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alfredo silva estrada

 

Alfredo Silva Estrada: inscrições no espaço poético

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - Como você mesmo já disse, a palavra poética “assume uma peculiar e concentrada intensidade de poder nominativo”. O que nomeia, portanto, a poesia?

ASE - Essa peculiar e concentrada intensidade de poder negativo da palavra poética, que consiste em recobrar a força original que impulsionou o ato de nomear o primeiro objeto, a primeira sensação, o primeiro sentimento… Essa fulguração nominativa, inocente talvez em seu princípio, vai se nutrindo das obscuridades, do silêncio, das negações, das esquivanças do real… O que nomeia, pois, a poesia? A pergunta é muito geral. Seria preciso sentir o que nomeia cada poema em particular. Talvez a poesia nomeie, como pela primeira vez, o inominado, o desconhecido. O já conhecido nunca está, como tal, no poema. Cada nome no poema é sempre novo, depende do impulso, do peso, da gravidade ou leveza de cada vocábulo que o rodeia. Os grandes, imponderáveis lugares comuns do ser humano, assim, por exemplo, a estranheza de estar, o assombro no cotidiano, nunca são repetições dentro de um verdadeiro poema. Direta ou obliquamente, o poema cinge ou libera o indizível. O que se diz - se advém ao poético -, se merece ser poético, é uma primeira vez que se reitera paradoxalmente nova a cada leitura. Muitas vezes o poeta nomeia com nomes que perdem seu sentido habitual para cobrar um novo sentido. “O fogo arde hoje com outro nome”, diz André du Bouchet. E Fernand Verhesen: “Eu sondo o espaço / para que perca seu nome”.

FM - Concorda que as coisas e os poemas sejam inconciliáveis, como o queria Francis Ponge em seu Memorándum?

ASE - Ponge, que falou muito das coisas tratando em um princípio de fazê-lo “do ponto de vista das coisas”, deu-se conta depois de que se propunha algo impossível, posto que é o homem que tem ponto de vista e não as coisas. Não creio que as coisas e os poemas sejam inconciliáveis. Me parece, simplesmente, que são diferentes. Por essa diferença o poeta pode relacionar-se com as coisas e, no poema, as coisas chegam a ser outras coisas.

FM - Quais as relações entre canto e conteúdo durante o seu processo de criação poética?

ASE - Não sei se meus poemas cantam. Em todo caso, ao escrever, não é o canto minha preocupação fundamental, mesmo que eu também dê muita importância à voz, ao ritmo, ao fato de que o poema não seja somente palavra escrita mas também fala, voz proferida. Durante o processo de criação poética, me parece impossível separar o conteúdo do ato mesmo que confere às palavras um sentido novo. Melhor, que ao invés do conteúdo (termo, além do mais, superado em sua oposição à forma) prefiro confiar-me ao sentido, inseparável da palavra poética em si.

FM - Acredita, como afirmava Goethe e o reitera Octavio Paz , que toda poesia é uma poesia de circunstâncias?

ASE - Dizia Jean Wahl que a poesia é o diário dos mais altos momentos do poeta, de sua consciência exaltada. Neste sentido, toda poesia é uma poesia de circunstâncias; porém, como acrescenta Wahl, de circunstâncias incircunscritas, universais. É semelhante incircunscrição o que faz da poesia um ato transcendente, globalizante. Desde o particular, a poesia circunvala e transcende.

FM - A poesia consegue ainda projetar sua luz sobre o nosso tempo? Consegue ainda o poeta, através de sua obra, comunicar-se com os demais homens à sua volta? Ou a poesia acaso teria ficado restrita ao mundo isolado dos poetas?

ASE - A poesia projeta sua luz sobre nosso tempo na medida em que o poeta revive os lugares comuns e faz com que seus momentos intensos não sejam somente pessoais mas sim que alcancem universalidade. Que minha dor ou minha alegria possam ser também a dor e a alegria do outro, dos outros. Porém, dentro da sociedade em que vivemos, esta universalidade, que não é estatística, pode ficar restringida e subterrânea.

FM - Estaria de acordo com o poeta chileno Pedro Lastra  ao afirmar que escreve na medida em que lê, definindo assim “a escritura como continuação, como resultado de atos de leitura”?

ASE - A escritura poética é, de certa maneira, um fenômeno de leitura. Não só pelo que um poeta é, além da soma de vivências que o constituem (entre essas vivências, as leituras que o formaram por adesão ou rejeição), mas também porque o ato de escrever é um fenômeno temporal durante o qual o poeta desemboca em uma leitura de seu poema-sendo-feito que ele termina por aceitar.

FM - Há dois poetas constantemente citados pela crítica quando da análise de seus livros: Mallarmé  e Valéry. Até que ponto a influência de ambos foi determinante em sua obra?

ASE - Não saberia dizer. Cada um está conformado por uma grande quantidade de estratos, sedimentações, constelações de influências. Felizmente móveis e nunca totalmente conscientes.

FM - No final do ano passado você publicou La palabra transmutada, uma série de ensaios em que se procura estabelecer uma fusão entre poesia e existência. Poderíamos acaso apontar um caráter iniciático na escritura deste livro?

ASE - Oxalá assim o fosse. Esta série de reflexões abarca muitos anos de exercício, de experiência poética. Uma vez que a reflexão propriamente poética deixa sempre um campo aberto à interrogação, que não é dogmática, talvez nos inicie a novos umbrais. Ao menos creio assim entender tua pergunta.

FM - Acha que a obra crítica pode ser considerada literatura?

ASE - De certo ponto de vista convencional, toda palavra escrita é literatura. Depois, seria preciso matizar ou recordar Verlaine: tout le reste… Porém, se tua pergunta se refere a La palabra transmutada, não considero que esta série de reflexões seja especificamente uma obra crítica.

FM - Em recente entrevista que fiz a Eugenio Montejo  comentei que você e ele são praticamente os dois únicos poetas venezuelanos editados no exterior, o que é estranho em um país que tem dado poetas tão fundamentais quanto Ramos  Sucre, Vicente Gerbasi , Juan Liscano, Juan Sánchez Peláez, Rafael Cadenas, entre outros. Que razões, a seu ver, impedem uma difusão a nível internacional da poesia venezuelana?

ASE - Creio que alguns dos nomes que mencionas foram editados no exterior. A pouca difusão internacional da poesia venezuelana se deve, talvez, à dificuldade da tradução e, também, ao desinteresse ou desconfiança das editoras: “a poesia - argumentam - não é vendável”.

FM - Você tem traduzido diversos poetas, entre os quais Pierre Reverdy, Paul Valéry e Francis Ponge. Se temos que traduzir implica recriar, o que por extensão significa falsificar, diria que, ao traduzir, o prazer da linguagem reside essencialmente em sua falsificação?

ASE - Minha falsificação, como dizes (não me agrada a palavra), é uma expansão e um gozo de por à prova a universalidade da poesia. Creio, por exemplo, na poesia compartilhada em sua confluente contemporaneidade. A tradução abre os mais belos sulcos a semelhante confluência. Há, também, na minha maneira de ver, uma historicidade da tradução que vai unida a uma renovada atualidade da verdadeira poesia. Penso - para te dar um só exemplo - em Hölderlin traduzido por André du Bouchet e Phillipe Jaccottet.

FM - De acordo com o poeta argentino Enrique Molina  a poesia se transmite em silêncio. Lembro-me disto em função deste programa que até recentemente você dirigia na Radio Nacional de Venezuela. Que ressonância acredita possa ter a leitura radiofônica de poemas?

ASE - Na música também há muito silêncio. Não creio que difundir a poesia por meios auditivos traia ou altere seu silêncio.

FM - Há uma conexão perdida entre nossa cultura e nossa vida - é o que parece nos dizer duramente a modernidade. Na imensa sucataria em que o mundo se transformou, que nova espécie de fusão ou pacto entre vida e arte pode ajudar o homem a se recompor?

ASE - Tu, como poeta, tens a resposta. Em La palabra transmutada escrevi: quotidianamente o poder primogênito da denominação reveladora corre o perigo de debilitar-se ou de ser confundido por e com a função da linguagem utilitária. Na contracorrente da própria cultura que, ainda sem o propor, trata de reprimir, com suas rigidezes institucionalizadas, o impulso originário que nos faz viver em e pela poesia, corresponde a cada poeta, inquieto morador dessa parcela de “desconhecido despertando em seu tempo dentro da alma universal” (Rimbaud ), resgatar e defender contra hostilidades e surdezes a vitalidade subterrânea, irrefreavelmente ressurgente e amiúde estalante, dessa palavra que constitui sua autêntica maneira e mais alto grau de existir.

Essa fusão ou pacto entre vida e arte é, precisamente, a fusão de homem e mundo que se dá em cada poema. Na sociedade de hoje, nem todos os homens, como queria Hölderlin, fazem pela poesia desta terra sua morada. Nem todos habitam como poetas. Porém isto não quer dizer que a poesia tenha desaparecido da face da terra, nem que tenha deixado de ser nossa mais humana maneira de habitar, de viver.

 

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ALFREDO SILVA ESTRADA
(Venezuela, 1933)

 

Obra Poética

De la casa arraigada. Tipografia Italiana. Caracas. 1953.
Cercos. Ediciones Cuatro Muros. Caracas. 1954.
Integraciones - De la unidad en fuga. Cromotip. Caracas. 1962.
Del traspaso. Miguel Angel García Impresores. Caracas. 1963.
Literales. Miguel Angel García Impresores. Caracas. 1963.
Trans-verbales I. Imprimeria Mazarine. Paris. 1967.
Acercamientos (Obra poética 1952-1967). Monte Avila Editores. Caracas. 1969.
Trans-verbales II. Editorial Arte. Caracas. 1972.
Trans-verbales III. Editorial Arte. Caracas. 1972.
Los moradores. Monte Avila Editores. Caracas. 1975.
Aproches. Le Cormier. Bélgica. 1975.
Poèmes. Le Cormier. Bélgica. 1979.
Contra el espacio hostil. Fundarte. Caracas. 1979.
Los quintetos del círculo/Variaciones sobre reticulareas. Monte Avila Editores. Caracas. 1982.
Dedicación y ofrendas. Universidad de los Andes. Mérida. 1986.
Acercamientos. Antología poética 1952-1991. Monte Avila Editores. Caracas. 1991.

Entrevista originalmente publicada na revista Palimpsesto # 5 (Sevilla, España, setembro de 1992).

 

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