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1964
- Jorge Luis Borges
Alejandra
Pizarnik e Ivonne A. Bordelois
O
leitor desta entrevista não deixará de reconhecer nas respostas,
que foram orais, o sabor da escritura de Borges. De fato, não
corrigimos nem suprimimos quase nada do que recolheu a gravação.
Somente omitimos certas comovedoras sustentações da fala: “eu
não sei”, “me parece”, “eu creio” etc. Em particular,
tivemos que suprimir muitíssimos “eu não sei”. Enfim, a
partir das respostas veremos que a humildade é um dos traços
essenciais de Borges. Por exemplo, em mais de uma ocasião
refere-se a Leopoldo Lugones
considerando-o superior a ele (ao enunciá-lo, o tom de sua voz
era o de quem afirma uma verdade universal e uma coisa óbvia).
Esta injustiça que inflige a si mesmo a emprega, também, em suas
“simpatias e diferenças”. Assim, por exemplo, nos disse (em
conversa fora da entrevista) que Kafka
não é superior a Kipling.
Mas esta misteriosa injustiça pertence, também, à tradição
literária e grandes escritores deram testemunho dela. Basta
recordar Victor Hugo
e Goethe.
[AP]
AP/IAB
- Que
interesse lhe oferece a literatura contemporânea?
JLB
- Em geral, me oferece muito escasso interesse. Tenho a impressão
de que a literatura participa do declínio geral desta época.
AP/IAB
- Então
quais seriam, em seu juízo, as épocas de apogeu da literatura?
JLB
- De minha parte, posso falar com certa autoridade das literaturas
de língua inglesa: e penso que não há atualmente, na
Inglaterra, escritores comparáveis a Shaw,
Chesterton,
Wells…
E creio, além do mais, que o fato de que eu tenha alguma fama é
uma das provas do declínio da literatura.
AP/IAB
- Não
será, melhor dizendo, que você pertence à época dessa outra
literatura (a de Shaw, Chesterton, Wells…)?
JLB
- Não sei. Mas sei, por exemplo, que escritores argentinos
evidentemente superiores a mim - basta recordar Lugones ou Paul
Groussac - não alcançaram, no entanto, a mesma ressonância e o
renome que alcancei. E creio que se houvesse sido estritamente
contemporâneo deles, decerto não seria conhecido especialmente.
AP/IAB
- Quais
são, em sua opinião, os defeitos maiores da literatura argentina
frente à literatura européia?
JLB
- O defeito maior da literatura argentina - e aqui estou
generalizando, porque a pergunta é uma pergunta genérica e exige
uma resposta genérica - é que, exceto por alguns casos contados,
não parece uma literatura necessária. Lembro que Wordsworth
dizia de Goethe que lhe faltava inevitabilidade. Entendo que neste
país há muitos escritores que estão exercendo seu ofício com
muita destreza, mas cuja obra não corresponde à consciência
argentina ou aos momentos atuais dessa consciência. Ou seja,
conheço pessoalmente o caso de jovens escritores de nosso país
que fazem o possível - e às vezes o conseguem - para ser Eliot
ou Kafka ou qualquer outro escritor. Mas, ao mesmo tempo, não sei
até onde isto tem sentido, porque uma obra como a de Kafka ou uma
obra como a de Eliot - a quem admiro, embora menos que a Kafka,
evidentemente -, correspondem, mesmo que o autor não o queira, a
certos problemas. Por exemplo, um dos temas da obra de Kafka é a
relação do homem com a divindade, o lugar do homem no universo,
o mistério de saber segundo quais cânones, segundo quais leis,
somos julgados; acredita que há um juiz que nos julga. Enfim, em
um país essencialmente ateu como o nosso, esses problemas não têm
maior sentido ou não podem corresponder a uma sinceridade do
escritor.
AP/IAB
- Quer
dizer que você postula uma consonância radical da literatura com
a consciência de sua época. Pois bem, acredita que também a
literatura fantástica tem que responder a este tipo de consonância
ou acordo?
JLB
- Creio que toda literatura deve fazê-lo. Mas creio também que não
deveríamos falar de literatura fantástica. E uma das razões -
que já declarei alguma vez - é que não sabemos a que gênero
corresponde o universo: se ao gênero fantástico ou ao gênero
real. Outra razão é que, uma vez que toda literatura está feita
de símbolos, começando pelas letras e pelas palavras, é
indiferente que esses símbolos sejam tomados da rua ou da imaginação.
Ou seja, creio que essencialmente Macbeth
- a quem levam ao crime as três bruxas ou parcas (“irmãs
fatais, irmãs do destino”) - não é um personagem menos real
que Rodion Raskolnikov.
Mas seguramente Shakespeare, para conceber um assassino, escolheu
uma história que encontrou em velhas crônicas, e Dostoyevski, ao
contrário, imaginou uma história em San Petersburgo. Mas isso é
indiferente: ambos personagens são igualmente reais e ambos
vivem, e creio que seguirão vivendo, na imaginação dos homens.
AP/IAB
- Que
importância tem para você o Ultraísmo?
JLB
- Bem, entendo que essa época que se chama de Martín
Fierro ou de Ultraísmo foi, em todo caso, neste país, um tipo de equívoco,
porque o essencial do Ultraísmo foi a renovação da metáfora. E
esta renovação já havia sido predicada e sobretudo exercitada -
o que é mais importante - por Lugones em seu Lunario
sentimental, que se publicou em 1909, e foi uma obra
revolucionária nessa época. Ou seja, entendo - e disse isto
antes do suicídio de Lugones - que o movimento ultraísta neste
país foi um movimento um tanto supérfluo e tardio, porque
Lugones já havia feito todas essas coisas; e creio que as havia
feito melhor do que nós; ou, em todo caso, melhor do que eu - uma
vez que não tenho porque julgar outros poetas -, em seu Lunario
sentimental, ou seja, uns 15 anos antes de nossa suposta produção.
A outra diferença entre o Ultraísmo e Lugones foi uma diferença
negativa: porque Lugones - que havia escrito em suas Montañas
del oro, de 1897, admiráveis versos livres à maneira de Walt
Whitman,
então um de seus mestres -, chegou depois a crer que o verso
moderno, ao menos o verso em língua espanhola, necessitava da
rima como elemento essencial. Por isso, nas Montañas
del oro ele elege e louva quatro poetas essenciais da
humanidade. Esses poetas são Homero,
Dante,
Hugo e Whitman. Ao contrário, no prólogo do Lunario
sentimental, menciona os três primeiros e não cita Whitman.
Sem dúvida porque pensou que Whitman se equivocava ao crer na
possibilidade de um verso sem sílabas largas e breves, como o hexâmetro
grego-latino e, ao mesmo tempo, sem rima.
AP/IAB
- Não
nos referíamos à alternância entre escolas literárias, mas sim
à relação que une um escritor aos demais.
JLB
- Vim da Espanha de cenáculos literários. Tive a honra de
pertencer ao cenáculo de Rafael Cansinos-Asséns, no Café
Colonial, em Madri. Cansinos-Asséns morreu há pouco e era um
homem que parecia haver lido todos os livros, em todas as línguas.
Além do mais, foi um grande poeta; um poeta em forma sálmica ou
em prosa, mas sem dúvida um grande poeta, e agora foi esquecido
com injustiça… Não sei porque, possivelmente pela própria
generosidade de Cansinos. O fato de haver dedicado boa parte de
sua vida a elogiar escritores muito inferiores a ele (saibam que
dedicou livros a Concha Espina, que elogiou em excesso - segundo
penso - a Gabriel Miró, bastante inferior a ele no mesmo tipo de
prosa musical e pictórica), tudo isto, creio, debilitou o juízo
que outros tiveram dele. Mas isto ocorreu porque Cansinos era um
grande poeta: da mesma maneira que para um grande poeta um por de
sol, ou uma rosa, ou uma rua, ou o rosto entrevisto de uma mulher,
pode ser o ponto de partida para um poema, assim ocorria para
Cansinos com a leitura de um livro medíocre, pois não escrevia
sobre o livro mas sim sobre o que o livro poderia ser. Esta seria
uma das razões para o esquecimento em que caiu Cansinos-Asséns e
que eu, pessoalmente, fiz o possível para corrigir. Outra coisa:
Cansinos publicou a primeira tradução espanhola de As
mil e uma noites. Trata-se de um escândalo que na Espanha, o
país da Europa que está mais vinculado ao Islã, já que os árabes
viveram ali durante tantos séculos, não houvesse outra coisa senão
traduções do livro As mil e uma noites feitas de segunda mão, ou seja, versões do
inglês e do francês. Isto quer dizer que Cansinos-Asséns, por
incrível que pareça, foi o primeiro escritor espanhol que no século
XX publicou uma tradução direta deste livro, que teve sua
publicação impedida na Espanha porque o Estado julgou que não
convinha publicar livros islâmicos, além do mais nem sempre
decorosos. Por isso a Editorial Aguilar teve que publicar essa
versão no México, pois na Espanha isso era e é impossível.
Mas
vejamos, já que mencionei Cansinos-Asséns, quero mencionar também
um grande escritor e sobretudo um grande pensador e grande
conversador argentino, Macedonio Fernández,
que tinha seu cenáculo aqui. Mas tudo isto resulta anacrônico
porque a paixão de nosso tempo é a política e não a
literatura, embora por aqueles anos - estou falando de mil
novecentos e vinte e tantos - existisse uma paixão literária, ou
seja, era possível que se reunissem grupos jovens e ficassem até
de madrugada discutindo se convinha ou não usar rimas ou metáforas,
se convinha a poesia narrativa, a poesia descritiva ou a poesia
musical, simbólica. E isso ocorria de tal maneira que, se penso
em meus amigos daquela época, não sei que opiniões políticas
tinham - salvo em alguns casos. Quero dizer que a literatura podia
ser uma paixão naqueles anos, enquanto que atualmente não sei se
a literatura é uma paixão entre a gente jovem ou se a literatura
está sujeita ao que se chama “littérature engagée” etc.
AP/IAB
- Contudo, se diz que Martín
Fierro
foi dissolvido por um problema político a propósito da
candidatura de Irigoyen.
JLB
- Não sei, o que recordo daquela época é que houve uma polêmica
entre dois grupos: o grupo de Boedo e o de Florida, e me consta
que essa polêmica foi organizada por Ernesto Palacios, do grupo
de Florida e por Roberto Mariani, do grupo de Boedo, e que me
inscreveram no grupo de Florida. Por aqueles anos, eu escrevia
poemas sobre os subúrbios, sobre as margens de Buenos Aires, e
teria preferido estar no grupo de Boedo, mas já me haviam
inscrito no grupo de Florida; e, além do mais, ninguém levava
muito a sério essa polêmica. Creio que tudo isso ocorreu,
simplesmente, com o fim de se estar à
la page: já que havia polêmicas e grupos literários em
Paris, então não podiam faltar em Buenos Aires. Mas não creio
que isso tenha tido maior transcendência, apesar de haver logo
sido levado a sério e agigantado pelos historiadores da
literatura.
AP/IAB
- No
entanto, tem havido particularizações ultimamente acerca da
falta de importância que teve esse incidente.
JLB
- Não teve absolutamente nenhuma importância, tanto é assim que
lembro o caso de um poeta, Nicolás Olivari, que pertencia a ambos
grupos e não ocorreu a ninguém censurá-lo, isto porque estávamos
todos mais ou menos de acordo, sabíamos que tudo isso
correspondia… não sei, a um mecanismo de publicidade. Na França,
certamente, esses mecanismos de publicidade literárias estão
muito mais desenvolvidos do que aqui; em primeiro lugar porque a
França é um país literário; além disso, os franceses têm uma
consciência literária, ou seja, a um francês lhe agrada saber
exatamente o que está fazendo, inclusive aqueles franceses que são
revolucionários contra uma tradição mas que não ignoram que
essa revolução formará parte ulteriormente da tradição. Ao
contrário, pelo menos neste sentido, nós nos parecemos com os
ingleses que são individualistas, e aqui poderíamos recordar
aquilo de Novalis,
que disse que “cada inglês é uma ilha”, ou seja, a um
escritor inglês não lhe preocupa tanto localizar-se, situar-se
em uma escola literária. Por isso ensinar a literatura inglesa
por escolas não tem maior sentido porque estamos diante de indivíduos
e não diante de grupos coletivos.
AP/IAB
- O
fato de que na Europa um escritor possa chegar a subsistir
materialmente graças à literatura lhe parece que é de importância
para a obra em si?
JLB
- Não, talvez seja de importância para a obra. Creio que André
Gide disse: “il faut décourager la littérature”; ou seja,
creio que se um homem tem vocação literária - escrevi um soneto
sobre isso, não? -, então as desventuras pessoais, tudo isso,
podem ser um alimento para sua obra e, se me permitem incorrer em
exemplos muito elementares, e muito evidentes, não creio que o cárcere
de Cervantes ou de Verlaine
ou a cegueira de Milton
lhes impedissem escrever a poesia que ainda admiramos. Mas
vejamos, em geral creio que seria mais conveniente para a obra
literária que se seguisse a tradição judia, ou seja, a tradição
que faz com que o rabino, que viria a ser também o homem de
letras, exerça ao mesmo tempo um ofício qualquer, e conviria,
segundo me parece, que esse ofício não fosse o jornalismo,
porque o jornalismo se assemelhava perigosamente à literatura e
poderia contaminar a obra do autor. Me parece melhor, digamos, o
caso de Spinoza polindo lentes e polindo um sistema filosófico,
tudo isto ao mesmo tempo.
AP/IAB
- Como vê o atual desgaste
da palavra literatura ou
literato?
JLB
- Creio que os literatos temos alguma culpa nisto porque, que eu
saiba, os pintores não falam mal da pintura nem os escultores da
escultura; Ao contrário, como o instrumento do literato é a
palavra, essa palavra tem sido usada também para desprestigiar a
literatura e aqui há um exemplo famoso, que é aquela famoso
verso de L’art poétique onde se diz:
Que
ton vers soit la bonne aventure
eparse
ao vent crispé du matin
qui
va fleurant la menthe et le thim
Et
tout le reste est littérature.
Neste
caso a palavra literatura
está usada depreciativamente, de maneira que os próprios
literatos temos alguma culpa disto.
Mas
no que se refere à República Argentina, o homem de letras possui
bastante menos prestígio do que em outras repúblicas americanas.
Sem ir muito longe, no Uruguai, por exemplo, podem me apresentar
em uma reunião a um poeta ou escritor Fulano de Tal, enquanto que
em Buenos Aires, diante de uma apresentação assim poderíamos
pensar que há uma certa sornice nisso. Também na Colômbia me
parece que o literato é uma pessoa não somente admitida mas também
admirada e essa admissão e essa admiração podem ser anterior ao
conhecimento de sua obra, ou seja, há algo já respeitável na idéia
de um literato.
AP/IAB
- Acredita
que há uma resistência particular do espanhol à poesia?
JLB
- Não, mas creio, com Unamuno,
que uma maioria de escritores espanhóis são oradores por
escrito. Agora, quanto à resistência do idioma, creio que não
temos direito a falar disto se lemos a Noche
oscura del alma ou se lemos Góngora
ou Darío ou Lugones ou Enrique
Banchs - além do mais, não se trata de acumular nomes aqui para
demonstrar que o idioma é capaz de poesia.
Agora,
já que estamos neste tema, o espanhol teria uma desvantagem: é
que a maioria das palavras são, me parece, excessivamente longas.
E isso se nota quando se quer traduzir, digamos, um soneto de
Shakespeare para o espanhol. No verso inglês - em sua parte germânico-saxã,
o inglês é praticamente monossilábico - cabe muito mais do que
no verso espanhol. Esta abreviação seria um tipo de perfeição.
Pois bem, outro inconveniente - já que vocês me levaram a este
tema - é que nos advérbios o acento cai, no espanhol, na parte não
significativa. Por exemplo, se alguém diz alegremente
ou tristemente o que se ouve é mente
e isto corresponde a um mero mecanismo do idioma. Ao contrário,
se alguém diz sadly, gaily, darkly, lithly,
o acento cai sobre a parte significativa, ou seja, sobre o
adjetivo e não sobre -ly, que simplesmente nos diz que é advérbio.
Mas
que não se possa escrever poesia em espanhol me parece uma afirmação
aventurada. Recordo agora que a única vez que conversei com Pablo
Neruda
- mas foi uma conversa sem rigor, uma conversa que queria ser mais
amistosa do que exata - chegamos à conclusão de que o espanhol
era um idioma renitente à poesia, e que era absurdo tentá-la.
Mas creio que nenhum de nós acreditava nisto e a prova está em
que tratamos - ele com êxito, certamente - de escrever em
espanhol. Ao contrário, se tivéssemos pensado que estávamos
tratando de manipular uma matéria de todo rebelde, não o teríamos
feito.
AP/IAB
- Por
que você escreveu dois poemas em inglês?
JLB
- Bem, a primeira razão que me ocorre é que os pensei em inglês,
ou seja, que não os escrevi em espanhol e os traduzi para o inglês,
mas sim que os senti diretamente em inglês. E a segunda razão -
mas isto é um mero acidente genealógico - é que uma de minhas
avós era inglesa. Meu pai tinha uma excelente biblioteca inglesa.
Escrevi alguma vez que eu nunca havia saído dessa biblioteca, que
havia passado a vida lendo e relendo esses livros. E em casa falávamos
indistintamente inglês e espanhol. De maneira que lhes peço que
não creiam que se trata de um pedantismo. Em absoluto. Os poemas
saíram em inglês. A minha vontade pouco influiu. Além do mais,
não tenho por que ocultar o fato de que me agrada muito o inglês
e vocês já sabem que há cinco anos estou estudando inglês
antigo ou anglo-saxão e que há um mês empreendi o estudo do
idioma dos vikings, que se falou na Inglaterra como também se
falou em tantas partes do mundo, nas ruas de Constantinopla, na
Groenlândia.
AP/IAB
- É
que o inglês lhe parece o idioma mais propício para esses
poemas?
JLB
- Creio que não, porque lembro que esses poemas eu os escrevi
espontaneamente e sem ter uma teoria prévia à escritura em inglês.
Os poemas se escreveram, digamos assim, em inglês, e somente dois
poemas se escreveram em inglês; e depois nunca voltei a tentá-lo.
Agora, algumas vezes usei títulos ingleses; por exemplo, há um
soneto meu que se chama “Everness” e não “Eternidad”; mas
eu o chamei “Everness” porque a palavra “Everness”, que é
uma palavra inglesa cunhada no século XVII pelo bispo Wilkins, me
parece uma palavra mais expressiva do que a palavra eternidade
ou a palavra comum inglesa eternity,
tomada do francês ou do latim. E já que estamos falando disto,
quero dizer-lhes que Wilkins cunhou outra palavra - os poetas
ingleses foram tão torpes que não a recolheram nunca -, que tem
muito mais força do que o “never more” usado por Poe.
Wilkins cunhou a palavra “neverness”, ou seja, aquilo que
nunca ocorreu, que não pode ocorrer nunca. Embora Keats
use por duas vezes a muito expressiva palavra “nothingness”,
é uma lástima que não tenha recolhido a palavra “neverness”
que ficou sozinha, como se o próprio sentido houvesse influído
em sua solidão, como se tivesse havido uma operação mágica.
AP/IAB
- Por
que a literatura francesa ocupa menos lugar em sua leitura e em
sua produção crítica do que a inglesa ou a alemã?
JLB
- Se pensamos que a literatura francesa produziu La
chanson de Roland, e que produziu Victor Hugo e Verlaine, e
que produziu poetas menores cujas composições sei de memória,
como Toulet, por exemplo, qualquer animadversão contra a
literatura francesa seria absurda. Mas - e aqui se trata de uma
idiossincrasia em particular, algo assim como a torpeza de minha
voz ou a cor de meus olhos - há algo que me faz sentir de um modo
muito mais intenso a literatura inglesa e a literatura alemã, e
agora a antiga literatura inglesa, a poesia anglo-saxã épica e
elegíaca. Mas não quero impor estas preferências a ninguém.
Entendo que isto é mais ou menos como se discutíssemos a
vantagem do café sobre o chá. A verdade é que sinto com mais
profundidade a poesia inglesa que conheço bem. Quanto ao alemão,
eu o conheço menos mas o suficiente para poder sentir
profundamente uma poesia de Angelus Silesius, de Hofmannsthal
ou de Heine.
AP/IAB
- Por
que acredita que Martínez Estrada e Lugones são os melhores
poetas argentinos?
JLB
- Bem, aqui estamos em um terreno de sensibilidade. Pessoalmente
estou muito afastado de Martínez Estrada que, como amigo, é uma
pessoa muito difícil. Mas creio, em primeiro lugar, que Martínez
Estrada é um discípulo de Lugones, ou seja, que a poesia de Martínez
Estrada é inconcebível sem a poesia prévia de Lugones. Ao mesmo
tempo, penso que Lugones era um homem relativamente simples, que
sentia profundamente certas coisas fundamentais: o amor, a pátria
etc., e que inventou uma maneira complexa de versificar: inventou
um sistema de rimas e metáforas complicadas. Então, há certa
discórdia muitas vezes entre o que Lugones está dizendo, que é
relativamente simples, e a maneira complexa em que o diz. Ao contrário,
Martínez Estrada recolhe a tradição de Lugones e também, em
boa parte, a de Darío: na obra de Martínez Estrada notam-se
ambas influências. Além do mais, Darío influiu sobre Lugones,
como se costuma dizer. Mas acredito que Martínez Estrada fez bem,
porque Martínez Estrada é essencialmente um homem complexo. E
esse sistema complexo de poesia se ajusta mais ao seu caráter do
que ao caráter relativamente elementar e simples de Lugones.
AP/IAB
- Está
de acordo com a afirmação feita por alguns de seus críticos de
que sua poesia é um debate entre a lírica e a épica?
JLB
- Eu não sabia disso. Ignorava essa afirmação. Mas, quanto a
mim, pessoalmente, o que me emociona mais é a épica e, além
disso, não é inútil recordar que a poesia começou pelo épico.
Ou seja, a poesia é anterior à prosa, como vocês não ignoram.
Há literaturas que não chegaram nunca à prosa, que são
puramente poéticas. Mas uma literatura sem épicas é, pelo menos
no Ocidente, inconcebível. Parece que a literatura começa, como
a Eneida, pelo “arma virunque”, ou seja, pelas façanhas e o
homem, pelas armas e o homem. Agora, pessoalmente, o que sinto
mais é o épico. Me aconteceu, e não tenho por que ocultá-lo,
de ir ao cinema e sentir, de imediato, que tenho os olhos cheios
de lágrimas. Isso não ocorreu jamais em filmes sentimentais.
Isso ocorreu em filmes de guerra ou em filmes de faroeste, que
também são uma forma da épica. Já que os poetas resolveram
abandonar a épica, alguém tem que cuidar dela, porque a épica
é uma das necessidades fundamentais da alma humana. E o fato de
que tenha tomado forma de cowboys
não me parece censurável de maneira alguma: é uma forma da épica.
E além do mais, neste país temos o Martín
Fierro, que é nossa épica. Mesmo que tenha sido escrito
simplesmente por motivos políticos - o que Hernández
queria era censurar o Ministério da Guerra e as levas que eram
feitas para mandar gente à fronteira e à guerra do Paraguai -,
Hernández escreveu sem que se tenha proposto, e acaso sem sabê-lo,
um poema que tem sabor épico: creio que não há dúvida quanto a
isto. Em todo caso, o sentimos como épico, que é muito mais
importante do que a intenção do autor.
AP/IAB
- Considera
que seus contos são uma forma de poesia?
JLB
- Sim. Agora que minha cegueira, ou minha quase cegueira, me
impede de escrever contos, noto que em quase todos os meus poemas
há algo narrativo. Quanto a ser realista, no sentido que se
costuma dar a esta palavra, é algo que não me preocupa, por
aquilo de que “a realidade não é verbal”. E tanto é assim
que meu único conto que se pode chamar de realista, “Emma
Zunz”, é um conto cujo argumento foi inventado por uma
excelente amiga minha, Cecilia Ingenieros, que me disse que não
tinha vocação literária e me deu o argumento. E vi que esse
argumento exigia um tratamento realista e assim tratei de fazê-lo.
Não sei como saiu o conto. Quanto ao outro conto meu que é
demasiado famoso, “Hombre de la esquina rosada”, não é
realista. E até poderia explicar por que não o é. Tenho 64 anos
e vou completar 65. Bem, presenciei provocações entre gente criolla,
marginal. E as provocações nunca se faziam - e disto eu sabia
perfeitamente ao escrever o conto - da maneira em que estão
colocadas no conto, ou seja, jamais um indivíduo teria se
apresentado ou dito: “Sou fulano de tal, um homem do Norte, me
disseram que aqui há alguém com fama de valentão”. Jamais
teria sido assim; a provocação teria sido muito mais lenta;
teria começado lisonjeando o outro. Depois, esse lisonjeio não
teria sido tão excessivo no caso de ser uma zombaria. Em seguida,
viria o desafio, depois de uma longa e desconcertante conversa. De
tudo isto eu sabia quando escrevi o conto. Mas o escrevi, também,
influenciado pelos filmes de Sternberg,
influenciado pelo ballet, ou seja, quis fazer algo muito vívido,
muito visual, muito dramático, e me desconcertou muito quando
esse conto foi lido como se fosse um conto de compadres
ou um conto realista. Realmente, os compadres
não agem assim. Eu só estava tratando de fazer uma fantasia
bastante visual sobre um tema criollo.
E se vocês recordam o conto, verão que tudo é visual. Por
exemplo, o homem provocado não somente renuncia a lutar como também
pega a faca e joga-a pela janela para que vejamos o fulgor do aço.
Isto não era necessário. A intenção, muito diferente, era,
digamos, meramente decorativa.
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