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Ruy Proença
Vian nasceu em Ville d’Avray, próximo a Paris, em 10 de março de 1920 e morreu em 23 de junho de 1959. Durante cerca de 20 anos de atividade, nos legou mais de 40 livros, entre os quais romances, novelas, contos, peças de teatro, poemas, crônicas de jazz, além de cerca de 500 canções. Pouco conhecido no Brasil, exceto por alguns de seus romances como L’écume des jours (A espuma dos dias) ou J’irai cracher sur vos tombes (Vou cuspir nos seus túmulos), editados pela Nova Fronteira e hoje praticamente fora de catálogo, ultrapassou na França a cifra de 10 milhões de exemplares vendidos, equiparando-se neste aspecto a autores do porte de Baudelaire e Kafka. Dono de um estilo sarcástico, sua literatura é marcada por um tom inconformista, antimilitarista, romântico, anarquista, para ficar apenas em alguns rótulos que lhe têm sido atribuídos com freqüência. Esses atributos fazem de Boris Vian um autor extremamente contemporâneo.
A partir da segunda metade dos anos 40, integra-se ao Colégio Patafísico, onde foi introduzido pela mão do amigo e também escritor Raymond Queneau, secretário geral da Editora Gallimard. Ainda este ano, os leitores terão
a feliz oportunidade de revisitar e brindar a obra do grande Sátrapa
fundamental. Três eventos estão programados para debelar da
paisagem cultural brasileira a estiagem vianesca: o lançamento de
um CD pela Dabliú, com versões de canções suas
feitas pela cantora e compositora Letícia Coura; o lançamento,
pela Nankin Editorial, de uma antologia de poemas traduzidos pelo poeta
Ruy Proença, dos quais uma amostra é apresentada a seguir;
the last, but not the least, um dossiê sobre o autor preparado pela
revista de poesia Inimigo Rumor, da Editora Sette Letras.
TRÊS POEMAS
SI LES POÈTES
ÉTAIENT MOINS BÊTES
Si les poétes étaient moins bêtes Et s'ils étaient moins paresseux Ils rendraient tout le monde heureux Pour pouvoir s'occuper en paix De leurs souffrances littéraires Ils construiraient des maisons jaunes Avec des grands jardins devant Et des arbres pleins de zoizeaux De mirliflûtes et de lizeaux Des mésongres et des feuvertes Des plumuches, des picassiettes Et des petits corbeaux tout rouges Qui diraient la bonne aventure Il y aurait de grands jets d'eau Avec des lumières dedans Il y aurait deux cents poissons Depuis le croûsque au ramusson De la libelle au pépamule De l'orphie au rara curule Et de l'avoile au canisson Il y aurait de l'air tout neuf Parfumé de l'odeur des feuilles On mangerait quand on voudrait Et l'on travaillerait sans hâte A construire des escaliers De formes encor jamais vues Avec des bois veinés de mauve Lisses comme elle sous les doigts Mais les poètes sont très bêtes Ils écrivent pour commencer Au lieu de s'mettre à travailler Et ça leur donne des remords Qu'ils conservent jusqu'à la mort Ravis d'avoir tellement souffert On leur donne des grands discours Et on les oublie en un jour Mais s'ils étaient moins paresseux On ne les oublierait qu'en deux.
Se os poetas fossem menos bestas E se fossem menos preguiçosos Fariam todo o mundo feliz Para poderem tratar em paz Dos seus sofrimentos literários Levantariam casas douradas Cercadas por enormes jardins E árvores cheias de colibris De rustiflautas e de aqualises De pardongros e de luziverdes De plumuchas e de picapratos E de pequenos corvos vermelhos Que soubessem tirar nossa sorte Haveria grandes chafarizes Jorrando luzes de zil matizes Não faltariam duzentos peixes Do crocantusco ao empedraqueixo Do trilibelo ao falamumula Da suazmina ao rara quirila E do guardavela ao canifeixe Provaríamos de um ar fresquíssimo Perfumado pelo odor das folhas Comeríamos quando quiséssemos E trabalharíamos sem pressa A arquitetar escadarias De formas nunca dantes sonhadas Com tábuas raiadas de lilás Lisas como só ela sob os dedos Mas os poetas são muito bestas Para começar, eles escrevem Ao invés de pôr a mão na massa Isso lhes traz profundos remorsos Que levam consigo até a morte Radiantes por sofrerem tanto O mundo os aclama com requinte E os esquece no dia seguinte Se a preguiça não fosse mania Teriam fama por mais um dia.
QUAND J'AURAI DU
VENT DANS MON CRANE
Quand j'aurai du vent dans mon crâne Quand j'aurai du vert sur mes osses P'tête qu'on croira que je ricane Mais ça sera une impression fosse Car il me manquera Mon élément plastique Plastique tique tique Qu'auront bouffé les rats Ma paire de bidules Mes mollets mes rotules Mes cuisses et mon cule Sur quoi je m'asseyois Mes cheveux mes fistules Mes jolis yeux cérules Mes couvres-mandibules Dont je vous pourléchois Mon nez considérable Mon coeur mon foie mon râble Tous ces riens admirables Qui m'ont fait apprécier Des ducs et des duchesses Des papes et des papesses Des abbés des ânesses Et des gens du métier Et puis je n'aurai plus Ce phosphore un peu mou Cerveau qui me servit A me prévoir sans vie Les osses tout verts, le crâne venteux Ah comme j'ai mal de devenir vieux.
Quando meu crânio for do vento Quando o verde surgir nos meus oços Sentirão talvez que eu troço Mas será falso o sentimento Pois me faltarão os atos O elemento plástico Pla pla plástico Devorado pelos ratos Meu par de utensílios Minhas pernas meus cílios Minhas coxas meus fundilhos Sobre os quais me assentia Minhas fístulas meus pentelhos Meus lindos olhos cerúleos Meus lábios vermelhos Com os quais te endoidecia Meu nariz pronunciado Meu rim meu pau meu rabo Esses nadas depois que acabo E que me fizeram gozar os artifícios De duques e duquesas De papas e papesas De abades e abasnezas E demais pessoas do ofício E agora não terei mais Esse fósforo um tanto mole Cérebro que me serviu, mesmo torto, Para me prever depois de morto Os oços verdes, o crânio oco Ah como é difícil
envelhecer sem ficar louco.
LES ISLES
A Lucien Coutaud
Il y a des isles dans
la mer Noire
Elles sont en pierre froide et pâle On y est toujours tout seul Et on entre dans des châteaux Pleins de chambres dans des murs Et on trouve des femmes molles Des grosses femmes blanches douces Étalées sur des lits ouverts Il monte un fumet de leurs poils En minces volutes frisées Bleu dans l'air incolore des chambres Il ne faut pas s'arrêter Car elles sont là, elles attendent Elles peuvent faire n'importe quoi Elles prennent toutes les formes Elles coulent comme de l'eau. Il ne faut pas aller dans les isles de la mer Noire Il vaut mieux acheter du jambon. AS ILHAS
Há ilhas no mar Negro Ilhas de pedra fria e pálida Onde se está sempre só E entra-se em castelos Cheios de quartos dentro de paredes E encontram-se mulheres moles Gordas mulheres brancas doces Estendidas em camas abertas Sobe uma fragrância de seus pêlos Em delgadas volutas frisadas Azul no ar incolor dos quartos Nunca se deve parar Pois elas estão ali, elas esperam Elas podem fazer de tudo Elas assumem todas as formas Elas fluem como água. Não se deve ir às ilhas do mar Negro É melhor comprar presunto. |
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