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Enrique
Gómez-Correa: testemunhos de um poeta explosivo
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - Como costumava dizer René Daumal, aquele que escreve
em total liberdade cria um mundo. Qual significado tem para você
o ato de criação?
EG-C - A aspiração de Daumal é idealmente exata. Mas na
prática as dificuldades surgem ao querer determinar o momento em
que o escritor ou o poeta conseguiu a “total
liberdade”, seja no interior de seu espírito ou fora dele. A contrario
sensu se pensaria que, quando não existe esta liberdade,
nunca se poderia criar um mundo, o que o desmente a história da
literatura e da poesia. Sob tiranias (e como eu sei!) é possível
criar obras, textos, mundos novos, claro está que ocultamente e,
em geral, impublicáveis, incomunicáveis, os quais, no entanto,
com demora saem à luz e, se se trata de uma verdadeira criação
esta sobrevive à sombra, sobrevive aos estragos da opressão e da
morte. Em último termo, para mim “criação” é um ato em que
a diversidade espiritual se solidifica.
FM - Alguns críticos fazem referências sobre o esoterismo
e a filosofia hindu como aspectos igualmente essenciais de sua
poesia. Existe um verso seu que alude ao poeta como o “homem que
pisa sobre a escritura de sua morte”. Diria que nisto, a que René
Char se refere como “um entendimento do inesperado”, se
encontra a raiz de toda sua poesia?
EG-C - Durante anos, através de diferentes lugares que
visitei em minhas viagens pelo mundo, foi preocupação
fundamental para mim conhecer como enfrentavam os distintos povos
o problema da morte. O experimentei, por exemplo, nas selvas
equatorianas e colombianas; na Índia e na China; nos países
europeus e americanos; em povos civilizados e povos primitivos, bárbaros,
mais propriamente autóctones, em geral. Conheci seus ritos. Eu
mesmo estive várias vezes à beira da morte. Escrevi poemas
agonizando. Meu poema “El peso de los años” (inédito) é uma
relação de minha luta com o câncer (desacreditado, nos
primeiros dias de março de 1985, por uma junta médica) e a ele
consegui sobrepor-me. Não sem razão, em 1937, em um texto de
escritura automática (“La violencia”), me havia formulado a
terrível interrogação: De
que serve a quarta dimensão do olho sem o cigarro da morte? - aqui o inesperado foi a vida, o re-nascer, o
re-viver, todo, todo um ato poético. Hoje - ante a queda das
desgastadas ideologias e das velhas utopias - é tarefa primordial
para o poeta (com uma poderosa vontade e imaginação) criar novas
utopias (talvez novos mitos) para abordar o Terceiro Milênio, que
nos aguarda com seus vazios, ilusões, esperanças e soçobras.
FM - Segundo Borges, “a poesia não começa com a metáfora
e até suspeito que entre a gente primitiva não se nota a diferença
entre o sentido estrito e o sentido figurado”. Considera a metáfora
como elemento essencial da poesia?
EG-C - A metáfora e a comparação são construídas com a
ponte que implica o como,
da mesma maneira que a imagem com a outra ponte que é o de. Metáfora, comparação e imagem são os fundamentos da poesia.
Acrescente a isto: conhecimento, razão, loucura, emoção,
sentimento, surpresa, silêncios, consciente, inconsciente, acaso,
imaginação, humor, entusiasmo, êxtase e depois leve tudo ao
fogo, brando ou alto, segundo indique a árvore de teu cérebro,
de teu coração e, também, o ritmo de teu sangue. Deixarás teu
sangue na escritura do poema sobre a folha em branco.
FM - De acordo com Nicolás Espiro, “a arte nasce com uma
estirpe de supra-personalidade para que a vida cotidiana possa
nutrir-se dela e alcançar, a seu tempo, por seu intermédio, essa
consciência mais alta, essa região onde se anulam opostos e
incompatíveis, onde tudo existe em compreensão e harmonia”.
Está de acordo? Neste sentido, poderíamos afirmar que isto
configura um obstáculo da comunicação do artista com o mundo?
EG-C - Certamente. Marchamos seguindo as pegadas de Heráclito,
de Hegel, a dialética endemoninhada que conduz aos absolutos, ao
ponto supremo, ao ponto sublime, onde as antinomias se resolvem.
É o retorno ao Um.
FM - Recordando as palavras de Aldo Pellegrini
, “tudo o que o
Surrealismo pensa da arte resume-se na concepção da onipotência
da poesia. A poesia constitui o núcleo vivo de toda manifestação
de arte e ela dá seu verdadeiro sentido”. Por sua vez, Artaud
referia-se ao Surrealismo como “uma nova espécie de magia”.
Que significado tem em sua vida o Surrealismo?
EG-C - Nasci em uma terra surrealista e, por isto, o fui
antes de conhecer a letra, a doutrina, os textos que formam o
mundo surrealista. Nasci em uma terra onde são freqüentes os
tremores, os terremotos (escapei já de suas graves conseqüências,
de três grandes), as erupções vulcânicas, as nevadas em pleno
deserto cálido, as petrificações de répteis, de aves, de
animais. Lembro que em minha infância me maravilhava pondo
sapatos, frutas, objetos em águas calcárias de um charco, para
ver como se petrificavam, como se metamorfoseavam, como minha
cidade natal Talca - era coberta pelas cinzas de um vulcão
cordilheirano. Sim, aqui no Chile, tivemos até um Ubu Roi!
FM - Em que circunstâncias surge em Santiago o grupo Mandrágora?
EG-C - O grupo Mandrágora
e a revista de mesmo nome nasceram oficialmente
em 12 de julho de 1938, com uma leitura de poemas e declarações
no Auditorium da Universidade do Chile, feitas por Braulio Arenas,
Teófilo Cid e eu, não obstante que, já em 1932, o acaso havia
nos reunido no Liceu de Homens de Talca. Depois incorporaram-se ao
grupo Jorge Cáceres, Juan Sánchez Peláez, Fernando Onfray,
Eugenio Vidaurrázaga e outros. O grande pintor Roberto Matta
havia partido para a França, porém conheceu nossos textos e,
segundo me informaram, manifestou seu apreço. Eram os tempos da
Guerra da Espanha, das Frentes Populares (triunfantes na França,
na Espanha e no Chile) e da Segunda Guerra Mundial. Nos opusemos
ao capitalismo, ao fascismo, ao nazismo, ao franquismo e ao
estalinismo (Octavio Paz
o
destacou em um artigo seu). Fomos, além do mais, fervorosos
partidários da ruptura de relações diplomáticas com os
governos dos países que formavam o Eixo. Sustentamos nossos
pontos de vista em jornais, revistas, conferências, foros e também
a bofetadas. Tempos heróicos os da Mandrágora!
FM - Que importância tem a poesia de Pablo de Rokha,
Rosamel del Valle e Humberto Díaz-Casanueva para a geração de
Mandrágora?
EG-C - Os poetas que você me assinala, a cuja lista há
que acrescentar Vicente Huidobro, desempenharam um grande papel na
história da poesia do Chile. Apesar da diferença de idade nos
uniu uma grande amizade, encontrávamo-nos com continuidade,
apoiaram-nos e estimularam-nos, acrescido a isto que, de certo
modo, haviam nos aclarado o caminho para fazer estalar a grande
explosão poética no idioma espanhol. Isto sim, vale a pena
esclarecer, não fomos nem discípulos nem seguidores de nenhum
deles, apesar da valiosidade de suas obras. Porém nos separavam
diferenças profundas. Repudiamos tanto a conduta como a obra de
Neruda.
FM - Que relações mantinham os integrantes do grupo com
os demais focos do Surrealismo na América Latina?
EG-C - O grupo Mandrágora
teve, desde o início, muito boas relações com os surrealistas
franceses, belgas, espanhóis, holandeses, ingleses, suecos, alemães,
iugoslavos e dos países sul-americanos como Argentina (Aldo
Pellegrini
, Enrique Molina
, Julio Llinás, Raúl
Gustavo Aguirre), Peru (César Moro
, Mendez Dorich,
Westphalen), Venezuela (Juan Sánchez Peláez), países
centro-americanos (o grupo dominicano La
poesía sorprendida que, de certo modo, foi uma projeção de Mandrágora,
graças ao escritor e poeta chileno Alberto Baeza Flores).
Igualmente em Cuba (Lam), Haiti e Martinica. Até hoje mantenho
correspondência com os poetas colombianos Oscar González e Raúl
Henao (Medellín). Também estes laços se mantiveram com os
surrealistas dos Estados Unidos (em Chicago, Franklin Rosemont,
como antes com Man Ray) e do Canadá (através de nosso amigo, o
poeta e artista Ludwig Zeller). Outro tanto com respeito ao México.
FM - Há uma grave acusação de Gonzalo Rojas de que os
componentes de Mandrágora, contrariando os postulados poéticos
que deram origem ao grupo, entregaram-se à publicidade e a um
triunfalismo vulgar. O que pensa a respeito?
EG-C - A seu tempo informaram-me dessa gratuita e injusta
crítica. Braulio Arenas e Stefan Baciu, que também haviam sido
aludidos, responderam em termos muito enérgicos. Ofereceram-me
espaços em jornais e revistas para que contestasse. E, não
obstante jamais haver recusado uma polêmica, desta vez me neguei
a fazê-lo e preferi manter-me impassível. Meses depois o autor
das referidas críticas me escreveu uma carta pessoal, apontando
seu erro e dando-me desculpas por seu agravo ou escorregadela, com
termos elogiosos à minha pessoa e à minha obra. Depois disto,
dei por encerrado o episódio e parece-me irrelevante seguir
insistindo nele.
FM - O último número da revista Mandrágora levava por título
“Testemunhos de um poeta negro”, e foi inteiramente organizado
por você. Esta denominação de poeta negro, acaso o identifica
com os postulados do Le grand jeu?
EG-C - Admirei os integrantes do grupo denominado Le
grand jeu (título de uma obra de Benjamin Péret),
especialmente René Daumal (que fazia experiências com a morte
absorvendo peróxido de carbono e que falou de “poesia branca”
e “poesia negra”), Roger Gilbert-Lecomte (devorado pelas
drogas e o álcool, morto vítima de tétano) e Maurice Henry, a
quem conheci pessoalmente em Paris. Porém a nossa “poesia
negra” era mais ampla em seus conteúdos, uma vez que não
somente se limitava a assinalar sua equivalência com a “magia
negra”, em contraposição à “magia branca”, como também
que se referia a todo o negado pela moral imperante, ao mal em
estado de graça e pureza, à cor negra da bandeira dos
anarquistas, à rebelião absoluta. Era o “negro” de Rimbaud
e
Lautréamont.
FM - Por quais razões se decidiu não mais publicar a
revista?
EG-C - Minha prolongada residência na Europa e o fato de,
ao tratar de publicar o n.º 8 da revista Mandrágora
em Paris, contar somente com as colaborações de surrealistas
europeus e, entre os chilenos, unicamente com a de Jorge Cáceres,
o que me fazia aparecer em uma orfandade, no que respeita aos meus
conterrâneos e o que me determinou a viajar a países do Oriente
Médio e da África, principalmente o Egito, onde tomei contato
pessoal com o poeta surrealista Georges Hénein e com os de seu
grupo, La parte del desierto.
FM - Em um possível balanço de sua produção poética,
ao longo de mais de cinqüenta anos de intensa atividade, e
contando com alguns títulos inéditos, seria possível apontar o
que lhe trouxe a poesia, quais os frutos sagrados deste seu
incessante diálogo com ela?
EG-C - A estas alturas, depois de haver vivido tão
intensamente e tão intensamente também haver me defendido da
morte, de haver escrito bastante - se unimos o publicado ao inédito
-, posso dizer que a poesia em mim invadiu tudo, a tudo iluminou,
mesmo as coisas triviais, os lugares comuns, os fatos da vida
cotidiano, as cidades, as ruas, as casas, as praças, a
cordilheira, o mar, os céus claros e tormentosos, o dia, a noite,
o sonho. Há tempos que a Mandrágora
está nas ruas, os jovens a escutam, lêem, estudam-na nas
universidades, por mais que eu me empenhe em mantê-la secreta.
Tanto é assim que um restaurante no bairro oriental desta capital
- Santiago de Chile - leva o nome La Mandrágora. Os turistas que vão à cordilheira para esquiar na
neve lêem-no e repetem: “La Mandrágora!” Pobre Maldoror!
__________
ENRIQUE GÓMEZ-CORREA
(Chile, 1915-1995)
Poeta e ensaísta. Juntamente com Braulio Arenas e Teófilo
Cid, fundou o grupo Mandrágora, de filiação surrealista.
Obra Poética
Las hijas de la memoria. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1940.
Cataclismo en los ojos. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1942.
Mandrágora, siglo XX. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1945.
La noche al desnudo. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1945.
El espectro de René Magritte. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1948.
En pleno día. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1949.
Carta-elegía
a Jorge Cáceres. Ediciones
Mandrágora. Santiago. 1949.
Lo desconocido liberado seguido de Las tres y media
etapas del vacío. Ediciones Mandrágora.
Santiago. 1952.
El calor animal. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1973.
Zonas
eróticas. Ediciones
Mandrágora. Santiago. 1973.
Madre tiniebla. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1973.
Poesía explosiva (Antología). Ediciones Aire Libre. Santiago. 1973.
La pareja real. Ediciones Mandrágora. Santiago. 1985.
Frágil
memoria. Editorial Universitaria. Santiago. 1986.
Los
pordioseros. Editorial Universitaria. Santiago. 1992. |