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Carlos
Germán Belli: preciosos mistérios da experiência poética
(entrevista
conduzida por Floriano Martins)
FM - Conquista do
maravilhoso, fonte de conhecimento, iluminação em estado puro, a
poesia caracteriza-se afinal por uma verdadeira avidez pelo
desconhecido, exaltação perene do assombro de viver. Sendo a
mais intensa aventura do espírito humano, nela se definem amor e
liberdade, fundem-se visível e invisível. René Char, por sua
vez, considera-a “um entendimento com o inesperado”. E de
Nietzsche extraímos esta brilhante afirmativa: “Escreve com
sangue e assim aprenderás que o sangue é espírito”. Quanto a
você, como lhe toca a poesia?
CGB - Estou de acordo com você de que a poesia é a
aventura espiritual mais intensa. Sua prática, por fim,
enriqueceu minha conatural religiosidade. Em virtude da poesia vou
da fé cristã ao tantrismo, e talvez adiante, até à rota do Islã.
Mas, na realidade dos fatos, assumo a poesia para sempre a partir
de um propósito simples, como um meio de socorro existencial,
isto é, como exercício catártico para dissipar as angústias
neste vale de lágrimas. Foi mais ou menos assim o começo.
Depois, pouco a pouco, descubro o deleitar-se no texto, que é o
prazer infinito de escrever como uma boda de pluma e letra.
Finalmente, o que já manifestava antes: pelo exercício da poesia
o visível se converte em uma via até o invisível. Creio que de
certa maneira assim postulavam os insignes simbolistas: além, em
Paris, o pintor Odilon Redon; aqui, em Lima, o poeta José María
Eguren. Comungo com as idéias de ambos.
FM - De acordo com José Lezama Lima
, “as influências não
são causas que engendram efeitos, mas efeitos que iluminam
causas”. Sob este prisma, esta visão mágica, iluminada, do
poeta cubano, quais livros (ou mesmo autores) estariam impregnados
à sua poesia? Acaso considera sua obra poética a continuação
de alguma outra?
CGB - Quisera escrever em um estilo neo-renascentista. Hoje
este é meu desejo, que estimo naturalmente inatingível. Quisera
escrever com “uma imperialista raiva de precisão”, segundo
manifestava Salvador Dalí, superando o “americano complexo de
inferioridade” que, ao dizer do poeta argentino César Fernández
Moreno, nos impede de ser como somos. As causas específicas de
meu atual interesse literário estão no Cancioneiro de Petrarca e, dentro desta perspectiva, nos versos de
Garcilaso, por exemplo. Até aqui nunca me pus a pensar se o que
faço é continuação de uma obra alheia (talvez mais adiante
ruminarei tal idéia). O que posso reconhecer é que em meu
discurso poético - ousarei chamá-lo desta maneira -, sustentado
principalmente em hendecassílabos e heptassílabos, vejo às
vezes, ante meu assombro, que reaparecem frases, idéias fixas
concebidas anos atrás.
FM - Seu primeiro livro
foi publicado em 1958. A ele seguiram dez outros. Seria possível
hoje um balanço desses trinta anos de intensa atividade poética?
O que lhe tem dado a poesia?
CGB - Resisto a fazer balanços, porque isto tem o sabor da
conta final, que prefiro seja aplicável ao atual fim de século e
de milênio, mas não para mim. Certamente teria que reconhecer
que a poesia principalmente me deu a possibilidade de estimar que
a vida é um mistério não para ser solucionado mas sim para ser
vivido; e, além disto, a poesia como um ato socorrido, mais do
que catártico - ao qual aludi antes -, agora como um ato de
compensação, de desquite absoluto. Como apreciará você, a
estas alturas da entrevista, reduzo tudo sempre ao mesmo. Na
verdade, não me preocupa, porque no fundo é este o meu modo de
ser.
FM - Sente-se perseguido
por algum tema, em particular? Quais as indagações mais
persistentes que o Carlos Germán Belli vem fazendo a si mesmo no
decorrer destes anos todos?
CGB - O autobiográfico é minha principal fonte temática,
como talvez ocorra a todos. Porém, acaso, a própria forma é o
que mais me tem obcecado. Por exemplo, tratar de fazer-me senhor
dos endecassílabos ou das sextinas, ampliar gradualmente o molde
das canções. Provavelmente, mais do que algum tema em
particular, a forma poética seja o que maior atenção tem
exercido sobre mim.
FM - Poderia nos falar de
suas relações com o Surrealismo?
CGB - O crítico romeno Stefan Baciu me definiu como
“para-surrealista”, o que na realidade me lisonjeou. Por outro
lado, ao nível das relações pessoais, conservo sempre uma
lembrança muito especial de Aldo Pellegrini
-
poeta e médico -, a quem conheci em Buenos Aires poucos anos
antes de sua morte. Pellegrini é um dos mais notórios difusores
deste movimento no âmbito ibero-americano. Quanto à minha
aproximação ao Surrealismo, acerca da qual você me pergunta,
foi bem mais instintivamente e inclusive de modo contraditório.
Lembro que minha biblioteca juvenil era de índole vanguardista,
isto é, livros mandados buscar desde Lima quase no instante de
sua aparição em Paris. Eram meus dias de empregado público, e
hoje me vejo como um amanuense semidouto, ainda que ansioso por
entender as árduas questões surrealistas. Creio que tal afã me
enriqueceu com as idéias do maravilhoso, do acaso objetivo, do
humor negro, da admiração pela pintura de Dalí, Magritte e
Tanguy; e, sem dúvida, me sensibilizou no lirismo da matéria.
Mas, ao mesmo tempo, me afinou paradoxalmente a visão da vida com
sentido transcendental.
FM - Em sua participação
no Colóquio Internacional de Madri (organizado pelo Congresso
para a Liberdade da Cultura, 1963), o poeta português Mario
Cesariny declarou que “mesmo prestadas as devidas honras à
cronologia e à história, o Surrealismo permanece como a expressão
mais jovem da esperança e da dignidade de uma literatura do nosso
tempo”. Em plena agonia deste século, tomaria para si as
palavras de Cesariny, referindo-se evidentemente à literatura
peruana?
CGB - Neste fim de século creio distinguir o espírito
surrealista em alguns pintores peruanos mais importantes.
Igualmente no campo da poesia. Os indícios deste último poderia
ser a devoção das gerações recentes por aqueles escritores
peruanos de épocas anteriores associados ao espírito deste
movimento. Teses, epígrafes retiradas de seus versos, em suma, um
interesse geracional como se a expressão da modernidade devesse
ter o que aponta o poeta Cesariny.
FM - O apogeu da
modernidade trouxe consigo (ou emperramos nisto, estranha inércia
parida pela perplexidade) o rompimento da conexão entre cultura e
vida comum. O artista moderno oscila entre o adeus final à ética
e a jura (secreta) ao niilismo. Considera-se como protagonista da
sua arte e do pensamento da época em que vivemos? Acha (ainda)
possível pensar o poema como criação da comunidade, fusão
entre realidade e imaginário de uma coletividade?
CGB - É uma pergunta que vai diretamente ao assunto. Não
poderia responder-lhe agora, nos finais de século e milênio.
Mas, se aceitamos que é o fim da modernidade e que hoje se está
produzindo a volta à alta tradição, que caracteriza - não sei
se me equivoco - o que se chama “pós-modernidade” ou “pós-vanguardismo”,
nesta específica conjuntura, sim, me identifico.
Quanto à última parte de sua pergunta, sempre estive
metido em meu íntimo e, por conseqüência, nunca me pus a pensar
que a poesia pudesse ser o resultado da fusão entre realidade e
imaginação coletiva. Contudo, neste momento, ponho-me a pensar
que nosso reino interior é somente parcela de um reino maior, que
pertence a todos. A pequenina alma individual está unida à
infinita alma coletiva. O sonho propriamente dito, os mitos, as
tradições orais, as frases proverbiais são patrimônio da
humanidade, e não coisa exclusiva do tipo ensimesmado e solitário.
Todos somos filhos de Adão, todos somos vizinhos do mesmo mundo.
FM - Diz Marcuse: “A mim
me parece que a cabeça da Medusa é o símbolo eterno e mais
adequado da arte: o terror como beleza; o terror recolhido na
forma gratificante do objeto magnífico”. O que pensa a este
respeito?
CGB - Creio que é metade da verdade. Recentemente, a estas
alturas de minha vida, nestes dias, estou lendo Os cantos de Maldoror (porventura cumpri fielmente o conselho do
mestre Darío de não ler estas páginas quando jovem).
Finalmente, leio-as com uma mescla de admiração e grande medo.
Creio que é a arte sob o signo da Medusa; mas não é tudo.
Porque, além de Lautréamont, está San Juan
de
la Cruz; além de Bosch, Fra Angélico.
FM - O que lhe resta
dizer?
CGB - Somente devo acrescentar que tenho nostalgia de meu
inveterado laconismo. Porque a aventura espiritual melhor há que
mantê-la em segredo. Melhor passar em silêncio pelo mundo, e que
nossos versos falem por nós.
__________
CARLOS
GERMÁN BELLI
(Peru, 1927)
Obra Poética
Poemas.
Talleres Gráficos Villanueva. Lima. 1958.
Dentro & fuera. Escuela Nacional de Bellas Artes. Lima.
1960.
Oh
hada cibernética! El
Timonel
. Lima. 1961.
El pie sobre el cuello. Ediciones de la Rama
Florida.
Lima. 1964.
Por el monte abajo. Ediciones de la Rama
Florida.
Lima. 1966.
El pie sobre el cuello [reúne todos os livros anteriores]. Editorial Alfa.
Montevideo. 1967.
Sextinas y otros poemas. Editorial Universitaria. Santiago. 1970.
En alabanza del bolo alimenticio [inclui El libro
de los nones]. Premiá Editora. México. 1979.
Asir la forma que se va. Cuadernos de Hipocampo. Lima. 1979.
Canciones y otros poemas. Premiá Editora. México. 1982.
Boda de la pluma y la letra. Ediciones Cultura Hispánica. Madrid. 1985.
Mas que señora humana. Editorial Perla. Lima. 1986.
El buen mudar. Editorial Perla. Lima. 1987.
En el restante tiempo terrenal. Editorial Perla. Lima. 1988.
Acción de gracias. Casa del Artista. Trujillo. 1992.
Canciones y otros poemas. Casa el Artista. Trujillo. 1992.
Los talleres del tiempo: poemas escogidos. Visor Libros. Madrid. 1992.
Trechos del itinerario (1958-1997). Instituto Caro y Cuervo. Bogotá. 1998.
En las hospitalarias estrofas. Separata da revista Mapocho. Santiago de Chile. 1998. |