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1966
- Jorge Luis Borges. Entrevista
no tempo
Ronald
Christ
Esta
entrevista com Borges realizou-se em seu gabinete da Biblioteca
Nacional, da qual é diretor. O lugar, que lembra a velha Buenos
Aires, na verdade não é exatamente um gabinete, mas sim um
quarto grande, decorado, de teto alto. Em cantos diagonalmente
opostos há duas altas bibliotecas giratórias que possuem livros
que Borges consulta freqüentemente, dispostos em uma ordem
determinada e invariável para que Borges, que está quase cego,
possa encontrá-los por localização e tamanho.
Quando
Borges entrou na biblioteca, usando uma boina e uma folgada roupa
de flanela cinza escura que lhe caía até os sapatos, todos
deixaram de falar por um momento, fazendo uma pausa, talvez por
respeito, talvez por simpatia, como se participassem da vacilação
deste homem que não está de todo cego. Seu passo é inseguro, e
leva uma bengala que usa à maneira de cajado - mais como guia do
que como apoio. Não é alto, e seu cabelo tem algo de irreal pelo
modo como parte de sua cabeça. Seus traços são vagos,
suavizados pela idade, parcialmente apagados pela palidez de sua
pele. Sua voz, também carece de ênfase, é quase monocorde;
parece, seguramente devido à expressão ausente dos olhos,
proceder de outra pessoa que se encontrasse por detrás de seu
rosto, e seus trejeitos e gestos são lentos - é característica
a queda involuntária de uma pálpebra. Mas quando se ri - e se ri
com freqüência - seus traços se enrugam formando, na verdade,
um sinal de exclamação inclinado; e costuma fazer com o braço
um vasto aceno displicente baixando a mão sobre a mesa.
Muitos
de seus comentários tomam a forma de perguntas retóricas, mas,
se deveras quer fazer uma pergunta, Borges mostra uma exagerada
curiosidade ou uma incredulidade patética. Às vezes, ao contar
uma piada, por exemplo, adota um tom animado, teatral, e, quando
cita uma frase de Oscar Wilde, sua entonação é digna de um ator eduardiano.
Seu sotaque inglês não é fácil de classificar: uma dicção
cosmopolita que surge de um fundo espanhol, educada por uma
correta alocução inglesa e influenciada pelo cinema
norte-americano. Gosta de usar gírias e costuma entregar-se à
conversa, mas, no geral, quando fala em inglês, torna-se
cerimonioso e livresco.
Mas
Borges, sobretudo, é tímido, reservado e, como se cuidasse de
passar despercebido, evita as opiniões pessoais na medida do possível
e responde de maneira indireta perguntas sobre ele falando de
outros escritores, utilizando suas palavras e inclusive seus
livros como emblemas de seu próprio pensamento.
RONALD CHRIST
RC - Não lhe
incomoda que grave nossa conversa?
JLB - Não, não. Ponha para funcionar este aparato. Não
me incomoda, mas tratarei de falar como se ele não estivesse aí.
De onde é você?
RC - De Nova York.
JLB - Ah, Nova York. Estive
lá e gostei muito. Pensei: “Isto, fui eu que fiz; é minha
obra”.
RC - Você se refere
às paredes dos arranha-céus, ao labirinto de ruas?
JLB - Sim. Andei pelas ruas - a 5a Avenida - e
me perdi, mas as pessoas eram sempre muito amáveis. Recordo haver
respondido muitas perguntas sobre minha obra que me formulavam
jovens altos e tímidos. No Texas, me haviam dito que desconfiasse
de Nova York, mas me agradou. Bom, já está pronto?
RC - Sim, a máquina
já está funcionando.
JLB - Diga-me, antes que comecemos, que tipo de perguntas
pretendes me fazer?
RC - Principalmente
sobre sua obra e sobre os escritores ingleses que lhe interessam.
JLB - Ah, assim está bem. Porque se me perguntas sobre os
escritores jovens temo saber muito pouco deles. Durante os últimos
sete anos fiz o possível para aprender algo de anglo-saxão e de
islandês. Isso significa afastar-se no tempo e no espaço da
Argentina, dos escritores argentinos, não?
RC - A épica sempre
lhe interessou muito, não é assim?
JLB - Sempre, sim. Há muitas pessoas, por exemplo, que vão
ao cinema e choram. É algo que sempre acontece. Também comigo.
Mas nunca chorei nas cenas lacrimosas, ou nos episódios patéticos.
Mas, por exemplo, quando vi pela primeira vez os filmes de gângsters
de Sternberg, lembro que quando ocorria algo épico - ou seja, gângsters
de Chicago que morriam valentemente - meus olhos se enchiam de lágrimas.
Sinto mais a poesia épica do que a lírica ou elegíaca. É algo
que sempre me ocorreu. Talvez se deva ao fato de que descendo de
uma família de militares. Meu avô, o coronel Borges, lutou nas
guerras de fronteira contra os índios e morreu na revolução de
74; meu bisavô, o coronel Suárez, esteve no comando de um
regimento de cavalaria colombiana e peruana em uma de suas últimas
batalhas contra os espanhóis; outro tio avô conduziu a vanguarda
do exército de Los Andes - enfim, coisas assim… Tudo isto me
liga à história argentina e também à idéia de que um homem
deve ser valente.
RC - Mas os
personagens que você elege como heróis - os gângsters, por exemplo - não costumam ser considerados épicos, não é assim?
Contudo, você ali encontra a épica?
JLB - Creio que, no que concerne à poesia épica ou à
literatura épica, melhor dizendo - se excetuamos escritores como
T. E. Lawrence, em seus Sete
pilares da sabedoria, ou alguns poetas como Kipling, por
exemplo em Harp song of the
dane women ou inclusive em seus contos -, creio que, enquanto
nossos homens de letras parecem haver descuidado de seus deveres
para com a épica, a épica, em nosso tempo, nos foi salva, de
maneira estranha, pelos westnerns.
RC - Ouvi dizer que
viu o filme West side story
várias vezes.
JLB - Várias vezes, sim. Claro, West side
story não é um westnern.
RC - Não, mas para
você ele tem as mesmas qualidades épicas?
JLB - Creio que sim. Neste século, como disse, a tradição
épica foi salva para o mundo, insolitamente, por Hollywood.
Quando fui a Paris, senti vontade de escandalizar as pessoas e
quando me perguntaram - sabiam que o cinema me interessava, ou que
me havia interessado, porque agora vejo muito pouco -: “Que tipo
de filmes lhe agrada?”, respondi: “Francamente, o que mais me
agrada são os westnerns”.
Eram todos franceses e todos opinaram como eu. Me disseram:
“Certamente, vemos filmes como Hiroshima,
mon amour ou O ano
passado em Marienbad
por um sentimento do dever, mas quando queremos nos distrair,
quando queremos nos sentir realmente à vontade, vemos filmes
norte-americanos”.
RC - Então o que lhe
interessa é o conteúdo, o conteúdo “literário” de um
filme, mais do que o aspecto técnico?
JLB - Sei muito pouco do aspecto técnico de um filme.
RC - Sugiro mudarmos
de tema e passarmos a seus contos. Queria lhe perguntar sobre o
que você disse de ser muito tímido quando começou a escrever
contos.
JLB - Sim, era muito tímido, porque quando era jovem me
considerava somente um poeta. Então pensei: “se escrevo um
conto, todos saberão que sou um intruso, que tento algo que me
está vedado”. Depois tive um acidente. Ainda se nota a
cicatriz. Se você põe a mão em minha cabeça, aqui, dará
conta. Está cheia de elevados, como pequenas montanhas, não?
Passei duas semanas no sanatório. Tinha pesadelos. Depois me
disseram que havia corrido perigo, bem, de morrer, e que
incrivelmente a operação havia sido um êxito. Comecei a temer
por minha integridade mental. Pensei, talvez não possa escrever
mais. Praticamente minha vida teria terminado, porque o essencial
para mim é a literatura. Não porque acredite que o que escrevo
seja particularmente bom, mas sim porque sei que não posso viver
sem escrever. Se não escrevo, sinto uma espécie de remorso, não?
Então pensei que podia tentar escrever um artigo ou um poema. Mas
pensei: “tenho escrito muitos artigos e poemas. Se não posso
fazê-lo, saberei que já não há nada que fazer, que para mim
tudo terminou”. Então pensei em tentar algo que não havia
feito; se fracasso, não teria nada de estranho, já que não
teria por que saber escrever contos. Me prepararia para o golpe
final: saber que já estou nas últimas. Escrevi um conto
intitulado, espere, creio que foi El
hombre de la esquina rosada
e agradou a todos. Foi um grande alívio para mim. Se não
houvesse sido por esse golpe na cabeça jamais teria escrito
contos.
RC - E talvez nunca
teria sido traduzido?
JLB - E ninguém teria pensado em traduzir-me. No fundo,
foi uma sorte. Esses contos, de alguma maneira, saíram bem:
conseguiram ser traduzidos ao francês, ganhei o Prêmio Formentor
e, ao que parece, fui traduzido a muitas línguas. O primeiro
tradutor foi Néstor Ibarra. Era íntimo amigo meu e traduziu os
contos para o francês. Creio que os melhorou bastante, não?
RC - Ibarra, e não
Caillois, foi o primeiro tradutor?
JLB - Ibarra e Roger Caillois. A uma idade madura comecei a
dar-me conta de que muitas pessoas de todas as partes do mundo
estavam interessadas em minha obra. Parece estranho: coisas que eu
escrevi foram traduzidas para o inglês, o sueco, o francês, o
italiano, o alemão, o português, para algumas línguas eslavas,
o dinamarquês. E isto sempre me parece surpreendente, porque
recordo haver publicado um livro - deve ter sido em 1932, creio -
e, ao final de um ano, soube que haviam sido vendidos não menos
que 37 exemplares!
RC - Esse livro era Historia
universal de la infamia?
JLB - Não, não. Historia de la eternidad. Queria localizar cada um dos compradores para lhes
pedir desculpas pelo livro e também para lhes agradecer pelo que
fizeram. Isto tem uma explicação. Se você pensa em 37 pessoas -
essas pessoas são reais, quero dizer que cada uma delas tem um
determinado aspecto, uma família, vive em uma determinada rua.
Porque se você vende, digamos, dois mil exemplares, é o mesmo
que se não vendesse nenhum, porque dois mil é algo demasiado
vasto para que a imaginação possa abarcar. Enquanto que 37
pessoas - talvez 37 seja demasiado, talvez dezessete ou sete seja
melhor - é algo que está ao alcance da imaginação.
RC - Falando de números,
noto que em seus contos alguns números aparecem com freqüência.
JLB - Sim, claro. Sou terrivelmente supersticioso. É algo
que me envergonha. Penso que, no fundo, a superstição é,
suponho, um leve sintoma de loucura.
RC - Diria que é a
mesma causa - a superstição - que o leva a usar sempre as mesmas
cores - vermelho, amarelo, verde?
JLB - Quanto ao amarelo, obedece a uma razão de ordem física.
Quando comecei a perder a vista, a última cor que vi, ou a última
cor, melhor dizendo, que se manteve - porque certamente agora sei
que seu casaco não é da mesma cor que esta mesa ou deste móvel
de madeira através de você -, a última cor que se manteve foi o
amarelo porque é a cor mais vívida. Por isso, nos Estados
Unidos, os taxis estão pintados de amarelo. Primeiro pensaram em
pintá-los de uma cor vermelho escarlate. Depois alguém averiguou
que, de noite, ou quando há neblina, o amarelo se destaca mais do
que o escarlate. Por isso vocês têm taxis amarelos, porque
qualquer um pode distingui-los. Quando comecei a perder a vista,
quando o mundo começou a desvanecer-se para mim, em um certo
momento meus amigos brincavam comigo sobre o estridente amarelo de
minhas gravatas. Depois pensaram que a cor amarela realmente me
agradava apesar de ser aberrante. Eu lhes dizia: “Sim, para vocês,
mas não para mim, porque praticamente é a única cor que posso
ver!” Vivo em um mundo cinza, ou melhor, preto e branco, como o
da tela. Mas o amarelo se destaca. Essa explicação bastaria.
Recordo uma piada de Oscar Wilde: um amigo dele tinha uma gravata
amarela, vermelha e de outras cores, também, e Wilde disse:
“Meu querido amigo, somente um surdo pode usar uma gravata como
essa!”
RC - Poderia
perfeitamente estar referindo-se à gravata amarela que uso.
JLB - Ah, sim. Recordo haver contado essa piada a uma
senhora que não entendeu que era uma brincadeira. Disse-me:
“Claro, como era surdo não podia ouvir o que a gente dizia de
sua gravata”. Wilde teria se divertido muito com isto.
RC - Também gostaria
muito de ouvir o que Wilde responderia.
JLB - Sim, certamente. Desconheço outro caso de algo tão
perfeitamente mal entendido. A perfeição da estupidez.
Certamente, a observação de Wilde é a tradução engenhosa de
uma cor comum; tanto em espanhol como em inglês se fala de uma
“cor aberrante”. Uma “cor aberrante” é uma expressão
corrente, mas o que se diz em literatura é sempre o mesmo. O
importante é a forma em que se diz. Tratando-se de metáforas,
por exemplo. Quando eu era jovem estava sempre buscando metáforas
novas. Depois compreendi que as metáforas realmente eficazes são
sempre as mesmas. Ou seja, comparar o tempo com um rio, a morte
com o sonho, a vida com o sonho. Essas são as grandes metáforas
em literatura, porque correspondem a algo essencial. Se você
inventa metáforas, costumam resultar surpreendentes durante uma
fração de segundo, mas não despertam uma emoção profunda. Se
você afirma que a vida é um sonho, afirma um pensamento
verdadeiro ou, em todo caso, verossímil, um pensamento que todos
os homens tiveram. “What oft was thought but
ne’er too wel expressed”. Creio que é melhor que a idéia de assombrar as
pessoas, de buscar relações entre coisas que antes não haviam
estado relacionadas. Por isso, as novidades literárias são uma
espécie de prestidigitação.
RC - Prestidigitação
somente com palavras?
JLB - Somente com palavras. Sequer chamá-las-ia metáforas
verdadeiras, porque em uma metáfora verdadeira ambos termos estão
realmente unidos. Encontrei uma única expressão - uma estranha,
nova e bela metáfora da antiga poesia islandesa. Na poesia
anglo-saxã, fala-se de uma batalha como de um “jogo de
espadas” ou um “encontro de lanças”. Mas no antigo islandês,
creio também que na poesia dos celtas, chama-se uma batalha de
uma “rede de homens”. Estranho, não? Porque em uma rede há
um desenho, um tecido de homens. Suponho que em uma batalha
medieval se obtinha uma espécie de tecido porque as espadas e as
lanças entrecruzavam. Tem-se, creio, uma nova metáfora
certamente com algo de pesadelo. A idéia de um tecido feito de
homens vivos, de coisas vivas, e que no entanto não deixa de ser
um tecido, um desenho. É uma idéia estranha.
RC - Corresponde, de
uma maneira geral, à metáfora que usa George Eliot
em Middlemarch, de que a sociedade é um tecido, que não se pode desenredar um fio
sem modificar todo o resto.
JLB - Sim, certamente! Você quer dizer que todo o universo
está ligado. Bem, essa é uma das razões pelas quais os estóicos
acreditam nos presságios. Há um artigo, um artigo muito
interessante, como tudo o que escreveu, onde De Quincey refere-se
à superstição moderna, e fala ali da teoria dos estóicos. A idéia
é a seguinte: como todo o universo é uma única coisa vivente, há
uma relação estreita entre coisas que parecem distantes. Por
exemplo, se treze pessoas comem juntas, uma delas morrerá no
curso desse ano. Não somente por causa de Cristo e da Última
Ceia, mas sim porque todas as coisas estão ligadas entre si. De
Quincey disse - não recordo bem a frase - que todas as coisas, no
mundo, são um espelho secreto do universo.
RC - Você costuma
referir-se com freqüência aos que lhe influenciaram, como De
Quincey…
JLB - De Quincey, sim, me influenciou profundamente, e também
Schopenhauer, em alemão. Sim, de fato,
Carlyle me levou - Carlyle, melhor diria que me desagrada: penso
que inventou o nazismo e todo o resto: é um dos autores ou dos
precursores de tudo isso -, bom, Carlyle me levou a estudar alemão
e tratei de ler a Crítica
da razão pura, de Kant.
Me embaracei, certamente, como costuma acontecer com muita gente -
com muitos alemães. Então pensei: “bem, tentarei ler a poesia
alemã; a poesia deve ser mais curta devido ao verso”. Consegui
um exemplar de Lyrisches intermezzo, de Heine, e um dicionário alemão-inglês, e
ao final de dois ou três meses comprovei que podia sair-me
bastante bem sem o dicionário. Recordo que o primeiro romance que
li em inglês era um romance escocês intitulada The
house of the green Shutters.
RC - Devido a esse
velho interesse pela literatura inglesa e a seu grande amor por
ela…
JLB - Caramba! Estou falando com um norte-americano, e há
um livro ao qual devo referir-me - um livro nada surpreendente -;
esse livro é Huckleberry
Finn.
Detesto Tom Sawyer.
Creio que estropia os últimos capítulos de Huckleberry
Finn. Todas essas piadas estúpidas. São piadas que não vêm
ao caso; mas suponho que Mark Twain acreditou que seu dever era
ser gracioso, mesmo quando não tivesse vontade. Havia que incluir
as piadas de alguma maneira. Segundo George Moore, os ingleses
sempre pensaram: “Mais vale uma piada sem graça do que nenhuma
piada”.
Penso que Mark Twain era realmente um grande escritor, mas
nunca suspeitou disto. Talvez para escrever um livro realmente
bom, um grande livro, alguém deva,
melhor dizendo, não ter consciência disto. É possível
trabalhar com afã em um livro, substituir cada adjetivo por
outro, mas talvez se possa escrever melhor se são deixados os
erros. Recordo que Bernard Shaw disse que, quanto ao estilo, um
escritor terá o estilo que suas convicções lhe dão, nada além
disso. Shaw pensava que a idéia do estilo como jogo não tinha
sentido, era absurda. Considerava Bunyan, por exemplo, um grande
escritor porque estava convencido do que tinha a dizer. Se um
escritor não crê no que está escrevendo, não pode pretender
que lhe acreditem os leitores.
Neste país, no entanto, há uma tendência a considerar
qualquer tipo de literatura - especialmente a poesia - como um
jogo de estilo. Conheci muitos poetas que escreveram bem - coisas
bem lindas, de uma maneira delicada e demais -, mas ao falar com
eles não contam senão obscenidades ou então falam de política,
como pode fazer qualquer um, porque sua literatura é uma ocupação
secundária. Aprenderam a escrever da mesma maneira que um homem
pode aprender a jogar xadrez ou bridge. Na realidade, não são
poetas ou escritores. É um truque que aprenderam
conscienciosamente e que conhecem a fundo. Mas a maioria deles -
salvo quatro ou cinco, digamos - não parece crer que a vida tenha
nada de poético ou misterioso. Tomam as coisas por garantidas.
Sabem que quando têm que escrever devem tornar-se de imediato
tristes ou irônicos.
RC - Disfarçar-se de
escritores?
JLB - Sim, disfarçar-se de escritores e adotar um estado
de ânimo adequado, e somente então escrever. Depois retornam à
política do dia.
RC - Quando escrevia
contos, os revisava muito?
JLB - Ao princípio, sim. Depois soube que quando um homem
chega a certa idade encontra seu verdadeiro estilo. Atualmente,
volto sobre o que escrevo mais ou menos depois de quinze dias e
certamente encontro muitos descuidos e repetições que devo
corrigir, recursos nos quais não devo insistir. Mas acredito que
o que escrevo atualmente se mantém sempre em certo nível e que não
posso melhorá-lo muito ou tampouco estragá-lo demais. Sendo
assim, deixo como está, me esqueço disso e penso no que estou
fazendo nesse momento.
RC - Gosta muito das
piadas, não é certo?
JLB - É verdade, gosto muito.
RC - Mas as pessoas
que escrevem sobre seus livros, sobre seus contos, em
particular…
JLB - Não, não - são demasiado sérias.
RC - Raramente
percebem que alguns deles são muito engraçados.
JLB - Pretendem ser engraçados. Agora está por sair um
livro intitulado Crónicas
de Bustos Domecq, escrito em colaboração com Adolfo Bioy
Casares.
Este livro será sobre arquitetos, poetas, novelistas, escultores
etc. Todos os personagens são imaginários e todos são muito
atuais, muito modernos; levam-se muito a sério; o mesmo se dá
com o autor, mas na realidade não são paródias de nenhum
escritor em particular. Simplesmente vamos tão longe quanto nos
permite o que nos propusemos fazer. Por exemplo, muitos escritores
argentinos me dizem: “Gostaríamos de conhecer sua mensagem”.
A verdade é que não tenho mensagem. Quando escrevo, o faço
simplesmente porque tenho que fazê-lo. Não creio que um escritor
deva intervir demasiado em sua própria obra. Deve deixar que a
obra se escreva por si só.
RC - Você disse que
um escritor não deve ser julgado por suas idéias.
JLB - Sim, o importante não são as idéias.
RC - Bem, então como
deve ser julgado?
JLB - Deve ser julgado pelo prazer que proporciona e pelas
emoções que desperta no leitor. Quanto às idéias, ao final das
contas não tem muita importância que um escritor tenha
determinadas opiniões políticas, porque a obra será feita
apesar delas, como no caso de Kipling. Suponhamos que você
considera a idéia do império britânico - bem, em Kim, creio que os personagens preferidos não são os ingleses, e
sim muitos dos hindus, dos muçulmanos. Creio que são mais simpáticos.
E isso é porque pensou - não, não é porque pensou que eram
mais simpáticos -, mas sim porque os sentiu mais simpáticos.
RC - E o que pensa
então das idéias metafísicas?
JLB - Ah sim, as idéias metafísicas, sim. Podem ser
utilizadas em parábolas etc.
RC - Os leitores amiúde
consideram seus contos como parábolas. Está de acordo com essa
descrição?
JLB - Não, não. Não se propõem a ser parábolas. Quero
dizer, se são parábolas… [silêncio
prolongado]… ou seja, se são parábolas, resultaram
ser parábolas, mas minha intenção nunca foi escrever parábolas.
RC - Então não são
como as parábolas de Kafka?
JLB - No caso de Kafka sabemos muito pouco. Sabemos apenas
que estava muito insatisfeito com sua própria obra. Certamente,
quando disse a seu amigo Max Brod que queria que seus manuscritos
fossem queimados, como o fez Virgílio, suponho que sabia que
seu amigo não ia fazer isso. Se um homem quer destruir sua própria
obra, lança-a ao fogo e pronto. Quando diz a um amigo íntimo:
“Quero que todos os manuscritos sejam destruídos”, sabe que o
amigo nunca fará semelhante coisa, e o amigo sabe que o sabe e
que ele sabe que o outro sabe que o sabe etc. etc.
RC - Tudo isso lembra muito Henry James.
JLB - Sim, naturalmente. Creio que todo o mundo de Kafka
pode ser encontrado de uma maneira mais complexa nos contos de
Henry James. Creio que ambos pensavam que o mundo era ao mesmo
tempo complexo e absurdo.
RC - Absurdo?
JLB - Não acha?
RC - Não, realmente
não o creio. No caso de James…
JLB - Mas no caso de James, sim. No caso de James, sim. Não
creio que pensasse que o mundo tivesse um propósito moral. Penso
que não acreditava em Deus. Em uma carta que escreveu a seu irmão,
o psicólogo William James,
disse que o mundo é um museu de curiosidades, digamos uma coleção
de objetos fantásticos. Suponho que isso é o que queria dizer.
Ao contrário, no caso de Kafka, penso que estava em busca de
algo.
RC - Em busca de
algum sentido?
JLB - Sim, de algum sentido que não encontrou. Mas creio
que tanto James como Kafka viveram em uma espécie de labirinto.
RC - Neste caso, sim,
opinaria como você. Um livro como The sacred fount (de Henry James), por exemplo.
JLB - Sim, The sacred
fount e muitos dos contos breves. “A humilhação dos
Northmores”,
por exemplo, onde a trama é uma bela vingança, mas uma vingança
que o leitor não sabe jamais se chegará a cumprir-se ou não. A
mulher está muito segura de que a obra de seu marido, que ninguém
parece haver lido ou tratado de ler, é muito superior à obra de
seu célebre amigo. Mas talvez toda a história seja falsa. Talvez
a mulher tenha se deixado levar por seu amor. Não sabemos se
essas cartas, quando publicadas, realmente valerão à pena.
James, certamente, encerrava em um conto dois ou três contos. Por
esse motivo não quis dar nenhuma explicação. A explicação
empobreceria o texto. “The turn of the screw,
disse James, não é mais do que uma obra de circunstância, não
há que levá-la a sério”. Henry James pensaria: “Se dou
explicações o conto sairá empobrecido porque terei que omitir
as explicações alternativas”. Penso que o fez de propósito.
RC - Concordo: o
leitor não deve sabê-lo.
JLB - O leitor não deve sabê-lo, e tampouco James deve tê-lo
sabido!
RC - Gosta de
produzir o mesmo efeito em seus leitores?
JLB - Sim. Claro que sim. Entendo que os contos de Henry
James valem mais do que seus romances. O importante nos contos de
James são as situações, não os personagens. The
sacred fount seria muito melhor se pudéssemos distinguir um
personagem de outro. Mas há que se ler perto de trezentas páginas
para averiguar quem é o amante de Lady esta ou aquela, e ao final
é possível supor que é Fulano e não Sicrano. É impossível
distingui-los; todos falam da mesma maneira: carecem de realidade.
Se pensamos em Dickens,
bom, se bem que os personagens não parecem destacar-se, contudo são
muito mais importantes que a trama.
RC - Dois escritores
sobre os quais queria lhe perguntar são Joyce
e Eliot.
Você foi um dos primeiros leitores de Joyce e até traduziu um
fragmento de Ulysses para o espanhol, não é assim?
JLB - Sim, temo haver empreendido e publicado uma tradução
deficiente da última página de Ulysses.
Quanto a Eliot, a princípio pensei que era melhor crítico do que
poeta; agora creio que às vezes é um poeta muito bom, mas como
crítico acho que tende sempre a assinalar diferenças sutis. Se
tomamos um grande crítico, digamos, Emerson
ou Coleridge, sentimos que leu um
escritor e que sua crítica procede da leitura desse escritor; no
caso de Eliot, o que se sente é que está de acordo com este ou
aquele professor, ou que dissente de outro. Portanto, não é um
criador. É um homem inteligente que assinala diferenças úteis,
e suponho que tem razão. Ao contrário, depois de ler o que disse
Coleridge sobre Shakespeare, para tomar um exemplo típico,
especialmente o que se refere ao personagem de Hamlet, sente-se
que um novo Hamlet foi criado para nós, o mesmo que se sente
depois de ler Emerson sobre Montaigne ou qualquer outro. Em Eliot
não há tais atos de criação. Percebe-se que leu muitos livros
sobre o tema - concorda ou discorda -, às vezes fazendo observações
levemente ofensivas, não?
RC - Sim, mesmo que
depois se retrate.
JLB - Sim, sim, mesmo que depois se retrate. Certamente,
mais tarde se desdisse porque em sua juventude foi o que agora se
poderia chamar de um “an angry young man”.
Nos últimos anos de sua vida considerava-se um clássico inglês
e queria ser amável com seus colegas, por isso mais tarde
desdisse muitas coisas que havia dito de Milton ou inclusive
contra Shakespeare. Ao final, sentiu que de alguma maneira ideal
todos pertenciam à mesma academia.
RC - A obra de Eliot,
sua poesia, teve alguma influência em sua própria obra?
JLB - Não, penso que não.
RC - Me chamaram a
atenção certas semelhanças entre The waste land e seu conto “El inmortal”.
JLB - Bem, pode ser, mas nesse caso seria algo
completamente involuntário de minha parte, porque Eliot não é
um dos poetas que prefiro. Poria Yeats muito acima de Eliot. Até
diria, se lhe importa, que Frost
é melhor poeta que Eliot. Quero dizer melhor poeta. Mas suponho que Eliot era um homem muito mais inteligente; a
inteligência, contudo, pouco tem a ver com a poesia. A poesia
surge de algo mais profundo; está muito além da inteligência.
Inclusive pode não estar relacionada com a sabedoria. É algo autônomo;
tem uma natureza particular. É algo que não se pode definir.
Recordo - certamente era muito jovem então - que me havia
enfastiado que Eliot falasse de uma maneira depreciativa de
Sandburg. Lembro que disse que o classicismo era útil - não cito
suas palavras, mas sim o sentido - porque nos permitia desembaraçar
de escritores como o senhor Carl Sandburg. Quando alguém chama um
poeta de “senhor” [riso] a palavra sugere uma atitude desdenhosa; significa que o
senhor Fulano de tal não tem nenhum direito a ser poeta, que na
realidade é um intruso. Em espanhol é ainda pior porque, às
vezes, quando falamos de um poeta, dizemos “o doutor Fulano de
tal”. E isso o aniquila, o anula.
RC - Então gosta de
Sandburg?
JLB - Sim. Whitman, certamente, é um poeta muito mais
importante do que Sandburg, mas quando lemos Whitman pensamos em
um homem de letras, talvez não demasiado culto, que faz o possível
para escrever em língua vernácula e que utiliza a gíria à sua
maneira. Em Sandburg a gíria sai naturalmente. É claro que há
dois Sandburgs: um áspero, mas também há um Sandburg capaz de
delicadezas, especialmente na descrição de paisagens e de crepúsculos.
Às vezes, quando descreve a neblina, por exemplo, pensamos na
pintura chinesa. Enquanto que nos outros poemas de Sandburg
pensa-se mais, digamos, em gângsters, compadres,
esse tipo de gente. Mas suponho que ambos podiam ser poetas, e
penso que era igualmente sincero: quando fazia o melhor possível
para ser um poeta de Chicago e também quando escrevia em um
estado de ânimo diferente. Outra coisa que acho estranha em
Sandburg é que Whitman - mesmo que Whitman, é claro, seja o pai
de Sandburg - está cheio de esperanças, enquanto que Sandburg
escreve como se dentro de dois ou três séculos. Quando escreve
sobre as forças expedicionárias americanas ou quando escreve
sobre a pátria ou sobre a guerra etc., o faz como se todas essas
coisas estivessem mortas e acabadas.
RC - Você disse que
sua própria obra passou da expressão à alusão. O que entende
por alusão?
JLB - Queria dizer o seguinte: quando comecei a escrever,
pensei que um escritor deve definir cada coisa. Por exemplo, dizer
“a lua” estava estritamente proibido; deveria encontrar um
adjetivo, um epíteto para lua. (Naturalmente estou simplificando
as coisas. Já sei que escrevi muitas vezes “a lua”, mas o
anterior é uma espécie de símbolo do que queria dizer.) Pensei
que deveria definir cada coisa, que não devia utilizar nenhuma
palavra comum. Jamais diria “Fulano de tal entrou e se
sentou”, porque isso é demasiado simples, demasiado fácil.
Pensei que devia buscar uma maneira complicada de dizê-lo. Depois
descobri que essas coisas resultam geralmente aborrecidas para o
leitor.
Mas creio que a raiz do assunto está no fato de que quando
um escritor é jovem sente de alguma maneira que o que vai dizer
é talvez estúpido ou evidente ou que é um lugar-comum, e trata
então de ocultá-lo sob adornos barrocos, sob palavras tomadas de
escritores do século XVII; ou, se então decide ser moderno, faz
o contrário: está o tempo todo inventando palavras, mencionando
aviões, trens, telégrafos e telefones. Depois, com o transcurso
do tempo, sente que suas idéias, boas ou más, devem ser
expressas com simplicidade, porque se há uma idéia deve-se
procurar que essa idéia, ou esse sentimento, ou esse estado de ânimo,
seja inteligível. Se, ao mesmo tempo, trata de ser, digamos, Sir
Thomas Browne
ou Ezra Pound, então isto resulta
impossível. Por isso penso que um escritor começa sempre por ser
complicado: dedica-se a diferentes jogos ao mesmo tempo. Quer
comunicar determinado estado de ânimo; ao mesmo tempo deve ser
contemporâneo e se não é contemporâneo é um reacionário e um
clássico. Quanto ao vocabulário, a primeira coisa que se propõe
um escritor jovem, ao menos neste país, é mostrar a seus
leitores que domina o dicionário, que conhece todos os sinônimos;
encontramos, por exemplo, em uma linha vermelho,
depois escarlate, e mais
adiante púrpura.
RC - Tratou então de
lograr uma espécie de prosa clássica?
JLB - Sim, faço o possível. Quando encontro uma palavra
pouco comum, digamos, uma palavra que podem usar os clássicos
espanhóis ou uma palavra diferente das outras, suprimo-a e uso
uma palavra comum. Lembro que Robert Louis Stevenson
escreveu que, em uma página bem escrita, todas as palavras olham
para o mesmo lado. Se escrevemos uma palavra vulgar ou
surpreendente ou arcaica, infringimos essa regra; e, o que é
muito mais importante, essa palavra distrai a atenção do leitor.
Deve ser possível ler com tranqüilidade, quer se escreva sobre
metafísica, filosofia ou qualquer outra coisa.
RC - Quando você
trabalha, para que tipo de leitor imagina que está escrevendo, se
é que o imagina? Qual seria para você o público ideal?
JLB - Talvez alguns amigos pessoais. Não eu, porque nunca
volto a ler o que escrevi. Tenho demasiado medo de me sentir
envergonhado.
RC - Acredita que a
grande quantidade de pessoas que o lêem observa as alusões e as
referências?
JLB - Não. Muitas dessas alusões e referências estão
postas meramente como uma espécie de piada de caráter privado.
RC - Uma piada de caráter
privado?
JLB - Uma piada para não ser compartilhada com outras
pessoas. Ou seja, se compartilha, tanto melhor; mas, caso contrário,
pouco me importa.
RC - Então, no que
se refere à alusão, você propõe o contrário de Eliot,
digamos, em The waste land?
JLB - Creio que Eliot e Joyce queriam mistificar seus
leitores, para que matutem muito tratando de entendê-los.
RC - Alguns leitores
consideram que seus contos são frios, impessoais, semelhantes ao
que fazem os novos escritores franceses. Era essa sua intenção?
JLB - Não. [Com
tristeza] Se isso sucede é por torpeza de minha parte. Senti
a todos tão profundamente que os contei, usando símbolos
estranhos para que as pessoas não dessem conta de que eram mais
ou menos experiências pessoais. Suponho que é a timidez inglesa,
não?
RC - Você que é tão
sensível ao idioma inglês, que lhe agrada tanto, como é que
escreveu tão pouco em inglês?
JLB - Por que? Porque me dá medo. Temor. Mas no ano que
vem, essas conferências que darei, as escreverei em inglês. Já
escrevi para Harvard.
RC - Você irá a
Harvard no ano que vem?
JLB - Sim. Vou dar uma série de conferências sobre
poesia. E como acredito que a poesia é mais ou menos intraduzível,
e como acredito que a literatura inglesa - e isto inclui os
Estados Unidos - é a mais rica do mundo, tomarei meus exemplos,
se não todos pelo menos a maior parte, da poesia inglesa.
RC - Voltemos, no
momento, à sua própria obra. Diria que em seus contos tratou de
fazer um híbrido de conto curto e ensaio?
JLB - Sim, mas o fiz deliberadamente. O primeiro em
apontar-me isso foi Adolfo Bioy Casares. Disse que havia escrito
contos breves que estavam, na realidade, na metade do caminho
entre o ensaio e o conto.
RC - Era, em parte,
para compensar sua timidez em escrever relatos?
JLB - É possível, porque atualmente, ou pelo menos hoje,
comecei a escrever essa série de contos sobre suburbanos: são
contos diretos. Em nada se parecem com ensaios, tampouco são poéticos.
O conto está narrado em forma direta e esses contos são, em
certo sentido, tristes, talvez terríveis. Sempre estão
subentendidos. Estão contados por pessoas que são também
suburbanos e você decerto os entenderia. Podem ser trágicos, mas
não sentem a tragédia. Limitam-se a referir a história e o
leitor chega a sentir, suponho, que a emoção chega muito além
da história que narram. Nada dizem dos sentimentos dos
personagens - descobri isso nas antigas sagas: a idéia de
conhecer um personagem por suas palavras e por seus feitos, pelo
que está pensando, ou sentindo.
RC - Então não são
psicológicos, são muito mais impessoais.
JLB - Sim, mas há uma psicologia oculta detrás da história,
porque senão os personagens seriam como títeres.
RC - Você escreveu
alguma vez que todos os homens são platônicos ou aristotélicos.
JLB - Eu não disse isso. Foi Coleridge.
RC - Mas você o
citou.
JLB - Sim, citei.
RC - E você, o que
é?
JLB - Creio que sou aristotélico, mas queria ter sido o
contrário. Creio que é o sangue inglês que me faz pensar que as
coisas e os seres individuais têm mais realidade do que as idéias
gerais.
RC - Antes de ir-me,
não lhe importaria autografar meu exemplar de Labyrinths?
JLB - Encantar-me-ia. Ah sim, conheço este livro. Aí está
meu retrato - mas tenho mesmo este aspecto? Não me agrada este
retrato. Sou tão melancólico, tão abatido?
RC - Acredita que tem
um aspecto pensativo?
JLB - Talvez. Mas tão obscuro? Tão pesado. A pálpebra…
bom.
RC - Gosta desta edição
de seus contos?
JLB - Uma boa tradução, não? Mesmo que hajam muitas
palavras latinas. Por exemplo, se eu escrevesse, digamos, habitación oscura (naturalmente eu não escreveria isso mas sim quarto
escuro), então o tradutor sente a tentação de traduzir habitación
por habitation, uma
palavra que soa muito parecida com o original. Mas a palavra que
quero é room: é mais definida, mais simples, melhor. O inglês, como você
sabe, é um idioma muito belo, mas era mais belo o inglês antigo:
tinha vogais abertas. As vogais, no inglês moderno, perderam seu
valor, sua cor. Minha esperança para o inglês - para a língua
inglesa - é norte-americana. Os americanos falam com claridade.
Quando vou ao cinema entendo tudo o que dizem. Nos filmes ingleses
me resulta difícil entender tudo. Não sei se a você ocorre o
mesmo.
RC - Às vezes,
particularmente nas comédias. Os atores ingleses parecem falar
demasiado rápido.
JLB - Exato! Exato! Demasiado rápido e quase sem ênfase.
Atenuam as palavras, os sons. Sim, a América deve salvar o
idioma; e creio que o mesmo se dá com o idioma espanhol. Sempre
preferi o espanhol que os sul-americanos falamos.
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