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Artur Eduardo Benevides
Itinerário -
A poesia de Linhares Filho
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in Diário do Nordeste,
06.06.1999 |
Conhecendo-o profundamente, posso afirmar, com a maior convicção,
que possui um grande caráter, sem qualquer maldade em seu coração.
Ele olha as pessoas com bondade, indulgência e generosa compreensão.
É um ser humano admirável: sincero, cordial, grato e amante das
cousas belas e eternas, mantendo-se humilde, sem orgulhos
passageiros e vanglórias, diante dos êxitos alcançados.
Sua
mensagem em continente e conteúdo, honra as mais legítimas tradições
da Literatura cearense, que produziu, segundo Manuel Bandeira, um
dos dez maiores poetas da Língua Portuguesa - José Albano, o imortal
autor da “Comédia Angélica” e das “Rimas”, onde se acham sonetos
neoclássicos da maior grandeza.
E o
poeta Linhares Filho merece o calor de todo o meu louvor. Se
intelectualmente é forte, moralmente também o é: jamais participou
de corrilhos para denegrir, debicar ou diminuir de qualquer forma o
valor de seus companheiros. Quando alguém não merece o seu elogio,
mantém respeitoso silêncio, demonstrando fina educação.Agora, nos
200 anos do nascimento de Balzac, o grande autor da “Comédia
Humana”, que deu novas perspectivas ao romance no mundo, o poeta
reúne, pela Scortecci Editora de São Paulo, todos os seus livros de
poemas em um só volume, para comemorar trinta anos de atividades
intelectuais. E deu-lhe o sugestivo título de “Itinerário”.
Lembra-me um fato inesquecível: ao completar 50 anos de poesia, ele
escreveu sobre mim um poema que me levou às lágrimas, da mesma forma
que o fez, em magistral peça oratória, quando a Universidade Federal
do Ceará me concedeu o título de professor emérito. São duas
magníficas manifestações de sua inteligência que me engrandecem e me
penhoram sempre, pois não sou daqueles que só olham a floresta mas
esquecem a árvore.
Relendo
os seus belos versos, fico a imaginar o motivo pelo qual T.S. Eliot
declarou, talvez pour épater, que existam trezentas e sessenta
maneiras de se fazer um poema. Ora, para que tão insólita
classificação? Um poema é um recado que se manda ao eterno, ou uma
inscrição que se faz nos muros da alma, do tempo e da vida. Os
sonetos de Camões, por exemplo, e as demais peças da Lírica, são
escritos dentro dos mesmos padrões clássicos, nos metros e nas
tônicas, o que ocorre também com a Épica. E acho que as diferentes
formas utilizadas, dos provençais aos nossos dias, jamais atingiram
aquele elevado número mencionado pelo mestre da poesia inglesa,
mesmo se considerarmos que essa nobre arte apresenta configuração
holística, com linguagem e estilo, temas, técnica de composição,
metáforas, metonímias e sinestesias, símbolos e alegorias, tendo
como ponto de partida o que se chama de inspiração. mesmo com
densidade imagética e lingüística porém, ela é simples e pura como a
água da fonte ou as folhas de outono cobrindo as longas tardes como
um grande manto de saudade.
Os que
escrevem, no entanto, sem talento e sem haver lido os grandes poetas
do mundo, para o indispensável conhecimento de sua dicção lírica,
ficam a marcar passo, interminavelmente, pois a cultura é essencial
em tudo.
Sobre
isso, Linhares Filho nos dá uma verdadeira lição em seu livro
“Itinerário”, demonstrando com largueza ao lado de sua indiscutível
vocação, o amplo conhecimento que possui de arte poética. E a poesia
é uma janela aberta nos séculos para a contemplação do tempo, do
ser, do mundo, da noite, do mar, do sonho, do amor e dos caminhos
interiores que um dia perdemos. Mas, se encostarmos o ouvido no chão
da História, escutaremos também o pranto daqueles que amaram em vão,
ou penduraram sua esperança na árvore do efêmero, ou não encontraram
a estrada para a Fonte. Poesia é adoração, é a baudelariana volta à
infância, ou a rosa morrendo em nossa mão porque não a enviamos a
quem mais amamos.
Ela é o
baile a que não fomos e a que tanto desejamos ir em nossa infância.
É a grande viagem que não fizemos. A lágrima que não soubemos
chorar. Ou a vela que não acendemos ao ouvir os monges a louvar nos
mosteiros a misericórdia do Cordeiro de Deus.
Ai,
poesia é a nossa tristeza por não podermos salvar Ofélia do fundo
das águas, onde está escondido o olhar de Narciso! Ou de não
sabermos baixar a ponte - levadiça de nosso castelo interior, como
pregava Santa Tereza d'Ávila, para encontrar as moradas inefáveis.
Poesia é
sobretudo o êxtase de amar. É a mão de nossa mãe afagando a nossa
testa, na solidão dos dias encantados ou perdidos. É a voz do mar a
nos chamar para os périplos infinitos, enquanto ficamos presos às
contingências terrenas, vendo tudo se transformar num vasto e
doloroso adeus.Ela é a minha saudade de Pacatuba. É a saudade de
Linhares Filho das serenatas de Lavras da Mangabeira e das águas
barrentas do Rio Salgado, nos dias de cheia. E por isso é bela e
triste. E desperta palavras e memórias para que sonhemos acordados,
como lembrava Bachelard. E não fiquemos nus diante do espelho de
nossa consciência, praticando o amor em sua forma perente ou
imorredoura. Aquele amor a que se referiu São Paulo na Epístola aos
Corintios e Dante afirmou ''che muove il Sole e l'altra stelle''.
Poesia,
enfim, é utopia, força encantatória, o surreal iluminante, ou a
metáfora que nos envolve como a carícia do vento nos algodoais e
fica, num entressonho, qual dádiva inesquecível, no cântaro frágil
das recordações. Por isso, talvez o abade Henry Brémmond nos ensinou
que ela é, também, uma espécie de oração.
E por
ser um grande poeta, Linhares recebe de todos nós homenagem
justíssima por sua fidelidade ao sonho e pela exemplar qualidade de
sua produção intelectual em que se inclui também o ensaio literário.
A
propósito, minha sobrinha Regina Fiúza, que foi sua aluna e obteve,
em seguida no Rio, o Mestrado em Literatura, contou-me que ela e
outras colegas estavam a estudar, com o maior empenho, para uma
prova que ele daria no dia seguinte. Após horas de exaustiva leitura
e interpretação de textos, uma das alunas, com risível zanga,
declarou enfática: “Esse professor Linhares quer por fina força que
a gente aprenda”.
Na
realidade, ele foi sempre assim: extremamente zeloso em seus deveres
e consciente de sua missão histórica. Sua obra literária, escrita ao
lado de Mariazinha, a grande musa de sua vida e luz de seu coração,
só louvores merece. E a Literatura cearense lhe agradece todo o seu
trabalho criador e sua dedicação aos ideais humanísticos, numa época
terrível como a nossa, de tanta turbulência e inquietação
generalizada.
Que os
céus o iluminem cada vez mais, meu poeta e querido amigo, para que
você continue a ser uma poderosa voz na poesia brasileira, como
autêntico operário da beleza e peregrino incansável das cousas
perenes, engrandecendo o ser e a vida, enquanto o espírito imortal
de Dom Quixote continua a separar a realidade que escurece do sonho
que transfigura, e grandes aves brancas com o Pássaro Azul, de
Maeterlinck, prosseguem em seu vôo sobre as estradas da fonte, cuja
linfa preciosa lavará as feridas do nosso coração com a poesia
resplandecendo em todas as almas.
Quero
lembrar, neste momento, as palavras que Fernando Pessoa colocou no
pórtico de sua belíssima “Mensagem”: - Benedictus Dominus Deus
noster qui dediti nobis signum.
Esse
signo, ou sinal, ou símbolo, ou aviso, no nosso caso, é o nosso
destino de poetas e de descobridores de cousas invisíveis aos olhos
daqueles que perderam a inocência de ver e de sentir e não enxergaam,
nos refolhos da alma, as sereias a nadar no mar azul do sonho, as
cousas e os seres encantados, o olhar das musas, - oh, o olhar das
musas! - os lírios dos campos, as gaivotas pousando nos muros das
saudades, o espírito de Deus andando sobre as águas, o Filho
Pródigo, a voltar ao coração paterno e a descida de Orfeu aos
Infernos para implorar, com os sons maravilhosos de sua lira, que
lhe devolvessem a bela Eurídice, o grande amor de sua vida. E na
esperança do amor, entre o Oráculo de Delfos, a visão de Prometeu e
os pastores de Corinto, vivemos todos nós, os poetas, um itinerário
sem fim, glorificando o espírito e a vida, antes que a ganância dos
homens transforme tudo em escombros.
Mas, o
que é amor, a dar tanto sentido à nossa vida? Recuemos 500 anos para
ouvir Camões, a quem nunca faltou “saber, engenho e arte”. O amor,
para ele, é um
Não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei por quê.
E em outro soneto famoso nos diria:
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
Sobre
esse tema, o tema supremo da Literatura mundial, escreveu James
Baldwin: “Não é comum morrer de amor, mas neste momento, em todas as
partes do mundo, milhões morrem por falta dele”.
Evitemos, pois, até nos faltarem as forças e quebrarem o nosso
bandolim medieval, que as mulheres amadas sejam devoradas pelos
relâmpagos que saem da boca e dos olhos de Leviatã. E continuemos a
louvá-las, a escrever epitáfios para o mundo e suaves cantos para o
entardecer das rosas e o adormecer das meninas cegas que ouvem
espantadas, às vezes, os galos abrindo as pálpebras das manhãs. E
louvado seja o nosso Deus e Senhor que nos concedeu, caríssimo
Linhares Filho, o destino a um tempo só triste e belo de cantar. E
vejo - ah, quanto vejo! - pássaros descendo dos céus e pousando em
sua alma, que os guarda nos versos de seus livros. E veramente digo:
você sempre me deu a impressão de conhecer os caminhos do eterno e
os helespontos além dos quais se esconde o paraíso perdido. Por
isso, o anjo da poesia jamais o abandonará, dando-lhe
permanentemente a inspiração necessária à sua grande obra poética,
em benefício da Literatura cearense.
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