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Javier
Sologuren: uma poética da leveza
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - Este essencial equilíbrio
que sua poesia consegue alcançar entre ética e estética, e que
lhe dá uma leveza extraordinária, leveza profunda, medida pela
precisão e concisão de suas imagens, certamente que é fruto
disto que Jorge Rodríguez Padrón situa como sua opção inequívoca:
“abismar-se na vertigem da criação, vagar entre os signos da
noite” (valendo aqui lembrar que a noite é possivelmente a mais
abarcadora de suas polissêmicas metáforas). O que significa para
você exatamente este “abismar-se na vertigem da criação”?
Como lhe toca a poesia?
JS - É certo que o processo de criação, meu poetizar, se
assim se quer, produz-se sempre em termos de uma relação bipolar
entre o ético e o estético; entre um dever ser, paradigmático,
do texto (uma meta expressiva obscura e quase penosamente
entrevista), de uma parte, e, de outra, a verbalização dessa
experiência em formas que conjuguem transparência, liberdade e
conciliador equilíbrio. Esta relação traz, por conseqüência,
como se pode inferir, o inevitável afloramento de uma tensão
interna que, por sua vez, transcreve uma temperatura anímica sui
generis: sentimento de opressão, de incômoda gravidez. Ao
“entrar” na escritura de um poema careço inteiramente do
conhecimento prévio de sua “saída”
pertinente, a noção de um rumo por seguir que, às vezes,
pode ir clareando paulatinamente, ao longo da escritura, e, em
outros casos, não se acha bússola ao navegar nestas águas
incertas, somente rasgões, cintilações, em meio à obscuridade.
Além do mais, penso que esta situação que atravesso não
deve ser, no fundo, muito distinta da que deve se apresentar a
todo poeta em transe de escritura.
A bem conhecida agudeza crítica de Jorge Rodríguez Padrón
- tal como me recordas - deu com a formulação precisa:
“abismar-se na vertigem da criação, vagar entre os signos da
noite”. Todo o exposto nas linhas precedentes não vem a ser senão
sua desfiada explicativa. Contudo, retomarei o fio e seguirei,
algo loquaz, abundando neste assunto. A poesia me toca como um
raio de luz na opacidade, na cegueira da existência e,
certamente, alguma vez, “como uma aurora na noite”. Assim
como, depois do dia vivido, nos afundamos no bálsamo do sonho, da
mesma forma parece-me suceder com a expressão poética. Ainda que
não mais em condição de esquecimento, como no sonho, mas sim de
aventura e revelação. Os signos são o pasto de minha fome,
nunca satisfeita, de sentido; de sua busca tenaz. É por isto, sem
dúvida, que minha poesia é, igualmente, irrigada pelo sangue do
questionamento e da reflexão: monólogo, ou melhor, diálogo com
os translúcidos, ou definitivamente impenetráveis,
acontecimentos da existência, irremediavelmente vulnerados pelo
agônico tempo humano.
FM - Como bem define o
poeta cubano José Kozer, “o poema exige o sacrifício total”.
O que significa para você o processo de criação poética? Como
o enfrenta?
JS - O processo de criação poética se me apresenta como
uma tensão anímica que me reclama, para reduzir-se ou
descarregar-se totalmente, sua cristalização na palavra. A risco
de repetir-me uma vez mais, transcrevo a resposta dada,
precisamente a José Kozer, na ocasião de uma entrevista que ele
me fez em 1983: “Muito me interessa - disse-me Kozer - que fales
um pouco de teu sistema poético em geral e de tua busca de uma
espiritualidade cabal e ampla, que sirva de alça em um mundo buliçoso
e materializado”. Esta foi e é a minha resposta: “Tais afirmações
não são indícios de um sistema poético que, ao menos em um nível
consciente, carece de existência. Provêm, ao contrário, de um
sentimento que se foi sedimentando paulatinamente. O sedimento de
muitas e plurais experiências nas quais, longo tempo depois de
havê-las vivido, remexi como quem lê nas cinzas.
Porém, embora não obedeçam a um sistema prévio,
manifestam um obstinado esforço de edificação pelo verbo de um
mundo - qualquer que seja seu alcance -, onde achar meu espaço próprio
e livre, e minha verdadeira identidade. Meus poemas são, aspiram
a ser, certamente, essa alça de que falas”.
FM - Quais os mecanismos
fundamentais de gestação de sua escritura poética?
JS - Creio ver nesta tua pergunta um vínculo muito
estreito com a anterior, na qual me indagas o que significa para
mim o processo de criação poética, pois de alguma maneira
homologo gestação e processo, gemas na duração.
Sem mudar ponto ou vírgula, direi o que a respeito disse
em uma ocasião. Quando a poesia está por suscitar-se em mim,
experimento um complexo de sensações muito próximas à
manifestação de um mal-estar. Algo que gravita com excesso sobre
mim, que me perturba e exige, para recobrar minha rotineira
normalidade (habitualidade), ser de algum modo expressado. Talvez
por isto, ao concluir um poema a impressão imediata seja de alívio,
à margem da impressão de êxito ou fracasso que dito texto
posteriormente me cause.
Não acudo a fatores externos como condicionantes da
“inspiração”,
exceto, às vezes, a música. Vibro de mim mesmo.
FM - José Miguel Oviedo certa vez apontou a afinidade de
sua poesia com a de Huidobro, Paz
, Mallarmé
, Reverdy, no que se
refere ao relevo dos valores visuais e espaciais do poema. A
origem de tal relevo estaria mesmo na leitura destes quatro poetas
ou seria outra sua fonte?
JS - José Miguel Oviedo referia-se em particular aos
poemas de meu livro Folios
de El enamorado y la muerte, que resenhava, e acertava ao
falar de afinidades com esses grandes poetas, aos quais haveria de
acrescentar, em primeiro lugar, a Apollinaire. Todos eles lidos e,
no caso dos franceses, traduzidos em parte por mim (o que, como
bem sabes, significa haver exercido uma leitura em profundidade e
uma conseqüente maior atenção a seus poemas), todos eles, de
algum modo e em proporções por certo não quantificáveis, afiançaram
meu conceito e prática dos valores visuais e espaciais em função
do discurso poético. Mas existe também outra fonte que considero
importante. É a poesia clássica japonesa. Tanka
e haiku, não
somente por sua brevidade mas também e principalmente pela
energia surgente e sugestiva do yo-haku,
a margem branca ou o inexpressado; essa zona de silêncio eloqüente
aonde nos remetem, se o sabemos sentir, estas sutis, profundas,
essenciais apreensões dos fatos do coração e da natureza.
Tal aptidão de concisão e síntese, de especial estimação
pelo espaço em branco, esse silêncio cuja pureza original vamos
ferir e alterar, por outro lado, me parece que se manifesta nas páginas
em prosa, em grande parte dedicadas à poesia, que até aqui
escrevi.
Essas vozes distantes despertaram e despertam algo que é
próprio de minha sensibilidade poética, de meu gosto pessoal,
que assim se vêem corroborados por seu fecundo magistério.
FM - Discute-se com certa insistência se o Surrealismo
teria sido uma influência vital ou mortal para a poesia francesa.
No que diz respeito à poesia peruana, ao pensarmos tão-somente
em nomes como César Moro
e
Emilio Adolfo Westphalen já teremos aí definida a extrema e
vital importância deste movimento. Que importância você credita
ao Surrealismo em sua própria obra?
JS - Para mim o Surrealismo exerceu direta e obliquamente
uma removedora influência que não pode ser qualificada senão de
vital e universalista. A grande poesia deste século, e em línguas
daqui e de lá, à margem de todo tipo de fronteiras, tem sido
possível graças à encarnação das libertadoras contribuições
do Surrealismo. Os poderes mágicos da imagem, o libérrimo fluxo
das associações verbais, a inserção surpreendente nessa zona
intermediária entre a realidade e o sonho, e tanto mais, dão
conta do que foi sua inevitável vigência.
Com efeito, tal como o dizes, na poesia peruana o
Surrealismo enredou-se, quase com exclusividade, em César Moro
, e parcialmente em
Westphalen, dando os admiráveis frutos que todos conhecemos e
gozamos. Em meu caso, como nos de outros poetas de minha geração
(Jorge Eduardo Eielson e Blanca Varela, em especial), este
movimento (resisto a chamá-lo escola) produziu efeito, junto à
rica tradição poética hispânica, evitando-nos o enquistamento
em uma retórica consabida e exangue. Segundo o crítico romeno
Stefan Baciu, nos corresponde o rótulo de “parasurrealistas”,
o que me parece exato.
Esses princípios ativos do Surrealismo permearam minha
expressão, conjugando-se com os da terra natal da tradição e
servindo de corretivos ao que poderia ter sido uma excessiva e
ancilosada gravitação desta última.
FM - A poesia encarna a
realidade ao revelar-lhe sua precariedade, sua miséria irredutível.
E evidenciar tal miséria é sua maneira extrema de torná-la fértil,
sua tentativa obstinada de resgatar a abundância em pleno magma
da miséria, da escassez. Acredita ser esta uma tarefa possível,
o que tornaria a poesia uma paixão sem saída?
JS - As tarefas de revelação e resgate que reconheces
como próprias da poesia (que considero certas) não são impossíveis.
Século após século, como dia após dia, a poesia está atuando
não somente na sensibilidade estética do homem, como também, e
além do mais, paulatina e quase inadvertidamente, trabalha em sua
sensibilidade moral, elevando-a, tornando mais lúcida sua percepção
da condição humana. A poesia é, ou pode ser, uma paixão que
jamais se esgota em si mesma. Ela nos oferece - salvando épocas,
distâncias, culturas - um espaço de reconhecimento da unidade
radical do ser humano, de sua identidade substancial. A poesia,
neste sentido, alcança essa meta de verdade prática que, de
acordo com Paul Éluard, lhe deve ser conatural. Congrega e
apazigua, une e exalta. Conduz o homem aos mais altos e duradouros
desígnios. Tenho dito e repetirei em tom de profissão de fé: a
poesia é um agente de descobrimento e recuperação do humano no
homem.
FM - Vem de Karl Kraus a
afirmação segundo a qual todas as qualidades de uma língua têm
sua raiz na moral. Concordaria, por extensão, que toda renovação
da linguagem poética possui também como requisito fundamental a
moral?
JS - Penso que todo homem é uma conduta e uma moral em ação.
Iniludivelmente. Por isto, a afirmação de Karl Kraus concita meu
interesse e reflexão. Assumo a verdade que revela e concordo, por
extensão, que toda renovação da língua poética supõe
necessariamente uma prévia mudança do que (algo pedantemente, me
desculpo) chamarei as estruturas morais subjacentes a toda
conduta, entre estas as da expressão e da comunicação. Um único
exemplo a respeito: a confrontação ante os fatos da vida sexual
e do erotismo, em nossa ética social contemporânea, vai
ultrapassando os limites, sempre estreitos, de seu silenciar ou
disfarce.
Por sua vez, a ética em que se apoia a linguagem poética
pode ser enriquecida e estimulada a dar um passo mais além com as
revelações que, entre outros rostos, a poesia pode brindar a
sociedade na qual se produz e alenta.
FM - Ao longo dos tempos os poetas sempre se viram atribuídos
de alguma missão - entre os povos pré-colombianos falava-se no
poeta como “aquele que faz com que as coisas se ponham de pé”,
Mallarmé
o
apontava como responsável pela “purificação das palavras da
tribo” etc. -, o que de certa forma ligava a criação poética
à idéia de restauração. Neste sentido, concorda que a poesia
seja, no dizer de Eugenio Montejo
, “a última religião
que nos resta”?
JS - Assim o é, de fato. E as missões que citas possuem
essa clara felicidade do dito com as palavras justas. “Fazer com
que as coisas se ponham de pé”. Que admirável formulação! As
coisas se põem de pé, despertam, passam a andar, a vida atua
nelas e elas atuam em nossa vida.
Não fosse a poesia, como postula Eugenio Montejo
, “a última religião
que nos resta”, seria, em todo caso, o último e supremo rito
com que o poeta tenta consagrar ou exorcizar os avatares da vida
humana.
FM - É conhecido e respeitado seu magnífico empenho em
traduzir/editar poetas franceses, italianos, suecos, japoneses e
brasileiros no Peru. É também sabido que parte de sua própria
poesia encontra-se traduzida ao francês, italiano, sueco, japonês,
além do grego, russo, inglês, húngaro e alemão - o que
confirma um admirável fluxo de reconhecimento por seu trabalho
exemplar. Contudo, no que diz respeito ao Brasil, e mesmo
levando-se em conta as antologias que você organizou para o
Centro de Estudos Brasileños (entre 1977 e 1985) da poesia de Mário
e Oswald de Andrade, Cruz e Souza, Cassiano Ricardo, Sousândrade,
entre outros, a sua própria poesia segue inteiramente inédita. Não
se trata, porém, de um caso pessoal. A quase totalidade da poesia
hispano-americana - e aqui vale ressaltar a indiscutível importância
de autores como Pablo Antonio Cuadra
, José Lezama Lima
, Oliverio Girondo,
Vicente Huidobro, Alvaro Mutis
, Jaime Sáenz, Enrique
Molina
, Juan Liscano, Enrique
Lihn, José Emilio Pacheco, Carlos Germán Belli, entre inúmeros
outros - permanece inédita no Brasil, constituindo-se em um dos
mais graves crimes contra a cultura registrados em todos os
tempos. O que pensam, em geral, os escritores peruanos e, em
particular, o Javier Sologuren
, a respeito dessa
“impenetrabilidade” da poesia hispano-americana no Brasil?
JS - Até algumas décadas atrás o Brasil era uma ilha
rodeada de mar e selva, cujas manifestações literárias e
culturais eram geralmente desconhecidas pelos hispano-americanos.
Curioso fenômeno, pois sua língua escrita não constitui para
estes uma muralha insanável. Ainda que mal, podemos nos entender.
A política brasileira de apoio, promoção e difusão de
seus valores culturais - através de suas representações diplomáticas,
de convênios editoriais ou outros meios - conseguiu que aqueles
nos sejam familiares. Em particular aqui, onde muitos poetas
peruanos traduziram um bom número de poetas brasileiros de todos
os tempos, tal como o fazes notar.
Nada semelhante sucedeu, como em justa reciprocidade o
merecem, com os poetas hispano-americanos, mesmo tendo em conta os
de maior relevância (salvo contadas exceções), como bem o
assinalas. Não existem, pois, as condições para o mútuo
enriquecimento e a ampliação das experiências e perspectivas poéticas
que seria lícito esperar.
Esta situação deficitária é realmente estranha. Essa
“impenetrabilidade” pode ser devida, de um lado, à endêmica
falta de apoio estatal para difundir nossa poesia e fazer outro
tanto em resposta ao que tem feito teu país. Podemos pensar também
em uma progressiva perda de interesse dos poetas brasileiros ante
a dificuldade de dispor dos livros necessários, já que os nossos
praticamente não saem do país.
Por sorte, tua empresa generosa de descobrimento e difusão
da poesia hispano-americana - através da tradução, do comentário,
da entrevista, da edição - vem oportunamente preencher esse
grande vazio.
FM - Em que circunstâncias surgem em Lima as Ediciones de
La Rama
Florida?
E qual a situação atual do mercado editorial peruano no que diz
respeito à poesia?
JS - La Rama
Florida
foi
um pequeno empreendimento gráfico de caráter artesanal e doméstico.
Uma impressora elementar, das chamadas Minerva,
ordinariamente empregadas na impressão de cartões; umas tantas
caixas de tipos móveis; uma ou outra ferramenta, papel e tinta.
Desse ramo brotaram, ano após ano (mais ou menos doze), livrinhos
de poemas tanto peruanos como estrangeiros, em uma incessante
continuidade, em edições trabalhadas manualmente e de muito
curta tiragem. Guardo muito boas recordações desta obra que
empreendi, sem contar com bens de fortuna, com entusiasmo e
carinho.
Todos sabemos - pelo menos aqui no Peru - que a publicação
de textos poéticos não é negócio para os editores. Minha
oficina e minhas edições, não sendo lucrativas, remediaram esta
situação.
A ajuda econômica decidida e aberta do Conselho Nacional
de Ciência e Tecnologia tornou factível, nestes últimos anos, a
publicação de inumeráveis livros de poesia, ao lado de outros
dedicados às disciplinas científicas, técnicas, científico-sociais
etc. É um caso, sem dúvida, único. Quem não publica seus inéditos
ou seus poemas reunidos é porque não deseja fazê-lo.
FM - A edição, este ano,
de sua obra completa, significa o encerramento de uma etapa, de um
ciclo?
JS - A edição, no ano que acaba de passar, de minha obra
poética, que vai de 1939 a 1989, significa mais a mostra de uma
etapa, larga, sem dúvida, em um decurso que sinto contínuo e
desejo permanente. Obedece, pois, a essa incitação própria dos
aniversários, ainda mais quando são prolongados e se dão em
cifras redondas. Porém a vida é um continuum que rejeita, por sua própria natureza, toda divisão,
toda artificiosa separação estanque. E eu me valho desta condição
para dar título à minha obra…
__________
JAVIER SOLOGUREN
(Peru, 1921)
Obra Poética
Detenimientos. Edición del Autor. Lima. 1947.
Bajo los ojos del amor. Ediciones Ícaro. México. 1950.
Estancias. Ediciones de La Rama
Florida.
Lima. 1960.
La gruta de la sirena. Ediciones de La Rama
Florida. Lima.
1961.
Vida continua. Ediciones
de La Rama
Florida.
Lima. 1966.
Recinto. Ediciones de La Rama
Florida.
Lima. 1968.
Surcando el aire oscuro. Carlos Milla Batres Ediciones. Madrid. 1970.
Vida continua. Instituto Nacional de Cultura. Lima. 1971.
Corola parva. Ediciones La Máquina Eléctrica. México. 1977.
Folios de El enamorado y la muerte.
Monte Avila Editores. Caracas. 1980.
Vida continua (1945-1980). Premiá Editora. México. 1981.
El amor y los cuerpos. Premiá Editora. México. 1985.
Retornelo. Editorial Colmillo Blanco. Lima. 1986.
Catorce versos dicen… Ediciones del Tapir. Madrid. 1987.
Poemas 1988. Ediciones del Tapir. Madrid. 1988.
Vida continua. Obra poética
(1939-1989). Editorial Colmillo Blanco.
Lima. 1989.
Vida continua. Nueva antología. Ediciones de la Universidad Nacional Agraria La Molina
. Lima. 1992. |