|
Ariano Suassuna
Ariano Suassuna em cena

(6.10.2002)
José Augusto Lopes
BIENAL DO LIVRO
Ao convidarem
Ariano Suassuna para ser o patrono da 5ª Bienal do Livro do Ceará,
os promotores do evento escolheram um intelectual que alia erudição
a um extraordinário poder de comunicação popular, conforme atesta o
sucesso de suas criações no teatro, literatura, televisão e cinema.
Criador do
Movimento Armorial, o paraibano Ariano Suassuna expressa, no
conceito dessa empreitada intelectual, a filosofia que define sua
obra: “O Armorial é a criação de uma arte brasileira erudita baseada
na raiz popular de nossa cultura”.
Essa criativa
junção, regida pelo talento de Suassuna, deu origem à peça teatral
mais popular da história do teatro brasileiro: “O Auto da
Compadecida”, transportada recentemente para a televisão e o cinema
por Guel Arraes, com novos recordes de audiência e de público.
Por que “Auto”?
Define o dicionário Aurélio: “Auto, do latim Actu (...) - Composição
dramática originária da Idade Média, com personagens alegóricos como
os pecados , as virtudes, etc., e que se caracteriza pela
simplicidade da construção, ingenuidade da linguagem,
caracterizações exacerbadas e intenção moralizante, podendo,
contudo, comportar elementos cômicos e jocosos”.
Os elementos
descritos no Aurélio estão todos presentes na obra de Suassuna.
Escrito em 1955,
“O Auto da Compadecida” tornou-se, de pronto, um clássico do teatro
nacional. Foi a primeira peça montada, há 41 anos, pelo Curso de
Arte Dramática da Universidade Federal do Ceará, com esplêndida
direção de José Maria B. de Paiva.
O “Auto” narra as
hilárias aventuras de João Grilo e Chicó, dois nordestinos pobres em
permanente luta pela sobrevivência. Pobre porém esperto, João Grilo
consegue levar a melhor sobre ricos, poderosos e religiosos
cooptados pelo poder. Morto por um cangaceiro, o personagem usa sua
esperteza para vencer o próprio diabo e obter as benesses de Cristo,
contando para tanto com a poderosa intercessão da Compadecida, que,
na mais recente versão cinematográfica, ganhou uma interpretação
antológica da atriz Fernanda Montenegro.
O estilo da
“Compadecida” (como o texto é familiarmente chamado pelo público)
cumpre os princípios do Armorial, entrelaçando a cultura popular
nordestina com a cultura medieval e do começo do Renascimento na
Europa. Ariano sempre faz questão de enfatizar: “Tive uma influência
marcante da poesia dos nossos cantadores e das peças de mamulengos”.
Personagens como
João Grilo e Chicó, tão comuns na realidade do Nordeste brasileiro,
estão também presentes na italiana Commedia dell´Arte, em clássicos
espanhóis como o “Dom Quixote”, de Cervantes, e nos autos do
português Gil Vicente. São universais, como assegurava o professor e
crítico literário José Carlos Lisboa: “É o regional atingindo o
universal, através do lúdico”. Entre outras preciosas contribuições
de Ariano para o teatro estão: “O Santo e a Porca”, “O Casamento
Suspeitoso” e “A Pena e a Lei” (premiada no Festival
Latino-Americano de Teatro).
Embora sua obra
considerada mais importante seja “O Romance d´A Pedra do Reino” e,
em paralelo, o autor Paulo Autran faça coro a um grupo de artistas
que elegeu “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto,
como a obra maior do teatro brasileiro, nenhum outro texto conseguiu
tanta empatia com o público como “O Auto da Compadecida“, seja no
teatro, na televisão, ou em suas três adaptações cinematográficas.
Suassuna
considera a versão de Guel Arraes como a melhor abordagem de seu
mais comunicativo texto para as telas. Mas, no final da década de
80, quando o cinema brasileiro dava sinais de cansaço como se já
antevesse o golpe de misericórdia que lhe seria capciosamente
brandido pelo governo Collor, Renato Aragão conseguia levar
multidões às salas exibidoras com “Os Trapalhões no Auto da
Compadecida”, até hoje a produção mais ambiciosa do humorista
cearense.
Só Jorge Amado e
Nelson Rodrigues, em inúmeras versões cinematográficas de suas
criações, conseguiram fazer tanto sucesso no cinema quanto Ariano
Suassuna, este último, ressalte-se, em torno de um único texto.
Considerado o
Cavaleiro Andante (numa clara alusão a Dom Quixote) da cultura
popular brasileira, Suassuna rejeitou a Bossa Nova (pela influência
do “jazz”), o Tropicalismo (pelo uso de guitarras elétricas) e o
pernambucano “mangue-beat”, por sua fusão de “rock” e maracatu.
Também rejeitou o Prêmio Sharp somente por ele ter nome
internacional.
Eleito há 13 anos
para a Academia Brasileira de Letras, o talentoso paraibano,
radicado em Recife, é criticado por alguns pela sua fulgurante
liberdade de mesclar erudição, e até temas orientais, com o que
existe de mais importante em nossa cultura popular. Sobre isso, já
declarou o professor, teatrólogo e romancista: “Eu era cobrado por
não escrever como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Eu jamais
escreveria um romance travado como o de Graciliano”.
Um detalhe liga
Suassuna de modo muito estreito e simpático com o Ceará. Seu pai,
que foi governador da Paraíba, era muito amigo do cearense Leonardo
Mota, segundo comentava até há pouco Ariano “um escritor hoje
injustamente esquecido”, mas do qual sempre declarou haver absorvido
importantes subsídios para a formulação de sua obra.
Na oportunidade,
Suassuna vê o resgate do trabalho de Leonardo, com seus livros agora
reeditados pela ABC Editora na 5ª Bienal do Livro, cheios da poesia
e da linguagem do sertão nordestino, tão universais na força
telúrica quanto seus congêneres da literatura em todas as épocas.
Exatamente como a genialidade de um Ariano Suassuna pode captar em
toda a sua mítica dimensão.
|