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Rolando
Toro: algumas tarefas do impossível
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - No prólogo a teu livro de estréia, Extasis del
renacido (1992), Eloi Yagüe Jarque refere-se à tua
capacidade poética de “converter em beleza até mesmo a dor e a
morte, até mesmo o esquecimento e a ausência”, característica
de toda grande poesia. Antes de tudo desperta-me curiosidade esta
imensa demora na publicação de um primeiro livro de poemas. A
que se deu tal demora em tua entrada na poesia?
RT - Escrever poesia tem sido, para mim, uma necessidade
pessoal, uma espécie de culto secreto. Escrevo pelo desejo de
reter alguma sensação única e extraordinária mediante o poder
fundador das palavras.
Escrever um poema me aproxima da experiência do
maravilhoso em meio às coisas comuns. Somente nos últimos anos
é que senti o desejo de compartilhar meus pressentimentos com
essa sociedade secreta de pessoas que lêem poesia.
FM - No livro seguinte, Tras los pasos de Afrodita
(1995), Ludwig Zeller nos recorda uma afirmação de Gabriela
Mistral, de que o Chile “é amargo para com seus melhores
filhos, por ressentimento”. Naturalmente nos lembramos aqui do
peruano César Moro
e
sua referência a “Lima, a horrível”. Tal atitude da parte
das sociedades latino-americanas, como bem recorda Stefan Baciu,
obrigou muitos escritores a “buscar o caminho do exílio ou a
esconder-se no exílio interior”, a exemplo de poetas como o
cubano José Lezama Lima
e
do peruano José María Eguren. Em teu caso particular, de que
maneira se resolveu essa relação com o país? Tua saída do
Chile acaso foi determinada por este “ressentimento” apontado
por Mistral?
RT - Nunca me senti perseguido no Chile. Saí
voluntariamente de meu país porque me parecia absurdo viver sob
uma ditadura. É verdade que grandes artistas e pensadores
chilenos têm realizado sua obra no exterior. Claudio Arrau,
Roberto Matta, Gabriela Mistral, Ludwig Zeller, Susana Wald, Julio
Escamez, Francisco Varela. Talvez porque tenham encontrado em
outros países terreno mais fecundo e estimulante. Alguns deles
realmente não têm sido valorizados, devido à falta de percepção
daqueles que constituem o ambiente cultural. Não é meu caso. Além
do que não tive jamais interesse em ser reconhecido.
FM - Há uma passagem de A morte de Virgílio, de
Hermann Broch, em que diz que “mesmo em seu sentido mais
simples, as palavras do homem procedem da morte; mas também
procedem da abóbada do nada, gerador da realidade, que se abre
imensa atrás da dupla porta da morte; procedem da
eternidade…” Em permanente vínculo com a morte, encontra-se o
poeta também em diálogo intenso com o fulgor da existência, com
o esplendor infinito das possibilidades de ser. Referindo-se à
criação poética, defende a venezuelana Hanni Ossott que as
palavras “são tanto um equívoco como uma via de acesso à
realidade”. O que pensas a respeito?.
RT - A morte é parte da vida e não me preocupa esse
retorno ao lugar cósmico. Não há motivos para preocupar-se com
a Paixão Dissolvente. Podemos realizar a grande imersão sem
estar preparados.
Minha experiência com a palavra tem algo de aventura no
claro-escuro da consciência, uma possibilidade de iluminação do
óbvio. Alguns elementos abstratos surgem com naturalidade porque
somos parte do poema.
FM - Escrevendo sobre a poesia de Ludwig Zeller, um outro
notável poeta chileno, Humberto Díaz-Casanueva, refere-se a
“uma irradiação de esperança na virtude da poesia considerada
como missão”. O que te parece essa defesa da atividade poética
como que determinada pelo destino, no sentido mesmo de uma missão?
RT - Conheço a fundo a poesia de Ludwig Zeller, um gênio
que tem se determinado com extrema ousadia à realização dessa
viagem sem retorno da imaginação e do sonho.
Alguns poetas vivem a poesia como uma missão. Não é o
meu caso. Vivo a poesia como um diálogo natural com o mundo.
Escrever me traz felicidade e um estado de expansão da consciência.
A poesia que escrevem certos escritores me submerge em transe poético.
Os poetas são os médiuns das forças que geram a vida.
FM - Recordo a seguinte passagem de um poema teu: “A dança
gera o destino / sob as mesmas leis que vinculam / a flor à
brisa”. Em um catálogo da “Associazione Europea di
Biodanza”, observa-se que o aluno de biodança é levado a
“provar da vertiginosidade da própria criatividade, não
somente no sentido terapêutico, mas sim no sentido de um desafio
esclarecedor de expressão de seu potencial criativo através da
pintura, da poesia, da canção, da cerâmica ou da dança”.
Desenvolvida hoje em vários países europeus, interessa-me,
contudo, sua origem, seus primeiros sinais de vida. Em que
consiste exatamente a biodança? Como ela surgiu em tua vida?
RT - A biodança nasceu no Chile, nos anos 60, como uma
forma de encontro e jogo entre amigos.
Posteriormente a introduzi no Hospital Psiquiátrico de
Santiago, quando trabalhava como membro docente do Centro de
Antropologia Médica. Ali adquiriu estrutura científica e
metodologia terapêutica. Com o correr do tempo a biodança se
expandiu com dimensões continentais para pessoas sadias e
enfermas.
Atualmente é praticada em muitas partes do mundo como
fonte de êxtase, de comunicação afetiva e de glória de viver.
A biodança converteu-se em uma sociologia da felicidade,
transformando os catastróficos efeitos da arrogância, do
individualismo anglo-saxão e do relativismo ético.
FM - Na leitura de teu livro Projeto Minotauro
(1988), observo referência direta à celebração dos mistérios
eleusinos como uma das formas de acesso à “realidade
essencial”. O poeta inglês Robert Graves assinala que “hoje
em dia, a tecnologia está em guerra aberta contra a artesania e a
ciência em guerra secreta contra a poesia”, radicando
justamente neste desvio de entendimento do fazer (“A verdadeira
poesia faz com que ocorram coisas”, dizia Graves) o que afasta o
homem de sua “realidade essencial”, gerando esta sociedade
finissecular, debilitada pelos excessos da lógica e as proezas inócuas
da tecnologia, definhando ao ritmo ilusório de sua dinâmica estática.
É esta também tua opinião? O que não está bem com o homem
hoje?
RT - O que não está bem com o homem hoje? A história da
humanidade é a história da criminalidade organizada. A ciência
e a tecnologia evoluíram de forma extraordinária, porém a
afetividade humana permanece na idade do paleolítico.
Atualmente a ciência parece ingressar na consciência ética,
depois de Hiroshima, Nagasaki e das sucessivas catástrofes ecológicas.
Esta visão integradora e algo mística deve-se aos novos sábios
da Física e da Biologia, tais como David Bohn (A
ordem implicada), Ilya Prigogine (Teoria
do caos, A nova aliança),
Edgar Morin (A relação
antropobiocósmica), J. Lovelock (Hipótese
gaia), Karl Priban (Complexidade
e neurociências), Francisco Varela (Epistemologia),
Edvard Witten, Michael J. Duff y outros (Teoria
do todo). Talvez caminhemos para um mundo habitável.
FM - Em recente entrevista, Gonzalo Rojas refere-se ao
sentido de anarca defendido por Ernst Jünger ao tratar de Pablo
de Rokha, situando-o como “uma figura maior do desafio”,
lembrando que “ele pôs em marcha a vanguarda, longe das influências
parisienses, ele praticamente descobriu tudo”. É certo
observar, como o faz Rojas, que de Rokha é realmente o fundador
da riquíssima tradição poética chilena?
RT - Pablo de Rokha tem exercido uma notável influência
na poesia latino-americana, demolindo os hábitos poéticos
tradicionais e exaltando aspectos concretos da realidade com
imagens desmesuradas. De Rokha era um artista que não tinha medo
das palavras. Como pessoa era um ser maravilhoso.
FM - E sobre Rosamel del
Valle? Quando Juan Sánchez Peláez publicou uma antologia deste
poeta pela Monte Avila Editores (1976), observou Humberto Díaz-Casanueva,
logo no prólogo, que del Valle criava “seqüências em um plano
da linguagem, muito próximo do inconsciente, com um ritmo
parecido com a circulação sangüínea”, e que escrevia “dançando
com uma lâmpada nas mãos”. Ao publicar Adios enigma
tornasol (1967), recolheu como epígrafe esta lúcida indagação
de Artaud: “E para que olhos quando ainda falta inventar o que
olhar?” Que prestígio goza hoje no Chile este grande poeta?
RT - O poeta Rosamel del Valle goza de grande prestígio
hoje no Chile, dentro de uma elite de escritores. Era um poeta que
transitava entre o visível e o invisível com soberana sabedoria.
Rosamel foi um gênio incompreendido no Chile, como tantos outros,
porém sua obra plena de revelações constitui um culto para
escritores inteligentes e introspectivos.
FM - Recordo também Enrique Gómez-Correa, cuja morte no
ano passado nos deixa ainda sofrido e pesaroso. A teu ver, qual a
importância exata, a contribuição real, do grupo Mandrágora no
desenrolar da poesia chilena?
RT - Enrique Gómez-Correa abriu espaço para o Surrealismo
no Chile. O grupo Mandrágora
estabeleceu o império da imaginação nas letras. Em sua obra Sociología
de la locura, conseguiu penetrar com erudição científica e
intuição poética no universo da loucura. Sua contribuição
para a literatura chilena possui um caráter prometéico.
FM - Recordo aqui a referência de José Lezama Lima
ao
poeta como “guardião da substância do inexistente”, como
aquele que possibilita todas as coisas, referindo-se ainda ao
“infinito possível da poesia”. O que há ainda para dizer?
RT - Falar sobre a natureza do ato poético é sempre uma
tarefa fracassada, desde o início. Diria que a Poesia e a Vida
constituem uma estrutura unitária: a poesia gera vida. Nossa
existência desenvolve-se como um poema e, nesse poema, estamos tão
profundamente comprometidos que não o percebemos nem em sua forma
nem em sua grandeza. Dá-se o vivente poema na semi-obscuridade da
consciência.
A poesia é esquiva e, ao mesmo tempo, ostensiva, oculta-se
e se oferece no reino da incerteza; move-nos convulsivamente como
silenciosa tormenta. A poesia gera a si mesma, mostrando, ao mesmo
tempo, beleza e horror; no sentido de Rilke: “Todo anjo é
pavoroso”.
Às vezes, a poesia é um réquiem, uma oração ou um
uivo, porém sempre é um testemunho do que somos.
O ato poético é a força invisível que conduz o processo
evolutivo de uma espécie de galáxia mental. Mesmo quando a gênese
do sentido se projeta em distintas dimensões semânticas e estéticas,
o poema parece nascer das entranhas, em uma espécie de autopoyesis,
criando-se a si mesmo. esta é sua essencial comunidade com o ato
de viver.
Todo o sortilégio do ser que não podemos abarcar emerge
em um único ato. O espírito do hai kai está presente: o poema
abarca uma imagem, um pensamento e um estado de ânimo.
Há poemas que são um diálogo com um desconhecido,
talvez, ainda não nascido, uma mensagem secreta dentro de uma
garrafa lançada ao mar.
Alguém disse que o poema não deve expressar, mas apenas
ser, simplesmente ser. Porém o ser do poema está na linguagem,
ou seja, é algo vivo e em gênese. Uma combinação de inteligência
e êxtase. Uma episteme da vivência.
__________
ROLANDO TORO
(Chile, 1924)
Obra poética
Extasis del renacido. Editorial Galac. Caracas. 1992.
Tras los pasos de Afrodita. Oasis Oaxaca. México. 1995.
Lo imposible puede suceder. Oasis Oaxaca. México. 1995.
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