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Como bem sucedido autor de muitos instrumentos, ficcionista, poeta, ensaísta, além de tradutor consagrado, qual é, em sua própria opinião, sua principal contribuição à literatura?
Tenho assistido a várias apresentações em que você diz seus poemas diretamente ao público. Devo acrescentar que se trata - a meu ver - de um novo gênero de espetáculo, já que a leitura é acompanhada de música de jazz, que harmoniosamente se intercala e alterna com o texto poético. Você diria que seus poemas são mais para serem ouvidos do que lidos como texto? É generoso de sua parte chamar de novidade minhas leituras com acompanhamento musical. Parece-me que foi a geração beat nos idos dos anos cinquenta quem lançou nos EUA a idéia, pelo menos foi onde a ouvi praticada pela primeira vez. Aqui na Europa o espetáculo ganhou uma certa ressonância e muitas leituras de poesia no início dos anos sessenta foram feitas com acompanhamento de música de jazz. Mas era no geral o encontro de mundos distintos, que mal se harmonizavam, a partir de uma visível improvisação ao acaso do instante, mesmo quando se tratava de bons poemas e boa música. O poeta lia e a música tocava, em sequência, não harmonicamente. Já naquele tempo senti vontade de integrar as duas expressões e a partir de um certo momento comecei a escrever poemas por assim dizer jazzísticos, mas entenda-se, não eram letras que se subordinavam à forma musical, mas poemas de pleno direito que de uma maneira bastante peculiar respeitavam o espírito da música e se integravam a ela. O que não quer dizer que eu em algum momento tenha esquecido que poemas também devem ser lidos como texto, em silêncio. Uma coisa não elimina a outra. Pelo contrário. Cabe acrescentar que o jazz é uma dessas expressões artísticas que os europeus e, muito particularmente, os escandinavos, souberam naturalizar e adaptar a suas próprias peculiaridades. O jazz adquiriu por estas bandas plenos direitos de cidadania. Pessoalmente, eu o absorvi e me adaptei a ele, e tenho tido a satisfação de constatar que minha parceria com o saxofonista Jens Sondergaard e o pianista Nikolaj Hess funciona bastante bem nesta nossa tentativa de integrar o caráter improvisador do jazz com o construído cálculo do poema. sempre que o resultado é bom, sentimos os três uma agradável sensação simbólica de totalidade conquistada.
Como já disse, considero-me basicamente um poeta que ocasionalmente tem feito incursões ao reino da prosa. Mas não posso subscrever que a prosa como gênero seja de alguma maneira inferior à poesia. é verdade, entretanto, que sinto uma certa diferença nas exigências que são impostas ao poeta e ao prosador. Movimentar-se com liberdade entre diversos níveis e conceitos da realidade é bem assimilado na poesia, mas é freqüentemente banido da seara do prosador, de quem se exige verossimilhança, visibilidade social e mais tudo aquilo que o diabo possa inventar. O leitor quer se espelhar nos personagens e reconhecer a atualidade dos acontecimentos descritos. Os críticos exigem trama e psicologia, querem ser conduzidos até a porta do significado e sentem-se perdidos se os rastros dos personagens forem inconclusivos e o estilo multiforme. A tolerância com o imprevisto tem sido maior nos contos e textos cursos, mas não o suficiente para atrair-me de forma mais duradoura e persistente à seara da prosa ficcional. Não tenho qualquer ambição no sentido de mostrar às pessoas como elas acham que são. Elas já o sabem de antemão. Mas no fundo, e a rigor, vejo uma certa irrelevância na questão, já que sempre me recusei a aceitar esta artificiosa distinção. Em que direção move-se a literatura dinamarquesa? Você poderia resumir em algumas pinceladas suas tendências? Como a anda a crítica literária? Acredito que hoje se deve distinguir duas espécies de literatura, não só na Dinamarca mas no mundo. A que é dirigida pelas forças do mercado, à sombra do cinema e da televisão, um entretenimento que vara fronteiras, uma literatura cujo sucesso se pauta pelo montante das tiragens e pode ser chamada de ficção-Sheraton ou Hilton, uma narrativa que é a mesma em qualquer parte, assim como são os mesmos os quartos e a comida destes hotéis internacionais, e os autores dos romances, a rigor, aparentam-se aos astros de cinema e de música pop. Em meio à leitura de um desses romances nem sempre é fácil determinar onde no mundo se passa a trama, assim como pode ser difícil nem dos mencionados hotéis distinguir se se está em Jerusalém, Singapura, São Francisco, Berlim, Zurique ou São Paulo. já a outra espécie, a literatura propriamente dita, é universal mercê de seu aprofundamento em especificidades existenciais e locais. A internacionalidade da literatura pressupõe, paradoxalmente, uma vigorosa âncora regional - a exemplo de autores como Mallarmé, Joyce, Benn, Rosa e muitos outros. E a Dinamarca se faz representar por autores de ambos os tipos, tanto escritores-Sheraton como criadores autênticos. No que tange a estes últimos, não me sinto em condições de apontar tendências ou estabelecer direções que correspondam ao momento atual, já que não acredito que exista em literatura um agora, estritamente falando. Existem críticos que são especialistas na esquematização de características temporais: de uma década, de um quarto de século, da primeira metade etc. Mas eu sempre tive dificuldade para compreender esta divisão em decênios e gerações ou coisa que o valha, que acaba implicando a idéia de um evolucionismo ou darwinismo vulgar, do qual discordo. Infelizmente tende-se mais e mais para estas simplificações esquematizadas que engolem especificidades e matizes, o que é um claro indício, a meu ver, da degenerescência da crítica. Torna-se cada vez mais rara a análise em profundidade de uma obra literária, sujeita, ao invés, à superficialidade de um sistema de notas, quando não à simpatia ou antipatia pessoal. Certos jornais passaram a adotar um critério de estrelas no julgamento dos livros: de zero a seis. E no geral a mídia se dedica mais a eventos do que a análises. Interessam menos a qualidade do que alguém escreve e os motivos que o levam a escrever do que os eventuais escândalos de sua vida pessoal. Isso posto, para ainda assim tentar responder à pergunta, eu diria que a chamada tradição modernista, para usar uma expressão um pouco contraditório, continua produzindo frutos muito bons através de autores como Klaus Rifbjerg, Villy Sorensen e Henrik Norbrandt, entre outros, de boa visibilidade na Europa mas pouco ou nada conhecidos do outro lado do Atlântico. E como você se situaria? Não sei. Mas meu ponto de partida é o modernismo - de Baudelaire aos dias de hoje - e não tenho dúvida em dizer que, se eu tivesse sido brasileiro, um poeta como Manuel Bandeira teria sido minha estrela guia. Sua melancolia e esse especialíssimo sentimento e sensibilidade que, de repente, se transformam em ironia, sempre me fascinaram. Entre os poetas dinamarqueses, alguns há que admiro, mas, não há nenhum, parece-me, que me tenha influenciado decisivamente.
Como tantas outras coisas boas neste mundo: por um acaso. No fim de meus anos vinte, jovem ainda e ainda mais ignorante do que sou hoje, eu sonhava, como tantos outros, em sair mundo afora. Naquele tempo, a maioria dos jovens viajava para o Nepal. Mas como eu fosse do contra, decidi que tomaria o rumo oposto: sudoeste. É onde se encontra, por exemplo, o Brasil. um dia (31/12/69) embarcamos eu, minha então mulher e minha filha, que na época tinha dois anos, em um navio francês de passageiros, que de Hamburgo viajava para Buenos Aires, com escalas em Southampton, le Havre, Vigo, Lisboa, Rio de Janeiro, Santos e Montevidéu. Dezesseis dias depois desembarcávamos em Santos, onde fomos recepcionados por um cartaz que dizia que comunistas não eram bem-vindos. Se bem que nenhum de nós fosse comunista, nem mesmo minha filha, achamos um tanto estranha aquela maneira de recepcionar estrangeiros. Nós nos instalamos na cidade de São Paulo, que seria, segundo eu havia lido em algum lugar, o berço da arte moderna no Brasil. na ocasião, tínhamos planos de uma longa estadia no Brasil, algo como cinco anos, mas erro o tempo do governo Médici, uma das épocas mais sombrias da história brasileira, de modo que só agüentamos um ano. mas foi o bastante para ensejar-me pelo menos o aprendizado básico do português, cujo estudo aprofundei por ocasião de meu retorno a Copenhague. Estava inaugurada minha atividade de tradutor de literatura de língua portuguesa. E o Guimarães Rosa? Você poderia nos dizer alguma coisa sobre o equivalente dinamarquês deste especialíssimo dialeto de Rosa? A tradução alemã - uma língua aparentada - de Curt Meyer-Clason lhe foi útil? A obra de Rosa é uma dessas obras em que sentimos o recomeço do mundo a partir de seu oceano primordial e pré-verbal. Nele, trata-se de capturar, por assim dizer, o momento privilegiado em que as palavras ainda aguardam articulação. De um certo modo, tudo precisa ser reinventado ou inventado de novo, mesmo porque, nem mesmo em português o dialeto especial que você menciona existe. Isto, se de um lado proporciona uma certa liberdade, de outro impõe severíssimas exigências ao que chamo de ouvido lingüístico. Nos primeiros esboços que fiz muitas passagens soavam errado, embora estivessem corretas no que tange ao sentido. Logo descobri que o que era decisivo era achar um tom para a voz de Riobaldo, um tom que lhe preservasse a identidade de sertanejo e, ainda assim, se deslocasse para um ponto de convergência em que um leitor dinamarquês, se possível, pudesse percebê-lo com a mesma estranheza originária de um leitor brasileiro. Nesse sentido, certas características da tradição fabulatória da cultura européia foram-me úteis. Refiro-me às sagas islandesas, em especial nas passagens heróico-guerreiras, aos romances de cavalaria, onde avulta o D. Quixote, a uma figura como Simplicissimus (do romance Der abenteuerliche Simplicissimus, do alemão Grimmenlshausen), e mesmo, acredite ou não, ao nosso equivalente nórdico do Molière francês, Ludwig Holberg. Mas tudo isto tinha que ser misturado e combinado de uma forma a que só se tinha acesso pela intuição. A magnífica tradução de Meyer-Clason foi de grande utilidade, mas mais no sentido da compreensão do que propriamente no que tange aos aspectos dialeto-lógicos, porque Meyer-Clason, mais do que eu, preferiu descomplicar e normalizar Riobaldo, tornando-o em termos lingüísticos mais palatável em alemão do que na versão roseana original. Você conheceu José Paulo Paes, que traduziu poetas daneses diretamente do dinamarquês, inclusive você mesmo. vendo a coisa pelo outro lado, qual é sua opinião sobre as traduções do Paes?
DOIS TEXTOS
NÃO ACONTECE Não acontece na Dinamarca, não mais, agora. Talvez aconteça na América do Sul, na Sicília, em cidades portuárias da Grécia, no oriente, em Hong Kong, em Singapura, na ilha de Sumatra, em lugares assim, talvez aconteça até mesmo em Marselha e, naturalmente, em Tanger e Casablanca. Aqui e ali nos Estados Unidos poderá eventualmente acontecer, mas de resto: no mundo civilizado, a bem dizer, baniu-se. Nas maiores das grandes cidades, onde tudo pode acontecer, lá sem dúvida acontece; do contrário, não. na Escandinávia jamais acontece, a não ser que pudesse acontecer em Estocolmo, mas na Dinamarca, não, na Dinamarca há muito superou-se esse tipo de acontecimento. E se, contra todas as probabilidades, ainda assim fosse o caso de indicar um lugar onde teoricamente pudesse vir a acontecer, naturalmente teria de ser em Copenhague (que é uma espécie, sabe-se, de grande cidade), em sua zona portuária, em Norrebro ou - mais provavelmente - em Vesterbro. Mas não, não acontece - e a questão é saber se os lugares, onde se afiança que acontece, não serão fruto de pura fantasia, e se essas pessoas que insistem em afirmar não só que acontece, mas que existem localidades em que acontece, não serão elas mesmas ficções ou elementos subversivos, que se faria melhor internando ou exilando em algum remoto ponto do globo - de preferência no gelo interior da Groelândia ou na Sibéria. E se nenhuma estatística o menciona, tudo isso não há de passar de mentira mal intencionada - sim, só pode ser, já que as pessoas às quais se afirma que acontece, seja como for, inexistem. É um fato indiscutível. [De Freud, Jung og
de andre.]
MAL HUMORADO E FINO Eu tinha medo de Deus. Ele era uma criatura fina de olhar mal humorado, que me queria obrigar a fazer tudo aquilo, que não tinha graça nenhuma… Esta frase que Jimmy tinha lido em algum romance reproduzia exatamente o que ele mesmo sentira diante de Deus, quando criança e adolescente. Para ele e as demais crianças de Sønderhøj, Deus era a figura que ocupava o topo da pirâmide mundial, a própria definição dos atributos que as autoridades de carne e osso possuíam e cultivavam como os bens supremos. Todos os pequenos de Sønderhøj
conheciam a fundo homens e mulheres mal humorados e finos, que em nome
de Deus carregavam a prerrogativa de dirigi-los e tornar-lhes a vida menos
festiva. Em seus mesmos olhares, nos trejeitos de suas expressões,
vislumbrava-se aquilo que demarcava as diferenças de nível,
o abismo que separava as pessoas. Aqui em cima estamos nós e, lá
embaixo, estão vocês, meus pequenos. E ainda mais alto ondulava
então Nosso Senhor, que vinha a ser deles, por se encontrarem mais
próximos. Cedo aprendias a baixar o olhar e convencer-se da insignificância
do que se era. O sentimento de inferioridade roía suas almas como
os vermes as maçãs…
[fragmento de Byens
Lys.]
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