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Revista de Cultura nº especial
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Fortaleza/ São Paulo, agosto de 2000
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BENJAMÍN VALDIVIA: DEPOIMENTOS, POEMAS
tradução: Floriano Martins
agvaldivia1.JPG (25925 bytes)Minhas principais afinidades estéticas se orientam pela grande poesia latino-americana do século XX. Especialmente Huidobro, Lezama Lima, Borges, Neruda e Vallejo. Com os demais poetas vivos me une o espírito do tempo (coisa que não posso evitar): escrevemos a partir da mesma plataforma espiritual. Mas penso que as diferenças não estão nessa convergência de simultaneidade, mas sim nas raízes culturais e de assimilação das tradições.

As contribuições essenciais da poesia mexicana do século XX têm que ver com aspectos muito amplos da escritura: o caráter de avançada (em que as rupturas são levadas com mesura); o sentido cosmopolita (enquanto o nacional e o estrangeiro são postos no mesmo nível); e o tom de liberdade (porque é possível, e assim se tem feito, abordar na poesia todos os matizes do material e do transcendental).

O que impede relações hispano-americanas mais estreitas, creio eu, é uma espécie de egoísmo cultural: cada país ou região se encerra em si mesma, preocupada com seus próprios produtos; isso lhe impede atender ao que se faz em outros rumos do continente (e do planeta). É como perder um tesouro por guardar uma moeda.

Benjamín Valdívia
CREDO

Yo creo en el amor matrimonial de los cisnes perfectos,
en la sustancia del sol que desparrama
sus ríos jubilosos.
Creo en el aguacero febril que siempre vive
por el cráneo de luz de los enamorados;
en aquellos instantes previos a morir,
en las interpretaciones de música del viento.
Creo en la paz amena y sorprendida de tus ojos.
Creo en la sal del mar y del momento:
la fruta milenar que hemos mordido;
en el cielo tenaz que siempre nos espera.
Y también en la luz, en la fiesta fugaz;
y en tus manos sencillas que todo lo sostienen.
 
 

CREDO

Creio no amor matrimonial dos cisnes perfeitos,
na substância do sol que esparrama
seus rios jubilosos.
Creio no aguaceiro febril que sempre vive
pelo crânio de luz dos enamorados:
naqueles instantes prévios à morte,
nas interpretações de música do vento.
Creio na paz amena e surpreendida de teus olhos.
Creio no sal do mar e do momento:
a fruta milenar que mordemos;
no céu tenaz que sempre nos espera.
E também na luz, na festa fugar;
E em tuas mãos singelas que a tudo sustentam.


 

TRÍPTICO

En un jardín olvidado te beso al parecer por la vez última.
Gente imposible pasa por los lados sin ver
todo lo que se juega en el espacio.
Hay pupilas que jamás contemplaremos nuevamente.
La gente sigue su camino sin rumbo
sin entender el trágico transcurso de los tiempos.
Esos labios jamás serán besados nuevamente.
La gente pasa de largo en una noche perpetua
sin sentir que se fractura la luz de los astros.
 
 

TRÍPTICO

Em um jardim esquecido te beijo como se fosse a última vez.
Gente impossível passa pelos lados sem ver
tudo o que se joga no espaço.
Há pupilas que jamais contemplaremos uma vez mais.
As pessoas seguem seu caminho sem rumo
sem entender o trágico transcurso dos tempos.
Esses lábios jamais serão beijados novamente.
As pessoas passam ao largo em uma noite perpétua
sem sentir que se fragmenta a luz dos astros.


 

ENTRADA

Amamos la palabra y su hierro matizado
porque en ella se cumple la fuerza de la voz
y los ciclos del agua silenciosa.
La palabra trae luz
para nuestro animal introspectivo.
Quien levanta la voz
inaugura los diálogos del fuego.
Y así,
establece recintos por miradas,
produce atardeceres que no pesan
y de nuevo color.
Amamos la palabra
por el río de tiempo en que transita:
un río de manos escribe en mis manos.
 
 

ENTRADA

Amamos a palavra e seu ferro matizado
porque nela se cumpre a força da voz
e os ciclos da água silenciosa.
A palavra traz luz
a nosso animal introspectivo.
Quem ergue a voz
Inaugura os diálogos do fogo.
E assim,
estabelece recantos por olhares,
produz entardeceres que não pesam
e de novo cor.
Amamos a palavra
pelo rio de tempo em que transita:
um rio de mãos escreve em minhas mãos.


 

agvaldivia2.JPG (9225 bytes)LUNA VERDE

Aquella luna verde de marzo maduraba.
Ella traía la indumentaria del calor
y vi en su boca el otro lado de la vida.
Múltiples fuegos ardieron entonces.
Y se quebró de sutileza el aire
y nos movimos en caprichos de agua.
Toqué en ella la muerte:
encontré sólo árboles de pluma,
aves de hoja.
Como un metal
las uñas imprimieron sus imágenes.
Era ella un recuerdo vegetal
creciendo entre la noche.
 
 

LUA VERDE

Aquela lua verde de março amadurecia.
Trazia a indumentária do calor
e vi em sua boca o outro lado da vida.
Múltiplos fogos então arderam.
E quebrou-se de sutileza o ar
e nos movemos em caprichos de água.
Nela toquei a morte:
Encontrei somente árvores de pluma
aves de folha.
Como um metal
as unhas imprimiram suas imagens.
Era ela uma lembrança vegetal
crescendo entre a noite.


 

BOLERO

Olvidar lo que no existe
es algo inútil.
Olvidarnos a quién pertenecía
ese nombre dormido en nuestra agenda
es duro.Quisiéramos beber otros océanos,
arrancarnos los besos de la boca,y eso es triste.
Pero no recordar tus ojos
cuando los pianos de la lluvia me envenenan,
no merece perdón.
 
 

BOLERO

Esquecer o que não existe
é algo inútil.
Esquecermos a quem pertencia
esse nome adormecido em nossa agenda
é duro. Quiséramos beber outros oceanos,
arrancar-nos os beijos da boca, e isso é triste.
Mas não recordar teus olhos
quando os pianos da chuva me envenenam,
não merece perdão.

BENJAMÍN VALDÍVIA
(Aguascalientes, México, 1960)
Obra poética
El juego del tiempo (Secretaría de Educación Pública, 1985)
Demasiada tarde (Universidad de Guanajuato, 1987)
Paseante solitario (Ediciones La Rana, 1997)
Nuevas meditaciones cervantinas (Universidad Autónoma de Querétaro, 1997)
Breviario del unicornio (Verdehalago, 1998)
Argumentos para la retórica (Ediciones Desierto, 1999)
Veleidades de Numa Fernández al caer la tarde (Ediciones La Rana, 1999)
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