.

Revista de Cultura nº 6
.
Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
.
WILSON MARTINS: O DESTINO DA CRÍTICA
Entrevista concedida a Iosito Aguiar e Aleilton Fonseca

 

Wilson1.JPG (29138 bytes)Há quanto tempo o senhor se dedica à crítica?

Andava pelos 21 anos quando comecei a escrever em jornais de Curitiba. Meu primeiro livro, Interpretações, publicado em 1946 pela José Olympio, é uma seleção desses artigos.

O que o levou a dedicar-se à crítica? 

O destino… Leitor contumaz desde os tempos de ginásio (hoje chamado de 2o grau), passei a escrever sobre as minhas leituras. Aliás, desde os 16 anos trabalhava profissionalmente na imprensa, de forma que tudo se juntou.

Paulo Francis não cansava de repetir que "para ser crítico no Brasil, devido à indigência intelectual de criadores e leitores, o sujeito devia de ter spleen e ser meio zaranza, além de ser acostumado a mover-se blindado em abstrações". O senhor concorda com esse ponto de vista?

É uma frase de espírito, que não requer nem concordância nem discordância. Devemos recebê-la com um sorriso, não como se fosse um postulado dogmático de natureza científica.

José Paulo Paes disse que o senhor é dono de um texto poderosíssimo e que ele não entendia o por quê de tanto apego de sua parte à crítica, em detrimento dos livros. Mesmo sabendo de sua vasta e respeitada obra, perguntamos: Por quê?

Por livros creio que a afirmação se refere a obras de ficção e poesia. Acontece, apenas, que simplesmente não tenho a imaginação criadora que tais gêneros requerem. Tanto quanto posso julgar, meu espírito é de natureza analítica, congenial com o exercício da crítica. Além disso, a pergunta pressupõe o lugar-comum aceito de que a crítica é uma atividade marginal, inferior às demais espécies literárias. A realidade é diferente: a crítica é tão criadora, ou pode ser tão criadora, no seu campo próprio, quanto a poesia e a ficção no delas. De qualquer maneira, no meu caso pessoal, a crítica é o que posso fazer, sem nenhum complexo de inferioridade com relação aos outros gêneros. Acresce que não pode ser censurado por não produzir livros o homem que escreveu História da inteligência brasileira, A palavra escrita, A crítica literária no Brasil e a série dos volumes de crítica militante publicados sob o título geral de Pontos de vista (em vias de publicação, agora no 13º volume).

O senhor concorda com as loas que Murilo Mendes dedicou à Invenção de Orfeu?

Ninguém negaria a autoridade intelectual de Murilo Mendes nos julgamentos literários, em particular no que se refere à poesia. De minha parte, o entusiasmo pelo poema de Jorge de Lima é muito mais reduzido, em nada invalidando o dele (e vice-versa, espero eu…).

Wilson2.JPG (15423 bytes)Entre a Invenção de Orfeu e Invenção do mar, por qual seu coração balança?

Pelas mesmas razões acima (afinidade intelectual, gosto literário, pressupostos críticos etc.), estou mais próximo de Invenção do mar. 

No seu humor seco, agudo e neurastênico, Henry Adams escreveu no seu A educação, que a facultação do voto às camadas populares só trouxe na sua esteira a vulgarização fútil e progressiva da obra de arte. O senhor concorda? 

Ele disse isso? O silogismo é vicioso, porque uma coisa nada tem a ver com a outra. Se a educação se destina a criar elites intelectuais, não pode ser ao mesmo tempo um processo de vulgaridade artística.

Certa feita um jornalista perguntou a Churchill o que ele achava de William Golding, autor de O senhor das moscas. O gordo do charuto foi curto e grosso: a shit!. Muita gente se disse chocada com a expressão do velho urso. Mas, o poeta Philip Larkin justificou: ‘A aristocracia nunca usa eufemismos. Os críticos, sim, porque querem agradar". Edmund Wilson classificou essa opinião de idiotismo puro. O que o senhor diria a respeito?

Nada, porque não me sinto autorizado para servir de juiz nas discussões literárias em língua inglesa.

As editoras, principalmente as grandes, com seus marketings e técnicas modernas de vendas, não trabalham para a vulgarização da literatura? 

As editoras, pequenas e grandes, são empresas comerciais que não podem subsistir sem obedecer à implacável lei da oferta e da procura. As mais esclarecidas procuram conciliar tais contingências com a reserva de uma parte do orçamento para obras de reconhecida qualidade. É o máximo que se pode esperar neste baixo mundo 

Num ciclo de estudos na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, no qual estavam presentes o editor Caio Graco, da Brasiliense, Henrique, da Maltese, e Roberto Civita, representando o Círculo do Livro, uma aluna perguntou a José Paulo Paes por que a poesia era tão pouco publicada no Brasil. Com aquele jeitão que Drummond chamou de "boi sonso", José Paulo Paes disse: "A publicação poética no Brasil é imensa, apesar das editoras." A gargalhada foi estrondosa e o Civita ficou tão vermelho que quase teve um troço. O que o senhor diria a respeito?

Pouco publicada? Essa aluna claramente não acompanha o movimento editorial. Nenhum gênero é mais publicado entre nós que os livros de poemas. Quase todos por conta de autor, como, aliás, aconteceu com Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond e João Cabral nos começos de suas carreiras. A mesma queixa poderia ser feita por críticos e romancistas. As editoras só promovem os poetas que se apresentam com motivos para ser promovidos. Os leitores julgarão.

Houve um declínio da crítica de jornal e o crescimento da crítica universitária. Esta crítica acadêmica substitui a antiga crítica de rodapé?

Antes de mais nada, é preciso desfazer um mal-entendido: não há crítica universitária, ou, se quisermos, não se trata de crítica, mas de ensaio literário sobre obras e autores consagrados. Crítica é outra coisa: é o julgamento dos livros novos, no momento em que aparecem, com a finalidade de estabelecer as primeiras perspectivas de leitura. Victor Hugo dizia que a função da crítica é dizer se um livro é bom ou é mau, mas acrescentava: não basta dizer isso. É preciso dizer por quê o crítico assim decide.

Além do senhor, atualmente há algum crítico de literatura a quem se possa dar ouvidos?

Há pelo menos um, Miguel Sanches Neto, crítico titular da Gazeta do Povo, de Curitiba, da revista Bravo!, colaborador freqüente do jornal O Estado de São Paulo e outros periódicos.

Muitos afirmam que Guimarães Rosa é o grande escritor brasileiro do século XX. O senhor concorda?

Guimarães Rosa é um dos grandes escritores brasileiros do século XX. Esses julgamentos absolutos, sempre opinativos, não significam nada.

Wilson3.JPG (16543 bytes)A poesia brasileira atual está à altura do nível estabelecido por Drummond e Cabral?

Está, porque alguns poetas contemporâneos situam-se no mesmo nível de grandeza, como, por exemplo, Affonso Romano de Sant’Anna, Gerardo Mello Mourão, César Leal, Ivan Junqueira e Pedro Lyra.

Na sua opinião, quem é o maior poeta brasileiro vivo?

Todos os que enumerei na resposta anterior.

O romance atual acrescenta alguma coisa à nossa tradição narrativa?

Nosso romance está passando por um momento de astenia, deslocado do centro de interesse pela historiografia do Quinto Centenário. Os que têm aparecido são romances históricos… Mas, há nomes a guardar: no Rio Grande do Sul, Assis Brasil, Tabajara Ruas, Moacyr Scliar; no Paraná, Cristóvão Tezza; em Pernambuco, Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque…

Para alguns defensores dos estudos culturais, a literatura perdeu o status hierárquico e se tornou apenas mais um ao lado dos diversos produtos da cultura no grande mercado. Como o senhor vê essa questão? 

A pergunta envolve um mal-entendido. O que hoje se chama de estudos culturais é a ampliação da antiga literatura comparada e até da crítica literária para o espaço da história intelectual. Isso nada tem a ver com o mercado. A história literária convencional só tem sentido no quadro de todas as outras atividades intelectuais do país. É o que, de minha parte, procurei fazer na História da inteligência brasileira.

Há um verdadeiro sistema literário no Brasil, na acepção de Antonio Candido, com autores, obras e um público que realmente mereça este nome?

Não só no Brasil: toda literatura, toda vida intelectual, é um sistema, no sentido próprio da palavra.

Esgotaram-se as propostas e os desdobramentos do Modernismo? Nesse caso, quais os novos rumos da literatura brasileira?

O Modernismo, enquanto movimento literário, inscreveu-se numa cronologia determinada, entre 1916 e 1945, como propus na sua história. A partir de 1945, não há mais modernismo, mas literatura moderna, o que é outra coisa. Não tem cabimento conservar o sufixo para literatura de natureza diferente. Aproveito para dizer que a expressão pós-modernismo é uma tolice, porque o pós-modernismo é necessariamente moderno.

O senhor vê razões para as comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil?

Milhares delas, e não vejo motivo para escrever e pensar a palavra descobrimento entre aspas. Não sendo dos que desejam reescrever a história, acredito que não nos cabe imaginar o que poderia ter sido e que não foi, como no verso de Manuel Bandeira. Os que afirmam que "não há o que comemorar" certamente esperavam que o Brasil 2000 fosse o Paraíso Terrestre. Tanta infantilidade é até constrangedora.

Início desta página