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juan calzadilla

 

Juan Calzadilla: humor e síntese no ato criador

(entrevista conduzida por Floriano Martins)

 

FM - É por demais conhecido teu caráter desenfadado e auto-irônico. Naturalmente que há uma ressonância de tudo isto em tua poesia. Também ali a presença de uma clara consciência dos defeitos, dos fracassos, de sua própria marginalidade, cujo reflexo central é a burla, sua mania de brincar. O que tem a poesia a nos dizer através de Juan Calzadilla?

JC - Em geral, o que me parece importante desenvolver na poesia é uma certa consciência do ato de escrevê-la. Dos processos para chegar ao poema. Uma inteligência do ato criador que não leva implícito um juízo de valor nem tampouco atribui segurança à questão de escrever mas que, pelo contrário, gera desconfiança frente ao valor do resultado. Uma desconfiança crítica, digamos assim, que consiste no desejo de desmontar o processo enquanto este se cumpre. Tomo isto com bastante humor, como se não lhe desse importância, dado que penso que a forma poética não é em si mesma poesia. Escreve-se no momento e para o momento. Nunca sabemos para quem e para quando. Nada garante que o feito, ao tornar-se escrito, seja poesia. Digamos que o que se escreve continua sendo um texto enquanto não se produza uma decisão. Posso decidir que é poesia. Porém tal opinião é discutível, tão logo transigida. O verdadeiro juízo de valor corresponde ao tempo, a instâncias ulteriores, quando não à posteridade, ou a sucessivas espessuras de leituras, inclusive as que fazemos nós mesmos, que agem como um tribunal acerca do que é e do que não é. E se é certo que esta comprovação frente à operação de escrever me dá liberdade para atuar com desenfado, por outro lado me produz, paradoxalmente, uma grande incerteza, um freio, uma paralisação da fala, que se traduz em afã de síntese, em consciência da necessidade da linguagem e na tensão verbal, afã que normalmente busca satisfazer-se através da ironia ou, se preferes, do humor. E isto é seguramente o que entendes como “mania de brincar”, que é prazer de armar e desmontar o texto, de vê-lo à contraluz e decidir, depois que nele interveio uma grande porção de acaso, guardá-lo, amontoá-lo, confrontá-lo, refazê-lo ou destrui-lo. E nisto há também ferocidade. A ferocidade que nos leva, por exemplo, a censurar quase tudo o que fazemos.

FM - Recordo palavras tuas: “Fui até à prosa para castigar mais o verso e colocar-me as questões como se o que pudesse dizer agora resultasse um lugar-comum”. Acaso já é possível falar de algumas contribuições resultantes deste diálogo com a prosa?

JC - Segundo Montale não há contribuição importante em poesia que não provenha da prosa. Sem prosa não haveria boa poesia moderna, e menos ainda entre nós, na América Latina, onde se adotou, e espero que definitivamente, o verso livre, e onde são cada vez mais deploráveis os ensaios de restauração da rima e da métrica tradicionais. A vantagem da prosa é que com ela se pode pensar, presta-se como instrumento a serviço do qual a intuição e a reflexão na produção de pensamento seguem juntas porém separadas. Na poesia, em troca, a intuição contém ou afoga o impulso reflexivo ou o torna desnecessário, uma vez que se recusa a qualquer explicação.

A reflexão, quando se trata da prosa, não aparece unicamente em um plano lógico, sendo também suscetível a desenvolver-se metaforicamente, da maneira como o faz o poema, trocando suas funções pela deste ou acompanhando-o, não para esclarecê-lo, como o faria o pensamento lógico, mas para comunicar-lhe ambigüidade, capa poética. É isto o que, sem dar-me conta, e partindo sempre de uma reflexão, encontrei na prosa quando, prescindindo de toda diferença genérica, escrevo sem preocupar-me se a linha termina em verso ou se está justificada de ambos os lados. Para que buscar um copo se podemos fazer concha com as mãos?

Repara que a terminação dos versos livres é amiúde caprichosa e subjetiva e que daria no mesmo partir os versos de maneira distinta, pois no fundo o que interessa, mais do que as pausas, é o ritmo interno do discurso, sua cadência e musicalidade, e estes elementos não são dados pela medição silábica ou pela presença do verso, mas sim pelo ritmo próprio da conversação. De tal maneira que dá no mesmo empregar a prosa ou o verso livre, se depois de tudo obtemos o mesmo efeito cortando-a em versos ou justificando-a de ambos os lados. No que me diz respeito, escrevo em prosa e depois parto os versos quando visualmente me convém. É a mesma razão pela qual penso que o sentido vai primeiro do que a forma ou, pelo menos, que está na origem do poema.

FM - A organização de Minimales encerra um ciclo em tua poética?

JC - Com Minimales ocorre que é em parte uma antologia e em parte um livro novo, isto em partes iguais. Uma antologia onde há poemas já publicados e poemas inéditos. Isto é, um livro-balanço, pensado como objeto de confrontação para estabelecer uma espécie de diretriz ou fio de continuidade, comparando a produção velha com a nova e propondo por esta via as condições para uma releitura. A poesia é um gênero sujeito a comprovação, que precisa sempre de nova leitura. Pensas que nunca vais escrever muitos poemas que ficarão e que, portanto, tens o direito de defender-te com aqueles que melhor vêm resistindo à prova. Então se justifica que tua vigilância não se aplique tanto ao presente, do qual te esqueces de imediato, quanto a um passado do qual o presente se nutre. Por outro lado, penso que os poemas, para quem os lê, à parte de ser comunicações abertas, são esquecidos de imediato. Uma nova leitura resultará sempre, a este respeito, uma redescoberta do poema. E nada melhor como quando preparaste, com os poemas que te interessaram, um cenário para a reflexão. Não importa se és tu mesmo a fazê-la. Não sou daqueles que crêem, e menos ainda nesta época, que o livro é um produto acabado. Vejo-o, no meu caso, como um ordenamento suscetível, a qualquer momento, de uma redistribuição, em função de uma significação de conjunto. O poema é uma peça a mais e o livro é um todo.

FM - Em uma conversa com Claudia Antonia Arcila e Juan Manuel Roca, há um comentário teu acerca dos dias de El techo de la ballena, quando recordas que “no fundo o que buscávamos era ensaiar novas formas de expressão: atacar a poesia da nostalgia, esse lirismo tradicional que reinava desde o passado”. É possível hoje uma averiguação mais clara acerca dos resultados deste “ensaio”? Quais os dados positivos da atuação de El techo de la ballena no cenário cultural venezuelano de hoje?

JC - Têm sido realizadas algumas tentativas isoladas de revisar a gestão de El techo de la ballena, como é o caso da antologia preparada por Ángel Rama  (Fundarte, 1988). Porém são ensaios feitos com critérios muito sociológicos ou limitados à questão política, em alguns casos prejulgados contra o Surrealismo e sem entrar em detalhes na análise do assunto que mais interessaria: a obra literária de seus criadores. Para isto faz falta uma compilação maior, que reúna toda a produção valiosa conservada em títulos e em revistas. Entretanto, a história segue seu curso e se aprecia cada vez mais, seja com nostalgia ou com sentido realista, que a ação de El techo de la ballena não permanece ancorada em um passado morto, mas sim que tem projeção na atualidade, especialmente nos delineamentos artísticos do que se conheceu aqui como o informalismo, uma proposta desembaraçada que saiu das filas de El techo e teve seqüela em nossos dias, como se de imediato virasse moda.

No entanto, o deslinde mais importante para medir a contribuição de El techo deve nos levar diretamente a destacar o papel da poesia e da forma que alguns criadores do grupo, embora poucos realmente, passaram, graças à ação pessoal e também ao papel histórico do grupo, para converterem-se em referências obrigatórias ou influentes de nossa poesia contemporânea, justamente quando se começa a ver que esta se inicia com os poetas dos arredores de 1960.

FM - É possível falar um pouco do majamamismo proposto por Dámaso Ogaz e as razões de discordância de El techo com esta invenção?

JC - O majamamismo foi resultado de uma proposta que, a respeito do programa de El techo de la ballena, elaborou Dámaso Ogaz em Paris, antes de se estabelecer em Caracas e adscrever a este movimento, em 1963. Ele propunha o majamamismo como uma plataforma patafísica, de corte literário e muito próxima do espírito de Jarry. Ogaz era um surrealista iconoclasta, de idéias anarquistas, não obstante não rejeitasse, de olho no país, certo compromisso político, ainda que no fundo fosse pessimista sobre as possibilidades de mudar as coisas. E tinha razão. O lema, visto hoje, parece um tanto ridículo: Mudar a vida Transformar a sociedade. Um pouco como a mim, a Ogaz interessava mais a subversão em estado puro, seguida da provocação por meio do absurdo e do humor. Por sua vez, o pessoal de El techo, em sua maioria, era oposto a tudo o que se pudesse entender como filiação ou adscrição de El techo a qualquer movimento de vanguarda. Oposto a que se chegasse a crer que atuávamos por reflexo do que fizeram, décadas antes, as vanguardas com cujo espírito nos identificávamos, especialmente com o dadaísmo, pelo que concerne às ações anárquicas, e com o Surrealismo, pelo que concerne ao compromisso político e à linguagem. Queríamos que se entendesse que era um movimento subversivo, porém no marco das circunstâncias que vivíamos, cegos que estávamos pelos focos de insurreição local de onde se combatia o extremismo policial do governo e as posições do oficialismo em arte e literatura. Trabalhávamos com afã na aprendizagem de métodos próprios, que íamos descobrindo nos afazeres diários. Portanto, não se via com bons olhos um discurso que não fosse bastante direto e descarnado e que não viesse deslastrado de literatura. O manifesto majamánico resultou assim, ao menos naquele momento, pouco congruente com os objetivos de luta e, se não foi suficientemente discutido, ao menos sabemos que despertou interesse e que, de uma maneira geral, foi muito importante para a obra poética de Ogaz. Este representou o olho da consciência em meio ao temporal e manteve até o dia de sua morte um comportamento ético exemplar.

FM - Falemos um pouco dos erros do passado. Penso em Simón Rodríguez e no fato de que sua logografía foi a grande precursora de todas as invenções formais e lingüísticas da modernidade. Também sua irreverência de conceitos, seu humor. No entanto, creio que houve certo ocultamento de sua importância, que a poesia venezuelana ignorou seus delineamentos essenciais.

JC - Acerca da logografía (ou seja, a apresentação visual e metafórica do discurso) na obra de Simón Rodríguez, a despeito de reconhecer a importância que lhe atribuis, há que se dizer que não foi estimada ou estudada nos países americanos de fala espanhola. E menos ainda na Venezuela. Não sei se no Brasil. Porém, em todo caso, é um acerto de tua parte haver reparado em algo que teria podido, senão mudar o curso de nossa poesia, ao menos fornecer-lhe uma base lingüística mais contenciosa e conceitual. Por isso, desfrutamos hoje de uma poesia pouco pensante. De tal forma que não creio que a lição de Rodríguez tenha servido muito neste aspecto.

Contudo, não entendo a logografía de Rodríguez desligada do conteúdo, ou seja, não a remeto a uma questão puramente formal, referida, no caso que nos ocupa, a que sua escritura poderia ter de analogia e prenunciação, como dizes, a respeito da poesia moderna, sobretudo pela distribuição versificada e espacial que nosso pensador fazia do texto em prosa, ou por seus atrevimentos tipográficos e lingüísticos. Rodríguez, já o sabemos, era um pedagogo e sua conduta e seu pensamento orientaram-se para levar à prática uma revolução educativa, para a qual extraiu modelos teóricos e planos de ação de sua própria experiência como professor na Venezuela, Equador e Peru, sobretudo no meio rural e indígena. Foi, desta forma, um pragmático e empregou a escritura com intenção didática, adaptando a linguagem a uma expressão parabólica, mediante demonstrações tão categóricas e claras que chegou, em suas conclusões, a uma tal necessidade de clareza e precisão, tão palpável, que para isto recorreu a uma linguagem pessoal, insólita, que hoje nos assombra. Uma linguagem na qual o texto se faz sua própria ilustração, de maneira que sentimos a forma do discurso como um corpo visual no qual as distintas alterações tipográficas, a distribuição versificada, o uso arbitrário da pontuação e as maiúsculas e o tratamento sintagmático das orações têm por finalidade fazer do texto algo tão funcional como um objeto. Como se, mais do que escrever, talhasse com as palavras pedra ou madeira. Esta função não está dissociada do que creio mais importante na obra de Rodríguez: o poder de síntese, a necessidade da adjetivação precisa, a proposta silogística, tudo o que ocorre emparelhado com uma inventividade, uma irreverência e um desembaraço que já desejariam para si muitos poetas. Desce cedo ignoramos o essencial desses delineamentos. Ao imaginismo de hoje aborrece ter que pensar.

FM - O que se passa com a poesia atual, ao menos é o que tenho observado na poesia feita em meu país (creio que o mesmo também se dá na Venezuela), é que a forma derrotou o pensamento. Há uma espécie de esgotamento momentâneo da reflexão, tornando o poema um desenho vazio, sem expressão alguma. É uma imagem aniquilada por si mesma: não há persona por trás da poesia. Porém o que tem a mídia, a massificação dos costumes e dos pensamentos a ver com isto?

JC - Creio que não somente o pensamento está derrotado, mas também a forma. Tenho dito a este respeito que “a forma é a estrutura que o sentido dá a si mesmo”. Não há dicotomia entre um e outra. Quando há uma idéia metaforicamente bem expressa, apreciamos que a forma corre por trás dela, o que quer dizer que o sentido é primeiro. “Perguntem ao feito pela forma”, dizia Emerson; e W. C. Williams: “as idéias estão nas coisas”. Compartilho completamente estes pensamentos.

Confiar-se exclusivamente às palavras é perigoso. A este respeito o barroco segue fazendo estragos entre nós. E é curioso que se continue pensando que a poesia pode ser feita exclusivamente com palavras e que não importa o pensamento, qualquer que seja, que a respalde, e menos ainda o compromisso. Porém os poetas da nova geração acodem às palavras como se qualquer que seja a ordem que a estas seja dada, pelo simples fato de poder associá-las, seja significativo. E de fato é, só que somente em um sentido polissêmico, ou seja, prestando-se a todas as interpretações possíveis. Fala-se então de uma poesia subjetiva, quando na verdade é tão-somente imprecisa, indeterminada. Não há personalidade detrás do poema, como bem dizes. Falta o universo do sentido, a reflexão que assista à operação do poetizar. Temos aí que optar entre o unívoco e o polissêmico, e se escolhemos o primeiro devemos aceitar que a reflexão é a primeira condição.

Em meu país se generalizou o cultivo de uma poesia abstrata sob a crença de que o poema é uma forma autônoma para a qual as palavras atuam como objetos, em detrimento da comunicação e para exaltar não a forma propriamente mas sim a carência de sentido; uma objetualidade visual construída com palavras vazias de conteúdo. Isto não é independente do que está ocorrendo ao nível da linguagem, em um sentido geral; os mídia, por exemplo, e ainda mais em países como o nosso onde se desenvolveu um instinto mimético extremamente primitivo, que tende a satisfazer-se na massificação e no impessoal, controlado como está pela TV, os mídia, repito, exercem um poder fascinante e maléfico e influem não apenas em que não se escreva bem mas sim em que não se escreva nem se leia em absoluto, permitindo que quem se atreva a fazê-lo não se interesse em nada por sua formação. Posto que, por outro lado, não há alta exigência nos leitores.

FM - Não há dúvida que Juan Sánchez Peláez, para os poetas venezuelanos, é uma ponte, um tipo de referência central entre o Surrealismo francês e sua versão singularíssima que eclodiu na América Latina. Que importância teve o Surrealismo em tua formação de poeta e quais as influências surrealistas no desdobramento da poesia venezuelana contemporânea?

JC - Permita-me um rodeio: em nossos países há uma idéia errônea do Surrealismo. A princípio o desconhecemos ou o reduzimos, ao falar dele, aos clichês preparados pelos meios de comunicação e a dominação. Como a todo mito, é aceito sem que seja estudado ou discutido. Seu desconhecimento é exorbitante, não somente entre os poetas que a ele se opõem, ou que acreditam ganhar pontos em tal oposição, mas também entre os que o seguem mediante adesões confusas ou fraudulentas, de última hora, que nada refletem do Surrealismo e menos de seus compromissos. Tu bem o sabes.

Entre nós, o Surrealismo representa uma influência tardia. E isso explica que somente em 1950 Juan Sánchez Peláez aparece em nosso país como uma espécie de porta-bandeira, uma ponte, como dizes, entre o Surrealismo e a linguagem que nos legou, bastante empobrecida, a tradição do modernismo. A tarefa dos poetas dos anos 50 e 60 foi iniciar a renovação das formas, adaptando-as a um requerimento mais realista, a uma prosódia que em grande parte encontrou o modelo de liberdade buscada no Surrealismo. Porém suponho que, igual como ocorreu no Brasil, nossa assimilação do Surrealismo, à parte o fato de ser tardia (no que diz respeito à Venezuela), não seguiu um curso ortodoxo, como o que conseguiu imprimir-lhe em Buenos Aires Aldo Pellegrini , mas sim, para dizer algo, sincrético; um curso por momentos singular e irregular, separado, como no caso de El techo de la ballena, inclusive voluntariamente, de uma filiação muito “avant la lettre” a respeito do Surrealismo francês. Isto começa a se dar quando se desenvolvem espontaneamente entre nós linhas um tanto anárquicas, nas quais o Surrealismo local descobre-se a si mesmo sem aspirar muito a ser proclamado como tal, sem direito a identidade, e sem necessidade de receber o aval de Breton, com força selvagem em alguns casos, como ocorre nos melhores poemas de Dávila Andrade.

Sou de opinião que o Surrealismo teve grande influência em minha formação, e seguiu tendo antes de que entrasse na atual fase minimalista. Fui surrealista em dois livros da década de 60 e o fui da melhor maneira como podia sê-lo. Ou seja, ficando fiel ao emprego do automatismo psíquico, com o qual se desbloqueia o acesso ao inconsciente mediante o pensamento incontrolado. Porém isto tampouco pode ser tomado como um sinal militante, pois para ser surrealista e ter um bom visto dever-se-ia estar na Europa. Se bem que essa carência certamente me deu bastante liberdade justamente para legitimar posições comprometidas acerca de política, tradição e oficialidade que resultavam, de uma perspectiva ortodoxa, o melhor expediente surrealista. Um Surrealismo sem combatentes pareceria uma contradição. O mesmo se deveria dizer de um Surrealismo sem sentido de revolta. Por sorte encontramos essas condições no clima de violência dos anos 60 sem pretender que, pelo fato de que combatíamos com armas do Surrealismo, fôssemos surrealistas.

FM - Outro nome fundamental é José Antonio Ramos  Sucre, por muito tempo não reconhecido merecidamente. Stefan Baciu o destaca como um dos precursores do Surrealismo em nosso continente, e recorda que seu primeiro livro (Trizas de papel, 1921) “continha em forma de prosopoemas alguns dos tons mais alucinantes e dilaceradores da poesia latino-americana”. Por outro lado, entende Lorenzo Tiempo (que creio tratar-se de um pseudônimo de Juan Liscano), em comentário acerca de Ramos Sucre e Julio Garmendia, que “em nenhum caso - ainda que ambos estivessem na Europa em plena revolução surrealista - se pode dizer que tomaram consciência desse movimento”. Que pensas deste desencontro de opiniões?

JC - Em princípio, remetendo-me ao início de tua pergunta, não sou da mesma opinião que Baciu. Ramos  Sucre não é um precursor do Surrealismo, uma vez que para isto haveria que ter sido conhecido por nossos surrealistas. Foi, isto sim, contemporâneo dos fundadores do Surrealismo, e em sua obra, publicada entre 1922 e 1930, não mais além, é certo que há elementos próprios da linguagem surrealista que possivelmente levariam Breton a dizer, se este acaso tivesse se interessado pela poesia em língua espanhola, que Ramos Sucre era um surrealista apesar dele. Este não teve informação alguma sobre a existência do Surrealismo francês e duvido que tenha lido Lautréamont, pelo menos antes de escrever seus livros, e muito menos, com certeza, Breton. A adscrição ao Surrealismo que se costuma fazer com seu nome é uma bobagem. Muito menos compartilho a opinião que dramatiza os “tons dilaceradores” de sua poética, ainda que não negue que esses traços lúgubres que encontramos em seus poemas são de natureza autobiográfica, o que de algum modo explica que o sofrimento do poeta, registrado em seus textos, o tenha levado ao suicídio aos 40 anos. Porém creio, como pensava Michaux, que se escreve para preservar a saúde. O jogo e o prazer que satisfaz a escritura compensam, no caso do poeta, a dor e a amargura da vida, mesmo que não os substituam; de modo que não creio que seja por uma necessidade confessional que a poesia de Ramos Sucre alcança um tom dilacerador, mas sim porque este tom corresponde a um sentimento estético aparelhado com aquilo a que, formalmente, o poeta sabia atribuir maior eficácia poética.

Coincido com Liscano, em que Ramos  Sucre, como disse acima, não esteve inteirado do Surrealismo. Porém não creio que para ser surrealista se tenha que pertencer ao movimento ou ter consciência deste. Ramos Sucre, como Kafka, foi surrealista em sua circunstância. Em uma circunstância latino-americana, em seu caso, quero dizer.

FM - Que dificuldades enfrentam hoje os escritores venezuelanos na busca de uma difusão internacional de suas obras?

JC - O problema encontra-se nos próprios escritores e em um erro de perspectiva: supor que é o Estado que deve velar pelo lançamento dos criadores. Trata-se de um mal venezuelano que consiste em deixar nas mãos do Estado a solução de todos os problemas. A Venezuela tem sido, ao menos até bem pouco tempo, um país fechado em suas fronteiras e auto-suficiente, um país no qual seus intelectuais se sentiam seguros e protegidos por privilégios de vários tipos, que incluíam a publicação de suas obras por conta das editoras e coleções oficiais, e tudo isto gerava um clima de auto-estima e auto-satisfação que não exigia dos escritores maiores sacrifícios e riscos e muito menos necessidade de que confrontassem suas obras internacionalmente. O resultado foi que não se conhece quase nenhum de nossos escritores fora do país, nem mesmo os melhores. Em compensação, olhando dentro da casa, tínhamos falsos prestígios de sobra. Hoje as condições mudaram. Agora se constata que o Estado nunca fez nada responsavelmente para lançar os escritores do país e que as embaixadas têm sido completamente funestas nessa matéria; quando empregaram intelectuais no serviço diplomático foi para convertê-los em burocratas. Hoje existe um ambiente esperançoso a nível dos esforços que fazem os poetas de vários países, por iniciativa própria, para alcançar a integração que supere as barreiras nacionais e para fazer do idioma comum uma pátria geral que nos abrigue a todos, por cima das fronteiras nacionais, para nos reconhecer exclusivamente pelo emprego de um idioma comum. Vínculos de natureza parecida poderiam ser estabelecidos com o Brasil, e já se delineiam em pequena medida.

Enfim, é no plano do que pode fazer cada um para sobrepor-se às escalas asfixiantes em que vivemos, saindo ao exterior, onde se encontram os sinais de salvação. Viemos a sabê-lo muito tarde.

 

 

__________

JUAN CALZADILLA
(Venezuela, 1931)

 

Obra poética

Primeros poemas. Ediciones El Techo de la Ballena. Caracas. 1954.
La torre de los pájaros. Ediciones El Techo de la Ballena. Caracas. 1955.
Los herbarios rojos. Ediciones El Techo de la Ballena. Caracas. 1958.
Dictado por la jauría. Ediciones El Techo de la Ballena. Caracas. 1962.
Malos modales. Ediciones El Techo de la Ballena. Caracas. 1965.
Las contradicciones sobrenaturales. Ediciones El Techo de la Ballena. Caracas.1967.
Ciudadano sin fin. Monte Avila Editores. Caracas. 1970.
Manual de extraños. Caracas. 1975.
Oh smog. Caracas.1977.
Tácticas de vigía. Ediciones Oxígeno. Caracas. 1982.
Una cáscara de cierto espesor. Fundarte. Caracas. 1985.
Diario para una poesía mínima. Caracas. 1986.
Agendario. Cuerpos escritos. Fondo Editorial Tropykos. Caracas. 1988.
Antología paralela. Fundarte. Caracas. 1988.
Diarios (Aproximaciones a un decir siempre aplazado). Ediciones com textos. Caracas. S/d.
Minimales. Monte Avila Editores. Caracas. 1993.

Entrevista originalmente incluída na edição fora de mercado de Escritura Conquistada (1998). Contou ainda com a seguinte reprodução: [a] Correo Mínimo # 22 (Fundación Juai-Mare del Libro Venezolano, Caracas, novembro de 1999); [b] Diario de Poesía # 57 (Buenos Aires, outono de 2001).

 

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