O olhar de Murilo
Mendes abre-se às forças da origem
e num lento silêncio
até ao fundo do imóvel
inaugura a nupcial
articulação.
Vazio e presença,
ruptura e aliança
na atenção
aguda à evidência e ao enigma.
Os deuses mostram-se
então na imobilidade do ar
e no puro instante
da contemplação irisam-se.
E o olhar abre-se
imensamente às nascentes nocturnas
captando o eco
perdido em cada coisa.
Nessa glória
que ilumina tudo, é alta e rapidíssima
a língua
da visão que contorna os confins
e deixa transparecer
o indivisível círculo
que em si preserva
o silêncio divino e o fulgor
de umas quantas
palavras que pulsam como estrelas.
In:
Facilidade do Ar (1990)
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