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Ana Behrens
Dora Ferreira da Silva: duas
profecias, duas certezas
Além dos irrevogáveis dons para o
exercício da poesia, arte visual e música, nos pareceu, anos atrás,
que Floriano Martins iria acrescentar um outro raio ao seu imenso
círculo de aptidões a saber: proclamador de oráculos à semelhança de
Python. Em “Poetas em fuga”, resenha sobre a obra poética de Dora
Ferreira da Silva publicada no jornal O Povo e reproduzida aqui no
Jornal de Poesia, o editor da excelente Agulha então vaticinava:
A
publicação de Poemas em fuga, contudo, nos chama a atenção para
um aspecto mórbido: logo morrerá Dora Ferreira da Silva e a
enterraremos no velho cemitério dos poetas. Não há nada ali:
carne morta, letra morta. Não há ressurreição possível para a
vala comum. Assim são tratados os poetas no Brasil. Assim são
tratados os poemas. Ser e linguagem, alimento destinado ao mais
completo esquecimento.
Há uma semana a predição de Floriano
não se efetivou. Dia 06, à tarde, na primeira quinta-feira de abril,
sob o imenso olhar do Sol, Dora deixou a túnica que a envolveu
nesses últimos oitenta e sete anos, tomou a mão do vento e seguiu
sem dizer para onde. Encantou-se que morte é coisa para quem não
ama, que amor quando morre germina.
“A morte é a queda de um sonho”. Nos
instigantes poemas em prosa do Cenizas del Sol, Floriano Martins nos
apresenta essa voz resgatada sob a flor no cabelo da inquieta Lilia,
uma das personagens vitais de seu livro.
Dora não nos disse do seu destino, mas
considerando o sotaque do vento com quem seguiu, seus passos são
relevos, sua estrada, um lúmen elevado. O sonho.
Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?
Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).
Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.
[1]
O poeta Floriano nos faz ouvir Lilia
uma outra vez: “Não há como não pensar a que espécie de mundo
pertenço”. O mundo ao qual Dora pertence não há carne ou letra
morta, não há cemitérios, mas viva claridade.
Sou luz eterna queimo incessantemente:
Deus, óleo e mecha; minh'alma o recipiente.
[2]
Contrariando o que Floriano previu,
essa luz não está destinada ao mais completo esquecimento. Ao
percorrer mais de meio século de dedicado amor à poesia, Dora
construiu uma obra cuja pujança e consistência não ruirá ao sopro
dos temporais, inclusive os das horas. O tempo, aliás, concorre para
a perenidade de poetas assim, autênticos. Dora Ferreira da Silva
assinou poemas que serão encontrados e lidos seguidamente por todos
os que procuram pérolas ainda que imersas sob o descartável dos
plásticos que flutuam no mesmo oceano de letras. O leitor, são todos
escafandristas ainda que se constituam uns poucos e outros poetas,
críticos, estudantes ou algum feirante que por acaso - e acaso não é
a lógica de Deus? – encontra uma página do segundo caderno forrando
um caixote de tubérculos e a lê invocado por suas raízes.
Gravamos nas folhas (como insetos)
signos arbitrários
futuros dicionários
para aprendizes de símbolos.
O céu é transparente como
as lentes dos óculos
e a terra se adorna
como as belas mulheres.
Subimos a escada platônica
descemos a escada plutônica
escrevendo entre dois amores
a modo de insetos nas folhas
para gerar sem fim
outras flores
outras fomes.
[3]
Ana, Floriano, Donizete, Rodrigo,
Francisco, Julia, Claudio, Beatriz... - e agora a profecia é minha –
irão morrer, ou melhor, quem sabe também se encantarão. De todo
modo, o alimento que Dora semeou continuará saciando a fome de
outros nomes “por seu apetite insaciável, pela inquietude
contagiante com que seu verbo conduz ao encantamento, à degustação
essencial da poesia”.
As aspas acima pertencem à perspicácia
do olhar do poeta Floriano Martins sobre o tecer poético de Dora
Ferreira. Continuarei citando o autor de Alma em chamas. Recordo uma
outra previsão de Floriano feita em 1988, ao longo da mesma resenha
supracitada:
Agora que
ainda está viva, pediu ao poeta Donizete Galvão que cuidasse da
edição de sua Poesia Reunida. Como fazê-lo? [...] Somos uma
cultura rendida pelo mercado. Nenhuma editora no país publicará
a poesia reunida de Dora Ferreira da Silva. Nas redações de
jornal diz-se assim: dá-me uma data e cuidaremos dela. Da data,
claro está, jamais da vítima. Dos poetas cuidarão apenas os
próprios poetas.
Felizmente a predição de Floriano
novamente não se cumpriu. Em 1999, a Topbooks lançou Poesia Reunida
obra pela qual Dora receberia no ano seguinte o prêmio Machado de
Assis da Academia Brasileira de Letras.
Felizmente não são os poetas que
cuidam dos próprios poetas. A poesia é um ser autótrofo. A clorofila
das folhas que guardam os poemas tem um sol particular que independe
do humor ou amor daqueles. A poesia não resistiria à inauguração do
mundo se não fosse assim. Dado isto às veleidades, às
suscetibilidades quase infantis, aos melindres que historicamente
parecem corroer as mãos de uma miríade de poetas, levando-os
constantemente ao pugilato verbal e às trincheiras em favor do
proselitismo de uma ou outra doutrina, quase nunca em prol da
poesia, muito menos de um ou outro poeta de qualquer tempo.
Felizmente não são os poetas que
cuidam de si. Antes são eles movidos e guardados pelas Musas, pelos
deuses do Olimpo, pelo Deus do Tabor, pelos xamãs ou alguma
encarnação de Buda. O acaso - e acaso não é um pequeno milagre no
qual Deus prefere permanecer anônimo? - me trouxe a poesia de Dora.
Uma poeta - e aqui cito Rodrigo Petronio – “para a qual a palavra
está no limiar da experiência litúrgica e o mundo é um conjunto de
signos a serem revelados em sua ascendência sagrada”.
Felizmente os deuses falam aos poetas.
É preciso que venha de longe
do vento mais antigo
ou da morte
é preciso que venha impreciso
inesperado como a rosa
ou como o riso
o poema inecessário.
...
[4]
Felizmente há poetas que escutam...
Novos seres
gravam memórias
ao pé do muro.
Sussurros estalidos
a terra percute
e alguém escuta
em meu ouvido.
O novo é o antiqüíssimo
que vem
de um alçapão.
[5]
... imunes à rouquidão de outros que
colocam o orgulho de sua patente antes da poesia.
Ó desesperados:
lamentáveis tartarugas
de pernas pro ar
[6]
Felizmente o poeta Floriano Martins
revelou-se inábil para predições e não tenho notícia de que voltasse
a fazê-las. Escrevendo sobre Dora, Floriano cita uma frase que ela
pronunciou em entrevista a Gilberto Kujawski e Hermes Nery: “Nós é
que damos sentido ao tempo, e buscamos fazer o melhor nesta fração
de tempo que é a nossa vida aqui”. E para nossa fortuna, são os
poemas, as colagens e os acordes que testemunham o melhor de
Floriano nessa vida aqui.
Na vida de lá, onde o tempo não é mais fração,
O silêncio tem uma porta
que se abre
para um silêncio maior:
antecâmara do último,
que anuncia outro depois.
[7]
E dentro desse silêncio temos duas
certezas: Dora nos escuta. Nós todos continuaremos a escutá-la.
Despeço-me de dizer-te, impronunciável.
Tão perto estais de Deus:
todos os nomes em ti resvalam.
Só a sala do silêncio
podes habitar numa fração de tempo
que se agita e consome: és demasiada,
nenhuma finita moldura te convém.
[8]
_______________________________________________________________________________
[1]. O Vento [2]. A luz eterna [3]. Poetas e insetos [4]. O
nascimento do poema [5]. Novo antigo [6]. Hai cai [7]. O silêncio
[8]. Appassionata. Poemas de Dora Ferreira da Silva.
Cidade da Bahia, quinta-feira da Paixão, raios de
sol e vento
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