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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
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FRANK ZAPPA: FUNDAMENTOS DA ANARQUIA
Floriano Martins

 

Zappa1.JPG (25326 bytes)A alguns anos de sua morte, parece-me pertinente falar aqui daquela que talvez seja, ao mesmo tempo, a mais radical e consistente aventura do cenário da hoje chamada música pop. Refiro-me à grande virtuose da guitarra que foi Frank Zappa. Crescido no seio romântico de uma geração de cronistas dos estertores do grande festim da civilização industrial, Zappa foi mais do que uma simples estrela do rock. Exemplar é o fato de não haver desviado o curso de sua música, não caindo no ardil das veredas orientalistas ou nas tentações do vultoso mundo dos negócios da arte.

Sua irreverência, seu espírito anárquico, jamais permitiu que confundisse o lugar que ocupava como músico experimental com a débil instabilidade reinante no palco pop. Nem mesmo se permitiu ser atropelado pelos rumos de uma anarquia inócua. Radicalizou a construção de uma crítica extremamente sagaz ao american way of life, através de um estilo satírico evidenciado não somente pela poética como também pela própria ambientação gestual de suas performances. Abominou sempre toda forma de alienação. Disse em uma entrevista: "Uma anarquia só tem fundamento no seio de um povo integralmente culto e civilizado".

Questionou duramente a juventude drogada dos anos 70, os fantasmas evanescentes do power flower. Além das constantes declarações e performances, há todo um disco (We’re only in it for the money) em que defende suas posições sobre a debilitação da juventude através de canções emblemáticas, a exemplo de "The idiot bastard son", há poucos anos incluída por Sting em uma tornée registrada em disco. Em We’re only in it for the money, Zappa investia duramente sobre a família americana, responsabilizando-a pela idiotização de seus filhos.

A formação musical de Frank Zappa prima tanto pela multiplicidade quanto pela complexidade. Despertou-lhe a atenção a música eletrônica e as modulações absolutamente livres do jazz. Além disto seu espírito satírico iria encontrar no teatro do absurdo uma grande fonte de diálogo. Tal influência foi bastante frutífera Zappa2.JPG (17997 bytes)na montagem de seus espetáculos e na própria concepção dos infinitos diálogos entre personagens de muitos de seus discos, resultando sempre em uma burlesca teatralização de sua poética.

Por trás de toda aquela atmosfera underground e psicodélica, geralmente atrelada a uma debilidade estética, Zappa buscava o que ele mesmo definia como "um controle consciente dos elementos estruturais e temáticos que fluem em cada disco, em cada concerto e em cada entrevista". Para tanto teria que traçar uma poética. Defendia também que as palavras poderiam "ser empregadas da mesma maneira que os instrumentos". Uma resultante radical dessa sua concepção operística foi a partitura de 200 motels (1970), que reunia a polêmica banda Mothers of invention ao lado da Filarmônica de Los Angeles, em concerto regido por Zubin Metha.

A partir daí, Zappa, que contava então com nada mais do que 21 anos de idade, desenvolveu várias obras para orquestra, ao lado de largas partituras executadas pela própria banda e suas experiências mais insólitas ligadas diretamente à música eletrônica. Certa vez declarou que Edgar Varèse foi a mais evidente de suas influências. Talvez a complexidade dos acordes característicos da música de Zappa atestem tal reconhecimento. O fato é que sua extravagância rítmica não encontra equivalente no caldeirão difuso da chamada música moderna.

Seja pela multiplicidade de experiências sonoras que buscou, seja Zappa3.JPG (21508 bytes)pela consciente mordacidade de sua poética, a obra de Frank Zappa – sua discografia praticamente atinge a casa de 100 registros fonográficos – revela um dos criadores mais ousados e vitais ao desdobramento da linguagem artística nesta metade conclusiva do século XX. Criou obras importantes para o desenrolar da música eletrônica, como foi o caso do terceto de cordas geradas por synclavier (1984). Escreveu também uma série de duetos para piano e quinteto de cordas, registrada em The yellow shark (1993).

Atesta ainda a importância de sua obra a regência de peças por Pierre Boulez (1984) e o já mencionado Zubin Metha. Ao lado disto Zappa investigou as infinitas possibilidades de recursos da guitarra elétrica, instrumento que melhor definia a súmula de sua irrequieta criatura – fundamentais as recolhas preparadas por ele mesmo de seus solos de guitarra em Shut up’n play yer guitar (1981) e Guitar (1988). Como exemplo de sua notável incursão em uma satírica fusão de jazz e rock mencionaria o disco One size fits all (1975).

Não há dúvida de que o rock seja uma das expressões mais marcantes deste nosso atônito século. No princípio de sua escalada disse Frank Zappa repudiar "toda prática que possa tender a reduzir o corpo, o intelecto ou o espírito do indivíduo (de qualquer verdadeiro indivíduo) a um estado de subconsciência ou de insensibilidade". Suas expectativas foram cruelmente abortadas. O próprio rock restringiu-se a uma debilidade distorsiva, impregnada de evasivas.

Zappa4.JPG (23069 bytes)Como ele próprio definiu nos anos 70 seu trabalho junto à banda Mothers of invention: "fabricamos uma arte especial em um meio hostil aos sonhadores". Assim encerramos o século: contando com Frank Zappa e seu visceral conceito do absolutamente livre, ao mesmo tempo em que sujeitados aos mais atrozes lugares-comuns da linguagem.

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