Antônio Massa

 
 
SETE CONTOS E POSLÚDIO SOBRE OS OLHOS
QUE VIRAM UM ANJO E NUNCA DISSERAM UMA PALAVRA


Enquanto as cores envelheciam
abrindo a noite
eu preparava armadilha
pro dito anjo
uma lembrança no meu ouvido
dizia com voz de mãe:
— O olho é o espelho d’alma

Coloquei
dois olhos dos mais belos
na arapuca
 (o vô ensinou:
 caixote de feira, linha e puxão
 amarrado no toco de equilibrar)
pintei os olhos de desembaraço
e pinguei beladona
pra enluarar a íris

Em posição de caçador
esperei a hora do puxe
mas dormi no meio da noite
dia amanhecido, os olhos sumiram
mãe disse que o gato comeu.
 
 
 
 

II.

Eu revirava o rio em busca de suas raízes
mas um peixe me disse
que não havia em rio

Os peixes me ensinaram muito
(morriam na vaidade de serem repartidos
pelo amor às panelas)
Vô dizia que peixe sabia melhor
de anjo, por isso
compartiam-se

Vô contava:
— peixe não fecha os olhos pra agradar os anjos

preguei adesivo nos olhos
a cinta correu nas mãos de mãe
 
 

III.

Quando descobri que os anjos tinham asas
quis voar
montei uma coleção de fantasias
voadoras
e as soltava no meu quarto
manhãzinha
antes fechava as janelas

o mano falou que era
impossível
usar asa como isca para anjo
— São os opostos que se atraem, bobo!

Neste dia me pintei de diabo
e dormi embaixo da cama.
 
 

IV. INTERLÚDIO

De como eram os olhos não lembro
só lembro da arapuca
um dia encontrei um cílio no quarto
ficou do par de olhos

Quando abri a madrugada no quintal
com a tesoura da avó
as formigas saíram das tocas
cheias de inverno
formiguei nos pés
mãe disse que era cãibra
dei massagem e fui dormir
 
 

V

De noite, teve festa na vila
neste dia, andei nu pela casa
ninguém estava

O quintal brilhava como olho
de gente
lembrei dos peixes
e caminhei até o rio
(atravessava o quintal e pulava o muro 
pra chegar mais rápido)

fui mesmo pelado
o rio estava parado 
tinha criado raizes que subiam
à terra de tão grande

em mim também as raízes 
tão fortes quanto as do rio
(os peixes também criaram raízes
mas nunca fecharam os olhos)
 
 

VI

Um peixe dava fruto outro-dia
as escamas se abriam em flor 
e a água colhia as sementes 
demorei a entender que o rio
tinha virado criatório
calei e deixei de acreditar em anjos
 
 
 

VII

Quando minha vó ensinou 
costura lá em casa
aprendi a coser de lingua à pano
costurei minhas raízes
e fiz um colar para o rio 
tinha pena do rio enraizado
aos homens e aos peixes
costurei de volta a madrugada 
com uma fazenda arrependida
Já entristecido do mundo
arranquei meus olhos e coloquei 
na armadilha

No outro dia, bateram à porta 
eram oficiais da cidade
vieram levar o rio e os peixes
Quando arrancaram o rio pelas raízes
as formigas se agitaram
meus olhos, no quintal, viam tudo 
eu fiquei em casa com o avô
que tinha morrido para peru
quando soube do rio
 
 

— Pósludio —

Eu tinha mesmo
sentimento nos olhos 
choravam nao sei de que solidão
(acho que do anjo)
choravam tanto que nasceu rio
a vila boiou em cima d’água
e descobri que meu anjo
corria junto com o espírito do rio
meus olhos, nos quintais, nunca mais se fecharam. 

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