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Rodolfo
Häsler: na busca do impossível
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM
- Há um ensaio do poeta Víctor Sosa em que ele afirma: "A
linguagem nunca é inocente. Tampouco é culpada: é anômala."
Em meio aos conceitos de mímese, anomalia, invenção e restauração,
como te relacionas com a criação poética? Como segues tecendo a
voz poética que se chama Rodolfo Häsler (penso em uma declaração
tua: "a presença da mitologia clássica é o fio condutor de
minha poesia")?
RH - Minha relação com a linguagem é, em primeiro lugar,
de surpresa diante de sua versatilidade e poder autônomo, e o
digo com conhecimento de causa, porque eu, que nasci na cidade de
Santiago de Cuba e que completei meu primeiro ano de vida já
vivendo em La Habana, comecei a me expressar como um habanero.
Eis aqui minha primeira anomalia. Desde os dez anos vivo na
Espanha, de forma que, de uma maneira natural e paulatina, não
sei recordar em que momento tanto os modismos quanto o sotaque
cubano desapareceram para alcançar uma linguagem nêutra,
desprovida de sotaque regional, a criação com total liberdade
para moldá-la a meu capricho. Sem que isto me acarrete o menor
transtorno, posso inclinar-me até um termo cubano de minha infância,
um argentinismo, um casticismo ou um sevilhanismo mediante o sadio
emprego do humor, a melhor distância, o melhor remédio. Creio
que existe em minha poesia um recurso constante ao humor, do qual
não quero me desprender, porque me demonstar que a linguagem não
é mais do que uma aproximação, uma tentativa de esclarecimento,
uma visão. A mitologia, como mencionas, me permite abordar a
linguagem em sua máxima dimensão para aproximar-me do imaginário
coletivo.
FM
- Ao escrever a teu respeito, Francisco Morales Lomas menciona
"um exercício de introspeção conceitual que participa da
corrente surrealista, adaptando-a à pureza de uma lírica de raiz
anglo-saxã ". Não sei até que ponto concordas, mas creio
que para um poeta que disse que "a vontade se ajusta a todo o
intangível", há um desacordo conceitual no que se refere à
"pureza de uma lírica". No caso anglo-saxão, há um
distanciamento profundo no tocante a uma miscigenação. A língua
impõe seu padrão cultural. O que quer impor e com quem se
mistura a poesia de Rodolfo Häsler?
RH - Estou de acordo e me identifico com ambas proposições.
A língua impõe uma tradição, da qual não te livras, porém em
meu caso deve ser levado em conta um elemento acrescentado à
minha chegada a Barcelona, que é a minha ida à Escola Suíça,
onde de repente tive que submergir no idioma alemão, outra lógica,
uma maior contenção, uma tradição de reflexão, de análise,
que está muito presente junto à sensualidade das imagens, que as
apanha e ordena. O alemão, como língua saxã, é muito sintético,
uma língue que podes construir na medida em que falas, de uma
riqueza expressiva extreordinária, e ao mesmo tempo de uma
tremenda parcimônia. O que dizes é isso e nada mais que isso.
Haver estudado em alemão no ensino médio, haver assimilado uma
cultura na qual o auto-controle é muito importante, me permitiu
lidar com esses elementos, chegar a um ponto de expressão em que
me agrada ver como podes chegar muito mais longe e de imediato
cortá-lo, dizer basta. Meu pai era suíço-alemão e é evidente
que cada vez se acentuam em minha personalidade elementos de seu
caráter.
FM
- Tens na Espanha uma segunda residência, de alguma maneira
mantendo-se a relação com a língua espanhola. Até que ponto
consideras os espaços lingüísticos decisivos na constituição
e valorização de uma obra poética?
RH - Bem, vivo em Barcelona, uma cidade bilíngue, onde o
espanhol se relaciona com o catalão até mesclar sotaques,
expressões, mentalidades. Minha língua materna é o castelhano,
um castelhano como disse antes que não é cubano nem espanhol,
uma espécie de metalinguagem bem além de lugares geográficos,
mas claro, isso sim, me sinto vinculado a uma tradição e a um
espaço linguístico determinado no momento da expressão, embora
tenha de reconhecer que por minha educação o estudo e a leitura
de outras literaturas, como a alemão ou a francesa, tenham sido
paralelos aos da espanhola. Para a poesia é muito difícil
expressar-se por igual em dois idiomas diferentes e se acaba
escolhendo um, em meu caso o espanhol, ainda que minhas leituras
de poesia francesa eu as siga realizando sempre no idioma
original, nunca em traduções.
FM
- Segundo o argentino Juan Gelman, "todo poeta tenta
expressar - com a palavra e os silêncios da palavra - o centro de
sua obsessão", logo lembrando que, "em realidade, não
há centro e tudo é intempérie". Não sei se concordas. Em
meio a tal relação, te sentes perseguido por algum tema em
particular?
RH - Sempre recorremos ao mesmo mundo de obsessões, de
inquietudes, de temas recorrentes. Cada poeta tem os seus, como é
evidente também no caso dos pintores. Não creio nos artistas que
abarcam diferentes registros, além do que tampouco isto é necessário
porque nunca se descobre nada, se afunda no mistério da
escritura, da existência, damos voltas em torno das mesmas obsessões
sem ter nunca uma resposta clara, apenas diferentes pontos de
vista. Pessoalmente creio que minha poesia gira em torno de poucos
elementos, como a busca interior, um desejo insaciável de
transcendência, algo muito germânico por outra parte, que
contive em mim, que está dentro de mim, mas visto com muita distância,
com muitíssimo humor. Afinal me pergunto sempre: para que? Qual
sentido tem tudo isto?
FM - Se pensarmos na grande influência de Rubén Darío e
César Vallejo
nos
poetas espanhóis, talvez não encontremos, em uma relação
inversa, algo com igual dimensão. Quais as tuas afinidades com
poetas espanhóis? Seria correto afirmar que, em um sentido poético,
a Espanha sempre teve mais a aprender do que a ofertar?
RH - A influência de Darío e Vallejo
foi
fundamental na evolução da poesia espanhola em um momento de
entancamento social devido às circunstâncias históricas e
sociais que fizeram com que a Espanha olhasse para o passado para
compreendê-lo. A renovação nesse momento veio da América
Latina, sem lugar a dúvidas, mas não devemos esquecer a grande
influência posterior nas repúblicas americanas de poetas como
Juan Ramón Jiménez, Machado ou a geração do 27. É uma relação
complicada, amiúde repleta de mal-entendidos, e que a meu ver
deveria ser mais fluida do é atualmente, mas dizer que a poesia
escrita na Espanha tem mais a aprender do que a oferecer me parece
mal-intencionado e falso. Se vamos ao Siglo
de Oro vemos com um poeta como Quevedo encerra toda a
modernidade, a mística castelhana que entronca com a tradição
oriental e que tanto peso teve em outras literaturas européias.
Me pareceria muito estranho que a América Latina não contasse
com a tradição peninsular. Na atualidade existem poetas de
grande pesoa e originalidade, poetas que desenvolvem sua criação
isolados de tendências, como deve ser, e que cada vez vão
cobrando maior reconhecimento, como Francisco Pino, Antonio
Gamoneda, Carlos Edmundo de Ory, José Ángel Valente, Diego Jesús
Jiménez, Dionisia García, Juan Eduardo Cirlot, Vicente Núñez,
para citar apenas uns poucos.
FM
- O jornalismo e a Universidade produziram uma distorção
imperativa no tocante à conversão do todo em sua máscara e da
estratificação de sua essência, na verdade dois aspectos de uma
mesma deformação. Perdemos nossa relação direta com a história,
tornando-nos personagens arbitrários de um teatro de seres que não
contempla a relação intrínseca entre indivíduo e sociedade. Em
grande parte, a poesia que se escreve hoje (refiro-me à nossa
geração e seus desdobramentos) aceita passivamente essa condição
de negação do ser.
RH - Penso que sobre este tema não se pode generalizar, em
primeiro lugar depende de cada indivíduo e certamente que de cada
país, com suas características e sua realidade. A visão do
poeta tem mudado, evoluído, nem sempre de maneira linear, ao
longo dos tempos e hoje existe a enorme sorte de que as escolas,
as tendências rígidas e açambarcadoras desapareceram, ou pelo
menos é possível escrever sem ter em conta nada de tudo isto, e
pessoalmente os poetas que mais me interessam vão por uma via
solitária, buscando em suas próprias circunstâncias, criando
sua própria tradição, e isso é impagável. De qualquer forma,
o compromisso com a sociedade se mostra de muitas maneiras e creio
que um verdadeiro criador, embora à primeira vista não se
perceba, sempre está comprometido com a vida e, portanto, com seu
tempo. há compromissos evidentes que perdem vigência e há
distanciamentos que resultam a mais interessante forma de aliança.
As obsessões do poetas são comuns a todos os seres humanos e o
compromisso com a vida é o único que nos salva, e aqui penso,
por exemplo, na poesia da dinastia Tang, em sor Juana, em Emily
Dickinson ou em Lezama Lima
.
FM
- É comum poetas apresentarem uma visão idealizada de seu país,
quando residem fora por um considerável tempo. Quais tuas
considerações acerca da poesia que hoje se produz em Cuba?
RH - Acabo de regresar de
un encuentro que se ha celebrado en La Habana entre el 6 y el 12
de enero del 2001 al que han asistido poetas de diferentes países
latinoamericanos y vengo impresionado por la alta calidad, la
dureza, la ausencia de concesiones y el compromiso absoluto que he
visto en algunos poetas jóvenes. El país vive momentos difíciles,
hay muchos interrogantes, y éstos los plantean con una libertad
personal y creativa que es difícil de encontrar en nuestro
frivolizado mundo desarrollado. Hay un momento estelar en la poesía
cubana y el problema se plantea en estos momentos en lo que los
editores extranjeros eligen y editan fuera, no siempre lo mejor,
lo más interesante. Las leyes del mercado son implacables y la
visión tópica de Cuba ahora, después de muchos años en los que
prevalecía la política, responde a un exotismo deformador de la
realidad. Cuba es un país críptico, difícil, masónico, y el
resto del mundo espera todo lo contrario de la isla. En España
existe en estos momentos una auténtica moda de todo lo cubano, la
música, su literatura, su gente, pero parece mentira, los españoles
casi siempre se equivocan en su onocimiento del país, en todos
los aspectos, y en el político y social especialmente.
FM - Falas em Martí, Lezama
, Sarduy, sempre que te
indagam acerca de tuas relações com Cuba. São, de fato,
referenciais máximos, que definiram uma condição poética que não
é exatamente cubana, mas antes (anterior a todo nacionalismo) uma
conquista da modernidade. Como te relacionas com outros poetas, a
exemplo de Heberto Padilla e José Kozer?
RH - Como bem dizes, quando menciono Martí, Lezama
, Sarduy, é referindo-me
a essa conquista da modernidade onde Cuba sempre teve um lugar
privilegiado. Por sua situação geográfica, a ilha sempre foi um
lugar de trânsito, onde chegavam todas as idéias, onde eram
assimiladas e transformadas, um lugar onde se permutam produtos
que iam de uma direção a outra, e isso marcou a idiossincrasia
do cubano, alguém que tudo assimila e transforma para criar algo
novo. Nunca citei estes poetas em sua única dimensão cubana, com
a qual não posso me identificar, mas sim como criadores
universais, que despertaram a consciência da humanidade. Com
poetas como Kozer, Reina María Rodríguez, além de estarmos
unidos pela amizade, tenho que destacar minha admiração em todos
os sentidos. Cuba está dividida neste momento e com sua poesia de
alto valor ético serve de ponte até a nação fragmentada, sendo
um exemplo de compromisso como o que mencionava anteriormente, a
partir da coerência e da inteligência. Heberto Padilla me parece
uma figura de importância capital, pois marcou um antes e um
depois no que se refere à independência
entre criação e poder.
FM
- Retorno a Sarduy, pela importância que lhe dás em função da
revelação do mundo dos orixás. Recordo contos de Cabrera
Infante e sua proximidade temática, até mesmo menos
intelectualizada. Como te interessa um tratamento "mais pictórico",
"uma metáfora extra-literária", indago até que ponto
observas um contraste entre Sarduy e Cabrera, mas sempre pensando
nisso a partir de tua poética?
RH - Eu sou um profundo desconhecedor do mundo afro-cubano
e não gostaria de ter minha poética classificada por determinada
temática, como vejo que acontece com determinados autores cubanos
ultimamente. Sempre me interessei pela mitologia e pelos rituais,
pelo que têm de codificador de determinados comportamentos e
necessidades humanas, porém o tema dos orixás aparece somente em
meu quarto livro pela necessidade de expressar uma série de
experiências vividas durante minhas duas primeiras viagens a
Cuba, em 1991 e 1993. Sou um meio e não um fim, utilizo uma
linguagem própria da religião yorubá para expressar uma
cosmogonia pessoal que se oculta por trás dos alimentos, plantas
e cores de cada santo. Rompo a lógica de um código para chegar a
outro muito mais desordenado, necessitado de coerência, de síntese,
até assumir outro plano que não tem nada a ver com o folclore.
Creio que é o mesmo que Sarduy faz em seus poemas afros. Lydia
Cabrera é uma antropóloga e uma estudiosa, uma pessoa
que mergulhou neste mundo para poder conhecê-lo, porém
sempre a partir da lógica. Posso afirmar que meu livro De
la belleza del puro pensamiento não é um livro sobre os orixás,
trata-se de uma indagação na identidade provocada pela alegria e
a dor.
FM
- Em entrevista a Carlota Caulfield, anotei uma referência tua à
impossibilidade "de ser um cubano como se espera que um
cubano seja". Cuba tornou-se o marco de uma idealização da
América Hispânica. Se a revolução despertou o continente para
a existência de si mesmo, por outro lado assimilou os vícios
europeus de compreensão do mundo à sua volta. Como se espera que
seja hoje um cubano?
RH - Cuba necessita, antes de tudo, de autocrítica, as
duas Cubas necessitam de autocrítica e tolerância, algo que não
se tem cultivado há quarenta anos. Eu vivo na Europa desde os dez
anos e estive isolado dos dois pólos da cubanidade, meu pai era
pintor, europeu, e nunca em minha casa se viveu a nostalgia como
um elemento paralisante. Nosso referencial nunca foi pátria
alguma, mas sim a problemática da arte. Foi o que aprendi e me
sinto privilegiado por isso. Por sua vez, Cuba tem estado dentro
de todos nós como uma referência, um momento de plenitude. Assim
vivi com meus pais, e assim me recordo, uma infância feliz.
Agora, não me posso abstrair de uma realidade complexa porque o
projeto de nação, surgido já no século passado e que deu certo
na Cuba burguesa deste século, já não existe e vai precisar de
um empenho coletivo para descartar a dor e dialogar entre todos,
todos aprendendo com todos.
FM
- Diante do espelho: que poesia estás escrevendo?
RH - Neste momento, depois de publicar meu quinto
livro, estou avançando em um projeto a longo prazo, para o qual não
tenho nenhuma pressa. Preciso de tempo, reflexão, caminhar e
deixar-me levar por meu ritmo interior. Trata-se de uma série de
cinqüenta poemas sobre um tema que aparece em minha escritura
desde o início: as flores, porém tratadas de uma forma frontal,
muito mais radical, até tomar toda sua protagonização. A flor
é o símbolo da fugacidade das coisas, atada pelo talo à terra,
e olha o céu, o divino, o inefável. Há flores pela sua forma e
outras que estão por minha vontade, tratando todas sobre a
brevidade da vida, o efêmero da beleza, do prazer. Flores unidas
à morte por seu curto ciclo, na busca do impossível.
__________
RODOLFO
HÄSLER
(Cuba, 1958)
Obra poética
Poemas de arena. Ediciones E. R. Barcelona. 1982.
Tratado de licantropía. Ediciones Endymión. Madrid. 1988.
Elleife.
Ediciones El Bardo. Barcelona. 1993.
De la belleza del puro pensamiento. Ediciones El Bardo. Barcelona. 1997.
Poemas de la rue de Zurich. Miguel Gómez Ediciones. Málaga. 2000. |