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Betty
Vidigal
vh1066@terra.com.br
Textos
Apócrifos na Internet
I
Pingo
no I de Instantes, indevidamente atribuído
a Borges... e também a “Nadine Stair”
Difícil
decidir o que é pior para um escritor: ter um texto seu atribuído
a outrem ou a divulgação, como sendo de sua autoria, de algo que não escreveu.
Sempre
houve enganos desse tipo. Um exemplo pré-internet é o do poema
de Eduardo Alves da Costa, No Caminho, com Maiakovski,
freqüentemente citado como obra de Brecht ou do próprio
Maiacovski. O poema é longo. Os versos divulgados popularmente
estão na segunda estrofe: “Tu sabes, / conheces melhor do
que eu / a velha história. / Na primeira noite eles se
aproximam / e roubam uma flor / do nosso jardim. / E não
dizemos nada. / Na segunda noite, já não se escondem: / pisam
as flores, / matam nosso cão, / e não dizemos nada. / Até que
um dia / o mais frágil deles / entra sozinho em nossa casa, /
rouba-nos a luz, e, / conhecendo nosso medo, / arranca-nos a voz
da garganta. / E já não podemos dizer nada.”
Na
internet, não encontrei este texto como sendo de Brecht nem de
Maiacovsky, mas encontrei-o sem qualquer referência a autor,
acompanhado da preocupante mensagem “envie este texto a um
amigo” – como soe acontecer. Digo “preocupante” porque
é essa ordem, à qual carneiros de toda espécie obedecem sem
hesitação, que faz com que nossas caixas de correio
superlotem-se. Está num blog, o “Blogger do Lendário Rody”,
http://rody.weblogger.com.br/weblog_200203.htm.
Encontrei-o, ainda, também sem crédito ao autor e com o título
modificado para “Pisam nas Flores”, no site http://geocities.yahoo.com.br/ditaduracivil/flores.html,
voltado – imaginem! – à defesa dos direitos civis.
Assim
é que alguns textos tornam-se, aos poucos, de “domínio público’.
O
caso mais conhecido de autoria espuriamente atribuída é o
daquela pérola de auto-ajuda divulgada como sendo de Jorge Luis
Borges e chamada, em português e em espanhol, “Instantes”.
Talvez nenhum i tenha sido mais pingado que esse, por
pessoas esclarecidas que previnem os que deglutem informação
falsa.
Apesar
desse esforço conjunto, há 505 sites em português
atribuindo-o a Borges. Em espanhol, 697. Em inglês, 512. Em
italiano, 97. Em alemão, 33. Como interromper o processo de
disseminação desse engano? Mais: como ensinar um jovem a
distinguir o bom do ruim, em literatura, quando está convencido
de que um autor sobre cuja grandeza há consenso escreveu aquela
patacoada?
Estranhamente,
não encontrei um único site com uma versão em francês de
“Instantes”, embora Benjamin Rossen, que pesquisou
exaustivamente as origens do texto,
afirme que há traduções para “o espanhol, o francês, o
finlandês, o sueco, o norueguês e o português”. Não sou
versada em línguas escandinavas, e não pude checar essas versões,
mas agradeço o envio de referências em francês, se alguém as
tiver.
Diz José Nêumanne Pinto, em
artigo que se pode ler no Jornal de Poesia, http://www.secrel.com.br/jpoesia/autoria.html#instantes,
que “o escritor gaúcho Moacyr Scliar sente-se parcialmente
responsável por sua divulgação no Brasil, por ter encontrado
o texto em Buenos Aires e o publicado em português, em Porto
Alegre.”
Na
Folha de São Paulo, em 17 de dezembro de 1995, Moacir Scliar
conta que conheceu o texto na Argentina, em 1987, atribuído a
Borges. Ao retornar ao Brasil, transcreveu-o no jornal Zero
Hora. “A repercussão foi extraordinária. ... ...
imediatamente surgiram cópias que eu encontrava afixadas em
lugares os mais variados: casas de amigos, restaurantes, repartições
públicas. Ao mesmo tempo, pessoas me escreveram de Buenos
Aires, contestando a autoria de INSTANTES.” E mais adiante:
“INSTANTES não foi escrito por Borges e sim por uma
norte-americana chamada Nadine Stair, foi publicado numa
antologia da Bantam, e divulgado por Leo Buscaglia, autor de
muitos livros de auto-ajuda. Em 1986 o texto apareceu em Buenos
Aires numa revista tipo New Age, intitulada “Uno Mismo”. Daí
chegou aos rádios, aos jornais e ao xerox...”
Conta-nos
Pascoalino S. Azords, no artigo Um Borges do Paraguai:
“Quando esses versos já tinham chegado aos quatro cantos do
mundo, só restou a Maria Kodama
apelar à justiça argentina para que os direitos autorais do
texto apócrifo não fossem depositados na sua conta.” E
continua o artigo com uma suposição: “A iniciativa da viúva
de procurar a suprema corte argentina talvez tenha menos de escrúpulos
do que de prudência. Caso amanhã apareça um herdeiro do
verdadeiro autor de “Instantes”, Maria Kodama não estará
lhe devendo nem um mísero ‘muchas gracias’.” (http://www.uol.com.br/debate/1098/colunas/colunas02.htm)
.
No
Caderno 2 do Estadão, em 13 de abril,
em artigo sobre texto indevidamente atribuído a Neruda,
Haroldo Ceravolo Sereza cita o poeta e tradutor Ivo Barroso, que
diz acreditar que a predominância, aqui, de atribuições a
escritores latino-americanos se deva à semelhança entre as
duas línguas: o espanhol seria mais fácil de imitar. Haroldo
Ceravolo cita também Eric Nepomucemo: "é mais fácil
detectar se um texto foi traduzido do inglês (pela estrutura da
língua) do que se foi traduzido do espanhol" e “talvez a
imagem ‘exótica’ dos latino-americanos favoreça a aceitação
desses apócrifos. Somos, acima de tudo, desconhecidos e
desprotegidos."
Certo.
Só que este texto não foi originalmente publicado em
espanhol, mas em inglês, com o título de Daisies
(margaridas). A versão mais divulgada pelos que se preocupam em
livrar desta pieguice a cara de Borges é que quem perpetrou o
poemeto foi uma americana de Louisville, no estado de Kentucky:
Nadine Stair.
Instantes
e Daisies
É
o que está, por exemplo, no Jornal de Poesia, num artigo de José
Nêumanne Pinto, e também em http://www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/falsos.htm,
onde se comenta o artigo do Nêumanne.
Aqui
vai o texto objeto destas considerações, na forma como
geralmente circula, em inglês:
DAISIES: If I had my life to live over again, I'd try to make more
mistakes next time. I would relax. I would limber up. I would be
sillier than I have been this trip. I know of very few things I
would take seriously. / I would be crazier. I would be less
hygienic. I would take more chances. I would take more trips. I
would climb more mountains, swim more rivers, and watch more
sunsets. / I would burn more gasoline. I would eat more ice
cream and fewer beans. I would have more actual problems and
fewer imaginary ones. / You see, I am one of those people who
live prophylactically and sensibly and sanely. Hour after hour.
Day by Day. / Oh, I have had my moments, and if I had it to do
over again, I'd have more of them. In fact, I'd having nothing
else. Just moments, one right after another instead of living so
many years ahead of each day. / I have been one of those people
who never go anywhere without a thermometer, a hot water bottle,
a gargle, a rain coat, and a parachute. / If I had it to do over
again, I would go places and do things and travel lighter than I
have. If I had my life to live over, I would start barefoot
earlier in the spring and stay that way later in the fall. / I
would play hockey more often. I would ride more merry-go-rounds.
I'd pick more daisies.
Note-se
que é exatamente o correspondente em inglês à versão
divulgada em espanhol como sendo de Borges
(exceto pela divisão em maior número de ”versos” na
segunda). Entretanto, ainda não é a versão original em inglês.
Pesquisadores dedicados concluíram que Nadine, ou quem quer que
seja responsável pela versão acima, em inglês, cometeu plágio.
Assim
como os supracitados, em minha cruzada na defesa de autores que
reviram em suas covas e na pressa de salvar Borges dessa
fogueira, eu mesma cheguei a pedir a titulares de sites de
poemas que trocassem o nome de
Borges pelo de Nadine, no que fui atendida. (Entretanto,
os responsáveis por estes sites passaram a receber cartas
indignadas corrigindo-os e exigindo que se desse a “Borges o
que é de Borges”, na equivocada opinião dos missivistas.)
Vejamos
(argh!) a versão em espanhol. Não sei por que as mesmas frases
soam muito mais derramadas, muito mais derretidas e piegas em
espanhol ou em português que em inglês. Em inglês fica
“quase” palatável. Em espanhol, é isto aqui:
Instantes: Si pudiera vivir nuevamente
mi vida, / En la próxima trataría de cometer más errores. /
No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más. / Sería más
tonto de lo que he sido, / de hecho tomaría muy pocas cosas con
seriedad. / Sería menos higiénico. // Correría más riesgos,
/ haría más viajes, / contemplaría más atardeceres, / subiría
más montañas, / nadaría más ríos. // Iría a más lugares
adonde nunca he ido, / comería más helados y menos habas, /
tendría más problemas reales y menos imaginarios. // Yo fui
una de esas personas que vivió sensata / y prolíficamente cada
minuto de su vida; / claro que tuve momentos de alegría. //
Pero si pudiera volver atrás trataría / de tener solamente
buenos momentos. / Por si no lo saben, de eso está hecha la
vida, / sólo de momentos; no te pierdas el ahora. // Yo era uno
de esos que nunca / iban a ninguna parte sin un termómetro, /
una bolsa de agua caliente, / un paraguas y un paracaídas; / si
pudiera volver a vivir, viajaría más liviano. // Si pudiera
volver a vivir / comenzaría a andar descalzo a principios / de
la primavera / y seguiría descalzo hasta concluir el otoño. //
Daría más vueltas en calesita, / contemplaría más amaneceres,
/ y jugaría con más niños, / si tuviera otra vez vida por
delante. // Pero ya ven, tengo 85 años y sé que me estoy
muriendo.
Tradução
(na forma como circula na net): Se eu pudesse viver novamente
a minha vida, / na próxima trataria de cometer mais erros. / Não
tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais./ Seria mais tolo
ainda do que tenho sido; / na verdade, bem poucas coisas levaria
a sério. / Seria menos higiênico. Correria mais riscos, /
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, / subiria mais
montanhas, nadaria mais rios. / Iria a mais lugares onde nunca
fui, / tomaria mais sorvete e menos lentilha, / teria mais
problemas reais e menos imaginários. / Eu fui uma dessas
pessoas que viveu / sensata e produtivamente cada minuto da sua
vida. / Claro que tive momentos de alegria. / Mas, se pudesse
voltar a viver, / trataria de ter somente bons momentos. /
Porque, se não sabem, disso é feito a vida: / só de momentos
- não percas o agora. / Eu era um desses que nunca ia a parte
alguma / sem um termômetro, uma bolsa de água quente, / um
guarda-chuva e um pára-quedas; / se voltasse a viver, viajaria
mais leve./ Se eu pudesse voltar a viver, / começaria a andar
descalço no começo da primavera / e continuaria assim até o
fim do outono. / Daria mais voltas na minha rua, / contemplaria
mais amanheceres / e brincaria com mais crianças, / se tivesse
outra vez uma vida pela frente. / Mas, já viram, tenho 85 anos
/ e sei que estou morrendo.
Terrível,
hein? Mas, exceto pelas duas frases finais, a versão atribuída
a Borges é tradução praticamente ao pé da letra do texto em
inglês. O que nos leva a concluir que não procedem as lamúrias
de que somos mais plagiáveis, nós, os latinos, por serem “exóticas”
as nossas línguas. Talvez, ao contrário, quanto mais difundida
uma língua, mais plagiadores terão acesso a ela.
Vejamos
como Borges se expressa, quando dá o título de Instantes
a um poema:
EL
INSTANTE: ¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño / de
espadas que los tártaros soñaron, / dónde los fuertes muros
que allanaron, / dónde el Árbol de Adán y el otro Leño? / El
presente está solo. La memória / erige el tiempo. Sucesión y
engaño / es la rutina del reloj. El año / no es menos vano que
la vana historia. / Entre el alba y la noche hay un abismo / de
agonías, de luces, de cuidados; / el rostro que se mira en los
gastados / espejos de la noche no es el mismo. / El hoy fugaz es
tenue y es eterno; / otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.
Isto
é Poesia. Isto é Jorge Luis Borges. Grandes autores não
produzem baboseiras. (Note-se que o poema não deixa de ser
fortemente religioso: a citação ao “outro Lenho”, com maiúscula,
é certamente uma referência à cruz das religiões cristãs,
assim como “não esperes outro Céu, nem outro Inferno”
revela o Borges místico.)
Nadine
Mas
estávamos falando em Nadine Stair – e quem foi ela, afinal?
Uma escritora? Quem?
Ivan
Junqueira, no site http://www.hum.au.dk/romansk/borges/bsol/iainst.htm,
(vejam só, um site dinamarquês!) relata que a jornalista
Joannie Liesenfelt,
especializada na busca de pessoas desaparecidas, ficou intrigada
com uma “antología de mujeres poetas” publicada pela
Papier Mache Press,
que tem como título um trecho deste “poema”, e viajou ao
Kentucky para tentar descobrir a autora. Concluiu que Nadine não
pertence a nenhuma das quatro famílias Stair do Kentucky.
Entretanto, uma das pessoas com quem conversou, Laura Stair,
contou que, por causa das muitas cartas que recebeu pedindo
dados sobre Nadine, tinha realizado sua própria pesquisa, que a
levou a uma Nadine Strain, já falecida, mas com quem
conversou por telefone.
Por
indicação de Laura, Joannie chegou a Byron Crawford,
colunista do Louisville Courier-Journal, que descobriu uma
sobrinha de Nadine Strain, segundo a qual sua tia não deixou
outros escritos: a Música é que era sua paixão. Cega na
velhice (como Borges), e vivendo em um asilo, Nadine pedia para
ser levada ao piano todos os dias e tocava enquanto os outros
faziam suas refeições.
Sabemos,
pois, que Nadine Strain existiu: nasceu em 20 de novembro de
1892, morreu em 20 de novembro de 1988 e deixou seu corpo para a
Escola de Medicina da Universidade de Lousiville. Em
contrapartida, nada se sabe de Nadine Stair, a não ser que
ninguém no Kentucky tinha esse nome, naquela época.
O
autor
A
mais antiga publicação comprovada deste texto está nas Seleções
do Reader's Digest, de outubro de 1953, e seu autor é Don
Herold (1889-1966), escritor e humorista, autor de cerca de uma
dúzia de livros. Começa com a frase “Of course, you can't
unfry an egg, but there is no law against thinking about it.”
(É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei
que proíba pensar nisso). Só então ele começa a desfiar as
considerações sobre viver a vida outra vez, tirando-lhes, com
essa introdução, o tom lamurioso. E a fatídica frase final não
está lá – nem em nenhuma outra versão em inglês, exceto as
que foram retraduzidas do espanhol. Estas, é claro, dão ao
Borges a autoria – e seu conteúdo é ligeiramente diferente
da versão original em inglês, como inevitavelmente acontece,
ao se reverter qualquer coisa à língua original a partir de
uma tradução.
Mas
como foi que isto – acrescido da pungente frase final –
passou a ser pespegado na lapela do terno de Jorge Luiz Borges,
como uma tarja da web? Quem é o culpado? Quem foi o primeiro a
associar grande autor e texto medíocre, numa lorota tão
pegajosa que dificilmente se conseguirão recolher, algum dia,
todas as suas penas?
Respostas
no próximo palpitante capítulo.
Betty
Vidigal é poeta, autora de Posto de Observação, entre outros
livros.
O
retrato que ilustra esta matéria é de Ionaldo Cavalcanti,
pintor e artista gráfico, falecido no dia 6 de maio deste ano.
Ionaldo trabalhou na Última Hora e na Editora Abril, onde foi
chefe de arte de várias revistas. Escreveu Esses Incríveis
Heróis de Papel, sobre personagens de HQ.
Chamada:
Difícil decidir o que é pior para um escritor: ter um texto seu atribuído
a outrem ou a divulgação,
como sendo de sua autoria, de algo que não escreveu.
Olho
1: “Quando esses versos já tinham chegado aos quatro cantos do mundo, só
restou a Maria Kodama apelar à justiça argentina para que os
direitos autorais do texto apócrifo não fossem depositados na
sua conta.”
Olho
2: A mais antiga publicação comprovada deste texto está nas Seleções
do Reader's Digest, de outubro de 1953, e seu autor é Don
Herold, escritor e humorista.
Moacyr Scliar - VERSOS INFAMES: A FRAGILIDADE DA FALSIFICAÇÃO
– Folha de São Paulo, 17/12/95, e http://www.geocities.com/Athens/Agora/3382/textos.htm#text1
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O
FIM DO MISTÉRIO
Betty
Vidigal
“A
solução do mistério é sempre inferior ao mistério” (Dunraven)
Enquanto
pratos de porcelana decorados com o texto “Instantes”,
apocrifamente atribuído a Jorge Luiz Borges, eram vendidos no
Mercado da Praça de San Telmo, em Buenos Aires, o mal feito não
era grande. Como diz Pascoalino C. Azords, no artigo “Um
Borges do Paraguai”, “a coisa só pegou
mesmo quando caiu na Internet. Através do computador o texto
pode chegar aos lugares mais distantes, e o que é pior,
inteiro, já que uma mensagem eletrônica não se quebra fácil
como um prato.”
Maria
Kodama, viúva do poeta e editora das suas obras, diz, no prefácio
do volume “Borges en la Revista Multicolor”, um livro improvisado que inclui textos de
Borges e outros a ele atribuidos: “O mais incrível é que as
mesmas pessoas que não aprovam a publicação de três obras inéditas
de Jorge Luiz Borges {“El Tamaño de mi Esperanza”, “El
Idioma de los Argentinos” e “Inquisiciones”], nada
fizeram, diante do poema “Instantes”, da escritora
norte-americana Nadine Stair,
atribuido falsamente – creio que por ignorância – a ele.
Essas pessoas, repito, nada disseram sobre o estilo ou o conteúdo
desses versos, apesar da linguagem infantil que neles é
empregada e apesar do conteúdo que desdiz totalmente todos os
princípios que Borges sustentou até o fim da sua vida.
Chegou-se ao horror de ler e estudar, em instituições
oficiais, esse poema sem nenhum valor literário,
atribuindo-se-o a Borges.”
No livro “Borges-Bioy”,
Rodolfo Braceli inclui o seguinte diálogo:
–
Si volviera a vivir?
–
Bueno... volvería a hacer las cosas que hice. Porque uno es como es ¿no?
Mas
isto, naturalmente, não emociona até as lágrimas os que
desejariam ver um Borges arrependido de ter sido quem sempre
foi. Querem-no dizendo, em vez disso, que “se pudesse viver
novamente minha vida, na próxima trataria de cometer mais
erros.”
Ivan
Almeida
observa: “Queremos que [Borges] continue sendo Borges, mas que
(...) em vez de poemas crípticos, diga o que gostaríamos de
ouvir e que só as revistas que desprezamos dizem. Num mundo
perfeito, um livro de Roberta Menchú seria assinado por
Wittgenstein, “A Imitação de Cristo” seria de Joyce e a
canção “We Are the World” teria sido composta por Mallarmé.
Queremos poder dizer que nosso poema favorito é aquele de
Borges.”
Quando
“Instantes” apareceu no livro “Nightglow: Borges Poetics
of Blindness”,
da professora Florence Yudin, da Universidade Internacional da
Flórida, o Centro Borges de Estudos e Documentação
pediu-lhe um esclarecimento quanto à fonte do texto. Ela
indicou o número 212 da revista mexicana “Plural”, uma das
mais influentes na vida cultural da América Latina, fundada por
Octavio Paz em 1971 e dirigida por ele até 1976. O poema
aparecia numa nota assinada por Mauricio Ciechanower, intitulada
“Un poema a pocos pasos de la muerte”, nas páginas 4
e 5 do número de maio de 1989.
Talvez
a primeira dúvida quanto à autoria tenha sido despertada pelo
décimo-segundo “verso”: “Yo fui una de esas personas que
vivió sensata y prolíficamente”. O espanhol deselegante
dessa frase, totalmente atípico, foi o que motivou a consulta
do Centro Borges à professora.
Mauricio
Ciechanower, por sua vez, tinha utilizado como fonte o livro
“Todo México”, de Elena Poniatowska, onde há um capítulo
de 45 páginas com uma entrevista que ela alega ter feito em
1976 com Jorge Luis Borges (o livro é de 1990). Na página 144
do primeiro volume desse livro, em meio a uma conversa sobre
“Shaw e Conrad, Tolstoi e Dostoievski e Balzac e Proust”, a
jornalista diz ter declamado a Borges dois poemas dele. O
primeiro foi “Instantes”. O segundo, “El Remordimiento”
(O Remorso). Ela descreve sua reação: “Borges escuta com
incredulidade, com atenção, com seriedade. (...) Sorri: –
Que me importa ter sido infeliz ou ditoso? Isto se passou há
tanto tempo... Estes poemas são muito autobiográficos, são
remorsos.”
Em
1976, Borges tinha 77 anos. Por que razão diria “faz tanto
tempo”, referindo-se a um poema “escrito” aos 85?
Ou, admitindo-se que exerceu aí o papel de um poeta fingidor
– como somos, todos os poetas – e escreveu um poema na
primeira pessoa, mas “sobre” alguém que teria os 85 anos
que ele não tinha, por que teria dito o que disse à
jornalista?
A
entrevista foi publicada, dividida em quatro partes, no jornal
mexicano Novedades, nos dias 9 a 12 de dezembro de 1973
– e não de 1976. Não haveria nada de errado em incluí-la no
livro: é usual jornalistas reunirem suas melhores entrevistas
para publicação num formato mais duradouro. Mas o professor
Rafael Olea Franco, na “Gaceta del Fondo de Cultura Económica”,
por coincidência em um número que continha também matéria de
Elena Poniatowska, observa
que a data em que foi feita a entrevista é na verdade anterior
à que consta no livro.
O
poema “El Remordimiento”, que é comprovadamente de Borges,
foi publicado pela primeira vez em 21 de setembro de 1975, no
jornal argentino La Nación, e portanto é impossível que tenha
sido citado por quem quer que seja em 1973. Isso justificaria,
então, o fato de a autora ter deslocado a data da entrevista,
situando-a em 1976, depois
de “El Remordimiento” ter sido publicado.
A
entrevista se realizou, sim, em 1973, como comprovam diversos
dados: o Prêmio Afonso Reis concedido a Elena Poniatowska nesse
ano; a preocupação externada por Borges com a saúde de sua mãe;
o nome de sua acompanhante na época (Claudine Hornos de Acevedo).
Mas, examinando-se a publicação original da entrevista,
verifica-se que nela não estão as passagens em que Poniatowska
teria comentado com Borges os autores Conrad, Tolstoy e
Dostoyevsky, entre outros, nem aquela em que teria declamado
poemas a ele.
Elena
Poniatowska teria sido, então, a responsável pela atribuição
de “Instantes” a Jorge Luis Borges? Ou realmente acreditava
ser dele o texto e, embora tendo fabricado ou alterado alguns
dados na publicação da entrevista, não foi a responsável
direta por esse engano específico?
Sabemos
hoje da existência do texto do humorista americano Don Herold,
intitulado “I‘d Pick More Daisies” e publicado no Reader’s
Digest de outubro de 1953. Pelo simples fato de começar com a
bem humorada frase “Of course, you can't unfry an egg, but
there is no law against thinking about it”,
o restante suaviza-se, torna-se quase uma piada de humor negro:.
“If I had my life to live over again, I would try to make more
mistakes”, etc.” E, é claro, lá não está a melancólica
frase final, que talvez tenha sido a real contribuição de
Nadine Strain (e não Stair) ao texto.
Portanto,
aparentemente, as dezenas de versões que circulam, em diversas
línguas, são todas plágio de um único autor, e um autor com
copyright, ou seja, Don Herold.
Ivan
Almeida nos consola, sábio: “Não há motivos para indignação.
Não nos esqueçamos de que, apesar de tudo, há pessoas que
‘por causa’ desse texto passaram a ler e amar o verdadeiro
Borges. Ele escreveu um texto célebre, chamado “Borges e
eu”. Não sabemos com qual dos dois está história toda está
acontecendo, mas podemos ter certeza de que o ‘outro’ Borges
está se divertindo imensamente.”
Nota:
toda a investigação sobre a inexistência de Nadine Stair está
no artigo anterior, “Pingo no I de Instantes”.
Betty
Vidigal é poeta, autora de “Eu e a Vela”, entre outros
livros.
Chamada:
Conclusão
da investigação sobre o texto “Instantes” popular e
erroneamente atribuido a Jorge Luiz Borges
Olho:
Talvez a primeira dúvida quanto à autoria tenha sido
despertada pelo espanhol deselegante do décimo-segundo
“verso”.
“Mas
tenho 85 anos e sei que estou morrendo” é a frase final
do texto popular.
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