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Ana Behrens
as
GeogRafias de Um Cubo e suas utilidades
I
Outubro de 2003. Faz um ano que
estive no Recife, onde fui acompanhar o lançamento do livro de uma
professora de História vivente em Arcoverde, cidade às portas do
sertão pernambucano. O livro era o ‘Geografia Íntima do Deserto’,
a professora, Micheliny Verunschk.
De forma espontânea, quase
instantaneamente, algumas pessoas me indagaram: “Tu vieste de
Salvador só para o lançamento?” Sim. Respondi. Disse que sim
ainda que discordasse do ‘só’, pois que se parecia muito com
‘apenas isso’. Livros são organismos vivos. Quando algum
escritor dá a luz a um livro não é só a não ser que só
tenha a acepção de único. Sim, havia deixado Salvador não tanto
pelas águas de Boa Viagem quanto pelo Deserto. É belo, o verde
concentrado do mar que contempla a cidade, mas a cor do verso na
areia do livro é mais feliz. Só ela, imune à noite.
O mar / fareja e fareja / restos de
sol sobre a areia.
O mar, / sextina negra, / sextina eterna e negra:
Galatéia
De algumas perguntas,
Micheliny também não escapou. Certamente duas delas muito
costumadas. São questões que os lábios de quem comenta poesia (e com
o perdão do pleonasmo), de quem escreve poesia, de quem edita poesia
e poesia ad libitum, estão sempre desenhando. Micheliny, para que
serve a poesia? Algum poeta que nunca tenha ouvido tal
inquirição é provavelmente um jogador de futebol.
O menino desenha / a bola ausente / e
o muro cresce / perante o menino.
O muro prossegue, / o menino não. / Claríssima cal / banha seu
peito.
O vôo extinto / no cimento duro.
[...]
De manhã, ainda em
Salvador, aguardando o embarque, e depois, no avião, vencendo a
gravidade e mais 900km de nuvens, pensei muito sobre a poesia e seu
préstimo. Desembarquei no aeroporto do Recife sem turbulências ou
atraso, nenhum dano aos passageiros... com exceção dos bolsos. Mas
havia subido dois andares do Brasil, havia descido à fundura das
utilidades...
À noite, quase em
Olinda, já no Centro de Convenções, onde aconteceu a IV Bienal do
Livro de Pernambuco, vivemos a celebração do primeiro olhar sobre o
Geografia Íntima do Deserto. Eu e mais de uma dezena de
pessoas que também correram légua e meia, que também traçaram o
mesmo destino: poesia. Ao perceber tal singularidade, obtinha uma
resposta definitiva para a questão tão recorrente. Perguntada mais
uma vez para que afinal de contas serve a poesia, diria a Micheliny
que respondesse com tenacidade: - Serve para aumentar a venda de
passagens aéreas.
Se ainda assim o
interlocutor parecer insatisfeito com a amplitude da resposta,
melhor ensaiar um pigarro e dizer: mais alguma pergunta?
Verunschk, como defines tua poesia? Algum poeta que nunca tenha
ouvido tal inquirição é provavelmente um esgrimista.
Na pedra da alma / gravo a cifra / do
que sinto:
sou a um só tempo
o alvo / o caçador / e o arco tenso
estendido.
Quando a poesia é
singular não se amolda em definições mesmo que plurais. Haverá
sempre muitas e nenhuma delas definitiva. “Dificilmente o vento
encontra um tradutor competente que não o transforme em brisa ou em
dilúvio”. Guardadas as proporções de cada cena, poderia fazer
eco ao poeta Carpinejar, ainda que o vento fosse poesia e o
tradutor, crítico literário, mesmo o mais sagaz.
Como um rei / que sonhasse / um
círculo / um mármore / e dormindo
seus olhos declarassem /o Belo:
uma lágrima / a perfeição / a luz / o verbo.
Como um Deus / que criasse a Beleza
muito embora fosse cego.
Para o poeta João
Cabral, poesia é cubo mágico. Se Mario Hélio diz que
Micheliny escreve uma “poesia de intensidades”, “grafia do ego
mais que dos espaços exteriores” ele desvela só uma das faces
desse cubo. O reverso é que Micheliny também escreve sobre os
espaços exteriores. Escreve contos e desenha fotografias usando uma
dicção particular que flui muito bem no leito da voz. Para
Weydson Barros Leal sua poesia atrai “ora por uma estranheza
íntima, ora por uma simplicidade potente”. Se João Alexandre
Barbosa aponta que uma “distância no tempo” é elemento
intrínseco nos poemas da professora de História, conferindo a eles
originalidade, Manuel Costa Pinto vê em sua poesia “versos
de talhe seco, a ambiência sertaneja, o rigor poético extraído da
descrição dos objetos expostos à luz violenta do Nordeste”. Só
outra face.
Há também olhos de
umidade e asfalto,
O dia e a cidade / conspiram / contra
mim
como um gatilho armado / de um revólver orgânico:
disparam / signos / concreto
e a pele quente de um ônibus
mas à noite / copulo com luzes e prédios
sou útero / cântaro.
há eros e tânatos
ladeados por uma violência refinada, há uma reinvenção de
pretéritos, há tintas ritmadas, há descobertas.
Os seus dedos /
tocam a cítara das chuvas / e traçam
a virgem magra / arquitetura do estio: / sua poesia de extremos.
II
Uma surpresa. Assim
muitos se referiram à presença do Geografia Íntima do Deserto
na lista final dos dez indicados ao Prêmio Portugal Telecom de
Literatura de 2004. Para aqueles que há algum tempo acompanham as
muitas faces da poesia de Micheliny, a notícia não surpreende tanto
quanto soa ajustada.
[...]
E ele, que nada vê,
festeja o burburinho,
criança entre fios coloridos de eletricidade
E ele, o Anjo Cego,
tem outros motivos para festejar. Não só a “surpresa” da indicação,
mas antes de tudo a poesia que surpreende. Ele e os leitores. O
colorido nos poemas de Micheliny não disfarça o perigo da voltagem.
Ela costuma dizer que poesia é sobressalto, é susto. Os adultos
entre os fios – as linha, os versos - sentem o choque.
[...]
Ah! E o Sol,
imenso carrapato
agarrado no azul.
Quem disse que o Sol é uma estrela de primeira grandeza? Ao retorcer
conceitos, ao renovar dicionários, a poesia é capaz de desmentir os
astrônomos e desmontar o lugar comum. Sim, digam sim que Micheliny é
poeta. Ao leitor, a luz.
A solidão, / essa tempestade, /esse
gozo às avessas,
esse jeito de eternidade / que as coisas adquirem
mesmo sendo apenas vidro. / Essas cartas ardendo / no estômago das
[gavetas,
essas plumas/ que surgem quando se apagam / as últimas luzes do dia.
[...]
O sono, / grande placa de cerâmica,
e o tempo, / demônio a ranger sobre o infinito.
III
Outubro de 2004. Não faz um átimo que os olhos do vento azul de
Salvador me flagraram relendo um outro livro, também lançado há um
ano na Bienal de Pernambuco, composto por um único e extenso poema,
aflitivo e lúgubre, surpreendente em sua beleza cáustica, sem
composições de almofadados, sem concessões, escrito por uma
estudante de pós-graduação da PUC, vivente em São Paulo, cidade às
portas do ser tão mundo. O livro, O Observador e o Nada. A
estudante, Micheliny Verunschk.
Sim, pessoas se
parecerem com poesia. Elas também são cubos mágicos. E ainda é
possível dizer que ambas têm a mesma serventia: servem para serem
amadas.
.....
Excertos e poemas do Geografia citados no texto:
(Noite)
(Dois temas para meninos - I)
(Hieróglifo)
(Ofício)
(O rio)
(Evangelho)
(Epílogo ao Anjo Cego do Senhor)
Seca (ou ‘O Boi e a Quaresma’)
(Darkness)

Leia Micheliny Verunschk
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