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Víctor Sosa: consciência dos limites da linguagem

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - Em entrevista que fez Edgar O'Hara a Américo Ferrari, ao se referir a projeto poético diz este que se trata de algo, "de certa forma, inconsciente e seguramente o leitor o descobre mais do que o autor". Até que ponto podemos falar da prefiguração de um projeto poético em teus livros? Explica-me algo acerca de tua disciplina poética.

VS - Coincido, ainda que de maneira parcial, com Américo Ferrari no ponto do inconsciente da criação poética; esta é uma tradição que nos foi legada pelo Romantismo e que teve seu melhor momento no século XX com os surrealistas. Todavia, não compartilho a noção de inocência autoral, delegando ao leitor toda a responsabilidade interpretativa do texto. A princípio, por razões óbvias: o primeiro leitor é o próprio criador. Criação e leitura são duas instâncias inseparáveis do processo poético; criação como imaginação, leitura como reflexão, a interação destas duas instâncias produz o poema. Se o poeta é um vidente - como queria Rimbaud  -, também é um sistemático. A desordem lingüística que estabelece o poeta é uma operação indutiva assinada pela vontade da criação. Impõe-se um dizer a partir de uma vontade de dizer. Vontade de desejo. Dizer é um desejo. Porém todo desejo se cumpre no território da impossibilidade, isto é, não se cumpre somente em seu anseio perpétuo. A poesia, que é imaginação e reflexão, tem lugar nessa incompletude, nessa metástase de sentidos rizomáticos, nesse voluntarioso anseio de dizer o indizível. Respondendo a tua pergunta: não creio que, no meu caso, exista um projeto poético determinado, um a priori no voluntarioso fluxo escritural. Creio que há constantes, interrogantes, assombros, encontros inesperados que adquirem diferentes formatos e representações. Lagarta, crisálida, mariposa: o poema busca sua forma impermanente, se fixa na página, torna-se livro, porém o desejo de dizer subsiste e se adapta às diferentes roupagens da forma.

FM - A argentina Cristina Castello, em um de seus inúmeros textos inéditos, refere-se à poesia da seguinte maneira: "nos dá uma visão do mundo - e o equilibra - e é mais sagaz do que a inteligência. Transforma a realidade porque lhe retira a pátina opaca y revela ânsia de transcendência". Por sua vez, o nicaragüense Julio Valle-Castillo menciona um caráter elitista, excludente, do artista ("Se há algo antidemocrático é a condição de artista, a natureza de artista"). Recordo a máxima de Lautréamont, de que a poesia deve ser feita por todos, e um sem número de equívocos em sua leitura. O que tens buscado a partir de tua poesia?

VS - Naturalmente que toda escritura comporta uma visão do mundo. Dante tinha uma visão do mundo, San Juan  de la Cruz, outra - ainda que ambos fossem poetas católicos. Mallarmé  tinha uma visão de mundo. Condicionada pela ideologia, pelas “verdades” que uma época impõe, a visão do mundo, todavia, não se esgota aí: expressa também um sentimento subjetivo, uma maneira pessoal de ver e de interpretar a inascível realidade. Não creio que a poesia transforme a realidade, me parece um atributo desmesurado, sobretudo porque não sabemos exatamente o que é a realidade - e a poesia existe, justamente, porque não o sabemos. Subscrevo o dito por Julio Valle-Castillo quanto ao caráter elitista do criador. O exercício poético exige uma concentração, um esforço, uma vontade de desejo infreqüente; por isso foi visto, na antigüidade, como o dom de uns poucos - aqueles que podiam dialogar com os deuses - ou como a inútil obsessão - na era moderna - de uns desequilibrados. O poeta deixou de ser um excêntrico iluminado para ser um excêntrico patológico, um delirante, um sujeito suspeito, no máximo tolerado pelo sistema produtivista em curso. Mudam os valores porém a condição excêntrica se mantém. Como dizia José Ángel Valente, o poeta vive uma condição exílica, um exílio que passa pelo descondicionamento da linguagem como instrumentalidade. Em uma era desprovida de deuses, onde tudo é instrumento, a palavra poética carece de sentido, torna-se a parte maldita, a disfunção, o dispêndio. Por isso a poesia não pode ser feita por todos, como pedia Lautréamont. Todavia, este postulado de democracia poética do montevideano não é produto da ingenuidade, creio que há que entendê-lo - como os surrealistas disseram - como uma necessidade radical de transformar a condição humana - à maneira de Fourier, de Nietzsche, de Rimbaud . A história mostrou o contrário: o nazismo, o comunismo e o hedonismo consumista pós-moderno marcam a pauta ante-poética por excelência; as multidões necessitam aderir-se ao lugar comum, identificar-se com as forças centrípetas, evitar a condição excêntrica. A poesia, até agora - e isto a diferencia do acontecido com as artes plásticas -, não é um produto facilmente reciclável pelos mecanismos do mercado. Porém não há que fiar-se demasiado - não há que baixar a guarda -, é preciso manter uma atenta resistência desde aí, desde - como dizia o poeta-místico Al Hallaj - “os desertos da proximidade”.

FM - Ao escrever sobre José Luis Rivas , tu mesmo observas que "as palavras são minerais que transpiram […] corpos que cantam". Em outra oportunidade, falas de uma escritura poética marcada pela possessão, as visitas de vozes que encarnamos ao escrever. A linguagem concentrada dos primeiros livros, sobretudo em Sunyata (1992), se expande e vem desaguar no inédito Los animales furiosos (2000), onde há um transbordamento barroco bastante acentuado. Gostaria que falasses um pouco desse desdobramento em tua poética. Como situar o "ilude a si mesmo para que passe o mundo", de Eduardo Milán, ao escrever sobre tua poética?

VS - Sunyata é um livro chave em meu processo poético porque se relaciona com um duplo e comum descobrimento pessoal: a poesia chinesa e japonesa e o budismo zen. Uma busca espiritual - relacionada com esta realidade inascível que falei mais acima - que tomou corpo numa escritura decantada, medular, fortemente influenciada pela estética do hai-kai. Não se tratava de um formalismo cirúrgico mas sim do resultado escritural de uma experiência espiritual. Enfatizo este ponto porque penso que é impossível ou desapropriado separar a escritura da vivência. A poesia de Sunyata remete à busca de uma verdade que passa, fundamentalmente, pelo momento em que se põe em dúvida a linguagem, daí o minimalismo expressivo, a contenção no dizer e a omissão do eu poético. Todos estes elementos se relacionam, no meu caso, com a experiência de meditação zen e a troca de coordenadas mentais que isto vem produzindo. O zen é, talvez, o mais “intelectual” dos caminhos espirituais: não postula divindade alguma, é parco em rituais e em manifestações externas, carece da sensual sedução do hinduísmo, por exemplo, é contrário a qualquer tipo de devoção e não leva em conta o estudo dos livros sagrados. Para um jovem como o que eu era então, nascido no leigo racionalismo do Uruguai, com uma formação atéia e marxista que ainda deixava marcas, o zen era o mais fácil de aceitar. Por outra parte, o tema da linguagem também foi decisivo: ao colocá-lo em dúvida, ao desativá-lo, ao anular seus sentidos operativos no koan e nos diálogos com os mestres, se descobre o caráter insubstancial da linguagem, a mentira das palavras e dos conceitos, a miragem alucinatória da fala. Se a linguagem é a casa do ser mas esta casa é inexistente, então, também o ser se desmorona, não resta mais que um grande e eloqüente vazio: sunyata. Entendamo-nos: não falo da verdadeira natureza do ser - como a chamam os budistas -, mas sim do ser entendido, da maneira mais superficial, como uma estrutura yoica, como uma identidade delimitada pelos valores, prejuízos e egoísmos próprios de uma determinada cultura. O questionamento da linguagem e o questionamento do eu são um e o mesmo no zen. A partir desta negação profunda - que se veicula na meditação - tudo muda; podemos perceber a realidade de outra maneira não utilitária ou menos alienada. O exercício da atenção sem julgamento moral - sem dizer, isto está bem, isto está mal - incrementa um sentido estético do mundo, um sentido poético baseado no ver e no sentir, mais que no julgar e no pensar. O zen, em suma, exerce uma poetização do real por decantação, ao limpar o terreno e permitir que o ser se unifique com o real. Indubitavelmente, isto exige uma enorme disciplina, exige haver um vazio e um silêncio interior, uma equanimidade de espírito e um desapego pelas paixões. Daí a parcimônia de Sunyata - que é um livro breve porém intenso. O que segue depois: Gerundio (1996), Decir es Abisinia (2000) e Los animales furiosos - ainda inédito -, responde, não a invalidação da experiência escritural proposta em Sunyata mas sim à necessidade de recuperar a linguagem em toda sua potenciação lúdica e seus multiplicadores do sentido. Aí tem lugar o que chamaste, acertadamente, “um transbordamento barroco” da linguagem. Suponho que também se dê um desencanto nesse transbordamento. O barroco é uma compulsão negadora do vazio, é o encobrimento mais ou menos consciente de que o abismo se encontra a uns centímetros de nosso nariz. Sobretudo, em Los animales furiosos, sente-se esse vazio a partir da trama barroca, sente-se a cisão entre palavra e mundo, sente-se a tragédia da linguagem como prótese sempre insuficiente.

FM - O argentino Juan Gelman tem declarado que a poesia latino-americana atual perdeu o rigor, e observa que a grande força poética dessa região segue sendo "um território fiel a velhos jovens", a exemplo de Olga Orozco, Gonzalo Rojas, Idea Vilariño, Haroldo de Campos, Cintio Vitier e Fina García Marruz. Sem incorrer no ardil que habitualmente mescla visão de mundo a laços de amizade, o que lhe parece válido nessa abordagem de Gelman?

VS - Em termos gerais, parece ser que vivemos um momento de baixa intensidade poética, e não só na América Latina. Todavia, é difícil fazer um julgamento do que está acontecendo aqui e agora. É compreensível que necessitemos de uma perspectiva temporal para julgar. Hoje conhecemos a importância de Vallejo , mas em 1922, quando o peruano publicou Trilce, praticamente era um desconhecido no âmbito da poesia latino-americana. Alguém poderia ter dito então - como Gelman agora - que “a poesia latino-americana atual perdeu o rigor” e todos estariam de acordo. Creio que é um julgamento apressado; a poesia deste fim de século terá que analisá-la dentro de cinqüenta anos, assumindo também os danos, a mitificação acrítica, o reducionismo, a sempre fácil invenção de “generalizações” por parte da crítica, que esta perspectiva temporal supõe. Dito em termos um tanto brutais: eu não sei se no departamento contíguo há um jovem que, neste momento, está escrevendo uma obra fundamental para a poesia latino-americana ou universal, mas que será lida meio século depois, como quase sempre acontece com as grandes obras (e isto tem a ver com a condição exílica do poeta de que falamos antes). Prefiro pensar nesta possibilidade, nesta hipótese de gestação invisível, antes de qualificar minha época.

FM - Em recente conversa com Ernesto Cardenal, ele se mostrava exigente no que diz respeito à relação do poeta com seu espaço mito-poético. Segundo ele, mesmo o Surrealismo também teria sido responsável por uma voz impostada do poeta latino-americano, alheio à nossa realidade. Ao mesmo tempo em que dizia isto, confessava desconhecer a poesia do argentino Francisco Madariaga, surrealista com profundas implicações estéticas de ambientação mito-poética. Além do óbvio que é o vasto desconhecimento de nossos poetas entre si, o que te parece ser essencial na relação do poeta com o mundo à sua volta?

VS - Creio que o mito-poético nasça de variadas condições entre as quais se encontram as culturais. Por exemplo, o surrealismo foi uma condição cultural que permeou grande parte do século XX. Como ou porque os poetas latino-americanos teriam que estar fora desta influência? O surrealismo foi um movimento internacional nascido na França e América Latina, e sobretudo a partir de Darío, soube-se reciclar os produtos estéticos provenientes da França até torná-los representativos de uma cultura latino-americana comum. Não vejo nenhuma necessidade de lutar contra isso. Observemos o exemplo do Japão, uma nação dona de um perfil próprio inquestionável e com uma cultura riquíssima e sofisticada, todavia, quase tudo lhes chegou de além de suas fronteiras, a filosofia, a arte, a ética, a religião e até sua escritura provém de outros lados, e isto não gera nenhum conflito de identidade. Dizer o que se deve fazer e o que não se deve fazer para ser um poeta latino-americano, parece-me de uma enorme tristeza e penso que responde a uma extrema pobreza espiritual. O latino-americano - qualquer que seja o significado do termo - não se pode impor como um dever mas sim como um ser e um sentir. Acredito que ninguém escreva poesia pensando num hipotético dever.

FM - Uma coisa é a técnica, outra a interrupção dos sentidos (ainda que em nome desta mesma técnica). Segundo Circe Maia, não há na criação poética, “dualismo entre o conceitual e o formal”, situando que não resiste a nada o signo esvaziado de seu significado. Excessos formais resultam no vazio classicismo, algo comum na poesia francesa atual. Não te parece que haja uma relação, sob esse aspecto da perda do sentido, entre o Concretismo brasileiro e essa vertente neobarroca que se procura difundir nos últimos anos? Não haveria aí um retrocesso ante tantas conquistas da linguagem?

VS - O Concretismo enquadra-se dentro desta busca de novos espaços para o poema e de uma redefinição da função da linguagem que tem seu início com Mallarmé  e que ainda não terminou. Penso que o trabalho dos poetas concretos foi pioneiro na América Latina: desmantelaram a arraigada tendência ao subjetivismo carpideiro, ao culto de um eu hipertrofiado, à idéia da poesia como uma expressão emocional e autobiográfica. Ao resgatar o valor objetual das palavras, ao semiotizar a linguagem, os concretistas estabeleceram um diálogo com a ciência, a tecnologia, as artes visuais e se adiantaram à era digital. Porém o mais importante é que “concretizaram” a vida cotidiana das grandes cidades: “A poesia concreta de tuas esquinas” - disse Caetano Veloso referindo-se a São Paulo. Não se trata de um formalismo vazio, de uma perda da realidade, mas sim de uma ganância de realidade para a poesia. O mundo torna-se concreto. O vínculo entre o Concretismo e o neobarroco aconteceu em Galaxias, de Haroldo de Campos, um extremoso experimento “verbivocovisual” que ainda não foi superado.

FM - Vivemos em uma sociedade bíblica. Nossos dilemas, satisfações, augúrios e contradições, todos são marcados por um arquétipo saltado das páginas dos dois testamentos. Pensemos em Dante, Kafka, Kazantzakis, Lezama , Borges. Em conversa com o poeta Soares Feitosa, ele observou que falta pão em nossa tradição, ou seja, que estamos vinculados biblicamente apenas ao circo. Da mãe virgem à ressurreição, não se planta um roçado. Até que ponto os poetas alimentam essa sociedade que acredita na transmigração das almas?

VS - Impossível negar as ditas origens civilizatórias. A melhor arte do Ocidente passa pelo cristianismo, também as melhores heresias. Mas penso que a poesia e a arte rompem esta camisa de força. Muitos pintores medievais serviram-se da temática cristã para ocultar o verdadeiro tema de suas composições: o erotismo, a beleza do corpo humano, as perversões, etc. Tampouco teríamos a Comedia de Dante se não existisse a noção do pecado. O que quero dizer com isto? Que da restrição nasce a transgressão, a expressão da liberdade. Por outro lado, nossa civilização soube assimilar outros discursos não ocidentais. O budismo, que Schopenhauer introduziu pela primeira vez no pensamento filosófico ocidental; a revalorização do paganismo realizada por Nietzsche; a intenção de síntese entre o cristianismo e divindades gregas, de Hölderlin e alguns outros românticos; as leituras e traduções do I Ching feitas por Richard Wilhelm e continuadas por C. G. Jung . Na poesia, o Oriente foi fonte de fascinação e reflexão; é só pensarmos em alguns poetas modernos: Eliot, Pound, Paz , Artaud, Michaux, Ginsberg, Lennon, que mergulharam, em diferentes graus de profundidade, no Oriente. Também, como na época romântica, nos anos sessenta do século passado se produziu uma magnífica onda contracultural que questionou as bases bíblicas ou judaico-cristãs de nossa civilização e propôs, de maneira absolutamente caótica, novos paradigmas que se nutrem das sabedorias periféricas, non sanctas - hinduísmo, yoga, budismo, cultura lisérgica, pacifismo, amor livre, defesa das culturas indo-americanas, chamanismo, comunidades hippies e anarquistas - fundadoras de um novo espírito de liberdade não culpável ou pecaminosa. Em síntese, não creio que o Ocidente esteja atrelado num fundamentalismo bíblico, se está atrelado em algo é no consumismo, num hedonismo infantil e autista, numa espécie de Juízo Final onde não há juiz nem tribunais e, portanto, os acusados podem fazer o que quiserem. O cristianismo judaico é, hoje em dia, uma casca vazia, sem conteúdo, uma mentira que dura há dois mil anos. Na grande algazarra pós moderna os candelabros de sete braços servem para sustentar os jogos pirotécnicos e as cruzes ardem no fogo virtual das discotecas. Tudo é indolor, inócuo, televisivo; Sarajevo é como uma era imaginária na sonolenta - ou hiper-estimulada, o que dá no mesmo - pupila do Ocidente. A agonia desta civilização se reveste com o traje da felicidade e se adoça com um enorme sorriso de satisfação. Gastam-se somas estratosféricas em produtos inúteis, em espetáculos inúteis, em "bens” e “patrimônios” desnecessários, enquanto uma terça parte da humanidade apenas sobrevive em condições de extrema degradação social, porém querendo fazer parte dos inúteis sorridentes, dos assépticos felizes; em tal parcela foram inoculados - via meios de comunicação de massa - os valores político e culturalmente corretos, então não há porque esforçar-se, perseverar para aparentar-se. O terceiro mundo se define hoje com o neologismo de “países emergentes”. Há que emergir, quer dizer, sair da merda que nossa condição pré-moderna nos proporcionou e entrar triunfante na Celebração. Seremos bem recebidos porque somos étnicos, somos negros, índios, mestiços, somos a diferença, dançamos samba, salsa e mambo, alegramos com nossos requebros aos assépticos felizes - demasiado brancos, demasiado assépticos, demasiado felizes. Não, não há Bíblia em tudo isto, há Paramount, há Cecil B. de Mille, há circo - como dizes que disse Soares Feitosa. A poesia - como falei acima - não deve condicionar-se a nenhum dever, combinado, mas talvez tenha o dever de não tomar parte da celebração, de recusar-se, de falar de outra coisa. Sem dúvida, a poesia fala, sempre, de outra coisa.

FM - O reconhecimento de um autor quase nunca está ligado à sua importância. Mas ainda podemos pensar que grande parte da dificuldade de conhecimento, por parte do mundo como um todo, do que se escreve na América Hispânica se deva a uma carência de reconhecimento próprio, o que resulta uma continuada vitória da colonização européia. Até quando seremos os conquistados?

VS - É certo que ainda prevaleça um desconhecimento, uma desvalorização em relação aos produtos da Europa ou Estados Unidos, todavia, a Europa há muito tempo deixou de ser um continente exportador de cultura. Os Estados Unidos - com Nova York como epicentro - é o principal exportador de cultura, incluindo aquela produzida fora de suas fronteiras. Nesta nova reacomodação globalizadora a América Latina continua na periferia das decisões. Diante dos olhos dos países hegemônicos continuamos sendo produtores de exotismo, de artesanato, de folclore. Mas teremos que precisar este julgamento: há uma parte da sociedade européia e americana que reconhece a América Latina como potência cultural; diante de países do primeiro mundo como o Canadá ou, digamos, Austrália ou Bélgica, países com um alto nível de vida e sem demasiadas contradições sociais, nossa América Latina se localiza num nível significativamente superior em relação a sua produção cultural: literatura, poesia, pintura, etc. O tema é complexo e passa pelas dependências econômicas - que controlam os cada dia mais sofisticados sistemas da arte - e as dependências psicológicas de nossos criadores com relação aos modelos impostos pelos centros hegemônicos.

FM - Tens desenvolvido uma considerável atividade como artista plástico, já com algumas exposições. Em um dos catálogos dessas exposições, Jorge Juanes refere-se a um risco essencial, o "de adentrar-se em território de silêncios", logo falando de "telas carregadas de tensão e dilaceramento". Mais do que uma mudança conceitual, o que enfrentamos hoje é uma imposição de visão de mercado sobre criação artística. Anotações de vertigem não constituem a vertigem em si. O aparente sincretismo pode apenas disfarçar um empobrecimento estético. As enumerações caóticas me parecem ser o acento de um cientificismo infrutífero. Que teatro circular é este que Juanes diz que propões com tua plástica?

VS - Meu trabalho pictórico tem-se desenvolvido de forma paralela ao escritural e se localiza no mesmo nível de importância da poesia. Esclareço este ponto desde o princípio porque existem muitos prejuízos, inclusive no círculo dos criadores. Gerados pela divisão do trabalho cultural. Considera-se que se o poeta pinta, o faz de modo amateur, ou se o pintor escreve, o deve fazer necessariamente mal. Muitas vezes, inclusive, enfrentei a premente pergunta: “Mas você é o quê, pintor ou poeta?” Pergunta predisposta à invalidação automática de alguma das atividades. No Renascimento a ninguém ocorreu perguntar a um artista: “Mas vós, o que sois, pintor, escultor, engenheiro, arquiteto ou poeta?” Eram tudo ao mesmo tempo, o mais corretamente, eram pintores quando pintavam, engenheiros quando projetavam uma ponte, escultores quando esculpiam, poetas quando escreviam um soneto, etc. Não havia uma divisão artificiosa do trabalho criativo. Esta divisão é própria do capitalismo moderno e da Revolução Industrial. Foi preciso esperar pelos românticos - Blake e Víctor Hugo pintavam - e, mais tarde, às vanguardas do começo do século XX, para romper com o prejuízo da divisão do trabalho na área da criação. Ao romper com os cânones estabelecidos na arte, as vanguardas estimularam a multiplicidade criativa: Arp, Tzara, Schwitters, Picasso, Dalí, Michaux, entre muitos outros, desenvolveram as duas atividades sem nenhuma contradição. A arte deveria ser vista como uma integração de todas as manifestações expressivas. Esse espírito se perdeu novamente. O anseio transgressor das vanguardas - uma vez esgotadas estas - deu lugar ao anseio da integração aos mecanismos do mercado e do sistema da arte. O artista já não quer épater ao burguês porque ele mesmo é um pequeno burguês que aspira integrar-se o mais rápido possível ao sistema de valores predominante. A arte deixou de ser uma atividade do espírito para transformar-se numa atividade mercantil.

 

__________

VÍCTOR SOSA
(Uruguai, 1956)

 

Obra poética

Sujeto omitido. Edición de autor. San José. 1983. 
Sunyata. Editorial Praxis. Mexico. 1992. 
Gerundio. Editorial UAM. México. 1996. 
Decir es Abisinia. Universidad Iberoamericana. México. 2001.

[Entrevista realizada em dezembro de 2000. Traduzida por Vania Lacerda]

 

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