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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
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BORIS VIAN, ARTISTA MULTIFACETADO
Ruy Proença

 

Vian1.jpg (9268 bytes)Escritor, compositor, trompetista, cronista de jazz, cenarista, ator de cinema. E cardíaco! Je serai content quant on dira / au téléphone / ... / V comme Vian... // J’ai de la veine que mon nom ne commence pas par un Q / Parce que Q comme Vian, ça me vexerait.

Vian nasceu em Ville d’Avray, próximo a Paris, em 10 de março de 1920 e morreu em 23 de junho de 1959. 

Durante cerca de 20 anos de atividade, nos legou mais de 40 livros, entre os quais romances, novelas, contos, peças de teatro, poemas, crônicas de jazz, além de cerca de 500 canções.

Pouco conhecido no Brasil, exceto por alguns de seus romances como L’écume des jours (A espuma dos dias) ou J’irai cracher sur vos tombes (Vou cuspir nos seus túmulos), editados pela Nova Fronteira e hoje praticamente fora de catálogo, ultrapassou na França a cifra de 10 milhões de exemplares vendidos, equiparando-se neste aspecto a autores do porte de Baudelaire e Kafka.

Dono de um estilo sarcástico, sua literatura é marcada por um tom inconformista, antimilitarista, romântico, anarquista, para ficar apenas em alguns rótulos que lhe têm sido atribuídos com freqüência. Esses atributos fazem de Boris Vian um autor extremamente contemporâneo.

Vian2.jpg (15002 bytes)Iniciou sua atividade literária escrevendo sob vários pseudônimos, entre os quais Hugo Hachebuisson, Bison Ravi (anagrama de Boris Vian, literalmente Bisão Extasiado) e Vernon Sullivan. A propósito, Vian foi responsável por um dos maiores embustes literários do século XX. A pedido do editor, fez-se passar pelo suposto tradutor do romancista noir americano Vernon Sullivan, o que, uma vez descoberto, lhe valeu o desafeto da crítica francesa até sua morte.

A partir da segunda metade dos anos 40, integra-se ao Colégio Patafísico, onde foi introduzido pela mão do amigo e também escritor Raymond Queneau, secretário geral da Editora Gallimard.

Ainda este ano, os leitores terão a feliz oportunidade de revisitar e brindar a obra do grande Sátrapa fundamental. Três eventos estão programados para debelar da paisagem cultural brasileira a estiagem vianesca: o lançamento de um CD pela Dabliú, com versões de canções suas feitas pela cantora e compositora Letícia Coura; o lançamento, pela Nankin Editorial, de uma antologia de poemas traduzidos pelo poeta Ruy Proença, dos quais uma amostra é apresentada a seguir; the last, but not the least, um dossiê sobre o autor preparado pela revista de poesia Inimigo Rumor, da Editora Sette Letras.
 
 

 TRÊS POEMAS



 

SI LES POÈTES ÉTAIENT MOINS BÊTES
 
 

Si les poétes étaient moins bêtes

Et s'ils étaient moins paresseux

Ils rendraient tout le monde heureux

Pour pouvoir s'occuper en paix

De leurs souffrances littéraires

Ils construiraient des maisons jaunes

Avec des grands jardins devant

Et des arbres pleins de zoizeaux

De mirliflûtes et de lizeaux

Des mésongres et des feuvertes

Des plumuches, des picassiettes

Et des petits corbeaux tout rouges

Qui diraient la bonne aventure

Il y aurait de grands jets d'eau

Avec des lumières dedans

Il y aurait deux cents poissons

Depuis le croûsque au ramusson

De la libelle au pépamule

De l'orphie au rara curule

Et de l'avoile au canisson

Il y aurait de l'air tout neuf

Parfumé de l'odeur des feuilles

On mangerait quand on voudrait

Et l'on travaillerait sans hâte

A construire des escaliers

De formes encor jamais vues

Avec des bois veinés de mauve

Lisses comme elle sous les doigts

Mais les poètes sont très bêtes

Ils écrivent pour commencer

Au lieu de s'mettre à travailler

Et ça leur donne des remords

Qu'ils conservent jusqu'à la mort

Ravis d'avoir tellement souffert

On leur donne des grands discours

Et on les oublie en un jour

Mais s'ils étaient moins paresseux

On ne les oublierait qu'en deux.


 

Vian3.JPG (20958 bytes)SE OS POETAS FOSSEM MENOS BESTAS

Se os poetas fossem menos bestas

E se fossem menos preguiçosos

Fariam todo o mundo feliz

Para poderem tratar em paz

Dos seus sofrimentos literários

Levantariam casas douradas

Cercadas por enormes jardins

E árvores cheias de colibris

De rustiflautas e de aqualises

De pardongros e de luziverdes

De plumuchas e de picapratos

E de pequenos corvos vermelhos

Que soubessem tirar nossa sorte

Haveria grandes chafarizes

Jorrando luzes de zil matizes

Não faltariam duzentos peixes

Do crocantusco ao empedraqueixo

Do trilibelo ao falamumula

Da suazmina ao rara quirila

E do guardavela ao canifeixe

Provaríamos de um ar fresquíssimo

Perfumado pelo odor das folhas

Comeríamos quando quiséssemos

E trabalharíamos sem pressa

A arquitetar escadarias

De formas nunca dantes sonhadas

Com tábuas raiadas de lilás

Lisas como só ela sob os dedos

Mas os poetas são muito bestas

Para começar, eles escrevem

Ao invés de pôr a mão na massa

Isso lhes traz profundos remorsos

Que levam consigo até a morte

Radiantes por sofrerem tanto

O mundo os aclama com requinte

E os esquece no dia seguinte

Se a preguiça não fosse mania

Teriam fama por mais um dia.
 
 
 
 

QUAND J'AURAI DU VENT DANS MON CRANE
 
 

Quand j'aurai du vent dans mon crâne

Quand j'aurai du vert sur mes osses

P'tête qu'on croira que je ricane

Mais ça sera une impression fosse

Car il me manquera

Mon élément plastique

Plastique tique tique

Qu'auront bouffé les rats

Ma paire de bidules

Mes mollets mes rotules

Mes cuisses et mon cule

Sur quoi je m'asseyois

Mes cheveux mes fistules

Mes jolis yeux cérules

Mes couvres-mandibules

Dont je vous pourléchois

Mon nez considérable

Mon coeur mon foie mon râble

Tous ces riens admirables 

Qui m'ont fait apprécier

Des ducs et des duchesses

Des papes et des papesses

Des abbés des ânesses

Et des gens du métier

Et puis je n'aurai plus

Ce phosphore un peu mou

Cerveau qui me servit

A me prévoir sans vie

Les osses tout verts, le crâne venteux

Ah comme j'ai mal de devenir vieux.


 

Vian4.JPG (25969 bytes)QUANDO MEU CRÂNIO FOR DO VENTO
 
 

Quando meu crânio for do vento

Quando o verde surgir nos meus oços

Sentirão talvez que eu troço

Mas será falso o sentimento

Pois me faltarão os atos

O elemento plástico

Pla pla plástico

Devorado pelos ratos

Meu par de utensílios

Minhas pernas meus cílios

Minhas coxas meus fundilhos

Sobre os quais me assentia

Minhas fístulas meus pentelhos

Meus lindos olhos cerúleos

Meus lábios vermelhos

Com os quais te endoidecia

Meu nariz pronunciado

Meu rim meu pau meu rabo

Esses nadas depois que acabo

E que me fizeram gozar os artifícios

De duques e duquesas

De papas e papesas

De abades e abasnezas

E demais pessoas do ofício

E agora não terei mais

Esse fósforo um tanto mole

Cérebro que me serviu, mesmo torto,

Para me prever depois de morto

Os oços verdes, o crânio oco

Ah como é difícil envelhecer sem ficar louco.
 
 

LES ISLES

 

A Lucien Coutaud
 
 

Il y a des isles dans la mer Noire

Elles sont en pierre froide et pâle

On y est toujours tout seul

Et on entre dans des châteaux

Pleins de chambres dans des murs

Et on trouve des femmes molles

Des grosses femmes blanches douces

Étalées sur des lits ouverts

Il monte un fumet de leurs poils

En minces volutes frisées

Bleu dans l'air incolore des chambres

Il ne faut pas s'arrêter

Car elles sont là, elles attendent

Elles peuvent faire n'importe quoi

Elles prennent toutes les formes

Elles coulent comme de l'eau.

Il ne faut pas aller dans les isles de la mer Noire

Il vaut mieux acheter du jambon.


 

AS ILHAS
 
 

Há ilhas no mar Negro

Ilhas de pedra fria e pálida

Onde se está sempre só

E entra-se em castelos

Cheios de quartos dentro de paredes

E encontram-se mulheres moles

Gordas mulheres brancas doces

Estendidas em camas abertas

Sobe uma fragrância de seus pêlos

Em delgadas volutas frisadas

Azul no ar incolor dos quartos

Nunca se deve parar

Pois elas estão ali, elas esperam

Elas podem fazer de tudo

Elas assumem todas as formas

Elas fluem como água.

Não se deve ir às ilhas do mar Negro

É melhor comprar presunto.

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