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alfredo fressia

 

Alfredo Fressia: um poeta inspirado

(entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão)

 

Poeta e crítico literário. Desde 1976 reside em São Paulo, Brasil, onde é correspondente cultrual do jornal El País de Montevideo. É Professor de Língua e Literatura Francesa. È autor de Un esqueleto azul y otra agonía. Ediciones de la Banda Oriental. Montevideo. 1973. Premio MEC, Uruguay; Clave final. Ediciones del Mirador. Montevideo. 1982; Noticias extranjeras. Ediciones del Mirador. Montevideo. 1984; Destino: Rua Aurora. Edición del autor. São Paulo. 1986; Cuarenta poemas. Ediciones UNO. Montevideo. 1989; Frontera móvil. Ediciones Aymara. Montevideo. 1997. Premio MEC, Uruguay; El futuro/O futuro. Edições Tema (bilingüe). Lisboa. 1998; Amores impares. (Collage sobre textos de 9 poetas). Ediciones Aymara. Montevideo. 1998. Veloz eternidad. Vintén Editor. Montevideo. 1999. Premio MEC, Uruguay. No prelo: Eclipse. Cierta poesía 1973-2003. Civiles iletrados. Montevideo. [RSL]

 

RSL - Quais são as dores e as delícias de ser um correspondente cultural? O que você cobre? Qual último evento que cobriu?

AF - No meu caso dores e delícias ficam mitigadas pelo fato de escrever para um país vizinho, e também culturalmente próximo. Escrevo para o suplemento “Cultural” do jornal El País de Montevidéu, e você sabe que um montevideano distraído que porventura saísse de carro fazer um passeio de domingo com a família, concentrado na conversa, se encontraria em duas ou três horas na Argentina, e, se o papo fosse mais interessante, em 4 ou 5 horas estaria no Brasil, sem perceber muito bem as fronteiras, virtuais em muitos lugares. Claro, se a viagem foi para o interior do continente, a “Argentina” que encontra na aventura é Buenos Aires, isto é, o centro hegemônico da região (ou mais do que da “região”), e o “Brasil” que o viajante acharia é o Rio Grande do Sul, que é um “Brasil” com relativa autonomia cultural respeito ao sudeste do país. De modo que meu trabalho é de “mediação” entre um certo Brasil, que não é especialmente gaúcho (gaúchos e “gauchos” se entendem muito bem sem mediações) e um Rio da Prata que desconhece esse (outro) Brasil. O El País circula também em Buenos Aires, mas eu pessoalmente penso sempre no leitor uruguaio. A relação desse leitor com o Rio Grande é uma beleza e certamente não precisa do meu trabalho. Editoras montevideanas traduzem e divulgam literatura gaúcha (lembro-me de Tabajara Ruas, por exemplo, que aliás é muito vendido em Montevidéu), o pessoal (distraído ou não) viaja, os povos conhecem-se, e até a língua que falam na fronteira tem uns códigos só deles, alguns ainda decifráveis em Montevidéu. Aliás o “Cultural” também se vende em bancas do centro de Porto Alegre. Tinham me dito isso no jornal, e o Caio Fernando Abreu me confirmou. Te conto de passagem que o Caio, a meu convite, também escreveu, no fim da sua vida, para o Suplemento. Além disso eu traduzi algum conto dele, era o último ano da vida dele, e quando morreu, uma notícia que saiu através da necrológica que escrevi, percebi a grande simpatia das pessoas por ele. Recebi várias cartas, desoladas mesmo, de leitores que me pediam para transmitir seus pêsames aos pais dele (como se fosse fácil para mim, em São Paulo, fazer chegar a eles cada uma dessas manifestações, no fim pedi a Lygia Fagundes Telles para contar a eles, ela ia a Porto Alegre e iria vê-los). Eram pessoas que talvez só tivessem lido o Caio no Suplemento, e é verdade que ele falava da sua luta contra a doença, mas você vê aí até onde chega a solidariedade do público com alguém que, sendo gaúcho, resultava uma figura próxima, nada tinha de “abstrato”, digamos, para o povo. Em todo caso, esse tipo de contato que as pessoas criam com alguns escritores é uma das “delícias” de que você falava. Mas te repito, eu trabalho mais com o centro do país, esse sim culturalmente mais distante do Rio da Prata. Há só nove anos que trabalho para El País mas a lista de autores e temas que tenho abordado é grande. Às vezes trabalho com pessoas da academia daqui, de São Paulo, e eventualmente, artigos grandes (são “grandes” os que cobrem de três a quatro páginas do Suplemento) são feitos por especialistas. Por exemplo, o longo artigo consagrado a Euclides e Os sertões foi escrito por João Roberto Faria, da USP, e por mim, alguns sobre fotografia (Sebastião Salgado, etc) têm sido cobertos por Ricardo Mendes, o Tropicalismo, uma revisão de Clarice e o livro do Caetano foram temas de Arnaldo Franco Jr. da Unesp. Também os autores tiveram, numa série que se chamou “Brasil hoy” uma página para se apresentarem como eles quiserem. Foi muita gente. Lygia, Nélida Piñon, que curiosamente lá é muito mais lida do que aqui, Ferreira Gullar, Haroldo de Campos, Ana Miranda, Arnaldo Antunes, o Caio de quem já te falei, incluso pessoas de outras áreas, como Zé Celso, da área de teatro, foi um espaço muito legal. Não pense porém que eu tenho a autonomia que gostaria de ter nem que aceito totalmente a política cultural da direção do Suplemento. Discordo em muitas coisas mas, hélas, eu sou um simples empregado, com um critério mais ou menos leninista de ocupar o espaço (que sem mim, que moro no Brasil há três décadas, talvez não existiria, pelo menos não com a “mediação” que faço). Por outro lado, eu tenho uma grande admiração por um dos diretores (um grande jornalista, mas com quem tive alguns desentendimentos). Por exemplo, dá para cobrir a área de literatura de “minorias”, mas com limites com os quais eu não concordo. Tenho coberto passavelmente a literatura “negra”, Cadernos Negros, bibliografia sobre Zumbi dos Palmares, notas grandes sobre certos autores, Lima Barreto, até mesmo Carolina Maria de Jesus, tenho feito uma difusão razoável. Já de literatura “gay” -e sem entrar no tema do que seja a “literatura gay”- não tenho tido a liberdade que eu gostaria. Caio, alguma resenha sobre J.-C. Bernardet, isso passa, mas certa nota sobre Bom-Crioulo, do Caminha, não deu, não aceitaram e acabou saindo num outro “semanário”. Também quis resenhar a História da Homossexualidade Masculina no Brasil do século XX, o Além do carnaval, do James N. Green, um excelente livro, de alguém muito querido aliás, mas também não deu. Eu sei muito bem de onde vem essa homofobia, e sei do trabalho de mediação também, da direção do Suplemento, porque você não deve esquecer que El País é um jornal conservador. Fatos literários canônicos (Proust, Virginia Wolf, sei lá, tantos) isso pode, uma certa literatura da aids também. Uma explícita teoria da sexualidade, isso não. E essas notas geralmente acabam em “semanários” de esquerda, principalmente Brecha. Para um “correspondente”, é pegar ou largar, e já te dei as razões pelas quais tenho topado. E além disso, esse tipo de nota acaba saindo em outros meios, ou eu abordo em outros espaços. Por exemplo, tenho traduzido poesia brasileira, uma tarefa árdua, bela e sempre inglória. Ano passado fui dar umas palestras nos EEUU, convidado como poeta por unas universidades de lá. Ora lá os Departamentos de Espanhol e Português funcionam juntos, e numa delas, em Columbus, também acabei abordando temas brasileiros (e lembro agora, em Huntington também). Outra das “dores” da tua pergunta: sinto-me obrigado, mercado obriga, a cobrir os “best-sellers” que previsivelmente serão editados em espanhol. Me parece uma questão de honestidade com o leitor, e assim tenho “coberto” (mas são notas pequenas) uma literatura tipo Patrícia Melo, Jô Soares, pelo menos avisando de que se trata e a que público pode interessar. Figuras muito conhecidas, também me sinto obrigado a cobrir, dos (belos) romances do Chico Buarque ao Sarney. Numa entrevista com Ferreira Gullar, lá na rua Duvivier, ele me falou maravilhas do Sarney. Isto foi nos ’80, antes de eu trabalhar pro Cultural, foi para um outro jornal. Eu era jovem e me meti de cabeça na leitura do homem. O fato é que mal ou bem venho cobrindo a obra dele sem nenhum grande desprazer, e recomendando até alguns contos. Em compensação, é um grande prazer acompanhar a narrativa da Ana Miranda, ter previsto a importância de Cidade de Deus do Paulo Lins, assim que o livro saiu, revisar poesia como a da Ana Cristina Cesar, a obra crítica de Leyla Perrone ou ir ao passado e rever a poesia dos românticos, dos parnasianos, dos tão poucos simbolistas, ou navegar por temas históricos, outro filão que me interessa muitíssimo, porque além de tudo, me permite aprender (e não ficar só na minha área, que é letras). Além do mais as histórias do Brasil e a da Cisplatina-Uruguai se tocam tantas vezes. Por exemplo, tenho coberto razoavelmente a bibliografia que vai saindo sobre a Guerra do Paraguai (mas raramente entro em teses universitárias, agora só lembro de uma, sobre Dom Obá II d’África, que teve uma boa repercussão), o Império -tudo, te repito, num nível de mero mediador (infinitamente pedagógico, no sentido que eu sei o muito que não se sabe sobre o Brasil, ou sobre um certo Brasil, os buracos negros que impedem a comunicação, aqueles que sempre estão “mais embaixo”). A outra linha do meu trabalho no Suplemento é como crítico de poesia, uruguaia mesmo, e às vezes hispano-americana, principalmente argentina. Mas isto já escapa da tua pergunta. Quanto à minha última matéria, foi uma nota sobre Dias & Dias de Ana Miranda, extensa porque aproveitei para recuperar a figura de Gonçalves Dias e remediar um certo mal-entendido que o crítico Torres-Ríoseco criara entre I-Juca Pirama e o Tabaré do uruguaio Zorrilla de San Martín.

RSL - Como é ser professor de literatura francesa? A cultura francesa ainda está em alta?

AF - Eu fui toda minha vida professor de Francês. Uma sina, suponho. Neste ano entrei no meu 34o. ano de ensino. Pode? Só na Aliança Francesa de São Paulo (quando a Aliança era uma boa escola), trabalhei uma década e meia. E no duro, porque a Aliança pagava mal, e eu era obrigado a dar aulas particulares, as mais variadas e nos locais mais variados. De bancários a militares, passando por sociólogos, você tem de me perguntar onde não dei aulas, meu Deus... E de fato tenho até hoje amigos muito queridos que foram meus alunos. Na Aliança tinha cursos superiores onde uma certa literatura era adotada, e consegui sempre escapar da História literária, aquela coisa sinistra de ter um ano para fazer “da Idade Média ao s. XVII”, outro para fazer o XVIII e o Romantismo, e um terceiro para chegar ao século XX. Um horror. Em compensação, o nível da teoria literária era fraquinho. Tantos anos terei dado certos autores... Duras, por exemplo, tanto que até a própria Duras, e eu rio muito com isso, chegou a sabê-lo -um amigo mediante- e conservo até hoje um “Moderato cantabile” que ela me dedicou em Paris pessoalmente lá pelo ano 84 ou 85, sério!, patético e engraçado. Estudos um pouco mais rigorosos de “literatura francesa”, eu consegui realizar nos ’90, na Teologia, todo um luxo dos beneditinos. Teve anos interessantíssimos -de fato, tudo depende do interesse dos alunos-, com Stendhal, anos com literatura jansenista, de partir da literatura feminina do século XVII, mais centrado em Mme. de Lafayette, e chegar no ano seguinte a Manon Lescaut, do Abbé Prévost, na terceira década do s. XVIII. Percursos espontâneos que só acontecem justamente quando a gente está mais ou menos livre de um programa prefixado e frente a alunos inteligentes. Eu consegui escapar da “história” literária, essa feita de bicicleta, e ter todo o espaço do mundo para trabalhar teoria literária. Eram alunos que liam grego (e o professor não!), mas isso te explica porque do Boileau podíamos ir à Estética do Aristóteles, por exemplo. Há dois ou três anos, com Proust, acho que fracassei, olha justo com quem, mas eles não estavam preparados, creio, para aquelas leituras, ou melhor, eu não soube criar o espaço para a leitura adequada. Você vê, os alunos podem amar a Princesse de Clèves, tão distante, e não perceber (falha do professor, certamente) um universo como o proustiano, talvez por excessivo, por gigantesco. Era muita areia para meu caminhãozinho pedagógico. Em compensação, com o Simbolismo, teve anos em que deu para entrar no próprio ocultismo (Joséphin Péladan mediante) porque meus alunos me davam aula de Cabala... Agora a Teologia virou Faculdade de Filosofia - “aberta”, sob o MEC, etc- e voltei a dar só aulas de língua para um público vasto e heterogêneo, porque os estudantes são obrigados a estudar as três línguas mortas...: grego, latim e francês... (Aliás o MEC nem sequer os obriga, são cursos “oferecidos” pela faculdade). Sim, aparentemente a cultura francesa está “em baixa”, e no mundo todo, verifiquei isso em universidades americanas, onde o espanhol, que já era predominante, ganha cada vez mais espaço, idem em Montevidéu, que é uma sociedade mais ou menos afrancesada, aqui em São Paulo, agravado aliás, pelo desastre das más administrações da Aliança Francesa, que poderia ter sido um centro de estudos modesto mas pelo menos sério em alguns níveis, e em algum momento sucumbiu à pura e simples má fé. Hoje estou totalmente afastado, não sei como andarão. O francês foi a língua da burguesia independentista latino-americana, a língua onde se liam as idéias proibidas nos idiomas ibéricos. Mas hoje a mesma idéia de “independência”, com a “globalização” de uma única hegemonia (americana e em língua inglesa), ela está “em baixa”. O destino do francês, dizem, é se tornar o que agora chamam de “língua local” (como o sueco, digamos, ou o húngaro são línguas “locais”). Por enquanto, o bom conhecimento do idioma é importante pelo menos na área de humanidades, história, filosofia, sociologia, etc. Quanto aos estudos literários, querer entender algo da história e até da teoria literária sem passar pela França, admitamos, é impossível, mesmo para os “estudos culturais” mais horrorizados com o “eurocentrismo”. A Usp tentou incorporar a literatura em língua francesa africana e antilhana, mas não adiantou muito. Eu prefiro que os alunos se exponham diretamente ao melhor que um idioma tenha criado -mas eu sou radicalmente contra os “estudos culturais” porque não penso que um cânone seja mera obra de uma hegemonia, o buraco -que aqui não interessa- também é mais embaixo.

RSL - O que o levou a escrever uma série de poemas intitulada Eclipse?

AF - Será a idade? Será porque com a passagem dos anos a gente acaba admitindo que tudo acontece durante um eclipse? Ou, ao contrário, será que também se aprende que o melhor destino é saber eclipsar-se? uma ars eclipsandi? (Brincadeira, os latinos não falavam de “eclipse”, bela palavra grega, mas de “defectus”). O fato é que um dia me pus a estudar o eclipse, como fenômeno objetivo, o caminho de Saros (aquele que prevê um eclipse a cada 223 lunações, isto é, cada 18 anos e 11 dias, os “Cânones de Eclipse” modernos, de sol e lua, principalmente o tradicional, de Theodor Ritter von Oppolzer. Estudei a história dos eclipses, como fenômeno antropológico e cultural, e um dia me vi escrevendo esses poemas sobre o Eclipse, que no livro é real e metafórico. Falo do livro, mas ele ainda não existe, sairá este ano em Montevidéu, com essa série de poemas precedida de uma restrospectiva, uma antologia digamos, da minha poesia anterior. Mas o título geral será Eclipse, seguido do subtítulo “Cierta poesía 1973-2003”, porque, olha só, é com um eclipse que encerro meus primeiros 30 anos de poesia... Coincidências? Meus livros dos ’90 (Frontera móvil, Veloz eternidad, Amores impares, a edição lisboeta bilíngüe do El futuro/O futuro) tiveram alguma repercussão, ultrapassaram um pouco minhas fronteiras uruguaias, e é um dado curioso, porque eu escrevo uma literatura muito conivente com o público uruguaio, com chaves por assim dizer que não deveriam funcionar fora do país, me considero nesse sentido um poeta totalmente provinciano, no sentido de criar a partir de e para um país periférico como o Uruguai. Mas o fato é que essa obra foi penetrando um pouquinho no universo de língua espanhola. Melhor assim. E com o Eclipse, sem existir ainda como livro, acabou acontecendo isso. Estão saindo nestes dias justamente alguns desses poemas em duas revistas de Buenos Aires (os Rollos del Mal Muerto, e, creio, no Diario de Poesía), eu tenho lido nas leituras públicas que faço duas vezes por ano em Montevidéu, o pessoal tem reproduzido poemas em revistas underground e a solene revista da Academia Uruguaia de Letras publicou, com minha autorização, uma série deles. Uma editora pequena -ela está começando e parece que será muito chique- me propõe fazer uma edição só do Eclipse com gravuras, numa edição limitada e da qual eu assinaria cada exemplar. Bem, o que posso te dizer, estou muito contente. Vamos, porém, esperar que o livro deste ano exista, não é mais razoável?

RSL - Para que serve a poesia?

AF - E a música então? E para que serve servir? E de que “utilidade” falamos? Uma hegeliana? Marxista? Freudiana? Olha, alguns anos atrás uma figura da academia montevideana veio a público para proclamar que num mundo globalizado, e com o fim do centro e das periferias (uma idéia do García Canclini dos últimos ’80), não havia mais espaço para a poesia, que seria, enfim, uma espécie de gênero morto ou residual. Eu reagi numa resposta onde tentei demonstrar exatamente o contrário, que a poesia era justamente o espaço privilegiado para discutir e revelar (um discutir que não era “ensaístico”) o jogo de teses e antíteses dessa globalização. Meu amigo, adversário na contenda, dizia que a poesia era a parte mais fina do “fio” literário, a parte mais fraca, menos preparada para resistir a “atual transformação” cultural e mediática. Eu tentei demonstrar a tese de que a poesia, como a mais tensa linguagem humana, constitui justamente o território a partir do qual se pode avaliar, organizar e dar forma a um projeto humanístico, forma de superação dessa inércia do movimento globalizador e neo-mediático. Estou profundamente convencido disso. Mas as pedras jogadas contra a poesia não são de hoje. Lembras do Contra a poesia de Witold Gombrowicz? E aqui estamos, produzindo e teorizando sobre ela. Teimosa, dona poesia.

RSL - Com quantas metáforas se faz um poema?

AF - Te confesso que depois de algumas leituras (La Mythologie Blanche de Jacques Derrida, por exemplo) eu passei evitar o tema, me esquivar dele, porque me dá certa vertigem. Tentemos admitir que nem tudo seja metáfora, mesmo se a linguagem vem insistentemente lembrar a onipresença dela. Pois bem, com essa vertigem colocada num parêntese provisório, posso te dizer que não sinto meu Eclipse como um livro acabado. Eu sinto, ou eu sei que trabalhei algumas metáforas (ou a parte delas que se pode “trabalhar”), mas que me faltou no livro um certo trabalho “poético” sobre o não-metafórico, ou do não metafórico, no caso, o estrito fenômeno da mecânica celeste. Por exemplo, um poema se chama “La tabla de Mendeleiev”, lembras, aquela tabelinha onde os metais, ainda que desconhecidos na época do Mendeleiev encontravam seu lugar devido à carga atômica. Eu dei uma dimensão sideral a essa mecânica que entra num paralelo (metafórico?) com os astros, aqueles “necessários” ainda que desconhecidos. Me pergunto se o poema teria podido evitar qualquer alegoria, mas eu acho que ficou numa certa penumbra metafórica. Talvez seja mais produtivo perguntar-se menos o “número” de metáforas, e mais o jogo de transparência e de opacidade delas (em cada texto, e nunca em abstrato), ou por outras, por que a metáfora tem horror ao vazio? É vertiginoso. Eu não respondo.

RSL - Você é um poeta inspirado ou um poeta que não acredita na inspiração?

AF - Sim, acredito nela, pessoalmente sinto-a quase que fisicamente, quando o poema flutua na cabeça e ela se apresenta (e também quando não, hélas), como se fosse o humor de uma glândula, e toma conta de uma parte da consciência enquanto a outra parte vigia (como o amor talvez?). Acho que o João Cabral -poeta esplêndido- dizia o contrário. Lembro-me bem, numa entrevista, onde ele falava do trabalho, artesanal, e às vezes de muitos anos, que pode levar a construção de um poema. Isso é claríssimo. Mas se realmente ele não acreditava na inspiração, esse território que a consciência individual nunca dominará totalmente, então meu testemunho é exatamente o contrário.

RSL - Por que é tão difícil a troca literária entre Brasil e demais países da América latina?

AF - Dizem que se deve à “insularidade” lingüística do Brasil. Seja, pode ser que ela tenha lá a sua parte no isolamento. Mas acho que não é uma explicação suficiente. Penso que a elite brasileira não esconde um certo desdém pela própria cultura e até por si mesma. Ora, se realmente for assim não haveria nenhum motivo para respeitar os outros latino-americanos, espelho de uma sociedade basicamente semelhante no sentido que inclui também negros, índios, também fala uma língua ibérica, também foi colônia e em alguns casos também foram sociedades escravistas. Como testemunho pessoal posso te contar que quando era jovem, e ainda mostrava meus diplomas, os diplomas uruguaios eram olhados com certa desconfiança intrínseca (à origem evidentemente: o que se pode esperar de uma academia latino-americana) e meus diplomas franceses funcionavam como um calmante: Ah, bom, você tem diplomas franceses... A elite brasileira não quer se reconhecer como latino-americana, e outras elites latino-americanas agem igual. Ela tem uma espécie de nostalgia inata e esquizóide, queria ser “americana” tout court (já quis ser francesa), mas em qualquer caso sem o “latino” na frente. Você nunca ouviu a atribuição do epíteto “latino” aos outros latino-americanos? É engraçadíssimo. Dizem Ah, você é latino?, como se quem pergunta pertencesse a outra cultura (mas não iorubá! eu diria mais norueguês, por aí...). E também não penso que isso aconteça por acaso. As sociedades latino-americanas nunca foram realmente democráticas (nem sequer o cone sul, Uruguai, Argentina, Chile, que um dia foram as três meninas bonitas), custam em aceitar o Outro (para não falar que também são racistas, sexistas, etc). No caso do Brasil, tem de se considerar o velho tema do Modernismo, que “caipirizou” a cultura, entronizou para sempre -será meu Deus?- o saci-pererê e a mula-sem-cabeça. O Franklin de Oliveira tem escrito sobre isso, sobre o Tupi or not tupi dito, diz ele, por um índio rousseauniano. Acho que deu na mosca. E lembra-te que isso bateu justamente com Getúlio e o Estado Novo. O que deu? Deu no que você vê em qualquer Caderno 2, um Brasil deslumbrado pelo eixo Europa-Nova Iorque, que só topa um fenômeno cultural latino-americano quando devidamente referendado e chancelado por Paris e/ou a academia norte-americana. Assim foi com o Borges (para dar um exemplo na multidão). A elite se nega às puras e simples notícias (políticas, gerais) do continente, que a imprensa evita mencionar!, imagina a cultura... Não veio do hemisfério Norte e não foi mula-sem-cabeça, dançou! Para que conhecer os vizinhos? O fenômeno pode vir a prejudicar seriamente a papel de liderança que o Brasil gostaria de exercer no continente (sul, claro). Mas minha preocupação não é de hegemonias diplomáticas, é com o puro e simples diálogo com as culturas vizinhas, aquele que um Ronald de Carvalho, ele sim, pôde fazer em Toda a América. Para acabar, te lembro de que “América latina”, como uma (sonhada, mas não sonhada no Brasil) unidade não existe. É um mito, e é evidente que o que possa haver em comum entre um chileno e um salvadorenho é muitas vezes frágil, pouco, pouco demais para falarmos em unidade. É, meu amigo, sou muito pessimista com relação a uma América onde todos (Brasil incluído) dialoguem com uma mínima fluidez...

RSL - Qual a importância da poesia concreta para a poesia brasileira e mundial?

AF - Mundial? Não sei, foi sem dúvida uma vanguarda, e dialogou num momento com certa poesia visual (e postal, etc, etc). Mas eu não vejo nela uma importância mundial. A poesia concreta me parece mais um fenômeno brasileiro e quase que paulista. Foi importante, sim, e devastador. Muitos poetas se aproximaram dessa vanguarda. E souberam desligar-se dela, incluso os Campos. Creio que uma das coisas que o Haroldo dizia na nota dele para o Suplemento era que ele estava cansado de ser chamado de “concretista” quando já fazia anos que praticava outra poesia (as Galáxias, admitamos, são esplêndidas). Mas te dizia que foi uma vanguarda devastadora no Brasil. É impossível lembrar dos litros de tinta perdidos por jovens poetas até os 70, incluídos alguns “marginais” que flertavam com um concretismo retórico, quando essa vanguarda já estava morta (mas, decididamente não enterrada). Creio que ela faz parte de certa tendência formalista razoavelmente clara na poesia brasileira, que vem do Parnaso (não é por acaso que não tivemos quase simbolismo), reaparece em alguns pós-modernistas e chega ao concretismo. E, pior, foi uma vanguarda que não deu os poemas esperados. Criou até receitas para a construção do poema, mas o Poema faltou ao encontro marcado.

RSL - Você tem alguma epígrafe que o acompanha pela vida?

AF - É verdade que há certos “nós” biográficos que se repetem, que estruturam uma vida humana, parecem dar unidade a ela, e arredor dos quais é plausível estabelecer um epígrafe, que muitas vezes poderia ser um verso. Escolho um, e do Pessoa, que diz alguma coisa de mim: “Estrangeiro aqui como em toda a parte”. É um pouco triste, mas é assim. 

[Entrevista originalmente publicada em Balacobaco # 62. Rio de Janeiro, 27 de abril de 2003]

 

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