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ARTE DE FISGAR: COLLAGES DE FLORIANO MARTINS
Carla Schneider
O
fazer artístico que envolve deslocar imagens de seu contexto original
para um novo, mudando seu significado, chama-se collage. O termo
collage
refere-se a este quebra-cabeça de imagens ora justapostas, sobrepostas,
isoladas, resultando numa atração de tal força que
elas acabam se grudando mesmo que não haja cola. A trama de significados,
neste caso, funciona como cola. Este jogo de analogia entre imagens provém
de longa data, de várias manifestações artísticas
e caseiras, mas é no Cubismo, no Dadaísmo e principalmente
no Surrealismo, que se encontra em maior extensão. Produzir collage
muito se assemelha a produzir sonhos. Ambos trabalham com fragmentos, interrupções,
cortes, deslocamentos, elementos desconexos, alegóricos, simbólicos.
Justamente por deter estas características, a arte surrealista acabou
por ampliar o termo
collage. Desconfio, apesar de não ser
poeta, que há um grande parentesco entre fazer collage e
fazer poesia.
Floriano
Martins se diverte, leva a sério esta brincadeira de fazer collage
a ponto de nos chamar para um passeio por suas trilhas. Tudo começa
no primeiro encontro, que pode ser a primeira vista, ou não, mas
acredito que o encontro acontece quando você pára, olha, observa,
vê e conclui que estas collages deixam seus olhos irrequietos,
intrigados, não se dando por satisfeitos. Tem alguma coisa de estranho
por aqui, poderiam eles dizer. Deixe-me ver. E assim, o olhar vai se aprofundando,
mergulhando na collage e, pronto, fomos fisgados. É isso
mesmo o que acontece. Estas imagens elaboradas por Floriano Martins precisam
ser completadas por nossos olhos, e para isso, nos exigem mais do que o
olhar. Necessitamos ver, ver além do óbvio. Deste convite
instigante, desafiador, resulta um fascinante quebra-cabeça que
através da junção de fragmentos, desencadeia um novo
simbolismo: decifra-me ou te devoro.
Há algum tempo acompanho as
produções artísticas de Floriano Martins, quer seja
na poesia, nos ensaios ou, mais profundamente, nas collages. Posso
dizer que a grande maioria delas trazem imagens de livros, escrituras.
Nada mais coerente e sincero, se consideramos a veia poética deste
artista, e o fato dele confirmar que a quase totalidade de seus trabalhos
com a collage se dá em função de sua poesia,
do diálogo com ela, mesmo que se trate de capa de livro de ensaios
ou de outros poetas.
Nesta série em especial, Rasuramore,
vejo que os livros incorporam uma aura que, por sua vez, cria um ambiente
sacro. Percebo seres centrais que evocam presença religiosa, humana
e mitológica. O todo emana: escritos sagrados.
Em Rasuramore I encontra-se
uma figura central que nos conduz à religiosidade, devido ao seu
manto, à postura corporal, ajoelhada e à dinâmica do
papel que voa evidenciando uma atmosfera suave. Acredito que para Floriano
o ato de escrever seja mesmo uma religião, assim como o encontro
no poema-livro Sábias areias, que tem todo um ritmo de leitura
semelhante às rezas.
Rasuramore
II nos traz um homem posicionado de tal maneira que mais parece
o próprio habitante do livro ao qual está sobreposto, o que
por si já faz uma analogia direta às mãos que, a meu
ver, também são partes sacras do corpo humano. Olhando mais
profundamente para a figura "homem-livro-mãos", vejo que entre estes
elementos há uma dinâmica redundante, quase que circular,
resultando num todo sem fim. Sendo assim, o olho dirige-se primeiramente
para a cabeça do homem, que segura uma haste, que se junta à
mão esquerda, que segura o livro, que segura o homem, que carrega
a haste, que se junta à mão esquerda etc. Ao fundo, mais
no canto superior direito, há uma representação que
se assemelha a uma montanha, fazendo com que a figura "homem-livro-mãos"
transporte-se para o primeiro plano da collage, em uma situação
espacial que parece flutuar. Esta montanha ao fundo pode significar pilha,
montanha de livros que nos dá margem para saltarmos à escada
de livros em Rasuramore III. Esta escada, por sua vez, funciona como caminho
certo, guiando-nos a caminho da terceira collage.
Aqui, o elemento central é um
livro totalmente aberto, exposto, sendo segurado por uma mitológica
figura feminina, posicionada sobre os livros que lhe servem de pedestal.
Como é interessante perceber o olho passeando por esta collage!
Vejo primeiramente a escada de livros que convida para o passeio. Mais
adiante encontro as vestes da Vênus, logo após seu corpo,
seu rosto a contemplar o livro que segura. Sim, cheguei ao livro, elemento
central, aberto de tal maneira que nos invade de curiosidade, convidando-nos
à leitura. Aqui podemos ficar o tempo que quisermos, deleitando-nos
com as mais variadas histórias. Caso não nos percamos dentro
do livro conseguiremos prosseguir o passeio seguindo pelo manto da Vênus,
que se esparrama pela escada de livros, e parece nos dizer: "a saída
é por aqui".
Partindo da observação
de como Floriano Martins dispôs as figuras centrais na série
Rasuramore,
sendo elas respectivamente religiosa, humana e mitológica, é
possível concluir que há evidências de que os livros
sejam a morada delas. É como se, caso eu quisesse conhecer melhor
uma destas figuras, com certeza as encontraria nos livros.
Acredito que Floriano Martins tem suas
collages
como iscas, que acabam por nos fisgar, levando-nos para o prato principal
deste artista, ou seja, sua poesia, seus poemas. A idéia que tenho
é que acabamos por ser jogados numa viagem insólita, onírica,
artimanha típica de quem é poeta de vertente surrealista. |