.
|
|
|
|
|
Tenho, para começar, uma necessidade física: estar deitado. Eu anoto frases, às vezes meras palavras, em qualquer momento e em qualquer lugar. Mas quando o poema vai produzir-se, eu preciso estar deitado, e na minha cama. E sozinho. Trata-se sem dúvida de uma negação de tudo o que poderia perturbar o processo, diria quase ‘o ritual’ de criação, o corpo, o peso do corpo em primeiríssimo lugar. Fico desamparado diante daquelas anotações e de repente dá um ‘clic’, alguma coisa que poderia chamar-se inspiração, suponho. Esse ‘clic’ me é desconhecido. Não quero dizer que seja necessariamente irracional, é misterioso, é um segredo que me escapa inteirinho, e o que é pior, é bem frágil, pode vir (de onde, meu Deus?) com mais ou menos intensidade ou pode não vir. O fracasso de fato é o mais freqüente. Em todo caso, fico durante a criação perfeitamente dividido. Se existisse uma ‘esquizofrenia harmoniosa’, essa seria a expressão justa para designar o momento da criação. O ‘clic’ escreve e o Alfredo (leve, deitado, sem peso, só) vigia, joga fora, acha que isto sim, que aquilo não, sugere às vezes — tudo com modéstia — e olha pro ‘clic’ que continua tirando coisas de um poço que às vezes deixa o Alfredo perplexo. Durante essa espécie de espetáculo privado, o Alfredo não tem a menor idéia de para onde a coisa vai. E também é a Coisa quem decide parar, o momento justo. O Alfredo não é propriamente burro, mas ele vem sempre depois. E é depois que o ‘clic’ se foi (para onde, meu Deus?) que o Alfredo se mete, corrige, deixa seus 30 anos de poesia entrar no jogo, potencializa uma aliteração aqui, reitera uma imagem lá. Mas é um servicinho de faxina muito modesto. Taí um bom resumo: o Clic e o faxineiro.
Tem de acontecer duas coisas. A
primeira é aquilo que o Coleridge chamava ‘a suspensão voluntária
da descrença’ ("the willing suspension of disbelief"). Sem isso
não há poesia (nem ficção nem arte alguma)
que sobreviva. Quando a gente não ‘crê’, não pode crer,
não consegue crer na obra que está sob nosso olhar, é
melhor parar e dar o poema por muito ruim, ou a nós mesmos por maus
leitores. O segundo momento se poderia denominar, para usar a mesma formulação
do Coleridge, ‘a suspensão da suspensão da descrença’.
Se depois de suspender a suspensão da descrença o leitor
reconhece os procedimentos de que o autor usou, sua parte de originalidade,
sua parte de obediência e de desobediência a uma tradição,
sua habilidade e até sua genialidade, então é porque
esse poema é mais do que um mero texto bem ‘amarrado’. A capacidade
de comunicação profunda está subentendida nesses dois
momentos, e a busca da ‘capacidade de comunicação’ é
sempre um modo perigoso de ler. Mas é verdade que se encerra ali
um mistério. E essa terceira instância, a do mistério,
seria imprudente (porque também é inútil) querer revelar.
A ÚLTIMA CEIA Um dia desses
OS EMIGRADOS Galiza das mães nem o pai conhece sua Lombardia alcoólatra. Os dias se exilaram em sua ordem de partida e nunca foram nossas as linhas das mãos. A baía em que a pobre mãe nos fez nascer de frente para o mar para melhor aprender o abandono sobre ainda até nossos olhos e o passado tramava desde sempre a futura geografia do pó sem idioma. Tampouco se arrependem as cifras da dor nem é nosso o inverso correio das sombras veladas nas fotos que nos apagam a face do planeta. CARTÃO POSTAL Vista noturna do centro
Veloz eternidad. Vintén Editor, Montevideo, 1999. |
|
|
