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Affonso Romano de Sant'Anna
O lirismo envergonhado

17 de Maio de 2003
Introduziu-se
na poesia brasileira há algumas décadas a síndrome do lirismo
envergonhado. É uma coisa assás estranha, porque isto não existe no
resto da poesia latino-americana. Também não existe na poesia
norte-americana, muito menos na francesa, espanhola, italiana e
tantas outras que conhecemos.
É uma coisa bem
brasileira. Recente. E daninha. Isto não ocorre com nossa ficção.
Quando um jovem contista ou romancista surge, não há uma sentinela
nos portões da cidadela literária revistando-lhe as roupas e os
pertences imaginários exigindo que tem que usar um uniforme; nem
ninguém a lhe advertir: o romance já era, personagem não se usa
mais, não faça mais diálogos, esqueça peripécias e descrições da
consciência ou da vida rural e urbana, trate de inventar palavras,
tente ser hermético, use e abuse de fragmentações, enfim, seja o
mais chato e pretensioso que puder.
Se olharmos a
ficção brasileira que surge por aí, veremos que os bons autores
estão interessados na limpeza do texto, em expurgar lugares comuns,
em retratar o pasmo e a perplexidade diante do caos erótico violento
e social ou, então, estão recuperando detalhes de vivências,
aspectos singulares percebidos pela consciência, reinventando a
história e os espaços simbólicos de nossa formação. Em síntese, por
mais sofisticados que sejam, são tão contadores de estórias quanto
os antigos narradores.
Enfim, na
prosa, a patrulha não existe.
Mas na poesia
isto já dura quase cinqüenta anos. Primeiro inventaram que o verso
não existia mais, que a métrica não existia mais, que a rima não
existia mais. Poesia tinha mais a ver com artes plásticas, que com a
literatura. Poeta de verdade era quem era poeta experimental —
categoria meio confusa, porque muitos estavam experimentando coisas
que haviam sido experimentadas há muito, sendo que algumas delas não
deram certo. Pregavam que o espaço em branco é que era o forte do
poema. Aí abominaram o poema longo e narrativo e partiram para o
elogio do epigramático, o hai-kai, o jeu d’esprit . Exercitavam, por
outro lado, a dispersão das palavras na página. Quanto mais quebrado
e fragmentado o texto mais avançado. Enfim, era proibido fazer
qualquer poema que lembrasse visualmente o que se entendia como
poema. O poema era feito de fora para dentro e o que tinha que estar
dentro acabava ficando de fora.
Decretou-se que
o lirismo havia acabado. Pior, era algo condenável. Somou-se a isto
a noção de que a melhor poesia era a erudita, a que trazia citações,
intertextualidades, a que dialogava para dentro da literatura e não
com o público. Então a poesia que, em si, já é uma linguagem
diferente e especial, passou a ser intransitável. Para ficar apenas
em exemplos recentes, não mais poemas como aqueles de Bandeira, tão
sedutores e claros. Não mais poemas como aqueles de Drummond, densos
e expondo nossas perplexidades. Não mais poemas como os de Cecília
transitando por imponderáveis realidades. Mal entendendo algumas
obsessões de João Cabral, que apesar de um ou outro equívoco teórico
foi um poeta excepcional, de tanto se envergonharem do lirismo,
acabaram por trocar a poesia pela prosa, como se estivessem criando
um velho gênero chamado “proesia”.
Enfim,
estabeleceu-se um falso dilema na poesia brasileira, como se o
“canto” e a “palavra” fossem duas instâncias incompatíveis, como se
tivessem que optar entre o “vate” enquanto “possesso” e o “poeta”
enquanto “inventor”. Ao invés de somar essas duas vertentes,
subtraíram . Ou, em outros termos, como se a intuição e a dedução,
como se o pensamento mágico e o pensamento lógico, enfim, como se a
elaboração e a construção de um poema não se socorressem de
elementos inconscientes e conscientes. Enfim, dentro dessa visão
esquizo da realidade, era como se devêssemos prescindir de Vinicius
de Moraes e ficar só com João Cabral. Como se só os dois primeiros
livros de Drummond, por serem mais secos, fossem sua boa e melhor
poesia, ignorando que o poeta desenvolveu um projeto ao invés de
ficar rodando, num círculo vicioso, como um cão ao redor do próprio
rabo. Daí, criou-se um tipo de poesia onde não se notam vozes
individuais, tons singulares de linguagem. Enfim, o neoparnasianismo
disfarçado de experimentalismo.
Na relação com
a poesia internacional estabeleceu-se uma situação anômala, um
preconceito semelhante. Diante desse novo credo 99,99% da poesia
podiam ser jogadas no lixo, porque não era construtivista,
experimental, não fazia pesquisa de linguagem. Nesse lixo estariam
não só Whitman, Hugo, Po-Chui, Li-Po, Petrarca, Pessoa, Lorca,
Eliot, Baudelaire, Neruda, Sandburg, Frost, Aragon, Brecht,
Apollinaire, Eluard, Puskin, Pasternak, Nazim Hickmet, Rilke, mas
também 450 anos de poesia brasileira.
Com isto,
simultaneamente, introduziu-se em nossa poesia um outro
mal-entendido. Tendo se interditado de escrever a sua autêntica
poesia, de expor sem preconceito o que há de mais legítimo no
lirismo, poetas começaram a traduzir obras de poetas de ontem,
praticando no verso de outrem e no lirismo de outrora, a poesia que
se proíbem a si mesmos na modernidade. É a síndrome do ventríloquo.
De repente,
espalhou-se que o bom poeta contemporâneo era aquele que traduzia
outros poetas, sobretudo de outras épocas. É uma situação
psicanaliticamente explicável: a libido interditada aqui transborda
ali. Houve uma transferência, uma perversa metonímia. E o lirismo
envergonhado e camuflado foi fazendo carreira, seduzindo, tanto mais
quanto mais línguas o poeta era capaz de traduzir, ou melhor,
quantas mais máscaras era capaz de usar para murmurar sua voz
proibida.
Esse fenômeno,
melhor diria, esse equívoco foi essencialmente brasileiro.
Felizmente muitos poetas perceberam o beco sem saída em que se
meteram. Alguns, no entanto, ainda continuam enredados naquele
discurso, e apartados do real e do simbólico de sua comunidade,
produzem uma poesia que gagueja e se enrola na própria língua.
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