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pedro lastra

 

Pedro Lastra: do espelho à multiplicação das vozes

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - Como nos lembra o uruguaio Eduardo Milán, “todo poeta vem de outro poeta ou talvez de uma amálgama de poetas”. Quais as principais fontes de sua poesia?

PL - A palavra amálgama remete muito pertinentemente à palavra espelho. Agora mesmo penso em um exemplo com o que se costuma ilustrar seu significado nos dicionários: “A amálgama do estanho serve para azougar os espelhos”. Do espelho, então, à multiplicação de figuras que, neste caso, são vozes (o que livra os espelhos da condição de abomináveis que lhes atribui Borges em uma página famosa). A palavra fonte, por outra parte, conota ao mesmo tempo origem, movimento, transformação: fluências, em suma, difíceis de descrever.

Porém a insistência em certas re-leituras ou regressos poderia contribuir a fixá-las, se alguém se pergunta por que retorna a esses lugares, por que são lugares privilegiados. E mesmo que centralmente se trate da frequentação de espaços poéticos (Garcilaso, Fray Luis, Quevedo, Villamediana; Nerval e Desnos; T. S. Eliot; Pessoa; Darío, Borges, Vallejo ; meus amigos incluídos no número de Inti que editamos com Luis Eizaguirre), para mim há também outras recorrências memoráveis: as crônicas coloniais; alguns novelistas como Kafka, Calvino, Buzzati; a pintura, a música.

FM - Jorge Rodríguez Padrón nos chama a atenção para a “inteligente coesão” dos fragmentos (“estilhaços de linguagem”, diria Barthes) de que é formada sua poesia, salientando ainda a “fluida simplicidade e extraordinária concisão” de seus versos. De uma maneira geral, acredita que cada poeta eleja (ou seja por ele eleito) um único tema para sua poesia, sendo tudo o mais variações em torno a este tema central?

PL - Creio que sim, porém o registro dessas variações pode ser muito amplo (penso em César Vallejo  e em Enrique Lihn, dois casos exemplares neste aspecto). Eu giro ao redor de duas ou três idéias fixas: a memória e o sonho, esses enigmas. Estes são meus estilhaços, não somente de linguagem como também de realidade.

FM - Joseph Conrad acredita que ao escrever sobre o mundo, por mais realismo que se ponha, resultaria sempre em uma história fantástica, pelo fato de o próprio mundo em si ser absolutamente fantástico. Também pensa assim? Toda literatura é fantástica?

PL - Conrad é um autor que leio freqüentemente, e muitas vezes me indaguei pelas razões de tal predileção. Resumo-as na expressão da estranheza, que em seus relatos reverbera sempre, por assim dizê-lo, de maneira tão inquietante. A eficácia consumada de Conrad para transmitir esse sentimento de estranheza e incerteza do real deve-se ao que você recorda aqui; porque o que se lê em sua obra é, mais do que uma suspeita, uma convicção do caráter enigmático, contraditório, misterioso das causas da conduta humana e da relação do homem com o mundo. Tem que haver sentido a literatura como uma irrealidade ao quadrado: o universo imaginado, e sustentado por puras palavras… um deslize nelas e o que se quis dizer é outra coisa (há um exemplo extraordinário disto em O agente secreto, quando Winnie conta ao enamorado camarada Ossipon o assassinato de seu marido, que ela praticou com uma faca de cozinha: como Ossipon acredita e quer seguir acreditando em algo distinto, porque está em outra região da realidade, essa cena é um mal-entendido extremo, grotesco e trágico a um só tempo). Karl Bütler chama deixis en fantasma a essa particularidade da literatura, através da qual um narrador leva seu ouvinte ao reino do ausente: “O que é guiado em fantasma - diz Bütler - não pode seguir com o olhar a flecha de um braço com o indicador estendido pelo falante, para encontrar ali o algo; não pode utilizar a qualidade espacial de origem do som vocal para encontrar o lugar de um falante que diz aqui; tão pouco pode ouvir na linguagem escrita o caráter da voz de um falante ausente, que diz eu”.

Se tudo isto não se reconhece como fantástico, não sei com que nome se poderia designar com maior exatidão.

FM - Penso neste seu apetite voraz para a leitura - você mesmo diria: “pode ser um desvio culpável porque queria ter sido bibliotecário” - e me lembro de uma afirmação de Borges em que dizia: “Que outros se envaideçam daquilo que escreveram; quanto a mim, me envaideço daquilo que li”. Seria esta também a sua relação com a leitura?

PL - Amiúde se tem apontado o ceticismo de Borges e sua precisão para manifestá-lo. Eu me declaro um simples aprendiz dessa e de outras lições suas (uma de minhas “Noticias breves” diz: “Borges, que razoável me parece o que você escreve / para nos acostumar ao desencanto do mundo”). É possível também que se queira fechar a porta ao desencanto abrindo a dos livros, e que isto pareça mais gratificante que a própria escritura.

FM - Você fundou e dirigiu durante seis anos a coleção “Letras de América”, na Editorial Universitaria, em Santiago, editando ali não somente poetas chilenos como também alguns nomes importantes da poesia hispano-americana, tais como o cubano José Lezama Lima  e o peruano Carlos Germán Belli. Até que ponto tal esforço editorial teria servido para aproximar a literatura desses povos que, embora falando o mesmo idioma, tão à distância se mantêm entre si?

PL - O propósito era este: tratar de encurtar as distâncias. Tentei, inclusive, que os estudos preliminares para as obras eleitas fossem escritos por ensaístas ou críticos de uma nacionalidade distinta da do autor. Não avancei muito nisto, porém algo conseguimos: José Miguel Oviedo escreveu um bom prólogo para o livro de Ernesto Cardenal; Marta Traba apresentou um livro de contos de Hernando Téllez; eu mesmo escrevi uma notícula para um livro de Augusto Roa Bastos; os Asedios a García Márquez, Carpentier e Vargas Llosa incluíram trabalhos muito variados. Porém foi só o começo de uma empresa que, como sucede amiúde na América Hispânica, dispunha de um apoio precário (eu contei sempre com o de Eduardo Castro, gerente da Editorial Universitaria). Um projeto que frustrou-se totalmente em 1973. Tínhamos entusiasmo, mesmo assim, para pensar que as utopias não eram irrealizáveis. E, se pudesse, voltaria a tentar.

FM - Em 1980, em uma de suas muitas viagens ao Chile, você se referia a uma “força intelectual considerável” ali existente, mesmo a despeito do quadro político reinante, e que já então se definia como geração. Quais as relações entre suas palavras e a denominada “geração emergente”, já naquela época também conhecida por “geração dispersa”?

PL - Essas denominações me pareceram sempre - e agora bem mais que antes - muito imprecisas. Todas as gerações são emergentes em algum momento e, em seguida, deixam de sê-lo. Não sei a quem ocorreu designar a um grupo literário uma etiqueta que não é mais do que “inanidade sonora”. A outra expressão é ainda menos feliz. Gerações dispersas foram todas as que atuavam no momento do golpe militar no Chile. Não houve uma geração dispersa: houve uma comunidade cultural, e nacional, dispersa. No exílio coincidiram Gonzalo Rojas (1917), Luis Domínguez Vial (1933), Oscar Hahn (1938), para citar representantes de três promoções distintas, e que desde aquela época trabalham no estrangeiro. Ao mencionar uma “força intelectual”, cuja existência no país me parecia admirável em tais condições, eu pensava em certa gente jovem que, dispersa ou não, estava fazendo bem o seu trabalho: em poesia, Juan Luis Martínez, Diego Maquiera e Roberto Merino, por exemplo; havia também jovens que publicavam pequenas revistas, ou volantes poéticos, ou os que organizavam oficinas literárias, tudo isto em meio a grandes dificuldades. A conduta desses jovens contribuiu, creio eu, para assegurar a continuidade da tradição poética no Chile, algo que se adverte hoje muito claramente.

FM - Gostaria que falássemos um pouco sobre Vicente Huidobro. Sempre li seus últimos livros (Ver y palpar e principalmente El ciudadano del olvido) como sendo mais fundamentais do que todo o restante de sua vasta obra (por se tratarem de uma consolidação mais definitiva de sua poética); contudo, a crítica reparte sua unanimidade em enaltecer a fase inicial (“creacionismo”) e Altazor, o que sempre me deixou em suspenso. Recentemente li uma entrevista com outro importante poeta chileno, Gonzalo Rojas, na qual ele comunga com minhas impressões a respeito da poesia de Huidobro. Esta seria também a sua opinião? E aqui acrescento: há progresso na poesia?

PL - Começa a se abrir caminho a uma revalorização do último Huidobro, esse que se poderia chamar o Huidobro da intensidade, para distingui-lo do Huidobro da novidade, o dos anos 16 a 18 (ao meu modo de ver, mais importante para a história da poesia do que para a poesia em si mesma). El espejo de agua, Horizon carré, Poemas árticos e Ecuatorial envelheceram, o que não é raro de acontecer com as novidades, sem menosprezo pelo interesse que suscitaram em seu momento. Lido e escutado desde Altazor e Temblor de cielo até seus últimos poemas, é possível subscrever sem reservas o juízo de Octavio Paz : “é o oxigênio invisível de nossa poesia”. Para chegar a isso talvez tenha sido necessária a etapa das “novidades ruidosas”, e por ali se pode esboçar uma resposta à formulação final de sua pergunta: ler a obra de Huidobro como um processo, no qual vamos nos encontrando com autores distintos. A mim me importa, e muito, o poeta que escreveu desde Altazor até seus intensos poemas da década de 40.

FM - Stefan Baciu, em sua Antología de la poesía surrealista latinoamericana (1981), tece fartos elogios ao grupo Mandrágora, do que discorda inteiramente Gonzalo Rojas, dizendo tratar-se de um exagero, uma vez que tal grupo não passou de um pseudo-mito. Segundo Rojas, “o chamado Surrealismo ortodoxo do Chile me parece algo inventado, não teve nada de necessário ou fatal”. O que lhe parece esta polêmica em torno do Surrealismo chileno?

PL - A opinião de Gonzalo Rojas é válida, e poucos deixam de compartilhá-la hoje no Chile. Gonzalo participou inicialmente desse grupo, e dele se afastou quando advertiu o que aponta em sua citação: o que não ocorre certamente com outros surrealistas hispano-americanos cuja obra foi marcada vivamente por essa experiência: Octavio Paz  no México; César Moro  e Emilio Adolfo Westphalen no Peru; Enrique Molina  na Argentina. Folhear agora a revista Mandrágora é decepcionante. Os anos diluíram essa escritura, tornaram-na quase invisível: restam algumas linhas que a aproximam à “letra” e ao “gesto” surrealistas, facilidades das quais em seus melhores momentos escapa Braulio Arenas, um escritor verdadeiro. Outra personalidade de Mandrágora superior à sua obra foi Teófilo Cid, uma lenda entre nós (na condição de que não se leiam seus poemas nem seus relatos). Minha geração o admirou por boas razões - sua inteligência literária e sua informação eram notáveis -, e até por um livro de contos que quase ninguém havia lido e que cada vez resulta mais ilegível: Bouldroup. Porém Teófilo Cid foi uma personagem tão fascinante quanto patética, cuja vida teria que ser escrita por alguém dotado da penetração e das destrezas de Enrique Lihn ou Jorge Edwards.

O Surrealismo deixou sua marca no Chile, certamente (Nicanor Parra  disse em 1958 que o anti-poema não era outra coisa “que o poema tradicional enriquecido com a seiva surrealista”). Por isto, me parece melhor orientada a sugestão de Baciu de reler certo Huidobro a partir desta perspectiva. Eu creio que Temblor de cielo, entre outros textos huidobrianos, nos reserva ainda muitas surpresas. E o mesmo teríamos que dizer de Rosamel del Valle.

 

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PEDRO LASTRA
(Chile, 1932)

Obra Poética

Noticias del estranjero. Premiá Editora. México. 1979.
Cuaderno de la doble vida. Ediciones del Camaleón. Santiago. 1984.
Travel notes. La Yapa Editores. Maryland. 1991.
Noticias del estranjero. Editorial Universitaria. Santiago. 1992.

Entrevista originalmente publicada na revista Alpha # 11 (Chile, dezembro de 1995). Contou ainda com a seguinte reprodução: revista Códice # 2 (Universidad de Texas, El Paso, 2000).

 

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