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DÁMASO
OGAZ E OS ARDIS DO DOURADO
Juan Calzadilla
Por
estes dias são recordados os dez anos da morte de Dámaso
Ogaz. Seu nome verdadeiro era Víctor Manuel Sánchez Ogaz.
Chegou a Caracas em 1967 atraído pela contraproposta cultural de
El Techo de la Ballena. Ogaz se reportou como um exilado voluntário
que havia se decidido a romper todo nexo com seu país de origem:
Chile. em Santiago, havia dado os primeiros passos em pintura e poesia,
e logo após publicar um livro inicial, favoravelmente comentado,
se foi para Paris, onde se encontrava por volta de 1963. Deu então
uma virada decisiva em sua poética e aderiu ao Surrealismo, mesmo
que sem participar nas atividades do ativo grupo que se reunia em torno
da figura de André Breton e da revista La Brèche.
Em Barcelona, Espanha, apareceu um
de seus primeiros livros, Un paso atrás. Tratava-se de um
premonitório poemário (premonitório no que diz respeito
a seu futuro na Venezuela) que teria acrescentado méritos em sua
obra no panorama da nova poesia chilena, não fosse pelo fato de
haver aceito do venezuelano Carlos Contramaestre o convite para viajar
para a Venezuela já para incorporar-se ao grupo El Techo de la Ballena,
se instalando em Caracas. Não houve formalidade neste assunto. A
chegada de Ogaz a Caracas foi saudada como a abordagem clandestina de um
subversivo de maior experiência e de temperamento extremista, que
aportava ao grupo iconoclasta, além de seu ofício de desenhista,
uma grande vontade de trabalho. Mas talvez, também, demasiada intolerância
e uma pose intransigente com o que ele não aceitava. Porém
o trânsito de Ogaz na Venezuela foi, no entanto, um dos mais difíceis
episódios pelo qual tenha passado qualquer escritor vindo de fora.
Em Caracas se deu a conhecer como artista
plástico expondo nos salões da Faculdade de Arquitetura,
UCV, ao mesmo tempo em que trabalhava em sua pintura e se dedicava a um
desenho sui generis, do qual se servia, mediante a collage, como
de um meio surrealista para diagramar suas próprias publicações
e as do Grupo Editorial Rocinante, que dirigia Edmundo Aray.
O
manifesto do Majamanismo foi a proposta que, desde Paris, concebeu Ogaz
com o fim de conquistar os balleneros e obter um lugar no movimento de
resistência que capitalizava El Techo. O manifesto foi um texto obscuro,
e distinto ao que, em uma ordem pragmática, propunha El Techo de
la Ballena: a subversão dentro do real imediato. Ogaz era no fundo
um grande anarquista e um cético convicto, embora não recusasse,
diante da Venezuela, um certo compromisso político com a esquerda
venezuelana para mudar o estado de coisas. A Ogaz lhe interessava mais
a subversão em estado puro (em ordem à provocação
por meio do absurdo e do humor negro) que o testemunho político
que obcecava os membros da revista Rocinante, onde trabalhou durante um
tempo. por sua parte, a gente de El Techo, em sua maioria, era oposta a
tudo o que pudesse ser entendido como filiação ou adscrição
a qualquer movimento de vanguarda, fosse Surrealismo ou Patafísica.
O manifesto Majamánico resultou assim, ao menos naquele momento,
pouco congruente com os objetivos de luta e se não foi suficientemente
discutido, ao menos sabemos que despertou interesse e, no geral, foi muito
importante na obra poética de Ogaz. Este representou o eixo da consciência
no meio do temporal e manteve até o dia de sua morte um comportamento
ético exemplar.
De finais dos anos 60 datam suas duas
contribuições mais importantes: Anverso y reverso del
número ocho e Los métodos y las deserciones imaginarias,
este último publicado nas Ediciones de El Techo. Duas faces da mesma
moeda: um livro de relatos breves, com bons momentos de humor negro, e
um poemário impiedoso e acre, que passaram quase completamente inadvertidos.
Ainda que falar de relato e poema tenha escasso valor genérico neste
autor versátil que, com suas limitações de linguagem
- e remiso a que se le catalogara - mesclava a escritura e a imagem gráfica
sem prejuízos de forma, com fiera liberdade.
No
entanto, a vida de um escritor é quase sempre um calvário
de necessidades em um país latino-americano. Se por acaso está
versado em outras disciplinas, acaba absorvido por estas e consagrado ao
que em princípio não queria fazer. No que escreve e pinta,
o pintor chega a prevalecer. Há destrezas mais funcionais que outras,
vocações menos árduas, porém ninguém
há outorgado à poesia o privilégio de que produza
para comer. O professor domina sobre o escritor, e assim sucessivamente
até chegar às profissões liberais e ao comércio.
Escrever é sempre uma primeira opção que se transforma
quase imediatamente na última, porque quem elege no escritor não
é o indivíduo, mas sim a sociedade e as necessidades biológicas.
Desfeita a Ballena, perdidos os suportes
da subversão, inclusive ali onde, como na literatura, resultava
mais reconfortante a derrota, igual a outros criadores sem profissão
reconhecida, Ogaz teve que lutar no braço para poder sobreviver
em um meio cujas condições, devido a seu rol de imigrante
e renegado do sistema, eram muito mais duras para ele do que para o escritor
nacional. Foi assim como, desde 1968, se iniciou para este apóstata
irreverente a odisséia intransigente que o levou o ingrato malabarismo
de Ter que conjugar a docência medíocre com a terca produção
pessoal. Docência tristemente marginal, cumprida no entanto com paixão
inconforme e até com fogosidade, mas em todo caso exercida entre
penúrias, incompreensão e dificuldades burocráticas.
Coordenador de oficinas de linguagem integral, que ele mesmo programava
com sentido individualista e autoritário, Ogaz perambulou pela vasta
geografia venezuelana quase sem saber nada dela, de povoado em povoado,
com a altivez de um Quixote que no fundo teria desejado para si uma vida
sedentária como a de Baudelaire ou Nerval. No interior de sua odisséia,
ao longo do itinerário absurdo traçado pelo acaso e a necessidade,
Ogaz foi realizando uma obra criativa tão obstinadamente prolífica
como clandestina. Panfletos, manifestos, revistas, pinturas, collages e
até uma obra de teatro: tudo isso impresso na maioria das vezes
em multígrafo, em multilith e, no geral, em imprensas de pedal,
sob irônicos selos como "La pata de palo" (eufemismo por pirata)
ou qualquer outro título provocador. Ogaz foi inesgotável
editor, tipógrafo
de velho cuño, animado como esteve por uma inquebrantável
fé no poder subversivo da palavra e da imagem, juntas. Partidário
da comunicação por escrito, mas desconfiado sempre da amizade
ou do trato pessoal, associou-se a Clemente Padín nessa empresa
transatlântica (hoje impossível de remozar) que é a
poesia postal, o mail art. A revista Arte Cisoria representa
sua maior contribuição à divulgação
experimental do discurso literário entre nós. Ogaz soube
fazer desta publicação uma experiência alternativa
única frente às revistas institucionais, para privilegiar
o artesanal, o recurso pobre, o objeto de comunicação pessoal,
de escritor a escritor; ao optar por este título (8 números
aproximadamente) voltou a fazer gala de seu humor negro combinando semanticamente
o termo "tesouras", em inglês scissors, com a acepção
italiana "arte cisoria" ou a arte culinária de trinchar as carnes.
Assim, a ação de efetuar tasaduras na pela se mescla com
o efeito do corte de tesoura que serve à ação de recortar
e colar para armar o quebra-cabeças da collage. Ogaz conjugou nesta
publicação experimental suas habilidades de desenhista, designer,
poeta, autor e impressor.
No pessoal, ele mesmo foi sempre o
eixo de suas próprias decisões, o principal ator de seus
gestos. O protagonista de sua auto-vivissecção em curso.
Dispôs de seu espaço com inteiro arbítrio. |