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Harold
Alvarado Tenorio: poesia & outras espécies
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - Em um ensaio sobre sua obra poética Jorge Rodríguez
Padrón refere-se à poesia como sendo “o único alumbramento da
verdade que é dado ao homem”. Que mundo, através de Harold
Alvarado Tenorio, recupera a poesia?
HAT - Tratei de recuperar os mundos que as ideologias
perverteram em nossa juventude. Quando fui jovem as idéias que
nos venderam alimentavam as termas dos estados totalitários.
Inclusive nosso próprio mundo de colombianos podia ser catalogado
entre eles. Era um mundo tutelado pela religião e a ignorância,
que as classes dominantes impuseram à juventude na escola primária,
na secundária e na universidade, com a crença em que,
obliterando o passado, desaparecia a violência que eles produziam
de suas cadeiras do poder. Um mundo feito de consignas morais e
mentiras oficiais. Quando senti a necessidade de escrever poesia
nada parecia recuperável desses mundos de horror. Quis então
recuperar um pouco “o outro mundo” que havia descoberto nas
leituras de poetas nossos e de outros âmbitos lingüísticos: a
poesia chinesa antiga, os poetas medievais eróticos, Eliot e Kaváfis.
Mas claro, com muitas de minhas alegrias depararam-se também
Borges, García Márquez, Octavio Paz
. Além de meus esforços
por imitá-los, a uns e a outros, umas vezes refugiando-me no
insondável passado e outras na busca de presentes literários,
dei com a crua realidade de minha juventude, manchada pelas proibições
religiosas contra o erotismo e a desonra de viver de tantos
intelectuais que conheci e que hoje são pó do ontem. Isto quis
recuperar em meus poemas escritos nos anos 70 e em alguns escritos
posteriores, nas várias cidades populosas ou miseráveis onde
vivi. Muitos desses poemas parecem, segundo me dizem alguns jovens
que os lêem, sem transcendência alguma, porém naqueles tempos
ajudaram-me a expulsar muitos pesadelos.
A vida é uma enfermidade do espírito, porém o nosso
esteve contaminado pelos piores vírus do século: as guerras
mundiais, a inacabável guerra fria, o ódio contra Cuba e a própria
incompreensão dos cubanos, e de nós mesmos, de seu mundo
interior. Tudo foi, para muitos de nós, doloroso. Salvo apenas
pela poesia de nossos mestres, por Neruda, por Paz
, por Borges. E por
aquelas de Eliot e Kaváfis, que para mim foram revelação, sem
que se esqueça os poetas espanhóis que descobri em Madri:
Cernuda, Gil de Biedma, Brines. Eles também deram alento à minha
poesia.
FM - Segundo Jorge Teillier, “o poeta é o guardião do
mito e da imagem até que cheguem tempos melhores”. Também você
se considera o sobrevivente de uma idade perdida, tocado pela
lepra, e destinado àquilo que Alvaro Mutis
chama
- referindo-se à poesia - de “exercício para condenados”?
HAT - Talvez sejamos apenas guardiães de nossos mitos
pessoais. Os nossos parecem também ter sido a liberdade, que não
se pode alcançar, e a busca de prazeres não culposos, que
tampouco conseguimos. Não creio que existam mitos universais e
menos ainda que possam alguns mitos passar sobre os tempos sem
deixar de ser apenas arquétipos. A idéia da liberdade que temos
não foi nunca a dos homens da Independência e menos ainda a dos
europeus do século XVIII; muito menos a dos
democratas da Grécia ou de Roma. Lemos as histórias e
encontramos apenas os eflúvios do que quiseram. É difícil saber
com certeza o que entendiam por liberdade nessas épocas. Nós
mesmos não nos compreendemos nem nos colocamos de acordo nestes
assuntos.
Quanto à felicidade pessoal, o erotismo, já podemos saber
que raramente mudou. Novas culpas e chagas saíram no corpo.
Pensava-se que as licenças sexuais inventadas nos anos 60 seriam
emancipação, quando as mulheres acreditavam livrar-se do mal que
lhes haviam supostamente feito os homens, mas hoje já sabemos que
nada disto tampouco trouxe felicidade. A natureza vingou-se do
homem, de suas atrocidades e maldades, oferecendo a seus corpos
uma nova peste. O amor é eterno porque é o mal de não nos
reconhecermos nos Outros, em nós mesmos. Talvez devamos voltar a
começar, e buscar mais no presente do que no passado os gestos da
felicidade. Talvez estejamos condenados a ter um amo sem rosto: nós
mesmos, com nossos esforços escravizantes por dar com a liberdade
individual sem lesionar a coletiva, por amar e possuir o outro sem
destruir a si mesmo lesionando a quem se ama.
FM - Que coincidências reconheceria com seus antecessores
colombianos, desde José Asunción até os integrantes de Mito?
HAT - Sem dúvida o desejo de viver em uma sociedade que se
concilie consigo mesma, que sane suas feridas, que ame nos demais
o que melhor ama em si mesma. Silva quis superar o mundo das
Guerras Civis que padeceu na própria carne, um país devorado
pelas teorias de um liberalismo que não se compadecia com a vida
e os costumes de então, tão tradicionais, porém impossíveis de
mudar com a violência que produziram. Morreu deixando um romance
que é síntese desses desejos: José Fernández busca com afã,
na imagem de uma mulher bela e inatingível, um equilíbrio contra
a loucura que lhe prodigalizou a realidade. Silva morreu com um
esgar de amargura na boca, causado pelas tantas execuções
judiciais a que foi submetido pelos credores de seu pai e os seus
próprios, pela incompreensão que sempre lhe rodeou, por seus
projetos irrealizáveis de fazer empresas modernas em um mundo caótico
e politiqueiro. Porém em sua obra respira-se um ar de renovação
que não deixou de existir, ou que ao menos existiu com tesão até
Mito. Os de Mito
deixaram uma obra que indica como estávamos às portas de
compreender o que seria a civilidade, porém seus esforços foram
abortados pela Violência dos anos 50, por suas mortes prematuras,
físicas ou morais, e pelos filhos da Violência, os Nadaístas,
expressão da barbárie mais atroz que culturalmente tenha vivido
o país e cujos desígnios realizaram-se nos anos 80, com funestas
conseqüências para a cultura falada e escrita. O Nadaísmo
é o malfeitor da cultura, os Matragas de nosso tempo. A suas
doutrinas e quitanda da frivolidade devemos muitos dos
esbanjamentos estatais de hoje. E crer que as Senhoras e os Filhos
e Filhas, e até Sobrinhos, de poetas e escritores devem herdar a
condução do estado em matéria grave, como a educação e a
cultura.
FM - Tensão entre essencialidade do ser e a fragmentação
de sua aparição, a poesia - diria Octavio Paz
: “a poesia é entrar no
ser” - somente se realiza enquanto fragmentação, enquanto
impossibilidade de sua imagem total?
HAT - A idéia da existência de um ser além das palavras é uma velhíssima doutrina que foi combatida
com alguma eficácia por Abelardo em suas lições de Paris, antes
que o castrasse o zeloso guardião de Eloísa. A “essência do
ser” é uma universalização, e a sobrevivência da caricatura
desse dogma foi a causa, uma das causas, de nossas desgraças no século
que agora termina. Não creio que haja nada universal, nada cósmico,
nada totalizante, nada que tenha uma essência única além do
corpo, espelho e taça do próprio mundo. Compreender nosso corpo,
em sua integridade como voz e pranto, fome e dejeção, é talvez
o caminho para abandonar o pesadelo das ideologias, das teorias
que nos têm oprimido. Todas essas postulações, levadas à prática
na vulgaridade do poder contra os que não se submetem,
perpetuaram a tensão de que você fala. Eu creio que as coisas são
mais simples. Há que se aceitar que não temos porque buscar
cinco patas ao gato. Que a vida pode ser compreendida e padecida
sem necessidade de agregar-lhe outros sentimentos perversores,
religiosos, totalitários. Que busquemos a totalidade
e que nessa busca demos com a realidade de ser fragmentos
apenas, é uma realidade inquestionável. Borges mostrou em Pierre Menard como escrever e ler são a mesma coisa: a própria
vida. Porém a mesma e distinta para todos. Aceitar a variedade em
nossa unidade natural foi a conquista perdida para nós dos povos
eternos. Quando homens e deuses eram os mesmos. Quando não
existia a diferença entre homem e natureza, quando fêmea e macho
eram o olho direito e o olho esquerdo do mesmo rosto, quando a
esquerda e a direita do corpo se entendiam e se completavam,
quando o Yin e o Yang não estavam rompidos, quando o teu era o meu, como é na
natureza, quando morte e vida não eram oferecidas em
supermercados e funerárias, mas sim na mesma noite-dia da existência.
FM - Voltemos um pouco, antes de seguir com assuntos literários,
a suas palavras finais com respeito à situação cultural atual
da Colômbia.
HAT - O que quis dizer é que vivemos um dos piores
momentos para a cultura, nesta região da América Latina. A Colômbia
foi qualificada de conservadora em sua cultura, e razão não
haverá faltado àqueles que assim a viram, sem estudar, sem ir
mais a fundo, é verdade, em nossa história recente. Ao
referir-me a Mito disse
que eles trataram de retomar o caminho latino-americano dos anos
20 e 30, dos ensinamentos de Alfonso Reyes, de Pedro Henríquez
Ureña, de Borges, de Paz
, alguns deles integrantes
do comitê de redação desta revista. Porém, com o auge da Violência
institucional e o descobrimento de uma possibilidade de
crescimento econômico que alcançou cotas como nunca antes
imaginamos, mas sem haver obtido uma redistribuição da receita
nacional, a educação e a cultura, como a saúde do povo, ficaram
submersas em mãos de uma nova casta de ordenhadores do dinheiro
estatal que terminou por nos fazer crer que umas Senhoras e uns
senhores-Senhoras, quando não os herdeiros biológicos de alguns
poetas, tinham no sangue as fórmulas para o desenvolvimento
cultural do país. Aqui se viu implantada uma “cultura oral”,
segundo dizem as boas línguas, porque as Damas da Cultura não
saber ler e escrever; fomos dotados de Mansões Poéticas e de
Fundações para Prêmios Literários, com coches e choferes, a
outras, pelo mero fato de levar algum apelido ilustre ligado a
versos retardatários; ou padecemos as camarilhas sexuais de
pacientes físicos ou psíquicos, que doam o pressuposto que deve
o estado às universidades, à investigação e criação artística,
a seus protegidos. Verdadeiros Serrallos andaluzes há em alguns
institutos culturais colombianos.
FM - Em entrevista a Jim Alstrum, Juan Gustavo Cobo Borda
refere-se à perda do ritmo como a grande tragédia da poesia em
nosso século. Está de acordo?
HAT - Nosso tempo tem usado da sintaxe do cinema para criar
os correlatos imaginários que as tensões entre realidade e
desejo resolviam em outros tempos com a ajuda de metros e rimas.
Porém não creio que o ritmo, por desaparecer em muitas ocasiões
na poesia, desde o aparecimento das vanguardas, tenha morrido. É
outro o ritmo de nosso tempo, outras as necessidades de expressão.
A poesia não faltou na escritura de nossos escritores. Não falta
nunca em García Márquez, que escreveu um extenso poema trágico
e cômico em memória de um ditador do Caribe, nem sequer em
Jaramillo Escobar e menos em Giovanni Quessep, com poemas que são
signos dessa “ciência do concreto” com a qual descobrimos,
como o descobriram no Brasil os poetas e romancistas do Modernismo
e entre-guerras, tais como Graciliano Ramos
, Cecília Meireles ou
Jorge de Lima, a solidão à qual nos confinou o século da ciência
e das guerras atômicas. Há uma tradição rítmica bem
re-elaborada nos colombianos que menciono. Cobo Borda crê na
perda do ritmo talvez porque sua linguagem juvenil se foi diluindo
nos despenhadeiros retóricos de salões de chá e salas de
espera. Contudo, os meios de difusão poética estão dominados,
desde o Nadaísmo e seus
continuadores, por uma linguagem e umas sintaxes anacrônicas,
repetidoras de modelos, para falar de um presente que não
conheceram os Surrealistas, sem retomar sequer as linguagens e
ritmos das juventudes líricas de Paz
ou
Vallejo
. Os jovens sem educação
secundária nem universitária acolheram essas linguagens e
sujeitos. Parece como se vivêssemos em retorno a fazer do poema
uma das manchas da psicologia experimental de Rorschach, quando o
paciente lê em um nanquim e começa a ver o que lhe alucina. Não
importam as recuperações ou invenções do indivíduo, mas sim o
oferecimento ao público de glossolálias coletivas;
desarticuladas explorações combinatórias, rosários de metáforas
e neologismos, sem som nem músicas que não alcançam nem o Nada,
essa “outra face da existência” que buscava Huidobro.
A região mais golpeada pela Violência da classe emergente
e da institucional é o centro dessa aventura gaguejante,
leporina, de alguma poesia de hoje. Porém é sem dúvida expressão
da miséria espiritual e essa poesia ficará como crônica vil das
lutas dos pobres dos bairros populares contra a opressão da
linguagem institucional que oferecem os jornais e as rádios a
cada manhã. Também nessas esferas políticas e desportivas há
uma ecolalia. Uma linguagem sem correspondências, sem referentes
à realidade ou à invenção, expressão do naufrágio da vida
que padecemos. Quando alguém lê a poesia publicada de mais de
uma década para cá, em jornais e revistas colombianas, parece
como se estivesse lendo uma antologia da poesia dos anos finais do
império romano, quando aqueles que não foram acolhidos pela nova
doutrina cristã, nem se dedicaram ao erotismo, ausentavam-se da
desagradável realidade com variações de palavras e gêneros, os
poemas desenhos, a aglomeração de medidas em um só texto ou a
enumeração de vozes de hienas e chacais. Nossos atuantes
Publilios Optatianos Perfirios não jogam com hexâmetros e o número
de letras, porém nos incomodam com frases como: “nos subúrbios um ócio de café
se prepara para açacalar
a noite”, ou “a
cidade mudou, os cães leprosos que a cercam, seu ar
encrespado, sua voz de
numen que agoniza”.
A Gatecúmena Perpétua bem poderia sentir-se representada neste
uso de nomes, verbos e adjetivos.
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HAROLD ALVARADO TENORIO
(Colômbia, 1945)
Obra Poética
Pensamientos de un hombre llegado el invierno. Ediciones Piraña. Cali. 1972.
En el valle del mundo [prólogo de Umberto Valverde]. Ediciones Universidad
del Valle. Cali. 1977.
Etcetera.
Ediciones Podenco. Pasto. 1978.
Cinco
poemas [prólogo Fernando Cruz Kronfly]. Ediciones Centro Colombo Americano. Bogotá. 1979.
Recuerda cuerpo. Ediciones El Papagayo de Cristal. Bogotá. 1983.
Poesia & prosa. Ediciones Centro Colombo Americano. Bogotá. 1985.
Libro del extrañado. Ediciones
Marymount Manhattan College. New York.
1985.
Espejo de mascaras. Ediciones Universidad Nacional de Colombia. Bogotá.
1987.
Antologia poetica [selección y prólogo de Gabriel Restrepo]. Editorial
Tiempo Presente. Bogotá. 1990.
El ultraje de los años. XV Certamen Internacional de Poesía. Arcipreste de
Hita. Jaén. 1993.
Fragmentos y
despojos. Ediciones Universidad del
Valle. Cali. 2002.
Summa
del cuerpo [prólogo de William Ospina]. Ediciones Deriva. Cali.
2002. |