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Augusto
Guilherme
Sempre
que se fala nas origens do cinema brasileiro moderno, é comum referir-se
ao neo-realismo e à nouvelle vague como influências
e referências estéticas marcantes para o cinema nacional.
No entanto, a influência da literatura é igualmente presente
quando se observa a produção nacional a partir da década
de 60 (período moderno do cinema no Brasil e em boa parte do mundo),
não apenas do ponto de vista temático, mas sobretudo na narrativa
herdada do romance brasileiro moderno deste século.
A tese de influência do romance,
em particular, e da literatura, em geral, sobre o cinema costuma ser defendida
por alguns cineastas e críticos, embora não haja exatamente
unanimidade em torno do tema. O diretor Carlos Diegues já havia
se pronunciado sobre isso na década de 80, qualificando a literatura
do Brasil como a maior influência cultural do cinema brasileiro.
O diretor de Xica da Silva (1976) e Bye Bye Brasil (1980)
atribui a escritores como Graciliano Ramos, Oswald de Andrade e Guimarães
Rosa, entre outros, grande influência sobre o cinema novo,
do qual Diegues fez parte ativamente, ao lado de nomes como Gláuber
Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Roberto Santos e, claro, Nelson Pereira
dos Santos, entre outros. Está claro que Diegues refere-se a uma
estética, que inclui temática, narrativa, estilo, ou seja,
um conjunto de características comuns tanto a escritores quanto
a cineastas. Segundo o pesquisador Anco Márcio Tenório Vieira
- autor de interessante artigo sobre o tema, publicado na Revista do
Gabinete Português de Leitura, do Recife (PE) -, a afirmação
de Diegues remete-se provavelmente aos aspectos temáticos e ideológicos
que predominam e perpassam os romances, contos e novelas da década
de 30 e 40. "A partir desses aspectos é possível entender,
em parte, o porquê do resgate das literaturas dos anos 30 e 40 pelos
cineastas na década de 60 e 70", afirma. Tenório Vieira observa
que, neste século, "houve um redimensionamento da Este perfil da literatura moderna dos anos 30 e 40 faz-se necessário para compreender o movimento estético cinematográfico que nasceu com o cinema novo. De fato, as preocupações da literatura da década de 30 e 40 podem ser observadas nos filmes, livros, artigos, e entrevistas dos que fizeram o cinema novo e que eram defensores de um "nacionalismo cultural crítico". Mais cético em relação ao assunto, o crítico Jean-Claude Bernardet já havia dito que o cinema brasileiro necessitou de um "patrono" para que sua estética fosse legitimada, uma vez que o cinema nacional, produzido anteriormente ao cinema novo, carecia de uma relação mais significativa com as outras manifestações artísticas, que já haviam alcançado um grau considerável de "sofisticação intelectual". Assim, segundo Bernardet, o cinema brasileiro recorreu a Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Carlos Drummond, Jorge Andrade, José Lins do Rego, entre outros, exatamente com esse nobre propósito. Mas seria apenas isso? Seja influência verdadeira e autêntica, seja força legitimadora, o fato é que a literatura, a partir da década de 60, desempenhou papel fundamental para o cinema nacional, para a afirmação de um Brasil real, utopia (?) de boa parte dos bons cineastas tupiniquins. Ao longo das décadas de 60, 70 e 80 não foram poucos os exemplos de grandes obras da nossa literatura transpostas ou traduzidas para a linguagem do cinema. Para citar apenas alguns exemplos importantes
de clássicos cinematográficos brasileiros oriundos da literatura:
Vidas
Secas (Graciliano Ramos/Nelson Pereira dos Santos), em 1963;
Menino
de Engenho (José Lins do Rego/Walter Lima Jr.) em 1965; A
Hora e A tímida, porém crescente, produção contemporânea de cinema no Brasil ainda não permitiu grandes investidas dos diretores com relação à literatura. Alguns poucos, como Outras Estórias, exercício audiovisual de Pedro Bial sobre o universo de Guimarães Rosa, podem ser destacados. Projeto em andamento é a versão cinematográfica de Memorial de Maria Moura, de Rachel de Queiroz, prestes a ser filmado in loco no sertão do Nordeste. Casa Grande & Senzala, a seminal obra de Gilberto Freyre, um tanto prosa, outro tanto ensaio sociológico, é uma adaptação/tradução que vem sendo perseguida há anos por cineastas. Joaquim Pedro de Andrade escreveu um roteiro há quase 20 anos - não filmado devido a um elevado orçamento e posteriormente arquivado por conta de sua morte em 1988 -, que está sendo editado em livro, este ano, pela Editora Aeroplano, da professora, ensaísta e crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda. Conclusão: o fato é que houve, nos anos 60, e há - nos dias correntes, apesar da preocupação com o mercado - uma intenção em reconstruir uma "realidade brasileira", a experiência do vivido. No caso brasileiro existe um país com características sociais e culturais diversas e marcantes, configurando-se potente argumento cinematográfico, cuja fonte está na literatura nacional. E foi este viés que deu modernidade à linguagem cinematográfica brasileira e distinguiu o nosso cinema internacionalmente. |
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