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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
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PARIS E O VELHO HEM
Elaine Pauvolid
Hemingway1.JPG (22196 bytes)Este ensaio é o primeiro de uma série onde tentarei analisar a impermeabilidade de Hemingway e outros norte-americanos ao movimento surrealista. Escolhi Hemingway pela qualidade de seus contos. Algo perto da perfeição é: A vida breve e feliz de Francis Macomber (Contos de Ernest Hemingway, vol.2, Civilização Brasileira, 1997).

Que Paris era uma festa todo mundo sabia na década de 20 e não apenas Hemingway que se não deu título ao livro de contos reunidos postumamente, viveu como se cantasse isso aos quatro ventos durante sua breve vida de 62 anos. Não foi seu único nobre estrangeiro. Gertrude Stein, Man Ray e Isadora Duncan fizeram de lá suas preciosas casas.

A década de 20, para os franceses, foi a sobrevivência à Grande Guerra. Época na qual norte-americanos foram amados, nos primeiros anos, para mais tarde serem execrados como retaliação da população ao governo estadunidense que, em 1927, cobrará de uma França perto de um colapso econômico, as pesadas dívidas de guerra.

Paris abrigará, depois da guerra civil russa, príncipes, princesas e damas de honra que, numa espécie de filme surrealista, ocuparão cargos de chofer, porteiro, e dama de companhia para os novos ricos. É a cidade onde surge o Surrealismo - mas não o esgota como bem mostra o livro "Surrealismo e o Novo Mundo" (organizado Hemingway2.JPG (21646 bytes)por Robert Ponge, Editora da Universidade do Rio Grande do Sul) e o vestidozinho preto, idéia de Coco Chanel, que revolucionará o modo de vestir da parisiense e do mundo. Palco da dançarina Isadora Duncan a morrer tragicamente e cujo enterro não foi menos trágico: nenhum francês, apenas americanos pois não eram mais tolerados na cidade-luz.

Hemingway, assim como os demais americanos que viveram ao lado do Surrealismo não aderiu ao movimento - exceção é Man Ray. Passou ao largo dele como se Breton nem existisse. Gertrude Stein, que abriu guerra contra o dadaísmo e foi aclamada pelos dadaístas como dadá, não gostou dos primeiros contos do jovem Hem que freqüentava sua casa para deleite da mulher que adorava observar "tipos". Foi com ela e seus amigos que o provinciano americano sofisticou seu linguajar, e foi na livraria Shakespeare, locadora de livros e ponto de encontro da intelectualidade estadunidense que fez suas melhores leituras. O escritor não nasce pronto. Henry Miller, leitor compulsivo, atesta-o da mesma forma. Hem se construiu e se desconstruiu quando acabou com a própria vida com uma espingarda em 2 de julho de 1961. Seus textos trazem sempre a marca de sua biografia, até mesmo a idéia de morte estará presente terrivelmente em Por quem os Sinos Dobram, um calhamaço sobre a guerra civil espanhola que, na vida Hemingway3.JPG (15430 bytes)real, o autor cobriu como correspondente. Hemingway foi americano, jornalista, boxeador, pescador, motorista de ambulância, herói e muitas outras coisas mais. Criou em torno de si a história de um mito e seus livros foram adaptados para Hollywood. Foi no contato com os grandes empresários do cinema que Hemingway criou sua fama de mal caráter e brigão, rendendo-lhe uns contratos a menos e muita publicidade a mais. O Velho não parecia se preocupar com aquilo. Fazia seu trabalho, recebia e criticava quando algo não saía bem, o que acontecia com freqüência. Basta assistir à adaptação para o cinema de Por quem os sinos dobram com Ingrid Begman fazendo o papel de Maria. O que salva é a personagem Pilar vivida por Katina Paxinou. Para Hem, o filme foi um desastre. Quem leu o livro entenderá perfeitamente o desgosto de E.H. Mas por que autorizou? Continuemos na próxima Agulha de diamante ou dinamite.

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