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Floriano Martins
Sua irreverência, seu espírito anárquico, jamais permitiu que confundisse o lugar que ocupava como músico experimental com a débil instabilidade reinante no palco pop. Nem mesmo se permitiu ser atropelado pelos rumos de uma anarquia inócua. Radicalizou a construção de uma crítica extremamente sagaz ao american way of life, através de um estilo satírico evidenciado não somente pela poética como também pela própria ambientação gestual de suas performances. Abominou sempre toda forma de alienação. Disse em uma entrevista: "Uma anarquia só tem fundamento no seio de um povo integralmente culto e civilizado". Questionou duramente a juventude drogada dos anos 70, os fantasmas evanescentes do power flower. Além das constantes declarações e performances, há todo um disco (We’re only in it for the money) em que defende suas posições sobre a debilitação da juventude através de canções emblemáticas, a exemplo de "The idiot bastard son", há poucos anos incluída por Sting em uma tornée registrada em disco. Em We’re only in it for the money, Zappa investia duramente sobre a família americana, responsabilizando-a pela idiotização de seus filhos. A formação musical
de Frank Zappa prima tanto pela multiplicidade quanto pela complexidade.
Despertou-lhe a atenção a música eletrônica
e as modulações absolutamente livres do jazz. Além
disto seu espírito satírico iria encontrar no teatro do absurdo
uma grande fonte de diálogo. Tal influência foi bastante frutífera Por trás de toda aquela atmosfera underground e psicodélica, geralmente atrelada a uma debilidade estética, Zappa buscava o que ele mesmo definia como "um controle consciente dos elementos estruturais e temáticos que fluem em cada disco, em cada concerto e em cada entrevista". Para tanto teria que traçar uma poética. Defendia também que as palavras poderiam "ser empregadas da mesma maneira que os instrumentos". Uma resultante radical dessa sua concepção operística foi a partitura de 200 motels (1970), que reunia a polêmica banda Mothers of invention ao lado da Filarmônica de Los Angeles, em concerto regido por Zubin Metha. A partir daí, Zappa, que contava então com nada mais do que 21 anos de idade, desenvolveu várias obras para orquestra, ao lado de largas partituras executadas pela própria banda e suas experiências mais insólitas ligadas diretamente à música eletrônica. Certa vez declarou que Edgar Varèse foi a mais evidente de suas influências. Talvez a complexidade dos acordes característicos da música de Zappa atestem tal reconhecimento. O fato é que sua extravagância rítmica não encontra equivalente no caldeirão difuso da chamada música moderna. Seja pela multiplicidade de
experiências sonoras que buscou, seja Atesta ainda a importância de sua obra a regência de peças por Pierre Boulez (1984) e o já mencionado Zubin Metha. Ao lado disto Zappa investigou as infinitas possibilidades de recursos da guitarra elétrica, instrumento que melhor definia a súmula de sua irrequieta criatura – fundamentais as recolhas preparadas por ele mesmo de seus solos de guitarra em Shut up’n play yer guitar (1981) e Guitar (1988). Como exemplo de sua notável incursão em uma satírica fusão de jazz e rock mencionaria o disco One size fits all (1975). Não há dúvida de que o rock seja uma das expressões mais marcantes deste nosso atônito século. No princípio de sua escalada disse Frank Zappa repudiar "toda prática que possa tender a reduzir o corpo, o intelecto ou o espírito do indivíduo (de qualquer verdadeiro indivíduo) a um estado de subconsciência ou de insensibilidade". Suas expectativas foram cruelmente abortadas. O próprio rock restringiu-se a uma debilidade distorsiva, impregnada de evasivas.
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