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Aroldo Ferreira Leão
Fortuna crítica: Mário Márcio
A poesia de Aroldo Ferreira Leão
Li os livros: Harmonia Dissonante, A Manhã Vã do
Amanhã, Alfabetizando a Alma, Impactos Azuis, O Espelho dos
Labirintos e O Eco das Distâncias, que é um texto teatral.
Com tanta versatilidade, pergunto: Por que não tenta,
igualmente, o conto e o romance? Sinto, porém, que a poesia é a sua
vocação. Há em você uma força de expressão que vem do mundo
exterior, mas do íntimo. E é isto a inspiração, um raio divino que
nos atinge e no qual a labareda consome toda lembrança do mundo
real, momento em que as idéias tornam-se translúcidas e se traduzem
num perfeito versejar. Na inspiração, o que é raríssimo, você
posiciona-se contra a adiposidade verbal e aplica, impiedoso, a
elipse e o “logocídio”. Realmente, o bom escritor, como o
enxadrista, deve saber sacrificar suas peças. É o que vejo no belo
poema Intermitência:
“A intermitência dos vitrais
Ensejos redefinem plurais
Olhares atracados ao cais
Das insatisfações. Surreais
Raciocínios vêm, magistrais,
Englobando a doçura dos mais
Puros conhecimentos. Frugais
Percepções aglutinam os ais
Do mundo todo, tornam reais
Os gestos reciclados tais quais
As nobres conjunturas normais
Que nada ensinam ou dizem. Sais
Adoçam o sabor das rurais
Sensações atuais, joviais.”
O primeiro dom a salientar-se, Aroldo, seria o de
renúncia, até certo ponto, aos outros seus dons, os de artesão, de
não haver deles abusado, de não os ter usado sequer fora do âmbito
subsidiário.
No livro O Espelho dos Labirintos você parece experimentar aquilo
que Rimbaud chamava “a alquimia do verso”, quando, ao martelar
sincronizado dos ritmos tradicionais, sucederam os “ritmos
instintivos”, fonte do verso livre que você soube usar com tanta
segurança em Alfabetizando a Alma e em A Manhã Vã do Amanhã. Um
vigilante instinto, no entanto, livrou-o da criptografia, tão ao
gosto de um grande número de nossos atuais poetas. Há em seus
versos, por vezes, uma penumbra, mas que jamais chega à cerração.
Por isso eles superam a vida precária da “poesia rara”,
extravagante, esotérica, própria de alguns “iniciados”. O mesmo
tino, o mesmo instinto salvou-o desses perigos e seus versos parecem
ser feitos, amiúde, com pedaços de sonho. Por vezes rompe com a
sintaxe(como o faz Juan Ramón Jiménez) e põe as palavras em
liberdade. O substantivo é substantivo, mas também adjetivo. O verbo
quase sempre se evapora, como também os nexos conjuntivos.
Você, não há dúvida, assume esta heterodoxia típica
das escolas de vanguarda. Daí a não opção pelo realismo e um culto à
incoerência, a exploração do material onírico, o uso de metáforas
com o sentido escamoteado. Chega, assim, a tecer belíssimos versos,
como o poema Movimentos, do livro O Espelho dos Labirintos:
“Movimentos ondulantes
Clareiam as percepções
Únicas das almas
Que compreendem
A verdade mágica
De si mesmas...
Lágrimas caem
Com uma verticalidade
Horizontalmente triste.”
* * * * *
Sinto que Petrolina, no campo literário, vive um
grande momento. Você, Aroldo, sem nenhum favor, equipara-se aos
nossos grandes poetas da atualidade. Há também aí um escritor a quem
dedico uma grande admiração: José Américo de Lima. Sem me conhecer
pessoalmente, ele me enviou através de um comum amigo, Olímpio
Bonald Neto, um ensaio de sua autoria O Conto e seus Caminhos, obra
de vulto e que se não fossem as discriminações que sofremos por
parte da mídia sulista, ele e você estariam brilhando ao lado dos
melhores críticos e poetas.
Receba um abraço fraterno do admirador.
Mário Márcio
Olinda/PE, julho de 2002
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