.
Manuel Bandeira
Remetente:
Maria Julieta Mendonça Viana" <julieta@internext.com.br>
Os Sapos
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à
guerra!"
- "Não foi!" -
"Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é
bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquüenta
anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há
mais poesia,
Mas há artes poéticas..."
Urra o sapo-boi:
- "Meu pai foi rei!"-
"Foi!"
- "Não foi!" -
"Foi!" - "Não foi!".
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- A grande arte é
como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é
belo,
Tudo quanto é
vário,
Canta no martelo".
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas,
- "Sei!" - "Não
sabe!" - "Sabe!".
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;
Lá, fugido ao
mundo,
Sem glória, sem
fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio...
Manuel Bandeira in "Estrela da Vida Inteira"
Página inicial do Jornal de Poesia
Página inicial de Manuel Bandeira
|
|