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Artur Eduardo Benevides
Os amigos, ao
entardecer
I
O tempo é breve e as afeições são poucas.
Os cabelos já tomam a cor das despedidas.
Tantas, as viagens! Quantas, as partidas
para as paixões, as festas e navegações?
Fraternas mãos vieram e me cobriram
com cálidos lençóis.
E preparei anzóis
para pescar os salmões do amanhecer.
Um dia, com os amigos, acendi fogueiras.
Deitamo-nos na relva, de alma ainda inteira.
Ou fomos olhar os trens
que vinham dos verões.
Vezes houve em que rimos, quase alucinados.
Nem vimos os exílios, demorados.
E estivemos unidos em nossos corações.
II
Agora peço ao mundo
palavras de leve comunhão.
Talvez como outrora, ao ver as gaivotas
pousarem nos varais de vãs recordações.
E só com os amigos não terei artifícios.
Eles são semelhantes aos galos nas trevas,
acordando os portais e os cais
de que a alma é serva.
E lhes direi, um dia, o meu segredo.
Vou falar-lhes do medo
de morrer longe dos olhos da Mulher Amada.
III
E a brisa da tarde vem
por todos os lados.
Mas a ninguém dissemos que estávamos cansados
ou que, nas lâmpadas que ainda bruxuleiam,
acaba-se o pavio.
Ficamos a olhar a barca pelos rios
e queríamos apenas uma voz de menina
trazendo nos ombros os galos-de-campina
que voaram lavando a nossa infância.
IV
No resto do mundo
um murmúrio geral vai crescendo no escuro.
E a noite parece um ladrão a esgueirar-se
sobre os nossos muros.
Limpamos, então, lentos e calados,
nossos retratos no tempo pendurados.
E pensamos no dia em que chegar
o adeus.
Oh, o adeus, essa palavra sagrada
que guardará no infinito
a inutilidade de nosso pobre grito.
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