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Affonso Romano de Sant`anna
Crônica & Corrupção

11 de Junho de 2005
Porque estou deixando de escrever
neste jornal, depois de 17 anos de colaboração semanal, resolvi
reler muitas das crônicas publicadas. E dei-me conta de que várias
são sobre corrupção. Numa delas, de 1988, no governo Sarney, está
escrito: “Há dias Dom Luciano Mendes levou ao presidente uma
denúncia de que havia corrupção demais no seu governo. Que a
corrupção era tanta que estava superando a do tempo da ditadura. O
presidente deu vários socos na mesa e afirmou: ‘Meu governo não é
corrupto. Não sou conivente’”.
Depois veio o governo Collor com o PC,
e as crônicas e a corrupção continuaram. A corrupção continuou
crônica também no governo Fernando Henrique. Na alegoria “O rei que
amava a limpeza”, eu dizia:
“Um dia o rei encontrou na sala de seu
principal auxiliar um monte de esterco. Pensou: ‘Esse meu secretário
é fantástico, há tanto tempo comigo, não sabia que conseguia
converter fezes em ouro’. E sem tapar o nariz, cumprimentou-o
satisfeito.
Como, no entanto, continuassem as
reclamações de que o mau cheiro se alastrava, por ordem superior foi
determinado que se jogassem perfumes, que se distribuíssem frascos
de bom cheiro para os que reclamavam”.
Numa outra crônica, historiei a
corrupção em outros países, e noutra, há quase vinte anos, dizia
assim: “Resolvi dedicar-me à corrupção. Mas não me entendam mal.
Resolvi ir fundo nessa questão, estudá-la minuciosamente.
As motivações são óbvias: só se fala
disto nos jornais. Então, como um cidadão qualquer, me indaguei se
este seria um triste privilégio de nossa geração. Me indaguei se
isto seria natural também na democracia. Me indaguei se seria uma
tara exclusivamente nacional.
Comecei por onde deveria. Não apenas
por tudo isto que está sendo publicado a respeito na imprensa, mas
pela etimologia da palavra “corrupção”. É um vício profissional
achar que a raiz do entendimento deve começar com a raiz da própria
palavra.
Os dicionários então informam que além
da conotação ética existe um sentido físico. O latim “corruptione”
indica a noção de “putrefação” e “decomposição”. Quer dizer: um
corpo ou um sistema em estado de corrupção revela seu apodrecimento
(moral e físico).
Mas há mais. No interior dessa palavra
está o sentido de “romper” e “quebrar”, no radical “rup”. O
“corrupto” então é aquele elo fraco do tecido moral e social. É nele
que se “rompe” e se “quebra” a linha de continuidade ética.
Os dicionários em português tratam
pobremente o assunto. Os de língua inglesa, com mais precisão,
oferecem mais de uma dúzia de variação do sentido do termo. Os de
língua francesa são sempre mais líricos. Me revelam, por exemplo,
que “as cerejas e os morangos se corrompem rapidamente”. E como o
termo tem um sentido político, acrescentam: “A lei pune toda
tentativa de corrupção do funcionário”. Percebo que estou realmente
lendo um dicionário sobre costumes sociais em outro país. Um país
que foi capaz de fazer essa frase exemplar: “Robespierre foi chamado
de incorruptível”.
Depois de passar por todas as línguas
possíveis, dou falta do grego. Consulto meu oráculo na área. Já que
a etimologia dessa palavra é sempre de origem latina, surge a
indagação: será que na Grécia não havia corrupção?
Informam-me que sim. E que há um texto
de Demóstenes em que fala de “sépsis”, equivalente à corrupção nas
demais culturas. O contrário desse termo estaria, por exemplo, em
“asséptico” — o sujeito limpo, não contaminado de impureza e
putrefações.
Mas isto não basta. É um bom
princípio, mas o termo me parece podre de rico, mais do que me
sugere a asséptica etimologia. Ataco então as enciclopédias ao
alcance da mão. Na “Mirador” não encontro nada. Vejo lá o termo
“corrosão”, que poderia ter alguma coisa com o que procuro. Poderia
fazer uma aproximação metafórica, porque lá se fala de “formas de
corrosão”, “taxas de corrosão”, “agentes de corrosão”, “mecanismos
de corrosão”, e a rigor a corrupção ou corrução, como querem alguns
puristas, também tem “formas”, “taxas”, “agentes”, e “mecanismos”.
Caio necessariamente na “Britânica”. E
não é que lá tem um longo verbete sobre “Práticas corruptas”? Diz
logo de saída que este é um termo amplo para suborno e influências
indébitas, mas se refere sobretudo à questão do dinheiro no processo
político. E diz que foi a partir do século XIX que países como a
Inglaterra e Estados Unidos começaram a lidar com este assunto mais
corajosamente.
Acabei de pesquisar também em todos os
livros de frases e citações célebres, mas pouca coisa encontro. É
verdade que “Provérbios e frases proverbiais do século XVI”, de
Freitas Casanova, tem umas sentenças saborosas como essa: “A cabra
safrosa corrompe todo o curral”. O autor achou isto no livro de João
de Barros — “Espelho de casados”. Não sei exatamente o que é uma
“cabra safrosa”, mas imagino. Há outras frases sugestivas para o
atual momento em que vivemos: “Um mestre de más artes basta para
corromper um povo”. Ou esta: “Corrupto governo é usar primeiro do
formoso que do necessário”.
Saio em demanda de mais informações.
Chego à biblioteca da universidade. Será que existe uma espécie de
“História universal da infâmia”, de Borges, mas sobre a corrupção?
Será que assim como existe aquela apaixonante história — “Os seis
mil anos do pão”, algo existiria que nos relatasse seis mil anos de
corrupção?
E para minha perplexidade o fichário
de livros sobre corrupção é farto. Dezenas e dezenas de livros. O
primeiro com o qual dou de cara é: “IBAD: sigla da corrupção”, de
Elói Dutra. Ali está narrado como a corrupção se instalou na
política para se dar o golpe de 1964 que, paradoxalmente, dizia
combater a corrupção.
Peço vários livros para me ilustrar.
Seus títulos são sugestivos.“O roubo é livre” de Francisco Oliveira,
“Sociologia da corrupção” de Celso Barroso Leite, “Enriquecimento
ilícito no exercício de cargos públicos” de Bilac Pinto e,
sobretudo, um deles me fascina e o quero ler vorazmente: “Os
honrados corruptos” de Walter Goodman. Peço-o à funcionária. Ela o
procura, mas me informa desalentada:
“Lamento informar que esse livro sobre
o roubo foi roubado”
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