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OS
CONFIDENTES DE EDGAR ZÚÑIGA
Guillermo Fernández
Nossos
antepassados deram o nervo renitente à viga, base onde se apoiaram
os textos de antigas edificações. Hoje, o escultor Edgar
Zúñiga - um dos mais interessantes e sérios escultores
costarriquenhos da atualidade -, talvez impelido por haver escutado um
chamado anônimo, desempoeirou vigas feitas a partir de madeiras nobres,
entre 100 e 140 anos, ou seja, vestígios de nossa história
arquitetônica, desentortou pregos enferrujados e tirou a pintura
morta.
O resultado do trabalho de Zúñiga
sobre essas vigas e forquilhas de teatros, igrejas e casas, foi algo tenebroso
à primeira vista: rostos surgidos em um bosque sem folhas nem vento
nem cascas - como alguma dessas estâncias límbicas de Dante
-, rostos de uma humanidade aterradora, preocupada, atônita ou perigosamente
contida.
Velhos fantasmas saem a ver nossa época,
nós mesmos, com o gesto de sua dor fundamental ou de sua incerteza
mais profunda. Uns parecem indignados, severos, orgulhosos: outros clamam,
se entristecem, desmaiam com espanto. Essas figuras mantêm uma atitude
de estranheza ou oração em momentos; algumas, pregadas por
um cravo na palma da mão, e sem que o percebamos, expõem
a expressão de um grito, como se a completa revelação
de sua fisionomia lhes causasse a angústia de retornar ao mundo
através de um parto mais difícil. Outras se resignam a ver.
Mudas.
Não
é acidental que depois das primeiras exibições da
obra, tenham proliferado inúmeras interpretações.
Alguns críticos, como María Amelia Bulhóes, afirmam
que as figuras surgem desafiantes do passado, indagando-nos por nossa razão
de ser. Neste sentido, os pedaços de madeiras externam indivíduos
anônimos que conciliam o espaço ascético de nossa sociedade
de consumo, introduzindo nosso olhar na verdade humana, dolorosa e turva.
Para Gladys Yunes Yunes, Zúñiga transtorna o universo do
real e do imaginário. Dermis Pérez León, por outro
lado, considera que a arte representada pelo anterior reconstrói
a história desde sua função arqueológica. O
escultor reconquista um vestígio: a viga, e faz nela uma sutura
de onde saem testemunhas apanhadas pelo tempo, e decididas a nos relatar
suas histórias.
As exigências de Zúñiga
como artista são muitas. De fato, pretende que o público
transite entre as esculturas e experimente ser parte delas. É necessário,
segundo o criador, tomar consciência da temporalidade - e futilidade
- dos objetos do mundo contemporâneo. As esculturas brindam este
sentimento. Além do mais, suas obras comunicam os gritos de um mundo
em processo de destruição. Constituem seres em atitude de
súplica: "É minha intenção que o público
[…] participe do velório, ultrapasse o portal, reze". Todas estas
exigências do próprio criador poderiam ser conturbadoras,
mas não parece alterar o fato de que o gozo estético destas
deva estar também relacionado com a necessidade de despertar, de
comunhão na dor humana.
Segundo
o próprio Zúñiga adverte, "estas madeiras levam em
seu interior uma forte carga de memória e de emoções.
Foram testemunhas de infinidade de acontecimentos. De amor, prenhez, de
partos, de decepções, de gritos de luta, de sonhos truncados,
de crimes, de alegrias." Todas as versões, incluídas as do
autor, por justificar as esculturas, poderiam ser precisas. Mas assistimos
a uma arte maior, ou seja, a uma construção metafórica
incapturável. Creio, sem a menor dúvida, que o bosque humana
de Zúñiga quererá dizer outras coisas dentro de, por
exemplo, 200 anos. Arriscando uma antecipação, quando os
seres humanos estiverem vivendo em uma comunidade tolerável, sem
guerras nem fomes, as esculturas recordarão como era o semblante
de nossa espécie em uma das épocas mais inseguras e bélicas,
mais cheias de contradição e dilaceramento.
No momento, as esculturas podem dizer
tudo. parecem expressar o mal estar das almas dos mortos ao ser convocados
na estridência de uma sala de exibição em plena cidade.
Poderiam ser isso, realmente: ecos de vida nas veias da madeira centenária,
com o qual Zúñiga é um médium que os faz surgir
com olhares terríveis. Ou talvez, se quisermos, rememoram os santos
e mártires - recordemos que o artista se inicia em escultura sacra
- que nos convidam a rezar, a nos determos não em uma rua barulhenta,
a rua cheia de ruído de nossa própria alma, mas sim onde
não há tempo, onde há que refletir e sentir o pranto
para que nos libere.
Pois
bem, as efígies de Zúñiga foram elaboradas a partir
de moto-serra (e essa não é uma figura retórica).
A moto-serra, com seu caráter de frio artefato eficiente, é
o cinzel adequado que extrai da madeira o traço mais provavelmente
nervoso e turvado da vida.
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