Sim.
JLB
- Porque dizer “sim” lhes parece demasiado brusco, breve. Você
não viu que entre patrícios ou entre malandros, a maneira de
negar algo, e isso já é bastante forte, é “Você que diz”?
MEG
- Como
se dissesse…
JLB
- Você que diz, eu não me responsabilizo. Parte por cortesia e
parte pelo desejo de não dizer coisas violentas.
MEG
- Sim,
seguramente. Em sua literatura há psicologias muito bem relatadas
que se referem a personagens fantásticos.
JLB
- Você que diz.
MEG
- Eu
que o digo. Mas quando se trata do homem real a descrição é
mais ligeira. A que atribui isto? É como se o homem real seguisse
sendo uma invenção.
JLB
- Não sei, pode ser, não sei. Não havia pensado nisso. Há
certa lógica. É natural que seja assim. Digo a você: Fulana de
tal caminhava pela rua Chacabuco. Não precisa que a detalhe
porque você conhece a rua Chacabuco. Se escolho fazer uma cena
fantástica preciso ser um pouco mais detalhado.
MEG
- Bem,
entenda que ao responder-me isto está corroborando indiretamente
o que acabo de dizer. Eu lhe falava de pessoas, não de coisas.
JLB
- Pode ser, mas em todo caso é inconsciente.
MEG
- Não
haverá alguma forma de distância entre você e seus contemporâneos?
Alguma incapacidade de aproximação?
JLB
- Não, não creio. Sou um homem que tem muitos amigos.
MEG
- Não
duvido disso, mas é muito claro que você está realmente alheio
aos problemas da sociedade em que vive.
JLB
- Não tenho a vaidade de crer que posso resolver os problemas de
meus contemporâneos.
MEG
- Essa
vaidade lhe criaria obrigações que seguramente não deseja
assumir.
JLB
- Meu ceticismo me impede criar tais obrigações. Você já
deveria saber que sou um cético; um cético não se propõe
vacuidades tais como salvar seus contemporâneos. Que outra coisa
quer saber?
MEG
- Você
se deu conta de que em sua obra há uma grande ausência de
mulheres?
JLB
- Será porque pensei tanto nelas, na realidade.
MEG
- Quer
dizer então que não se deve a uma atitude de misoginia.
JLB
- Nãããão, dou demasiada importância às mulheres, demasiada.
MEG
- Sim?
JLB
- Não, a elas não. A ela, a uma em particular.
MEG
- A
uma cujos olhos não pode descrever.
Uma
menina que acaba de chegar atravessa o terraço e se detém na
porta do living.
Ali
tem um lindo exemplar de quatro anos.
JLB
- Não a vejo. Onde?
MEG
- Na
varanda.
JLB
- Não a vejo, não a vejo.
MEG
- Quase
não há mulheres em seus contos.
JLB
- Escrevi-lhes centenas de poemas.
MEG
- Escrever-lhes
poemas serviria para negar sua misoginia, mas não sua particular
visão das mulheres. São muito poucas, e quando existem
desempenham papéis regularmente adjudicados aos homens. Estou
pensando, por exemplo, na mulher qu |