Arnaldo
Jabor
João Cabral mostrou o que a poesia poderia ser
[Diário do Nordeste,
Fortaleza, Ceará - Terça-feira
19 de outubro de 1999]
A morte de João Cabral não me espantou tanto quanto a de
Tom Jobim. Tom
caiu como a derrubada de uma floresta, me
deu a sensação
de que uma coisa vegetal, florescente, tinha
secado, como um
crime ecológico. João Cabral ali, morto diante
de mim, me evocava
o chão, a coisa mineral que ele tinha sido
em vida e que,
agora, recuperava sua imobilidade natural. E não
estou fazendo apenas
uma metaforazinha que explique sua
poesia; é
que João foi um dos poucos artistas que passaram além
da arte e entraram
numa terra-de-ninguém que poucos poetas do
mundo visitaram,
uma ‘waste land’, um latifúndio improdutivo
pré-linguagem,
um lugar de onde se descobre uma “vida mais
intensa, com nitidez
de agulha” e onde “toda frouxa matéria
ganha nervos e
arestas”.
Uma das frases mais profundas que conheço sobre a
serventia do artista
é de Cezanne: “ Eu sou a consciência da
paisagem que se
pensa em mim”. Essa ligação com a natureza
perdida, esse ‘link’
com o passado animal, esse apagamento
entre sujeito e
objeto, unindo os dois num só bloco, essa
humílima
renúncia ao sonho individual de uma iluminação
inspirada, essa
recusa a ser ‘sujeito autônomo’, esse desejo de
ser coisa-do-mundo,
geológico, essa recusa humilde a uma luz na
alma, a ter um
‘centro’, um foco, um ego, tudo isso me lembra
João Cabral
que poderia dizer também que ele foi “a consciência
da linguagem se
falando nele”.
Por isso me decepcionei com as matérias na imprensa sobre
ele, todas mencionando
seu desejo de ‘não perfumar a flor, nem
poetizar o poema’,
todas falando do seu estilo seco, como se ele
fosse apenas um
faxineiro dos parnasianos e dos palavrosos.
João foi
muito mais. Ninguém disse que ele era um dos maiores
poeta do mundo.
Ninguém falou que, com ele, a língua
portuguesa, esta
esquecida flor, foi mais fundo em direção ao
misterioso “Real”
que quase nenhuma outra terra já avistada por
alguns como John
Donne, mais tarde por Francis Ponge,
Marianne Moore,
gente que não brincava de beleza, mas de
epistemologia.
João Cabral, para mim, fez uma teoria da
percepção.
A primeira coisa que João Cabral me disse, quando o
entrevistei em
1992 foi: “Eu sinto uma angústia danada; é terrível,
porque a gente
não sabe de onde vem essa dor”. Senti que ali
estava a pista
de sua poesia, o preço que ele pagava por sua
insana procura
de “uma realidade prima e tão violenta, que ao
tentar apreendê-la,
toda imagem rebenta”. Antes de morrer, ele
disse a alguém:
Escrevo não para me expressar, mas para
preencher um vazio”.
Quem tem coragem de entrar nesse vazio?
João teve.
Que poema foi mais profundo que “Uma faca só
lamina”, descrevendo
em minúcias figurativas formas inexistentes,
balas, facas e
relógios invisíveis enterrados em nossas vidas?
João teve
a obsessão de atingir algo além do tempo e do espaço,
uma espécie
de sonho kantiano, a vontade louca de ir além do
‘fenômeno’.
Às vezes, João parece ter conseguido.João passou
a vida com dor
de cabeça; não era para menos. Que cabeça
agüenta esse
esforço permanente de ter dois microscópios nos
olhos, de flagrar
o decorrer do tempo no alpendre, no canavial, o
tempo corroendo
as coisas como um vento invisível? (Van Gogh
pintou-o e se matou).
Como Proust, Cabral também queria
‘geometrizar’ os
sentimentos, esquadrinhando-os como objetos
concretos, de todos
os lados, sem aspiração a espiritualidades e
transcendências,
sempre comparando matéria com matéria,
mostrando que a
mulher é igual à fruta, que a praia é o lençol,
a
bailarina é
a ‘égua e o cavaleiro’, que o rio tem dentes podres, o
cão não
tem plumas, a alma do miserável é feita de pano sujo de
aniagem e que “nós
somos da mesma matéria de que são feitos
os sonhos”, como
disse outro gênio.
Meu primeiro contato com a poesia de João fez-me ver que
tudo que eu tinha
lido de poesia era aguado, errando o alvo com
adjetivos molengas.
João me virilizou, acabou com a sensação de
que arte era ‘coisa
de veado’, como diziam meus amigos e meu
pai, engenheiro,
filho de poeta árabe. Tive um grande alívio
quando João
Cabral me disse, na entrevista: “O mal que
Fernando Pessoa
fez a literatura é imenso. Aquela coisa
derramada, caudalosa,
criou uma multidão de poetastros que
acreditam na inspiração
metafísica. Até Drummond ficou assim
no fim da vida”.
Eu, que segredava covardemente pelos cantos
que não
gostava de Pessoa, finalmente respirei. E João Cabral
continuou: “Saio
do poema suando, com picareta. Minha obra é
motivo de angústia.
O sujeito tem de viver no extremo de si
mesmo. Eu vejo
isso na tourada. O bom toureiro é o que dá a
impressão
ao público de que vai morrer”. João nem parece um
artista; parece
cientista, matemático, o que fortalece seu fundo
sopro lírico,
domado, reprimido, mas circulando como sangue
dentro da pedra.
João Cabral fez a poesia mais profunda sobre o
Brasil, a mais
“política” também, sem gritos conteudistas, sem
apelos contra a
injustiça, apenas com uma discretíssima
compaixão.
Sua legitimação epica e crítica vem das palavras,
da
forma, com em Maiakovski.
João rimava com o país porque, como ele, o Brasil também
padece desta angústia,
deste vazio que permanece inalterado,
cercado de palavras
falsas por todos os lados. O Brasil nunca foi
visto por João
como uma barroca oferta de riquezas, nem de
ouros, nem de luxos,
nem de tragédias. O Brasil de João é mais
profundo - ele
não nos mostra a pobreza; ele mostra a riqueza
que nos falta.
Em sua poesia pelo avesso, João nos mostrou tudo
o que ‘não’
tínhamos. João mostrou-nos o que poderia ser nossa
língua e
o que o país está perdendo. João mudou a minha vida
e,
creio, de muitos
artista brasileiros. Caetano, Gil, João Gilberto,
Gullar, Waly, Arnaldo
Antunes, Nuno Ramos, tantos, não seriam
possíveis
sem ele; nem eu, pobre de mim; existiria sem tê-lo lido.
Por isso, este
necrológio tardio, para agradecer-lhe.
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