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Raúl
Henao: celebrações do mundo possível
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - Tensão entre essencialidade do ser e a fragmentação
de sua aparição, a poesia é a nossa maneira de caminhar ao
encontro das coisas e dos seres. Elias Canetti afirmou certa vez
que “o poeta está mais próximo do mundo quando carrega em seu
íntimo um caos”. O que nos revela a poesia através de Raúl
Henao?
RH - Minha idéia da poesia aproxima-se muito do famoso
“Ich Ruhmer” (eu celebro) que aparece em um poema tardio de
Rainer M. Rilke, o poeta tcheco-alemão. Uma concepção que tem a
magia de evocar no tempo o âmbito cultural da Grécia Clássica,
onde a poesia era entendida como um ato demiúrgico que tornava
visível e completava a criação divina, ao fazê-la manifesta e
dar testemunho - por
assim dizê-lo - de sua
beleza surpreendente e enfeitiçante.
Em consonância com o anterior, se bem que é certo que
admiro profundamente a obra de alguns poetas em que predomina, de
alguma maneira, a “negação” do mundo, como seria o caso de
Baudelaire
, Lautréamont, Artaud,
Daumal ou Ramos
Sucre,
confesso que só posso apreciar plenamente aqueles que o
“aceitam” ou o “afirmam” em sua beleza sobrenatural, no
que pese o lastro de horror e estranheza que traz eventualmente
consigo a condição humana. A este respeito menciono, entre os
grandes poetas-místicos orientais, Hafiz, Rumi, Kabir ou Bashô;
Goethe, Novalis, Nietzsche ou Rilke, no orbe alemão; Blake,
Whitman, Juan L. Ortiz e Enrique Molina
, no
anglo-hispano-americano.
FM - Diz Lezama Lima
que
“a história da sensibilidade e da cultura não é um segmento,
mas uma mágica continuação”. Neste sentido, falar de influências
é o mesmo que falar de conjugações, geminações, impregnações.
Concorda com isto? Há uma escritura (esta “catástrofe que se
goza”, segundo o chileno Enrique Lihn) original, iluminada a
partir de um fluir mágico de efeitos?
RH - O universo é essencialmente relação, interpolação
(ou polaridade) e, em última instância, um eco de si mesmo. Nada
permanece intacto, separado, como tábula rasa ou fragmento que não
pressuponha um todo, uma totalidade irredutível e prefigurada à
qual não se pode renunciar nem mesmo na morte, que segue sendo
relação, interpolação. Cada ser humano, animal, vegetal ou
mineral, considerado de maneira isolada, constitui apenas peças
ínfimas da relojoaria celeste, motas de pó no raio de sol dos
mundos… E não os reveste outra identidade ou realidade senão
outorgada por esse todo ou totalidade misteriosa e inescrutável.
Sendo assim, para um escritor (ou poeta) falar de influências,
de afinidades - por que
não de diferenças e divergências? -
pode resultar um tema banal ou sedutor, como queira, porém
igualmente labiríntico e inesgotável. No que me concerne, fiz
oportunamente profissão de fé como leitor, antes mesmo do que
como escritor. Isto em meu primeiro livro, Combate
del carnaval y la cuaresma (1973), onde me declarava culpado
de numerosas influências literárias e extra-literárias, em que
somente a enumeração me levaria - no melhor dos casos - a
escrever algo parecido com Os
livros em minha vida, do norte-americano Henry Miller - uma obra, além do mais, admirável e fascinante sobre as “influências”
literárias.
Quero referir-me -
como na pergunta anterior -
a essa linha negra ou visionária que parte dos grandes poetas-místicos orientais
(hindus, chineses, japoneses, persas e árabes), passando pelos
neoplatônicos gregos, os trovadores provençais e os imaginantes
herméticos medievais e renascentistas, para concluir nos grandes
românticos alemães e nos poetas simbolistas e surrealistas
franceses. Estas seriam, ao menos, as influências que reconheço
e que me resultam familiares. Também poderia falar das influências
ocultas ou inconscientes, as que ignoramos e desconhecemos, e
aquelas que se querem ignoradas e desconhecidas deliberadamente,
como parece haver sucedido no caso particular de Arthur Rimbaud
: qualificado de “místico
em estado selvagem” (Paul Claudel), “mago desenganado”
(Pierre Debray), “poeta vidente” (Rolland de Reneville) ou
“poeta supramental” (Sri Aurobindo) -
em vista das numerosas leituras de índole “ocultista” que
fizera na Biblioteca Pública de Charleville -,
enquanto outros autores -
entre eles o poeta espiritualista venezuelano Juan Liscano -
somente querem ver nele um eterno adolescente, um patife ou voyeur, que transpõe para a linguagem poética suas primeiras
experiências e escarcéus erótico-onanistas.
Estes últimos autores aparentemente desconhecem a opinião
de René Guénon -
mestre incontroverso do pensamento tradicional ou iniciático no
Ocidente -, quando afirma que os poetas, opcionalmente, podem oficiar como
representantes “involuntários” de um centro de poder
espiritual comunicando-nos a essência de uma doutrina “não-humana”,
como ocorre, de maneira verossímil, durante a Idade Média, com
os criadores dos Livros de Cavalaria, que têm por tema a lenda do
Rei Arthur e a busca do Santo Graal.
FM - Há uma dedicação intensa sua ao estudo do
Surrealismo. Entre outros, são notáveis os seus escritos sobre César
Moro
, René Daumal, Aldo
Pellegrini
. Diria que há uma
identidade possível na poesia surrealista latino-americana?
RH - Se a América Latina é ainda Ocidente -
uma parte marginal e excêntrica deste, como afirma Octavio Paz
, porém sempre Ocidente -,
e se o Surrealismo - ao
dizer de Walter Benjamin -
constitui, em definitivo, “a última instância da inteligência
européia”, creio desnecessário acrescentar que nos concerne de
perto e faz parte de nossa “identidade”, mesmo que isto
incomode e moleste muitos de nossos teóricos terceiro-mundistas e
americanistas ao estilo do cubano Alejo Carpentier que, em benefício
de suas teses sobre o “autóctone” americano (que ele chama de
“real maravilhoso”), não vacilaria em apropriar-se e usurpar
o pensamento de Pierre Mabille -
o mais original, embora desconhecido, dos ensaístas do
Surrealismo francês -,
silenciando-o abertamente no “prólogo” famoso que escrevera a
respeito para sua obra El reino de este mundo.
No plano puramente literário, esse encontro ou correspondência
do Surrealismo e da idiossincrasia latino-americana cristaliza-se,
na minha maneira de ver, na aparição de duas antologias poéticas
magistrais: a Antología de
la poesía surrealista de lengua francesa (1961) -
estudo preliminar e tradução de Aldo Pellegrini
, o multifacetado poeta
argentino que já em 1926 fundara o primeiro grupo surrealista de
fala espanhola, cuja importância e relevância não foi ainda
avaliada em toda a sua extensão -
e a Antología de la poesía surrealista latinoamericana (1974) -
seleção e apresentação do poeta e crítico romeno (no exílio)
Stefan Baciu. Esta última, uma antologia de verdade estelar e notável,
mesmo que nos sigam parecendo fortuitas e discutíveis as razões
que teve seu autor para omitir os poetas do grupo argentino Juan
Antonio Vasco e Juan José Ceselli (o prestígio deste último
cresce com o tempo), o antilhano Aimé Cesaire e a totalidade do
grupo de poetas surrealistas de São Paulo. É também irrelevante
a empresa (que se explica somente através de uma ótica
formalista e academicista) de circunscrever ou delimitar no tempo -
empresa, por sinal, nada nova -
o alcance do movimento surrealista, mesmo quando seu próprio
criador e fundador já o definira de uma vez por todas como “um
estado de espírito que tem se manifestado esporadicamente em
todas as épocas e todos os países” (Entretiens
1913-1952).
Situando-nos no panorama da atual poesia hispano-americana
(deixo de lado, neste momento, o Brasil, sobre o qual não possuo
suficiente informação), a poesia de tendência surrealista
resulta plenamente identificável pelo empenho posto em conciliar
acaso e destino, sonho e realidade, razão e des-razão, amor e
liberdade, invenção e revelação, e… por que não? ARTE e
VIDA: aventura luciferina, festa verbal, que não desdiz o melhor
da condição humana.
Fica claro que a poesia latino-americana busca, além
disso, conciliar as antinomias raciais ou racistas,
constituindo-se na linguagem daquela “raça cósmica” com que
sonhara o mexicano José Vasconcelos, no início do presente século.
Isto, ao menos, se deduz da asseveração do grande Pablo Antonio
Cuadra
, da Nicarágua (grande
como homem e como poeta), manifestada ultimamente na revista
venezuelana Poesía -
por sinal uma publicação que não se caracteriza por suas
simpatias surrealistas -, em entrevista realizada justamente por
ti, de que “o americano não pode expressar o índio que leva
dentro de si a não ser que recorra à aventura lingüística e onírica
do Surrealismo”.
FM - Embora os integrantes de Piedra y Cielo tenham feito
algumas incursões às fontes teóricas e líricas do Surrealismo,
o certo é que nenhum deles pode ser considerado um surrealista.
Também entre os poetas da geração posterior (Mito) não se
localiza nenhum surrealista (não há dúvida em afirmar que Jorge
Gaitán Durán
transcende
o Surrealismo). No entanto, em países como México, Peru, Chile,
Argentina - para continuarmos falando apenas da América Hispânica
-, a presença do Surrealismo foi extremamente essencial e
renovadora. A que atribuir o fato de que a poesia colombiana tenha
sido tocada apenas tangencialmente pelo Surrealismo?
RH - Parodiando o libertador Simón Bolívar, vale dizer
que a Colômbia é um quartel com a fachada de uma universidade…
A violência é o deus secreto dos colombianos. Isto se sabe desde
José Eustasio Rivera
, o autor de La
vorágine, um dos gestores ou genitores espirituais da cultura
colombiana. Ante certeza tão irrevogável e malfadada, os poetas
colombianos terminam por se refugiar prematuramente em uma
linguagem de ouropel e encobrimento, em uma retórica sentimental
e falsamente poética, chamada a exorcizar, de alguma maneira, tão
infausta e espectral realidade… À margem da qual se permitem os
jogos pirotécnicos de uma poesia contestatória ou política que
imediatamente desmentem as vidas vulgares, conformistas dos
autores de turno, inscritos na burocracia cultural, na docência
universitária ou nos meios de comunicação oficiais e
massificados.
Em tal sentido, mal se poderia assinalar uma incidência ou
confluência da poesia surrealista, que busca antes de tudo a
emancipação do homem na ordem individual e social, aproximando,
dentro do possível, a arte e a vida, como disse antes.
Pelo que conheço, a única incursão no Surrealismo que se
permitem os integrantes de Piedra
y Cielo centra-se na aparição do livro de Carlos Martín (Hispanoamérica: mito y Surrealismo), ensaio e antologia tardia dos
poetas surrealistas latino-americanos, bem delineada e concebida,
em termos gerais, mas que acrescenta pouco ao conhecimento do tema
ali exposto. Algo semelhante dá-se com a obra de Jorge Gaitán
Durán
(de
inegável profundidade e originalidade), cuja coincidência com o
Surrealismo se circunscreve à obra do Marquês de Sade,
interpretada à luz do pensamento mítico-erótico de Georges
Bataille.
É certo que posteriormente os poemas do Nadaísmo
deixam transluzir certa influência surrealista que, ao início da
década de 60, contribui para sustentar o interesse dos leitores
pelos manifestos e publicações deste grupo; porém logo em
seguida se adverte que tal influência - além do mais superficial
e mal assimilada - cede terreno à mais irrefreável postura
exibicionista e publicitária, neste sentido corroborando os
avatares adversos de um país sem outra “identidade” histórica,
no momento presente, que o denominado “clientelismo” (a
impostura unida ao arrivismo), no político e no cultural.
FM - É verdade que os poemas se explicam por si mesmos,
bem como o poeta é um homem renovado a cada novo poema que
escreve. Ao tocar a essência da linguagem o poema toca a própria
essência humana. Duro combate entre o real e o imaginário, através
da poesia o poeta se vê multiplicado em infinitos eus. Ao
referir-se à inspiração, o poeta Robert Graves, em seu livro The
white goddess (1948), questiona duramente a escritura automática,
o que ocasiona uma crítica em seu livro El partido del diablo
(1989). Qual o alcance da escritura automática no sentido de
trazer novos valores significativos à poesia, a essa manifestação
estética do absoluto?
RH - A alusão compartilhada que fazes a The
white goddess, de Robert Graves, e El
partido del diablo, meu livrinho de poemas e crônicas literárias,
no contexto de uma série de reflexões sobre a linguagem poética,
me traz à memória algo que deixei de lado quando tentei contar
por escrito meu encontro ou experiência com a amanita muscaria ou matamoscas,
o cogumelo mágico de Alice
no país das maravilhas, o fungo alucinógeno dos xamãs
siberianos, uma das “plantas dos deuses”, como a denominam
Richard E. Schultes e Robert Hoffman, em um monumental estudo
sobre o tema - na minha opinião -, por antonomásia de nosso
tempo: o tempo dos Assassinos ou Hascheshinos (na dupla e
significativa acepção deste termo), antecipado perfeitamente por
Arthur Rimbaud
. Refiro-me a certo
lapso ou período de afasia ou esquecimento
total da linguagem, vivido no transcurso de tal experiência,
algo limítrofe no pânico e na angústia que, por um instante
intemporal, levou-me a entrever o lado incriado, enigmático,
silencioso do universo que nos rodeia. Ao recuperar a “graça”,
o “dom” da linguagem, pude corroborar na própria carne aquela
intuição genial, manifesta nos mitos cosmogônicos pré-colombianos,
de que a linguagem é simultânea e consubstancial à condição
humana e, em certa medida, a precede; ou, de outra maneira: que o
universo é criação e feitura da palavra, ao menos no que toca
à espécie humana.
Nessa escala, a “escritura automática”, definida por
Breton como “a liberdade humana reavivando-se na perfeita
identificação do homem e sua linguagem” (ao que acrescenta
expressamente que “o segredo desta identificação encontrava-se
perdido até a chegada do Surrealismo”), não seria senão
confirmação de todo o anterior: a experiência inefável do
aspecto oceânico, impessoal, metafísico, cosmogônico da
linguagem, atuando e manifestando-se “sem a intervenção
reguladora da razão e alheia a toda preocupação estética ou
moral”, como sugere o Primeiro
manifesto do Surrealismo.
Esse íntimo religar-se
do homem e sua linguagem seria, por outro lado, o que Robert
Graves assinala - desde um enfoque puramente mítico - como
“inspiração poética”: uma tonalidade ou expansão da consciência,
um estado particular de atenção que se alcança dificilmente e
em momentos privilegiados. Tanto Graves como Breton (El
mensaje automático e Entretiens
1913-1952) concordam em falar, a este respeito, de certa
ascese, desapego ou desinteresse, necessários para sua prática
ou consecução literária… E que, sem dúvida, a tornam inacessível
aos conventinhos acadêmicos e jornalísticos, aos quais não
resta outro remédio senão tratar, a todo custo, de desprestigiá-la,
negá-la ou simulá-la. A escritura automática simulada resulta fácil
de detectar porque carece de poder de evocação e ressonância na
esfera das emoções. É letra morta.
FM - O próprio Robert Graves considera a “carência de
segredos” um dos problemas centrais da poesia moderna, fazendo
com que essa poesia deixe de ter sentido poético. O que pensa a
este respeito?
RH - O sentimento do sagrado (porque é mais um sentimento
do que uma idéia ou conceito) nasce do assombro e arroubamento de
estarmos em um mundo de procedência enigmática e ao qual
pertencemos como lhe pertencem as montanhas, os rios, as
borboletas ou as flores, cuja ilimitada beleza e multiplicidade de
formas se reiteram em um arquétipo que diríamos eterno.
A poesia, pois, como anotei em resposta à tua pergunta
inicial, não é outra coisa diferente que o assentimento com esse
fato de natureza milagrosa e surpreendente, o testemunho ajuizado
de que, no que pese todo o precário e imperfeito que entranha a
condição humana, estamos no melhor dos mundos possíveis, um
mundo literalmente DIVINO.
Desgraçadamente, o manto judaico-cristão da cultura
ocidental - extremamente dualista e maniqueísta - impede apreciar
esse ponto de vista onde o sagrado e o profano coincidem e se
equilibram, sem que um implique a negação do outro. A isolada
concepção inicial de um Deus pessoal, criador (que reúne todos
os atributos e perfeições possíveis) separado de sua criação
(muito decaída e contingente), implica, a curto e longo prazo, o
antagonismo mais irredutível - insucesso que se torna evidente a
partir do primeiro milênio de hegemonia cristã -, com uma conotação
ascético-espiritualista cortada e desligada do mundo exterior, até
chegar ao nosso tempo - finais do segundo milênio -,
caracterizado pela entronização do niilismo mais descarnado e
devastador… um niilismo que, com a idéia do criador, termina
por negar também a criação, produzindo o efeito de um ciclone,
a seu passo pelo âmbito humano e ecológico do planeta.
Podemos concluir então que as culturas onde predominam o
sagrado e o profano em forma antinômica e excludente de seu
oposto, terminam por negar e excluir também a poesia e o poeta…
ligados, desde tempos imemoriais - e nas mais diversas culturas -
ao sagrado (porém a um “sagrado” que não exclui o
“profano”). Recordo, a respeito, a definição que dava Platão
da poesia: “Essa coisa leviana, alada e sagrada”; e que, não
obstante, no contexto de uma cultura militarista como a romana,
Marco T. Ciceron se permitia reclamar em foro a cidadania para o
poeta Arquias, alegando sua qualidade de personagem
“sagrado”… “porque os poetas parece que nos foram
confiados como por uma espécie de dom e presente dos deuses” (Defesa
do poeta Arquias).
FM - Concordaria com o espanhol José Ángel Valente, ao
afirmar que a poesia tende sempre a “tornar-se iniciação,
escola de poucos, palavra hermética”?
RH - A citação que fazes agora de J. A. Valente leva-me a
recordar um artigo publicado inicialmente na seção editorial da
revista A partir de cero
n.º 2 (1952), dirigida pelo poeta Enrique Molina
. O artigo - “A poesia
deve ser feita por todos” -
não aparece assinado, porém o tom soberbo, impertinente do
mesmo, nos faz pensar que se trata de um texto de Aldo Pellegrini
. Bem, pois tal texto se
ocupa em assentar uma muito clara e radical diferença entre a
famosa frase de Lautréamont - que, como bem sabes, é uma das
maiores “consignações” do Surrealismo - e sua paráfrase
acomodatícia, pela qual quiseram mudar todos os “impudicos
niveladores por baixo”, os “folhetinistas demagógicos”
(Breton): “A poesia deve ser feita para todos”. Como assinala
Pellegrini, na primeira “a poesia é concebida como a mais alta
atividade do espírito. Sua função se estende a toda manifestação
vital, enobrecendo-a, e nela devem participar todos os homens. É
uma concepção progressista e revolucionária”. Ao que
acrescenta o poeta argentino: “A poesia feita por todos é um
conceito de participação ativa e não quer dizer que todos os
homens escrevam poesia. O poético é uma exaltação dos valores
espirituais do homem no sentido mais geral possível, que chega a
condicionar uma conduta, em sentido da vida, uma alta
comunicabilidade, muito além das convenções.
Ao contrário - opina Pellegrini
-,
em ‘A poesia deve ser feita para todos’, o homem é
absolutamente passivo, simples receptáculo com lugar somente para
o mínimo, cesto de côdeas. Nesta concepção, duvida-se da
capacidade do homem para superar sua condição de sordidez, sendo
condenado eternamente a uma condição de escravidão espiritual.
A expressão ‘a poesia deve ser feita para todos’ é o
conceito mais profundamente reacionário; concebe o poeta como
eleito, coloca-o em um plano olímpico, do alto do qual, por
condescendência ou piedade, desprende-se da menor parte de sua
riqueza interior e a distribui em migalhas aos homens. É a
poesia-esmola, por oposição ao conceito enunciado por Lautréamont
de poesia-exaltação, na qual todos participam por igual no
grande feito universal da poesia, participam ao extremo,
confundidos no mesmo ato de criação”.
Em relação com o anterior, resulta explicável então que
a “mensagem” poética concomitante a referido ato de participação
e exaltação criadora pareça obscura, incompreensível ou hermética
no âmbito mumificado, massificado e alienado do mundo moderno.
Vejo, contudo, uma possibilidade de ampliar e enriquecer a
conotação - esotérica e alquímica - que encerra o
qualificativo de “poesia hermética”, estendendo-o à da
escritura que liberta o sentido e do sentido, ao mesmo tempo em
que explora a condição humana mesmo naqueles aspectos reputados
como anômalos, patológicos, ilegais ou repugnantes pelo modelo
social estabelecido.
Em tal sentido, não me parece ilícito retomar as
contribuições ao tema feitas ultimamente pela terceira geração
de estudiosos da psicologia arquetípica de C. G. Jung
-
como o primeiro Surrealismo, por exemplo, busca fortificar-se na
psicanálise freudiana. Penso, sobretudo, nas investigações
“herméticas” realizadas por Frances A. Yates, ou em Hermes
e seus filhos, esse inspirado e fabuloso trabalho (único,
talvez, na América Hispânica) de Rafael López-Pedraza.
FM - Há uma declaração sua que tem o peso de uma defesa
poética: “sou o poeta do eterno feminino”. Fale-nos um pouco
a seu respeito.
RH - Essa frase, amigo Floriano, que você tomou de uma
velha entrevista, de alguma maneira pretendia assinalar minha
pertinência a um universo fáustico
ao qual salva e redime o tema da mulher, que é, como bem sabe, em
sua acepção simbólica, a mediadora por excelência entre o
humano e o divino, a porta dos mundos visível e invisível, a
raiz amarga do sofrimento e da ilusão, porém ao mesmo tempo o
paraíso… perdido e recobrado uma e outra vez.
Em outro sentido, aderir ao “eterno feminino” é
recusar-se a aceitar a falsa segurança e independência que
proporciona a visão niilista e egocêntrica do mundo, professada,
entre outros, pelos poetas pederastas, salvo contadas exceções,
servidores (e correligionários) do poder de César… do estado
patriarcal - autoritário e repressivo - de nosso tempo.
Para um poeta moderno, testemunhar a favor da mulher a
homenagem que desde sempre lhe é devida - como o fizeram, em seu
momento, os trovadores de Minnesang e os Fiéis do Amor (aos quais
pertenceu Dante) -, é outra maneira de render homenagem e aceitar
plenamente tanto a vida como a morte. Preferir, à vida eterna,
“a eterna vivacidade” (Nietzsche).
FM - Em meio ao caos ideológico que o homem preparou para
si mesmo, me parece hoje inquestionável que o poder será sempre
abominável, quer em mãos da burguesia ou do proletariado. A
necessidade que temos agora (a espécie humana) seria a de
abolirmos o domínio das utopias que consumiram este século.
Enrique Gómez-Correa refere-se à urgência de se estabelecer
novas utopias. Já Silviano Santiago acha mais adequado falar em
contra-utopias. O único perdurável, contudo, é que caberá
sempre à Poesia revelar os caminhos (quase sempre à custa de
descaminhos), desventrar mitos, utopias, revoluções. Que papel
desempenha hoje o poeta em nossa sociedade?
RH - Enquanto a humanidade for filha do tempo não deixará
de sonhar e desejar; e o que é, afinal de contas, uma utopia senão
o desejo realizado não mais no indivíduo mas sim na
coletividade? O desejo premente, desassossegado de estar em
“outra parte”, já que, no momento, o tempo se apresenta como
carestia, condenação, exílio, solidão… “Any where out of the world”, nos diz Baudelaire
, o primeiro poeta moderno. E
não é outro o sentir de Arthur Rimbaud
em
Vagabonds (Iluminations…),
convocando, “além do campo cruzado por estranhas bandas de música,
os fantasmas do futuro luxo noturno […] apressados por encontrar
o lugar e a fórmula”… Esse lugar e essa fórmula que, apenas
entrado o século presente, conseguem encontrar os surrealistas,
ao conjugar em uma única consignação encantatória o pensamento
de Marx e Rimbaud: “transformar o mundo, mudar a vida”.
É certo, por outro lado, que o conteúdo flamejante,
convulsionário, desta mesma consignação - compêndio utópico
do pensamento de nossa época - continua ligado, de alguma
maneira, à concepção iluminista, decimonônica,
do “tempo retilíneo”, da qual nos fala Octavio Paz
(Corriente
alterna). Uma noção que variou sensivelmente, porque, na
atualidade, o tempo termina - como na célebre gravura de Goya -
por devorar seus próprios filhos (inclusive a utopia). É um
tempo no qual novamente devemos escutar e adivinhar em
cumplicidade do acaso, porque encerra um sentido e direção incógnitos
e caprichosos. Um tempo, enfim, que marcha afinado com a idéia
circular ou contrapontística concebida em culturas milenares,
como a hindu ou a indígena pré-hispânica, porém à qual ainda
falta se reconciliar com o frágil e inconstante do coração
humano, proclive a evadir-se no artificial ou fictício… Tal
como outrora o entenderam alguns poetas modernos e contemporâneos,
proscritos do “tempo retilíneo”, cujo espírito absolutista e
autoritário puseram em evidência ao apontar-nos, de maneira
peremptória, aquilo de que “sempre que o homem quis fazer do
Estado seu céu, o converteu em seu inferno” (Hölderlin).
Esses poetas em
tempos de penúria, errantes sacerdotes do vinho, recordam ao
homem do tempo novo - inclinado, como seu imediato antecessor, a
refugiar-se em um futuro puramente ideológico - que a única
utopia perdurável no tempo - porque escapa a toda fórmula e
lugar - funda-se e eleva-se no alado do instante intemporal, nesse
eterno presente de cuja fogueira nos fazem sinais a liberdade, a poesia, o
amor e o riso.
________
RAÚL HENAO
(Colômbia, 1944)
Obra Poética
Combate del carnaval y la cuaresma. Ediciones Gamma. Medellín. 1973.
La parte del león. Monte Avila Editores. Caracas. 1978.
El bebedor nocturno. Instituto de Cultura y Bellas Artes. Cúcuta. 1978.
El dado virgen. Fundarte. Caracas. 1980.
Sol
negro. Ediciones
Unicornio. Medellín. 1985.
El partido del diablo. Editorial Lealon. Medellín. 1989. |