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Circe Maia: uma voz que se mantém no tempo

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - Recordo tuas palavras: “Não há o em si das coisas: vemos perfis, tudo é muito fragmentário”. Naturalmente teus versos, teus livros, são fragmentos de tua visão do mundo, perfis de alguns lugares até então obscuros e agora descobertos pela linguagem (por teu domínio da linguagem). Contudo, suponho que tais fragmentos radiantes, na complexidade de suas relações com o mundo, busquem a unidade. De que nos fala então a poesia através de Circe Maia?

CM - A busca da unidade de sentido do mundo é uma tarefa mais filosófica, porém reconheço que, no fundo, é também uma tarefa da poesia. No entanto, ocorre que em nossos dias nos tornamos todos muito cautelosos, andamos com “pé de chumbo” - pelo menos este é o meu caso -, de maneira que acabamos ficando em um território desigual e parcial, embora mais acessível.

Em meu livro Presencia diaria há um poema que diz: “Trabalho no visível e no próximo / e não o creias ser algo fácil. / Tudo isto que apalpo / junto a mim, hora a hora, / é rebelde e resiste. / Para seu vivo peso / demasiado levianas mostram-se as palavras.”

FM - Oscar Wilde nos fala das influências como algo que pertença ao mundo das identificações, acreditando que o estilo deve estar “na alma de uma pessoa antes de ser reconhecido nas demais”. Por outro lado, Jorge Enrique Adoum, encontra diferença entre influências e preferências. O que pensas disto, no tocante à tua poesia?

CM - A distinção entre influências e preferências, que faz Adoum, deve ser interessante, porém não a li. Penso que as influências operam mais a nível inconsciente, enquanto que as preferências são claramente conscientes e, portanto, possuem menos peso estas últimas do que as primeiras.

Às vezes uma influência poderosa nos torna conscientes dela; lutamos contra e em muitos casos saímos perdendo: a outra voz continua ressoando por trás da nossa. Às vezes é simplesmente um tom, um ritmo que se mantêm por um tempo e logo se diluem.

FM - Falando dos traços essenciais da lírica uruguaia, escreveu Domingo Luís Bordoli, no epílogo de sua Antología de la poesía uruguaya contemporánea (1966), que “a efusão tem nos dominado quase sempre mais do que a confissão”, não sem relembrar as palavras de Carlos Mastronardi, em seus “Comentários tranqüilos sobre a lírica uruguaia” (1928), quando afirmara encontrar os poetas uruguaios “muito senhores nas emoções radicais, menos senhores dos instrumentos críticos”. Efusão, confissão. Em que radica verdadeiramente a tradição poética de teu país?

CM - Não compreendo muito bem a dualidade estabelecida por Bordoli entre “efusão” e “confissão”. A poesia confessional acaso não é fortemente emotiva, efusiva? Posso te dizer que não creio que seja esta a linha predominante na poesia uruguaia atual, que me parece muito mais intelectualista. Mesmo no caso de uma poesia muito centrada no “Eu”, como a de Idea Vilariño, este “eu” se expressa com uma lúcida objetividade, sem cair em transbordamentos efusivos ou no caráter anedótico da confissão.

FM - Muito me alegra uma referência tua acerca do lastimável em que consiste a conhecida falácia de Mallarmé : “não se fazem poemas com idéias e sim com palavras”. É verdadeira - e me parece algo evidente - tua observação: “Não há dualismo entre o conceitual e o formal”. Não resistem as palavras desgarradas de seu sentido. Não resiste a nada o signo esvaziado de seu significado. Uma coisa é a técnica, outra a interrupção dos sentidos (ainda que em nome dessa mesma técnica). O que te parece essa nova aventura de alguns poetas transplatinos, entre eles o uruguaio Roberto Echavarren, em torno de uma poesia neobarroca (neobarrosa, como pretendia o argentino Néstor Perlongher)?

CM - Quanto ao chamado neo-barroquismo, pude comprovar que certos poemas de grande obscuridade expressiva resultavam muito atrativos aos jovens. Estou me referindo a uma parelha de poemas desse tipo, pertencentes a um jovem poeta, Alvaro Ojeda, e que li em uma reunião na qual se falava das novas tendências poéticas em nosso país.

Minha própria poesia segue um caminho diferente, pois continuo cuidando para que o tom do poema não se afaste demasiado daquele de uma conversação.

Penso que a diversidade de tendências permite a exploração em direções diferentes, de maneira que resulta benéfica.

FM - Gostaria de falar um pouco mais sobre tua afirmação acerca da “frialdade da pessoa que propõe o tema” na criação poética. Em tua opinião “o tema está desconectado de todo sentido”. Se pensarmos em tua própria poesia, quais os temas obsessivos, aqueles que te perseguem sempre?

CM - Li em algum lugar - não lembro onde - que o poeta não escreve “sobre um tema”, mas sim “a partir” dele, ou seja, a partir de uma experiência viva na qual se vê imerso. É certo que o viver uma experiência com intensidade não é garantia alguma da excelência do poema; há toda uma tarefa de passagem do plano não-lingüístico ao lingüístico, na qual se produz uma espécie de pressão sobre a linguagem, para que as palavras, ao organizarem-se de certa maneira, sejam mais reveladoras.

Ao ler um poema é que se faz o caminho de regresso de um plano a outro. A linguagem poética, como toda linguagem, segue sendo uma ponte, um meio através do qual algo que não é ele mesmo se transluz.

Não fosse assim, se a linguagem poética fosse “auto-referente”, como pensa Jakobson, não valeria a pena escrever ou ler.

Amar as palavras em si mesmas é como estar enamorado das notas em si mesmas, no caso do músico. A música nos leva além dela mesma - não sabemos onde - e o mesmo se dá com a poesia.

FM - Sigamos com os temas. Um deles: a morte. Teu livro Destrucciones (1986) encontra-se pautado pela morte de teu filho. Outras mortes te foram muito dolorosas: tua mãe, teu pai, teu irmão menor. Há em Sartre uma referência à importância vital da consciência da perda (ele mesmo dizia que a liberdade nasce do desamparo). Até que ponto a escritura deste livro enriqueceu tua poesia e teu próprio ser?

CM - Há algo de impudico nessa “passagem à linguagem” de que falávamos, quando o que ocorreu é tão terrível que não se permite tocar pelas palavras. É insuportável a idéia de se fazer literatura a partir daí. Teríamos que nos calar em definitivo, porém como nos vemos impelidos a escrever damos então “muitas voltas” ao redor do intocável. Essas voltas são Destrucciones. Claro que não se tratou meramente de uma técnica; o certo é que se começa a sentir o dito de Quevedo: “E não achei coisa em que por os olhos / que não fosse lembrança da morte”.

FM - Dois outros poetas igualmente importantes de tua geração: Washington Benavides e Marosa di Giorgio. Em livro intitulado Contra el silencio (1989), destaca Graciela Mántaras Loedel a presença do maneirismo como estilo artístico na literatura uruguaia, sobretudo aquela herdeira da crise econômica e política dos anos 70. Graciela fala também de uma crise espiritual e da “vivência consciente e angustiada da alienação coletiva” por que passaram os poetas de tua geração. O que pensas acerca disto do maneirismo? Que prejuízos verdadeiramente teria causado esta era de crise?

CM - Benavides e Marosa di Giorgio são muito diferentes; não creio que possam ser colocados sob um rótulo comum. Ambos elaboraram uma voz própria reconhecível em cada poema. É difícil julgar sobre o possível caráter “maneirista” de certos autores e também resulta difícil avaliar o peso da “década do silêncio” sobre eles.

Percebo naturalmente o caráter experimental, diríamos, da poesia de Enrique Fierro, Eduardo Milán, Amanda Berenguer, entre outros, porém os traços comuns - se existem - são escassos.

FM - Fala-nos um pouco de teu encontro com Washington Benavides e Tomás de Mattos em Tacuarembó, a conferência a três vozes que ocorreu no Liceu Departamental.

CM - Essa mesa-redonda versou sobre o tema da criação literária e ali debatemos o conceito de “inspiração” e outros similares. Também se falou sobre a relação entre a realidade histórica e a fantasia, no caso do romancista. Outro ponto que recordo é a declaração de De Mattos sobre a origem do conto “Mujer de Batoví”. Ele sentiu que esse conto já estava em germe ao perceber um objeto, um utensílio de cozinha sobre uma mesa (tratava-se de uma colher, imobilizada por um resto solidificado de comida, uma das coisas vistas ao percorrer a casa de uma mulher assassinada anos atrás). Este relato coincidiu com o que havíamos afirmado sobre a necessidade de viver algo com intensidade, antes de passar ao plano lingüístico. Não se trata de “propor um tema”, mas tampouco se trata de encerrar-se em um jogo lingüístico que elimina a dimensão vital das palavras.

FM - Há novos planos e compromissos com a linguagem poética?

CM - Minha atividade atual tem a ver com a preparação de um livro e com a tradução da poesia de William Carlos Williams. Suas reflexões sobre o ato de escrever me resultam muito interessantes. Compara-o com o ato de respirar enquanto se caminha, uma ação na qual às vezes há que se deter, mudar a marcha, retomar um ritmo, tudo conforme as vicissitudes da caminhada. Seus poemas possuem essas “mudanças de respiração” muito perceptíveis.

Interessa-me também muitíssimo a tradução da poesia neo-helênica: Kaváfis, Seferis, Elytis, Ritsos. Há muitos anos descobri este idioma, foneticamente tão vizinho dos nossos.

 

 

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CIRCE MAIA
(Montevideo, 1932)

 

Obra poética

Plumitas. Edición del autor. Montevideo. 1944.
El tiempo. Montevideo. 1958.
Presencia diaria. Montevideo. 1964.
El puente. Montevideo. 1970.
Cambios, permanencias. Ediciones de la Banda Oriental. Montevideo. 1978.
Dos voces. Ediciones de la Banda Oriental. Montevideo. 1981.
Destrucciones. Ediciones de la Banda Oriental. Montevideo. 1986.
Superficies. Ediciones de la Banda Oriental. Montevideo. 1990.

Entrevista originalmente incluída em edição fora de mercado de Escritura Conquistada (1998). Contou ainda com a seguinte reprodução: Diario de Poesía # 57 (Buenos Aires, outono de 2001).

 

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