.

Revista de Cultura nº especial II
.
Fortaleza/ São Paulo, setembro de 2000
.


UNE SAISON EN ENFER: POESIA E REVELAÇÃO
Weydson Barros Leal
agweydson1.JPG (16228 bytes)A primeira referência que costumamos associar ao nome de Rimbaud é a do poeta maldito, rebelde, protagonista de uma das mais impressionantes histórias de vida em nosso mundo moderno. O seu percurso, do nascimento até a morte, divide-se nitidamente em dois tempos – antes e depois de abandonar a poesia, o que fez quando tinha vinte anos – mas que poderia se subdividir em muitos mais, se quiséssemos marcar, como fazem as estações, diferentes luzes, até o apagar de tudo. Rimbaud é um caso raro na literatura. Nele, a coragem e a obstinação do poeta adolescente lhe possibilitaram, antes dos vinte anos, a expressão máxima de sua arte. Ao atingi-la, não encontrou outro caminho senão a busca de novos limites, abandonando a Europa para tentar a riqueza na África.

Na conferência pronunciada em 22 de novembro de 1994 durante o lançamento da edição bilíngüe da "Poesia Completa" de Arthur Rimbaud, no Rio de Janeiro, seu maior tradutor para a língua portuguesa – o poeta Ivo Barroso – afirmava ser "absolutamente necessário ler Rimbaud, mas é preciso saber lê-lo". Os leitores "hão de ver que sua poesia é a preview de sua vida, que nela estão os sóis, as savanas, e as selvas que ele encontrou em sua segunda etapa; que a ânsia de explorar o desconhecido território abissínio é apenas um eco de seu anseio de desbravar o reino das palavras; que suas investidas pelo desconhecido continente africano equivalem aos seus arrojos na procura de meios de expressão que pudessem revelar o Novo". Mas advertia: "Nada disso altera o valor intrínseco de sua obra. O que conta é o que ficou, a obra em si, e nas circunstâncias em que nasceu ou foi criada".

Rimbaud morreu há 107 anos, 5 meses e 27 dias, em Marselha, na França, aos 37 anos. Nasceu na pequena cidade de Charleville, ao norte de Paris, em 20 de outubro de 1854. Foi o segundo de quatro filhos que a mãe, Vitalie Rimbaud, abandonada pelo marido – o capitão de infantaria Frédéric Rimbaud –, criaria sozinha a partir de 1860. 

No colégio, logo o pequeno Arthur impressionaria amigos e professores. Inteligente e impulsivo, num de seus primeiros registros escritos – um texto assinado aos nove anos – questionava assim as normas curriculares: "Por que aprender o latim? Ninguém fala essa língua. Às vezes vejo o latim nos jornais; mas, graças a Deus, eu não serei jornalista". Apesar das críticas, dois anos mais tarde começava a escrever, em latim, os seus primeiros versos.

A partir de 1868, quando tinha treze anos, a poesia já lhe despertava vivo interesse. A caminho do colégio, em companhia do irmão e de dois amigos, Rimbaud parava diariamente nas pequenas livrarias, onde encontrava as últimas publicações parisienses, como os fascículos mensais do Parnasse Contemporain, em que lia os poetas do momento: Théophile Gautier, Théodore de Banville e Paul Verlaine. Entre os 13 e os 15 anos, seu virtuosismo em versos latinos impressionava a todos. Prêmios e láureas escolares estimulavam sua impetuosidade, e ainda aos 13 anos, enviou em segredo ao príncipe imperial 60 hexâmetros (em latim) para saudá-lo por sua primeira comunhão. 

Sua capacidade intelectual desde cedo reflete um espírito de estranhos impulsos, para quem a dedicação aos estudos e a superação de seus limites lhe serviriam de libelo contra as instituições que o cercavam – a escola e a família – e que formavam até então o seu impaciente universo. Aos 14 anos, num registro do que poderíamos considerar uma de suas estranhas premonições, em seu primeiro concurso de redação escolar (onde deveria abordar os versos de Horácio) escreveu que num sonho recebera de Febo – deus do Sol – a sentença: Tu Vates Eris (tu serás poeta). 

Façamos uma pausa nesta introdução biográfica para observarmos agora alguns aspectos ligados aos estudos rimbaldianos. 

Muito já se escreveu sobre o poeta Arthur Rimbaud. Na verdade, nem tudo foi justo, e talvez pela própria enfermidade de que sofrem suas biografias quanto a interpretações e à pluralidade de dados sobre um mesmo fato, crescem os equívocos.

Uma das proposições mais comuns nesses estudos, reivindica uma análise de sua poesia independente de "apegos" à sua biografia. Assumem riscos, seus autores, ao fecharem sobre o poeta um foco que exclua esta visão: afinal, a obra de Rimbaud é tão influenciada e entrelaçada por sua vivência quanto pelos montes de livros, enciclopédias, tratados de Ocultismo e revistas literárias que leu, na infância e na adolescência, o menino de Charleville. O paralelo biográfico, na maioria dos casos, é até esclarecedor, pois uma análise meramente teórica dos poemas de Une Saison en Enfer (Uma Estadia no Inferno), por exemplo, não se explicaria por si. É preciso conhecer a história e o espírito de seu criador para compreender, através de sua impressionante personalidade, o sentido de poemas que se tornam quase imperscrutáveis se relacionados apenas com a poesia anterior a eles. Formalismo somente, não é entendimento de poesia.

Um exemplo marcante da simbiose entre a vida e a poesia de Rimbaud observa-se em 1870, durante o período da guerra entre França e Prússia. Esta guerra, com forte ressonância sobre a pequena Charleville, reflete-se sobre boa parte dos poemas, cartas e manifestos que escreve. E uma vez convencido de que deveria tomar parte nas trincheiras populares, com o dinheiro da venda de um relógio de prata ele foge de casa, em fevereiro de 1871, em direção a Paris. Esta seria a sua terceira tentativa – a primeira com sucesso. Paris está tomada pela queda do Segundo Império: há desordem e fome. Durante alguns dias, perambula pela cidade, dormindo em praças e cais. Desolado e sem dinheiro, volta a pé para Charleville, cruzando as forças inimigas. Anda aproximadamente 180 km, dizendo-se franco-atirador para os camponeses que lhe dão guarida. Está com 16 anos, e um mês após o regresso, foge de novo, engajando-se então na Comuna de Paris e estagiando numa caserna. (São deste período os poemas Canto de GuerraParisiense, As Mãos de Jean-Marie e Paris se repovoa). Já em maio, de volta a Charleville, escreve aos amigos Paul Demeny e Georges Izambard as famosas cartas ditas "do Vidente", onde explica suas novas teorias estéticas e seu método visionário.

agweydson2.JPG (29695 bytes)É ainda em 1871, em meio a uma violenta crise de valores (refletida em seu anticlericalismo e conseqüente crítica das instituições), que escreve, a conselho de um amigo, uma carta ao poeta Paul Verlaine enviando-lhe seus últimos poemas. Verlaine, então com 26 anos, é tomado por entusiasmo e admiração, e responde-lhe com um vale-postal, chamando-o para ir a Paris. Enquanto aguarda a partida, Rimbaud termina Le Bateau Ivre (O Barco Ébrio), poema que será lido em sua chegada à capital. 

O ano de 1872 marcaria o início da inquieta relação entre os dois poetas. Verlaine, recém-casado, morava na casa dos sogros, para onde Rimbaud, a princípio, é levado. Logo nas primeiras semanas de sua estada, tendo provocado diversas brigas conjugais, o hóspede é forçado a mudar de endereço, sendo recebido em casa de outros poetas, onde também não fica por muito tempo. A vida literária é agitada, e as reuniões noturnas, regadas a vinho, absinto e poesia, agravam as relações matrimoniais do amigo. Rimbaud é aconselhado a voltar para Charleville – o que faz, ainda a contragosto – mas em pouco tempo, atendendo a um chamado de Verlaine, está de novo em Paris, trazendo novos poemas. Em julho deste ano, Rimbaud decide ir para a Bélgica – e o amigo abandona a esposa para segui-lo. De lá, vão para a Inglaterra, onde Rimbaud escreve seus últimos poemas em verso e inicia a composição das Illuminations, textos que o conduzem a novos limites de sua linguagem poética, com inspiração nos poemas em prosa de Baudelaire – "um verdadeiro deus", segundo ele.

Em Londres, problemas financeiros perturbam o relacionamento entre os dois poetas, e no final de 1872 Rimbaud decide voltar a Charleville. Verlaine fica só e toma conhecimento de um processo de separação encaminhado pela esposa. Em profunda depressão, adoece no início de 1873, pedindo a presença de sua mãe e de Rimbaud. Após um encontro de poucos dias, Rimbaud retorna para a casa da família, onde começa a escrever "Uma Estadia no Inferno".

Em maio de 1873, os dois amigos se encontram na França, e Verlaine convence o outro a ir de novo tentar a vida na Inglaterra. Em Londres, novas brigas os separam, e desta vez é Verlaine quem parte. Segue para Bruxelas, onde está a esposa, e tenta reatar o casamento. Nada conseguindo, escreve desesperado para Rimbaud, pedindo que este venha ao seu encontro. Em Bruxelas, Rimbaud comunica ao amigo a disposição de separar-se definitivamente de seu convívio, e depois de uma briga, Verlaine dispara dois tiros contra ele, ferindo-o no pulso. Preso, Verlaine é condenado pela justiça belga a dois anos e meio de prisão, sendo solto antes do final da pena por bom comportamento. De Bruxelas, Rimbaud retorna a Charleville, onde termina o grupo de poemas de "Uma Estadia no Inferno". Com dinheiro conseguido junto à mãe, imprime o livro na Bélgica, e distribui alguns exemplares.

Mas voltemos um pouco no tempo. Em Post Scriptum a uma carta de 25 de agosto de 1870 ao amigo e ex-professor Georges Izambard, Rimbaud escreveu: "Em breve, revelações sobre a vida que vou levar após… as férias…" É no mínimo curioso que nove meses antes das duas cartas ditas do Vidente (uma ao próprio Izambard e a segunda - definitiva para esta compreensão – ao amigo Paul Demeny) ele já citasse "revelações" sobre uma vida ainda planejada. Mas é nestas cartas (e mais precisamente na segunda, de 15 de maio de 1871) que seu projeto ao que chamamos de primeira "etapa" – como define Ivo Barroso – a do poeta-criador - se constrói. Da primeira delas, colheríamos apenas estas frases inquietantes: 1) Serei um trabalhador… 2) Trabalhar agora, jamais, jamais, estou em greve… 3) Quero ser poeta e trabalho para me tornar Vidente…

A utilização do verbo trabalhar em três situações seguidas e conflitantes revela, em princípio, um espírito ainda indefinido, mas em processo de organização de algo a se realizar. Esta indefinição, no entanto, é dissipada na correspondência seguinte, onde as tortuosas afirmações dão lugar a proposições mais claras para refletir o seu "projeto". E aqui, chegamos ao cerne do planejamento da "primeira etapa". Escreve Rimbaud: "Afirmo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O poeta se faz vidente por um longo, preciso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; busca a si, esgota em si mesmo todos os venenos, a fim de só reter a quintessência…"

Analisemos o trecho citado comparando-o, por partes, aos fatos que compõem este período. "Afirmo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente": Esta afirmação encontra reflexo no próprio processo em que se fundamentam suas projeções. A expressão "fazer-se vidente" traduz a idéia de preparação, de planejamento, ou do que se espera que aconteça. "O poeta se faz vidente por um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos": Este "desregramento racional", ou seja, consciente, se configura inicialmente pela perda do balizamento disciplinar da escola e da família quando, nesta época, o poeta já decidira não mais voltar ao convívio dos "velhos imbecis do colégio", como escreve, e ainda inicia sua rotina de isolamentos para leitura e de fugas da casa materna. Esta afirmativa é seguida pela explicação pormenorizada de como se daria o desregramento de que fala. "Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; busca a si, esgota em si mesmo todos os venenos, a fim de só reter a quintessência": Para traduzir em fatos esta frase, cabería-nos apenas reproduzir aqui os seus períodos de Paris, que resumem todas as transgressões, experimentadas principalmente com o poeta-amigo Paul Verlaine, como o uso do haxixe, do absinto e do ópio (por onde chegaria também a um "desregramento dos sentidos"): tudo, enfim, refletindo uma busca incessante, que acabaria na retenção de sua própria quintessência nos poemas de Illuminations e, posteriormente, de "Uma Estadia no Inferno". (É preciso, aqui, que os "venenos" a que Rimbaud se referia sejam interpretados de formas diversas: os venenos das relações humanas; os venenos de si mesmo, que ele encontraria em sua busca pessoal; os venenos do amor e da vida…)

agweydson3.JPG (30717 bytes)De toda poesia rimbaldiana, "Uma Estadia no Inferno" é, em seu conjunto, a mais autobiográfica de suas obras. Mais do que as correspondências de caráter visionário, os poemas de Une Saison nos servem ainda como registros de algumas de suas premonições. Sob o aspecto autobiográfico, é em Delírios I – Virgem Louca (O Esposo Infernal) que se encontra, por exemplo, um relato poético que revelaria, para a maioria dos críticos, aspectos claros de sua relação com Paul Verlaine. Neste poema, o outro é quem fala, num texto sempre entre aspas, pois as palavras – a despeito de algumas controvérsias - a nosso ver seriam pronunciadas por Verlaine: "Ele, quase uma criança… Fui seduzida por suas misteriosas delicadezas. Larguei todo dever humano para segui-lo". Este também é o poema em que a sexualidade latente da relação é definida de forma mais clara: "Cheios de emoção, trabalhávamos juntos. Mas, ao fim de penetrante carícia, me dizia: Como te parecerá estranho tudo isto por que passaste quando eu não estiver mais aqui. Quando não mais tiveres meus braços ao redor de teu pescoço, nem meu peito para nele repousares, nem esta boca em tuas pálpebras. Pois força é que um dia eu vá para bem longe".

Aqui, façamos um parêntese. Uma questão polêmica ainda hoje nos estudos rimbaldianos, é a determinação de datas para as Illuminations e para o que parece ser a última obra de Rimbaud, Une Saison en Enfer. Alguns de seus mais importantes biógrafos ou estudiosos de sua obra – como Rolland de Renéville, Jules Mouquet, Edmund Wilson e Hugo Friedrich – concordam na desinência cronológica de Une Saison; outros, como Enid Starkie, Pierre Matarasso e Henri Petitfils deixam dúvidas, e alguns poucos pensam o contrário. Não nos cabe aqui provar estes posicionamentos, uma vez que a própria Enid Starkie, mesmo reconhecendo terem os poemas das Illuminations sido compostos em períodos diferentes (podendo incluir o antes, o durante e o depois de Une Saison), chega a utilizar várias páginas de seu estudo para a discussão do problema, sem deixar, no entanto, de se antepor aos argumentos deterministas de Bouillane de Lacoste, que em sua tese de doutorado à Sorbonne tenta provar a antecedência de Une Saison en Enfer.

Prosseguindo nas relações entre a vida e a obra de Rimbaud, chegamos então à "segunda etapa" de que fala Ivo Barroso: a do poeta-empreendedor (ou, como muitos preferem, do explorador aventureiro). Também nos poemas de Une Saison en Enfer, trechos que coincidem com fatos ocorridos posteriormente, são vistos por alguns de seus analistas – não sem razão – como especulações de um visionário (ou de um Vidente), como por exemplo: "Minha jornada chega ao fim: deixarei a Europa". Preferimos, no entanto, sublinhar essas previsões dando-lhes um caráter mais realista, pois como ressalta Ivo Barroso, "a partir daqui, as palavras de Rimbaud, analisadas desde nossa perspectiva temporal, de conhecedores de seu futuro, soam verdadeiramente proféticas. Contudo, é preciso lembrar que ele se refere aos de raça inferior, aos proletários e camponeses cuja única via de escapar à ‘escravidão’ e à miséria era a partida para terras estrangeiras". Esta observação é feita a partir de um fragmento do poema Mauvais Sang (Sangue Mau), em que o poeta, num misto de projeto e premonição, conjuga com demasiada justeza de detalhes os tempos de um futuro breve. Vejamos o trecho, que analisado à luz de nosso conhecimento da época em que foi escrito – época de angústias, desilusões e incertezas – nos permite a compreensão desta "fuga" de uma realidade que já era "espinhosa demais" para o seu "grande caráter": "Minha jornada chega ao fim: deixarei a Europa. A brisa marinha há-de crestar os meus pulmões; climas perdidos curtirão a minha pele. Nadar, macerar ervas, caçar, fumar principalmente; beber licores fortes como metal fervente. (…) Retornarei, membros de ferro, pele queimada, olhar em fúria: a julgar pela máscara, dirão que sou de alguma raça forte. Terei ouro: serei indolente e brutal. As mulheres assistem esses ferozes inválidos em seu regresso dos países quentes. (…) Por ora sou maldito, tenho horror à pátria. O melhor será dormir, embriagado sobre a areia". Ou, mais à frente, num pequeno fragmento de um quase desangustiar-se: "O mais sagaz será deixar tal continente, onde a loucura ronda a prover reféns para estes miseráveis".

Não é preciso a sagacidade de um investigador para apreender nas frases citadas um absoluto entrelaçamento da obra e da vida de um poeta que fazia de seus devaneios e aventuras matéria para a poesia. Aos que já têm intimidade com sua história e sua obra, este fato poderia até parecer óbvio, mas não é. Como dissemos, muitos críticos ainda afirmam que a poesia rimbaldiana deve ser encarada indiferentemente à sua vida. Em sua História da Literatura, Otto Maria Carpeaux escreveu que "Rimbaud, de maneira paradoxal, realizou o ideal parnasiano: não há outro poeta em que vida e poesia estejam tão rigorosamente separadas". E completou: "Todos os seus versos foram escritos antes de ele chegar aos vinte anos de idade, quer dizer, antes de iniciar a vida". É de estranhar que Carpeaux não contasse que os vinte anos de Rimbaud já significavam mais da metade de sua vida, já que ele morreu aos trinta e sete. E se formos considerar a vida do poeta-criador, do fazedor de versos, nele se iniciou aos treze. À parte isso, sua vida até os vinte anos está tão refletida em seus poemas em verso e em "Uma Estadia no Inferno" quanto depois seria marcada por aventuras impressionantes. 

Num breve resumo das viagens que empreende de 1874 - ano em que decide abandonar a poesia – até 1880, quando parte para a África, teríamos o seguinte roteiro: em 1874, em companhia do poeta e novo amigo Germain Nouveau – outro andarilho, decide ir de novo para Londres, onde aprofundaria seus conhecimentos de inglês, tendo em vista o início de grandes viagens. Durante um ano, os dois amigos lecionam francês em cidades da Inglaterra e da Escócia. Em 1875 Rimbaud volta sozinho para Charleville antes de seguir para a Alemanha, onde pretende aprender o idioma em Stuttgart, enquanto trabalhará como preceptor. Ainda este ano, deixa Stuttgart a pé e desce até a Itália, adoecendo em Milão. Uma vez curado, segue para Brindisi, mas de novo doente, é repatriado pelo cônsul francês de Livorno. De volta a Charleville, recomeça a estudar línguas, principalmente o espanhol. Em abril de 1876 está em Viena, é roubado por um cocheiro e sem dinheiro é expulso do país. Em maio vai para a Holanda, onde se engaja no exército com o intuito de viagens. Em julho chega com a tropa à Batávia, mas deserta dias depois e foge a pé por quase 200 km de florestas para o porto de Samara, de onde retorna à Europa em um veleiro inglês. Em 1877, consegue dinheiro com sua mãe e visita Bremem e Hamburgo, onde se emprega como intérprete de um circo, com o qual percorre a Dinamarca e a Suécia, sendo repatriado pelo cônsul francês de Estocolmo. Em setembro embarca em Marselha em direção a Alexandria, mas adoecendo no navio, é desembarcado em Civita-Vecchia: visita Roma e regressa a Charleville. Na primavera de 1878, volta a Hamburgo para tentar emprego numa firma de importação visando ir para o oriente, mas sem sucesso, volta a Charleville, via Paris. Em outubro segue a pé para a Suíça; dali, vai para São Gotardo, seguindo de trem para Gênova, na Itália. Em 19 de novembro embarca para Alexandria. Em dezembro trabalha como capataz numa pedreira, em Chipre. Contrai tifo e volta para curar-se em Charleville. Na primavera de 1880 retorna a Chipre, de onde segue para o Egito. De lá, vai para Aden, partindo em seguida para Harar, na antiga Abissínia, hoje Etiópia, "depois de vinte dias a cavalo através do deserto da Somália". Daí em diante, são mais de dez anos em atividades mercantilistas pelos desertos da África, onde exerce o tráfico de armas e negocia toda sorte de materiais, dirigindo escritórios de exportação. Enfim, em fevereiro de 1891 é detectado um tumor em seu joelho direito, e em março ele já não consegue mais andar. Em maio, é levado para a França, chegando muito mal ao Hospital de La Conception, em Marselha, onde lhe é amputada a perna. É diagnosticado câncer, que já se espalhou pelos ossos. Após a operação, Rimbaud é levado pela irmã para Roche – a fazenda da família. As dores continuam, mas em outubro, em companhia dessa irmã, ainda retorna a Marselha com pretensões de alcançar a África. Seu estado piora, e aos 10 dias do mês de novembro morre o poeta e explorador Arthur Rimbaud, aos 37 anos. 

Para um melhor entendimento do espírito rimbaldiano, não deveríamos separar o menino genial do adolescente revolucionário, o poeta maldito do comerciante africano. Em Rimbaud, cada um é outro, e todos são um só. Para compreendê-lo, é preciso aceitar o poeta no Rimbaud menino, no Rimbaud jovem-desregrado e também no Rimbaud aventureiro e mercador, que viveu sua epopéia moderna. Em todos há, plenamente, a poesia que por algum foi escrita. Se quisermos encontrar na poesia de Rimbaud dados puramente biográficos, podemos retroceder até os seus poemas de infância e adolescência, que retratam o período de fugas da casa materna, como em Ma Bohème ou Sensation; das visitas à Biblioteca de Charleville, como em Les Assis; ou ainda sobre fatos da vida cotidiana, como em Les Premières Communions, A la Musique ou Les Pauvres a l’église. Todos intimamente relacionados com a vida do poeta.

A obra de Rimbaud, em todo seu percurso, alimenta-se das cidades, dos desertos, dos venenos e do fogo que ele mesmo sonhou ou roubou de sua própria vida. É impossível enxergá-la de outra maneira sem perder o que de mais forte e latente a sustenta verso a verso. Em Rimbaud, até a forma é biográfica: o rigor métrico de seus primeiros versos identifica-se com a disciplina a que foi submetido em sua infância; a liberdade e a ousadia dos poemas em prosa, refletem as transgressões dos períodos em que os escreveu na juventude; e o silêncio ou a frieza contida em sua correspondência africana, contabilizam a matemática do explorador. Portanto, para Rimbaud, o que sempre contou foi a vida.

Início desta página
jpmenor.jpg (9998 bytes)