Que cor ó telhados
de miséria
onde nasci
de tanta pequenez de
tão humildes ovos
de nenhum querer
a que horas nasceram
as estrelas que
um dia foram
a que horas nasci?
Não vim embarcado
não me encontrei
na rua
não nos vimos
não nos beijamos
nunca parti
Não sei que idade
tenho
Quando havia antes um
antigamente
havia uma esperança
agora no próprio
coração da ilusão
onde a água limpa
as pedras das ruínas
entre destroços
límpidos
deito-me sobre a minha
sombra e durmo
e durmo
Quando havia antes um
amanhecer
à beira do abismo
agora no próprio
coração do coração
durmo estrangulando um
monstro inerme
um palhaço de
palha seca e pálido
quando havia antes um
caminho
Não houve nunca
amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe
salvam a noite
É preciso ir mais
longe na incerteza
É preciso no silêncio
não escutar
A manhã que eu
procuro não foi sonhada
Uma árvore me
ignora na raiz
Perfeitamente desesperado
é o meu sonho
Os pássaros insultam-me
na cama
Só com doidos
com doidos amaria
perfeitamente presente
na frescura
do mar
Uma casa para eu ter a
humildade de ser espaço
a líquida frescura
duma jarra
um passo leve e certo
em cada sombra
um ninho em cada ouvido
de doces abelhas cegas
Uma casa uma caixa de
música e sossego
Um violão adormecido
na doçura
Um mar longínquo
à volta atrás do campo
Uma inundação
de verdura e espessa paz
Uma repetida e vasta
constelação de grilos
e os galos álacres
do silêncio
Um mar de espuma e alegria
obscura
um mar de espuma e alegria
clara
entre o verde e a brisa
Na brancura dos quartos
a inocência poderá
sonhar desnuda
os insetos poderão
entrar
juntamente com as plantas
e as aves
Uma longa asa passará
O mundo e o silêncio
a mesma ave
e o mar
o mudo leão longínquo
e fresco
faiscará entre
o ver e as lâminas solares |