|
Aroldo Ferreira Leão
Fortuna crítica: Jamesson Buarque
Com o Peso de uma Lágrima e a Singeleza de um Sorriso
Intróito
“(…) Aroldo não dá descanso à poesia.”
Acredito que essa oração, anunciada
pelo poeta Virgílio Siqueira em julho de 1995 , possa
(possivelmente) implicar o conjunto de atitudes literárias
empreendidas pela alma criadora do poeta Aroldo Ferreira Leão. É
este o poeta que teremos à nossa frente neste ensaio, embora a r(d)eferência
implique em exatidão ou precisão a respeito do poeta – o que é, via
de regra, tratando-se de gente, um despropósito (ou mais que isto).
Afora isto, o que interessa é Virgílio ter sido feliz com a sua
oração, mas não acerto se o sou (ou o serei) também tomando-a
enquanto epígrafe, contudo a impressão dela é tipicamente aroldiana,
ou reforçando: é mesmo a anunciação do poeta que (re)encontraremos
daqui adiante. Tanto se comprova que, no mesmo livro disposto da
oração, um outro poeta, Maurício Ferreira, referenda: “Aroldo se
confunde com a própria poesia! (…) enquanto a mais produtivamente
inquieta metralhadora poética que já conheci (…) Costumo chamá-lo de
‘repentista da caneta’, em alusão aos nossos vates-violeiros”. Tanto
se comprova que, na Apresentação do mesmo livro o próprio poeta
considera a poesia uma busca, dizendo visualizá-la à maneira de
procurar ser verdadeiro consigo mesmo.
Em 1990 a potiguar Fundação José
Augusto publicou a antologia de Novos poetas no Rio Grande do Norte,
enquanto láurea para os 43 ganhadores de um concurso literário
promovido pela mesma fundação. Ali se encontra Aroldo, aos 23 anos,
já engenheiro elétrico pela Universidade Federal do Rio Grande do
Norte (UFRN) desde 1989, publicado pela primeira vez. E desde então
buscando, ou seja, não dando descanso à poesia: “Busco algo de novo
na poesia/ Nada de rima, nada de clima/ Somente um estigma de
aplasia/ Em cima de minha mente que caminha”, com esta que é a
primeira das vinte quadras do poema de estréia, Aroldo já se inicia
na ansiosa agonia por versos, pela poesia; ansiosa agonia que é tão
exuberante quanto ambiciosa. Exuberância vestida na grandiloqüência
das palavras ao ornamento do seu discurso poético, e dos versos que,
se repetem uma dor, repetem em revisão ou alusão à (própria) alma do
poeta, o que é característica de contundência do criador de versos
cuja raridade é nobilíssima. Quanto àquela ambição, nunca escondeu,
aliás, ostenta, quando desde a Trilogia da dor diz na contracapa:
“Não me iludo, sou a própria poesia”, e confirma nos Dados sobre o
autor em A janela do sótão (1998) que “continua persistindo,
insistindo em criar uma obra que ultrapasse os limites de si mesmo”,
referendando a sua sempre-afirmação de tornar-se (ou se fazer ser)
uma asceta, possivelmente qual o Sidarta, de Herman Hesse.
Aroldo leu, e incorporou à sua poesia
primeira o ideário do modernismo, representando virtuosismo e vigor
à sua poesia vigente. Esse ideário modernista é mesmo aquele do
“tornar novo” proposto por Ezra Pound nos anos 1930, e que desde
Fiódor Dostoiévski e Henrik Ibsen expressava uma originalidade
singular, superpondo-se no antigo, não pela destituição nem
canonização deste. Deixa-se claro que o modernismo não é aquilo que,
segundo alguns sustentam, promoveu a fuga ou o abandono da forma. Em
poesia, qual é o caso, o modernismo é aquele que mudou e
proporcionou um novo discurso, um novo discurso que percebeu na
instituição poética do passado uma elevação sublime do interior, um
espírito colmado de esperança, e mesmo uma interiorização na qual as
faculdades da imaginação recorrem à permanência das coisas, à
garantia dos costumes enquanto tradição cânone. Então, ao contrário
dessa possível fuga ou abandono da forma, o novo discurso promovido
pelo modernismo procurou gerar uma situação de “novidade”, bem à
famosa frase de Arthur Rimbaud: “Il faut être absolument modern”.
Conforme se estabelecia a instituição desse novo discurso
simultaneamente se estabeleciam novas formas, ou seja, era também
instituída uma nova conformação estética, cuja única tradição era
permitir-se ao “novo”. (Isto pode ser bem observado em T. S. Eliot,
João Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, para mim; Augusto
dos Anjos, Fernando Pessoa e Drummond, para Aroldo.) Embora
Nietzsche tenha deixado claro, na voz do seu “Zaratrusta”, que:
“Todo aquele que quiser ser criativo no bem e no mal deverá ser
antes um aniquilador de valores”, refletindo o seu “Übermensch”: o “Além-do-homem”,
a própria superação do si para um espaço-tempo possivelmente de
elevação (e/ou abnegação) – o que não é misticidade mas reflexão da
realidade. Revela-se que essa “aniquilação” é a construção do novo,
ou seja, referenda o velho para o desuso e não para o limbo, para o
esquecimento; tanto é que a partir dele (do velho), da sua
extradição para o desuso, que se introduz o novo, a afirmação do
presente. Nesse enlace ao moderno, acredito Aroldo ter despertado
para a poesia enquanto pensamento, e não apenas deslumbre e/ou
vislumbramento.
Passar pelo pós-modernismo, conforme
conseqüência natural, não é o que se observa em Aroldo, qual mesmo
nas vozes poéticas que se fizeram ou apresentaram o seu maior vigor
a partir dos anos 1990. Entenda-se que Aroldo não viveu o
modernismo, e nem o mundo é mais moderno. Aroldo foi tocado, haja
vista qual poucos (porque assim é o grande poeta), pelos modernos,
particularmente por Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Drummond.
Quem quiser garantir Augusto um simbolista (mesmo “tardio”), não
esqueça que o pai do modernismo foi o simbolismo, desde Charles
Baudelaire e as suas alusões a Edgar Alan Poe, até porque Augusto
bem menos foi um pré-modernista, porque as razões para crença nesta
estética arregimentam posturas já antes condoreiras, já antes
assumidas por Dostoiévski, Ibsen e Castro Alves; ademais: o mundo
passou a engrenar a sua idade moderna desde os anos finais da
primeira metade do século XVIII, o que mesmo considerando o “atraso”
brasileiro à época viva de Augusto dos Anjos seria dizê-lo de
realista. Assim, Aroldo não viveu o pós-modernismo, época daqueles
que entardeceram o ideário do tornar novo talhando os seus equívocos
de época e instituição emergente.
Os poetas contemporâneos não têm um
ideário estético ou discursivo comum – o que é comum é não ter um
ideário comum –; eles têm sim a sobrepujância de um sentimento comum
ao tempo, assim, mesmo ainda sendo o tempo do tempo o próprio tempo:
o homem contemporâneo quer mesmo ser o deus da sua crença (e/ou fé)
– mesmo sem conseguir mais acompanhar os ponteiros dos quais dotou o
mundo. Os poetas hoje sentem pressão, os seus estômagos fervilham em
ácidos vários; eles (os poetas) não querem (re)construir nem
continuarem nem se desgarrarem, eles querem se demonstrar vivos,
logo: as alusões – implícitas ou explícitas – aos grandes de todos
os tempos, a busca ansiosa de prover solução para o caos ocasional
da humanidade, as alusões ao velho sempre novo das formas fixas – ou
na repetição das heteroformas ou ao novo envelhecido verso livre. E
o discurso? O discurso é um dizer que encerra antes dos poetas
“desaparecerem” , porque eles querem espectadores (à sua pressa) e
então lhes urgem presenciar o que provocam. O discurso é também um
contar que repete a história em outras palavras. Pode-se inferir,
portanto, que “fase” em Aroldo não é “poesias”, mudança de
vestimenta estética, semântica, retórica ou estilística de época em
época, o que inclusive não faz de nenhum poeta menor ou maior. Fase
em Aroldo é sim uma construção de um pensamento arguto, que mesmo
dito às pressas não se perde, aliás, afirma a sua proposta
equacionadamente, propagando alguém que ouve o silêncio e enxerga a
alma das pessoas acompanhadas das (próprias) sombras, logo o seu
“pânico à realidade”.
Aroldo é daqueles poetas que se
inauguraram no início dos anos 1990. Os poetas que possam lhe fazer
geração, particularmente no Brasil, são as promissoras e
experimentadas inteligências poéticas de meados dos anos 80 até
então – qual Alexei Bueno, Arnaldo Antunes e João Bandeira. Nela,
Aroldo se funda intrinsecamente; logo, depois da vasta obra ao
público, a necessidade de ser considerado em ensaio. Desde o
lançamento de Sisuda acidez digo de Aroldo um poeta cujos versos têm
o peso de uma lágrima e a singeleza de um sorriso; constituindo-o
assim temos realmente um nome a ser gravado, principalmente nestes
tempos de tecnicismo aceso. Entenda-se, pois, que o tecnicismo vivo
do mundo hoje não imprime a práxis do poeta contemporâneo, mas que,
em vez de, refrate essa práxis. Ou seja: a informação automatizada
refrate a humanidade minimizada à síntese das expressões, a
globalização refrate sociedades canibais, a propulsão das
tecnologias bélicas refratem governos genocidas, o tempo não cabendo
no relógio refrate a devastação da vida – qual fosse preciso fazer
tudo logo antes que apenas restem cinzas, baratas e a Coca-cola.
Então temos o poeta contemporâneo: ou
ele veste máscaras (reserva-se) ou se desnuda (transborda-se); em
súmula, este poeta vai à apoteose do sentimento do mundo e à
celebração do eu cercado do mundo até encontrar-se poeira, ou vai às
células dramáticas do cotidiano do mundo até encontrar-se poeira
também. Aroldo se desnuda, faz auditoria fiscal de si mesmo. À
apoteose do sentimento do mundo e à celebração do eu cercado deste,
ele discursa sobre a alma, por vezes lha alfabetiza, encerrando-a em
dor – dolência é o advérbio das ligações, estados e ações de Aroldo.
Em Presságios (1997) temos bem isto, parece que os seus olhos querem
(ou “buscam”?) propelir da órbita. Então o repertório de Aroldo se
mostra um monstro crescendo, não permitindo terrenos baldios nem um
condomínio que se eterniza insólito. A sua práxis não o expõe a
cárceres críticos para decisão do seu rumo nem o promove sequer
segundos de alguma letargia nem o assusta com julgamentos
perdulários para si. Quanto a sua poetigonia, o seu repertório não
se arrola, e a sua única tradição poética são os mistérios da alma:
“Com uma morte para cada ressurreição” e “Um silêncio invadindo as
atmosferas dos universos mais sozinhos” , resultando os mistérios da
alma nisto mesmo: serem misteriosos – o que torna Aroldo comumente
inusitado, com uma anunciação alarmantemente trágica para a
humanidade e dolentemente frágil para a vida.

Leia a obra de Jamesson
Buarque
|