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Notas
de acesso: papéis da memória
Floriano
Martins
Ao
eleger a Suíça, em 1985, como o país em que morreria, Borges
empreende viagem a caminho de 1914, ano em que chegara a Genebra
pela primeira vez, com sua família, ali residindo inicialmente
por quatro anos. Não se trata de retorno puro e simples, mas de
coerência ontológica. Genebra ambienta nascimento e morte de
Borges. Ao chegar, tratou de corrigir suas obras completas, em
tradução francesa assinada pelo amigo Jean-Pierre Bernès, para
a Gallimard. Seguiu neste trabalho até três dias antes de sua
morte, deixando inconcluso o prólogo que estava ditando. Incansável,
trabalhou ainda em um roteiro cinematográfico - sobre Veneza, que
conhecera também em 1914 - e continuou estudando japonês e
islandês, sempre ao lado de María Kodama, com quem se casaria
logo no início do ano seguinte.
Ao
contrário do instinto que rege os elefantes, não foi morrer em
Genebra e sim encontrar-se com o Borges de 1914 - o outro
que foi sempre o mesmo
-, a exemplo de alguns encontros anteriores que já tivera
consigo, na emblemática coincidência de páginas e esquinas que
configura sua vida e sua obra. Recordemos que um desses encontros
se deu no conto “O outro”, incluído em um de seus livros
preferidos: O livro de areia
(1975). Era o ano de 1969 quando Jorge Luis Borges encontrou-se
com seu duplo jovial. Inquirido acerca de quem se tratava,
responde: “Sou argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em
Genebra”. Observa-se sempre o caráter literário da conversa
que se seguiu, o que enriquece a trama, afinal os livros são uma
das formas mais contundentes de expressão da existência humana.
O
protagonista de “Sur” - conto que, alguns anos após sua
morte, seria adaptado por Carlos Saura para o cinema, em 1991 -
defendia que o ideal seria que pudéssemos escolher ou sonhar
nossa própria morte. Bibliotecário como Borges, conclui sua vida
realizando o imperativo desejo. Ao abrir as páginas das Obras
Completas de Borges depara-se com um verso onde se diz:
“Deus permite aos homens / sonhar coisas que são certas”.
Morrer em Genebra foi a escolha e o sonho de Borges.
A
partir daí bem podemos imaginar seu encontro, ao final de 1985,
com o jovem argentino que acompanhara os pais em uma viagem em
1914. Disse um ao outro: “Conheço essa cidade muito melhor do
que Buenos Aires, com a memória implacável das crianças”.
Segundo recorda María Kodama, Genebra encerrava uma fatalidade na
vida de Borges:
Era uma
cidade unida à sua adolescência. Borges adorava Genebra. Às
vezes me comentava a influência que têm alguns lugares em nossa
evolução. Recordava Genebra como uma cidade cinza, um pouco
triste. À medida que foram passando os anos, essa visão mudou e
compreendeu o quanto tinha sido feliz. Não somente no plano
intelectual. Porque em Genebra estudou latim, francês. Aprendeu o
alemão sem ajuda de ninguém, para poder ler Schopenhauer. Através
dele descobriu o budismo que o fascinaria para sempre. Naquela
ocasião também admirou o expressionismo alemão e traduziu seus
poetas para dá-los a conhecer na Espanha. Em Genebra descobriu o
que é a tolerância entre os homens. Nessa cidade assistiu à
chegada dos refugiados da primeira Guerra Mundial e o emocionou a
solidariedade para com essa gente desfeita pela guerra. Isso o
marcou para sempre e de tal modo, que em seu último livro, Os
conjurados, o poema que dá título ao livro está dedicado
a Genebra. Esse poema é a carta magna da Fundação Internacional
Jorge Luis Borges, porque em seus versos se expressa a esperança
pela humanidade. Povos que até com distintas línguas e religiões,
pela força de sua vontade e a razão podem construir uma nova pátria,
sem perder suas peculiaridades e viver em harmonia. Essa idéia
fascinava Borges.
Além
do polêmico sentido de humor - não raro confundido com um
errante espírito contraditório, sobretudo quando descortinava a
cena política, sustentada unicamente pelo apego a seus rígidos
conceitos -, Borges tinha o riso libérrimo. Seguramente estava
correta sua amiga Silvina Ocampo ao dizer que sua mente era
impenetrável, tanto pela inocência quanto pela inquietude. E ao
menos em uma coisa acertou Estela Canto, uma antiga namorada,
embora fosse outra sua intenção: Borges era alguém intensamente
movido pelas emoções. Demasiado fria foi a leitura que dele o
fizeram. Do desmedido intelectualismo à desmesurada repetição
de si mesmo. Pensemos no que disse recentemente Álvaro Zamora:
Em Borges, o
intelectual é um recurso da forma. Inseparável do móvel temático,
se quisermos: mas o que verdadeiramente governa toda sua obra é
uma força mais fundamental e vertiginosa. Trata-se da imaginação.
Como
Tirésias, no mito de Atenéia, Borges olhava para seu interior,
para depois ditar lenta e cuidadosamente jogos e quebra-cabeças
textualizados que imaginava. Seu oráculo não era inversão dos
deuses, mas sim das possibilidades para refazer o universo com ficções
literárias.
Borges
converteu o poema, a ficção e o ensaio em um gênero único,
entrecortado por filigranas - na verdade, passagens secretas de um
labirinto que urdiu por uma vida inteira - que o remetia a uma
ambigüidade essencial, sobretudo porque tomada de variações e
apropriações. Não escrevia em função tão-somente da escrita
e sim da inumerável tessitura de sua imaginação. Esteve com Heráclito
na saciedade da máxima que todos trazemos de memória. Um ano
antes de morrer, ao escrever os poemas de Os
conjurados, ainda surpreendia a partir dos mesmos temas, das
mesmas imagens.
Soube
dar a si próprio o raro distanciamento necessário ao esboço das
personas que compõem uma obra. Foi todos os personagens de seus
livros, incluindo os poemas - seus versos encontram-se urdidos por
um fio narrativo. Possuía o que Octavio Paz chamou de
“temperamento metafísico”, sendo um homem “apaixonado pelas
idéias” e, conseqüentemente, “corroído pela pluralidade”.
Em um memorável poema de A
cifra nos diz: “Meu alimento é todas as coisas”, para
concluir: “Não importa minha ventura ou desventura. / Sou o
poeta.”
As
entrevistas aqui reunidas vão de 1964 a 1986, o ano de sua morte.
Há uma destacada intenção de acompanhamento de suas idéias ao
longo de duas décadas. Este período define um Borges à luz da
curiosidade da imprensa - circularam então dezenas de entrevistas
em vários países. Como disse ele próprio: “Tua matéria é o
tempo, o incessante / tempo. És cada solitário instante.” E não
foi senão isto: uma notável compreensão do tempo como a pronúncia
incessante de nossa existência. Ao desatar o nó górdio ou ao
plantar cebola em um jarro, de todas as formas a história se faz.
Lemos em um livro já destruído pelo tempo e trazido à memória
unicamente pela obsessão de seu relato que os arquétipos têm a
forma de seu próprio desejo. Borges não inventou ou reconstruiu
a si próprio. Quis apenas ser os outros, embora sempre os mesmos,
que povoavam sua memória.
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