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Gonzalo
Márquez Cristo: correspondências entre poesia e ação
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - De todos os poetas de tua geração, em ti encontro o
melhor exemplo de uma poesia que se propõe um salto no abismo, ou
seja, uma poesia que não é só um embate com as palavras e os
conceitos arrolados à sua volta, mas antes, bem antes, uma poesia
que busca uma nova fonte de vertigem, uma poesia do assombro
diante da existência humana. De onde vem essa fonte de abismos?
GMC - Assim como Zarathustra é um perseguidor de ápices,
à minha poesia, como à de vários autores deste século, há
restado a opção, talvez mais humana - para dizê-lo com palavras
de Octavio Paz
-,
de dançar sobre o abismo,
de nos entregarmos à sua vertigem fundadora, à sua intensa
experiência onde cresce o olhar. Todos os atos importantes do
homem passam pelo túnel do medo (refiro-me ao amor, ao
misticismo, à arte e a todas as duas buscas utópicas), e penso
como Perse, que assim como a ciência busca no dia, o poeta é
quem indaga na noite, nessa insaciável fonte de sombras, de
temores. Creio que por trás de toda experiência dos limites
sempre espreita a morte, que nos define, que conhece nosso rosto
verdadeiro, que nos põe na boca uma palavra, um nome - se temos
sorte -, que nos resume, que nos explica. Sobra dizer que minha
condição de colombiano acrescenta a violência ao meu olhar,
porque nesta convivência tão estreita com o horror poderíamos
dizer, com René Char - cito de memória -: quando
a morte é mais violenta a vida está melhor definida. E
querer responder a pergunta da morte, tentar atualizar as
interrogações primogênitas, essenciais do ser humana, talvez
seja, às vezes, vislumbrar entre tremores, fazer um brinde ao
medo, assistir à festa do abismo…
FM - Toda poesia é sumo de inquietudes e afinidades. Em
teu caso, percebo um particular interesse por poetas como René
Char e Roberto Juarroz. Não propriamente pelo tratamento da
linguagem, mas antes por aquela correspondência entre poesia e ação
formulada por ambos. O que percebes ser a poesia que escreves?
GMC - O escritor chileno José Donoso, durante sua efêmera
passagem por Bogotá, há quinze anos, sentenciou: querer ser original é querer ser medíocre. Isto, desde já, é um
tributo à tradição, à literatura com seus grandes mestres e às
afinidades e coincidências que temos com nossos queridos
antecessores. Tem sido dito que a literatura parte mais da
literatura do que da experiência pessoal do escritor, e que a
maioria dos livros falidos o são porque seu autor não soube
abolir as referências com sua própria realidade, não conseguiu
realizar o distanciamento com sua experiência interior. Tem sido
dito que se um personagem fala como uma pessoa real não teria
eficácia e que o exercício da literatura é como aprender outro
idioma e isto parece claro quando se lê Mallarmé
ou
Valéry, e a poetas intertextuais como Eliot e Pound, onde são
mais importantes as referências às literaturas anteriores e o ensamblaje
que realizam a partir dali do que o que eles próprios vieram a
dizer. No entanto, tu falas especificamente de René Char e
Roberto Juarroz, que são dois poetas que sempre me deslumbraram.
Em ambos encontro a palavra poética convertida em um signo agudo,
em indagação filosófica, em reflexão, em riqueza prismática,
em agregado ao pensamento do homem. Talvez Char seja um poeta que
provém mais da imagem e da riqueza do ambíguo, enquanto que
Juarroz seja mais da transparência da idéia, de seu fascinante
jogo poético; mas ambos acreditaram na correspondência entre
poesia e ação, como o fez Rimbaud
. Quando a poesia se
aventura ao fulgor da imagem primitiva, a essa indissolúvel
identidade que existia para o homem primitivo entre palavra e
objeto, e assim pretende cativar as perguntas essenciais do homem
que, segundo parece, nunca possuem resposta, torna-se profecia,
horizonte, bússola interior… Creio em uma poesia das
profundidades, do ser, do tempo, que tente traduzir a morte… E
quanto à tua pergunta sobre o que percebo ser minha poesia,
suspeito que estou demasiado envolvido para responder e, para te
dizer com eficácia, primeiro teria que me submeter à abolição
do eu que promulgava
Buda, o Iluminado, e começar por compreender um mundo com seis
pontos cardeais: norte, sul, leste, oeste, acima e abaixo, para
então poder realizar a dissolução de minha identidade. E é
certo, enquanto no Ocidente falemos de quatro pontos cardeais, só
poderemos chegar com certeza à Disneylandia, mas nunca ao
Nirvana, ao silêncio, à liberdade ou ao amor.
FM - Como se explica a ponte entre Apocalipsis de la
rosa (1990) e El tempestario y otros relatos (1998),
uma vez que a narrativa predomina sobre este último, o que não
acontecia com o intermediário Ritual de títeres (1992),
que melhor se definiria como poemas em prosa?
GMC - Em Apocalipsis
de la rosa, editado pela primeira vez há quase onze anos,
submergi no bachelardiano
tempo vertical do poema, em sua incessante e múltipla fonte de
assombros, e creio que este espaço literário é verdadeiramente
meu elemento. Ritual de títeres,
meu segundo livro, é uma experimentação anti-narrativa, na qual
cada vez que se assume um capítulo o acontecimento já ocorreu e
resta apenas a sensação e a reflexão. É uma sistemática
indagação na imagem poética e na idéia, e jamais, em suas
duzentas páginas, se tem a intenção de narrar ou descrever e,
como tu mesmo já o disseste, poderia ser realmente um poema
romanceado. É a negação do personagem para impor a supremacia
do achado poético e filosófico. E por último, El
tempestario y otros relatos, é uma exploração decididamente
mais narrativa, mas talvez se pareça mais com o espaço do fotográfico
ou do pictórico, e todos os seus argumentos, muitas vezes dentro
do universo do fantástico, estão habitados por silêncios,
matizes, sonhos, imagens e reflexões que fluem de meu mais vívido
espaço poético. E, para ser mais explícito, embora todas as ficções
de El tempestario
habitem o tempo horizontal inerente à narração, estão
pervertidas, desviadas, subjugadas por uma escritura proveniente
da poesia. De qualquer forma, creio que escrever - sem importar o
gênero literário escolhido -, conto, novela, ensaio…, é a
mais estranha forma da solidão, da ausência, e a mais inútil
tentativa de conhecer a morte, e isso condiciona toda a minha
literatura.
FM - Há um verso em Apocalipsis de la rosa (1990)
que destaco: “el regreso / es apenas el sueño de los ríos”.
O que tem essa afirmação de contrastante com tua busca de
registro de vozes poéticas essenciais à compreensão de nosso
tempo [refiro-me às tuas entrevistas]?
GMC - O regresso é a comprovação de que o devir é
incessante e que a não-presença pode delatar, em uma cidade ou
em um rosto, alguns signos alterados… E desta forma a única opção
de continuar no espaço de nossos amigos ou de nossos amores é
convertendo-nos todos em Heráclitos capazes de nadar ao mesmo
ritmo da corrente. É permanecer na mesma água pela força de
correr em idêntica velocidade Quanto à minha obstinada busca por
entrevistar autores capazes de nos mostrar com suas reflexões o
tempo em que fraquejamos, experiência que é mais uma viagem do
que um retorno, talvez sendo uma cumplicidade interior de nosso
extravio, eu a entendo como uma homenagem a todos aqueles que
forjaram nossa geografia sensível, que acreditaram que a
linguagem ainda consegue nos tornar livres e que a palavra pode
nos guiar como a lâmpada de Diógenes a uma voz que às vezes
pode nos salvar.
FM - Quero que me fales dessa aventura das viagens em busca
de entrevistas. Tenho entrevistado através de cartas e prefiro o
distanciamento justamente por permitir um aprofundamento de idéias.
No entanto, tens realizado algumas entrevistas (Octavio Paz
, Juan García Ponce,
Cioran, Salvador Elizondo, Carlos Fuentes, Oswaldo Guayasamín…),
que não se dariam de outra maneira se não estivesses ali.
GMC - Meu encontro com Cioran, em Paris, é uma experiência
essencial em minha vida. Depois de haver recebido uma carta -
diante de minha perplexidade -, onde o consagrado filósofo romeno
enviava um texto inédito para o projeto de nossa revista, estar
em sua água-furtada da rue de l'Odeón, excedia minhas
expectativas. Esta criança escatológica, este insubornável espírito
irônico, este teólogo da desesperação, resultou ser um homem
de luz, habitado por uma incorruptível felicidade, e por uma
ternura e uma lúdica embriagadora. Durante quase duas horas rimos
de sua obstinada decisão de caluniar o universo. Esta entrevista
essencial que foi publicada em quatro países e em três idiomas
se intitula: "Adeus e muita ironia".
Octavio Paz
, por uma estranha
artimanha do acaso, nos recebeu em seu apartamento da Reforma, na
capital mexicana, dois dias antes de completar seus oitenta anos.
E este homem, com sua cabeça de totem pré-colombiano, desdobrou
sua incansável lucidez falando do tempo, da poesia, da
necessidade de legalizar a droga, e nos mostrou sua diligente
imaginação e capacidade reflexiva para debater sobre os
problemas do pensamento e fazer frente a esse equívoco que se
denominou história.
Juan García Ponce, o grande romancista mexicano, vítima
de uma paralisia degenerativa que, em outubro de 1993 - no momento
da entrevista - já lhe estava ganhando a língua, nos manteve
suspensos durante mais de uma hora na qual festejamos seu tema
preferido: o erotismo. Salvador Elizondo, debaixo de uma árvore
em sua casa em Coyoacán, no México, lamentou que já não
proibissem os livros para lê-los com maior avidez e nos mostrou,
em um aquário, esses peixes quase míticos chamados ajolotes, que
o próprio Julio Cortázar havia incluído em um de seus mais
famosos relatos. Oswaldo Guayasamín, em seu estúdio de Quito,
quando íamos fotografá-lo retirava da mesa as carteiras de
cigarros dizendo que não queria aparecer retratado ao lado da única
coisa que devia aos gringos: seu ruivo tabaco… Bem, penso em
Juarroz, em Olga Orozco, em Roger Munier, no grande poeta português
Antonio Ramos
Rosa,
nos venezuelanos: Eugenio Montejo
, Silva Estrada
e
no pintor Jacobo Borges, e em outros extraordinários artistas que
entrevistamos para nossa revista Común
Presencia, e que nos deram a certeza de nosso universal,
incorrigível e lúcido equívoco.
FM - Na verdade, ao propiciar um encontro, não fazemos senão
afirmar nossa confiança no assombro, na surpresa. Em meu caso,
tenho feito entrevistas quase sempre em função de sua publicação
conjunta, idealizando um livro como mesa de encontro entre vários
poetas. O que buscas essencialmente ao entrevistar um poeta?
GMC - Embora as entrevista tenham sido publicadas
primeiramente em nossa revista Común
Presencia, ou em outras revistas latino-americanas,
perseguindo convencer o anônimo
leitor de aproximar-se de uma determinada voz, ou rendendo
homenagem a um poeta que nos aumenta, confesso que padeço de tua
mesma idealização de poder compilá-las posteriormente em um
livro que, sem dúvida, postularia o encontro de visões diversas
e de pensamentos coincidentes ou complementares sobre o tempo e a
palavra que nos tem tocado viver. E, para completa a resposta, ao
entrevistar um poeta busco compartilhar meu silêncio, fazer-me cúmplice
de seus questionamentos, participar da ceia de seus sonhos, da
devoração de seus fantasmas.
FM - Desde 1988 editas a revista Común presencia, ao lado da poeta Amparo Osorio. Suponho que em
tuas viagens tenhas estabelecido alguns encontros com outros
editores de revistas. Em que circunstância surgiu Común
presencia em Bogotá, e quais suas relações possíveis com
outras publicações na América Latina?
GMC - Como qualquer revista de seu caráter, Común
Presencia é uma ilha onde sempre devemos chegar os náufragos.
Há dez anos apareceu pela primeira vez e, apesar de épocas em
que não é possível editá-la, persistimos ainda em manter
aberta esta janela essencial, espaço que nos parece agora mais
urgente que no momento de sua fundação. Quando as Leituras
literárias dos jornais hispano-americanos estão tomados por
orientações excludentes ou frívolas, e quando vivemos o reino
da cultura light, uma
revista de criação que busca zonas abissais, que tenta manter
incandescentes as pequenas zonas do pensamento e da imaginação
que o capitalismo em sua voracidade não conseguiu reduzir ou
assimilar, nos parece uma aventura inobjetável.
FM - O que tem garantido a permanência de Común Presencia
durante toda uma década?
GMC - Creio que o medo que nunca diminui… Que - como
Sherazade - somente sabemos combatê-lo com palavras. E a infantil
crença de que enquanto existe a revista, aqueles que a urdimos e
os que a lêem com paixão teremos lugar para o assombro e a
esperança.
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GONZALO
MÁRQUEZ CRISTO
(Colômbia, 1963) |