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depoimento e poemas
Da necessidade de expressar-me, estabelecia-se uma comunicação entre eu e as pessoas circulando entre nós um clima de magia e intimidade, repetindo-se no exterior o que interiormente me acontecia ao observar o mundo lá fora e o quanto este mundo me parecia estranho, surpreendente e misterioso. Diante desta constatação fui resolvendo desafiar o mistério. A princípio não sem medo, sobrepujado apenas por minha enorme curiosidade de decifração. Pouco a pouco um certo conforto foi estabelecendo-se na medida que ocupava o lugar que suspeitava ter sido a mim destinado e que ao mesmo tempo elegia. Testemunha ou espiã, suponho ser um agente de transmissão e expressão que desencadeia fortes emoções nas pessoas com concomitante abertura de canais que facilitam o pensar e o sentir, assim como um vetor de revelação do mundo da alma. Não é por acaso que além de poeta, tornei-me psicanalista profissionalmente. Duas categorias ligadas a capacidade de acesso e nomeação deste mesmo mundo, que penso ser por um lado a interpretação analítica e por outro a poesia. Penso que crio sobre a égide de duas maneiras distintas. A primeira não só como descrição aqui, mas pelo seu aparecimento, é uma situação onde vivo internamente um sentimento de extremo desamparo, onde no caos e na escuridão o poema me encontra. A segunda forma seria quando decido conscientemente criar e me proponho a alguns exercícios conscientes que venho adquirindo, penso, com a elaboração e controle do desamparo. Fazendo desses momentos uma espécie de jogo, pesquisa e ludicidade.
Nas artes plásticas com Miró, Monet, Edgar Munch, Francis Bacon, Magritte, Camille Claudel, Rodin e outros. Na música, com Stravinsky, Debussy, Tchaikovsky, Wagner, Miles Davis e samba. Quais seriam os lábios que beijam os lábios de meus poemas, querência, paixão, o fervor da criação? Lábios que me beijaram com paixão, mas não tão intensamente, outros que não me beijaram e que não foram capazes de evitar a criação do poema. Pois se a vida pudesse ser um beijo bem dado, não escreveria. Acho que a criação vem
através da falta, da ausência, da perda. Escrever é
como reinventar a própria existência. É trabalhar com
o poderia ter sido e o vir a ser. Nessa dinâmica, o
poema passa a ser. O poema é real, é presente. Existe
como beijo em si, e reinventa a vida, além de ter vida própria.
três poemas
JÁ ME PERDI Já me perdi não te apresses
de novo nesta prece oca lobo
MINÚTICA MUSA Instantânea minútica
MAÇÃ NO ÉTER Escondo de mim cega me maltrato
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