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Ariano Suassuna
Canudos e o Exército
(in Folha de São Paulo, 30 de Novembro de
1999)
O que houve em
Canudos e continua a acontecer hoje, no campo como nas grandes
cidades brasileiras, foi o choque do Brasil "oficial e mais claro"
contra o Brasil "real e mais escuro". Ao Brasil oficial e mais claro
que não é somente "caricato e burlesco", como afirmou um Machado de
Assis, momentaneamente perturbado por sua justa indignação,
pertenciam algumas das melhores figuras do patriciado do tempo de
Euclydes da Cunha: civis e políticos como Prudente de Moraes, ou
militares como o general Machado Bittencourt.
Bem-intencionados mas cegos, honestos mas equivocados, estavam
convencidos de que o Brasil real de Antônio Conselheiro era um país
inimigo que era necessário invadir, assolar e destruir. O civil que
começou a reparar esse erro doloroso foi Euclydes da Cunha. O
militar foi o major Henrique Severiano, grande herói de Canudos, do
lado do Exército. Através de sua bela morte, acendeu ele uma chama
que, juntamente com a de Euclydes da Cunha, temos todos nós
-intelectuais, políticos, padres, soldados- o dever de levar
fraternalmente adiante. Conta-se, em "Os Sertões", sobre o incêndio
dos últimos dias de Canudos: "O comandante do 25º batalhão, major
Henrique Severiano, era uma alma belíssima, de valente. Viu em plena
refrega uma criança a debater-se entre as chamas. Afrontou-se com o
incêndio. Tomou-a nos braços; aconchegou-a do peito criando, com um
belo gesto carinhoso, o único traço de heroísmo que houve naquela
jornada feroz e salvou-a. Mas expusera-se. Baqueou mal ferido,
falecendo poucas horas depois".
A meu ver, tal seria o militar simbólico, emblema do verdadeiro
soldado brasileiro, capaz de apoiar um movimento em favor do povo,
também simbolicamente representado aí por essa criança, iluminada
entre as chamas do seu martírio.
Euclydes da Cunha, formado, como todos nós, pelo Brasil oficial,
falsificado e superposto, saiu de São Paulo como seu fiel adepto
positivista, urbano e "modernizante". E, de repente, ao chegar ao
sertão, viu-se encandeado e ofuscado pelo Brasil real de Antônio
Conselheiro e seus seguidores. Sua intuição de escritor de gênio e
seu nobre caráter de homem de bem colocaram-no imediatamente ao lado
dele, para honra e glória sua. Mas a revelação era recente demais,
dura demais, espantosa demais. De modo que, entre outros erros e
contradições, só lhe ocorreu, além da corajosa denúncia contra o
crime, pregar uma "modernização" que consistiria, finalmente, em
conformar o Brasil real pelos moldes da rua do Ouvidor e do Brasil
oficial. Isto é, uma modernização falsificadora e falsa, e que, como
a que estão tentando fazer agora, é talvez pior do que uma invasão
declarada. Esta apenas destrói e assola, enquanto a falsa
modernização, no campo como na cidade, descaracteriza, assola,
destrói e avilta o povo do Brasil real.
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