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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
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A POESIA DE ROSÁLIA MILSZTAJN

depoimento e poemas




Rosália1.JPG (21464 bytes)Desde muito cedo percebi que emocionava as pessoas. Na infância como bailarina na minha petite danse, olhares se iluminavam ou se confundiam num tapete de afetos que igualmente me confundiam e me excitavam.

Da necessidade de expressar-me, estabelecia-se uma comunicação entre eu e as pessoas circulando entre nós um clima de magia e intimidade, repetindo-se no exterior o que interiormente me acontecia ao observar o mundo lá fora e o quanto este mundo me parecia estranho, surpreendente e misterioso. Diante desta constatação fui resolvendo desafiar o mistério. A princípio não sem medo, sobrepujado apenas por minha enorme curiosidade de decifração. Pouco a pouco um certo conforto foi estabelecendo-se na medida que ocupava o lugar que suspeitava ter sido a mim destinado e que ao mesmo tempo elegia. 

Testemunha ou espiã, suponho ser um agente de transmissão e expressão que desencadeia fortes emoções nas pessoas com concomitante abertura de canais que facilitam o pensar e o sentir, assim como um vetor de revelação do mundo da alma. Não é por acaso que além de poeta, tornei-me psicanalista profissionalmente. Duas categorias ligadas a capacidade de acesso e nomeação deste mesmo mundo, que penso ser por um lado a interpretação analítica e por outro a poesia. 

Penso que crio sobre a égide de duas maneiras distintas. A primeira não só como descrição aqui, mas pelo seu aparecimento, é uma situação onde vivo internamente um sentimento de extremo desamparo, onde no caos e na escuridão o poema me encontra. A segunda forma seria quando decido conscientemente criar e me proponho a alguns exercícios conscientes que venho adquirindo, penso, com a elaboração e controle do desamparo. Fazendo desses momentos uma espécie de jogo, pesquisa e ludicidade. 

Rosália2.JPG (7144 bytes)Na poesia me relaciono esteticamente com Shakespeare, Rilke, Florbela Espanca, Orides Fontela, Drummond, Whitman, Mário Quintana, Ezra Pound, Stephen Crane e James Joyce entre outros. 

Nas artes plásticas com Miró, Monet, Edgar Munch, Francis Bacon, Magritte, Camille Claudel, Rodin e outros. Na música, com Stravinsky, Debussy, Tchaikovsky, Wagner, Miles Davis e samba. 

Quais seriam os lábios que beijam os lábios de meus poemas, querência, paixão, o fervor da criação? Lábios que me beijaram com paixão, mas não tão intensamente, outros que não me beijaram e que não foram capazes de evitar a criação do poema. Pois se a vida pudesse ser um beijo bem dado, não escreveria. 

Acho que a criação vem através da falta, da ausência, da perda. Escrever é como reinventar a própria existência. É trabalhar com o poderia ter sido e o vir a ser. Nessa dinâmica, o poema passa a ser. O poema é real, é presente. Existe como beijo em si, e reinventa a vida, além de ter vida própria.
 
 

três poemas
 
 

JÁ ME PERDI

Já me perdi não te apresses de novo nesta prece oca lobo
lábia mal vista fel tua boca é ferida fissura que abriste quando
disseste eu te amo lama
língua de fogo palavras lavras labaredas de mula
sem cabeça que fala
fala assombração rabo de lagartixa que
ato sem fato de ser se espicha
marionete de outrora
me fizeste acreditar que eu aurora
amélia mulher
era de verdade
 
 

MINÚTICA MUSA

Instantânea minútica
fui musa divina vênus perfeita heroína impossível
para longo tempo pouco tempo para muito
assim fui nada no tudo fui ínfima íntima no
segundo século eterno interno no
quarto fechado sem ninguém saber
fui mulher
 
 

MAÇÃ NO ÉTER

Escondo de mim cega me maltrato
perco perto o cerco da cidade
escombros
meu ombro desnudo trapaça transparente eu
em pétalas no pomo de Adão que
aranha tece a teia no alimento que não desce
degluto-me no luto de perder-te also
ouço soluço balbucio
cio
entre os dentes babuína mastigo a
última mação do éter nonsense amor 

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