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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
DUAS PERGUNTAS A ALFREDO FRESSIA (URUGUAI, 1948)




Fressia1.JPG (17389 bytes)Poderia nos dizer como é o seu processo criativo, o que acontece consigo quando escreve poesia?
 

Tenho, para começar, uma necessidade física: estar deitado. Eu anoto frases, às vezes meras palavras, em qualquer momento e em qualquer lugar. Mas quando o poema vai produzir-se, eu preciso estar deitado, e na minha cama. E sozinho. Trata-se sem dúvida de uma negação de tudo o que poderia perturbar o processo, diria quase ‘o ritual’ de criação, o corpo, o peso do corpo em primeiríssimo lugar. Fico desamparado diante daquelas anotações e de repente dá um ‘clic’, alguma coisa que poderia chamar-se inspiração, suponho. Esse ‘clic’ me é desconhecido. Não quero dizer que seja necessariamente irracional, é misterioso, é um segredo que me escapa inteirinho, e o que é pior, é bem frágil, pode vir (de onde, meu Deus?) com mais ou menos intensidade ou pode não vir. O fracasso de fato é o mais freqüente. Em todo caso, fico durante a criação perfeitamente dividido. Se existisse uma ‘esquizofrenia harmoniosa’, essa seria a expressão justa para designar o momento da criação. O ‘clic’ escreve e o Alfredo (leve, deitado, sem peso, só) vigia, joga fora, acha que isto sim, que aquilo não, sugere às vezes — tudo com modéstia — e olha pro ‘clic’ que continua tirando coisas de um poço que às vezes deixa o Alfredo perplexo. Durante essa espécie de espetáculo privado, o Alfredo não tem a menor idéia de para onde a coisa vai. E também é a Coisa quem decide parar, o momento justo. O Alfredo não é propriamente burro, mas ele vem sempre depois. E é depois que o ‘clic’ se foi (para onde, meu Deus?) que o Alfredo se mete, corrige, deixa seus 30 anos de poesia entrar no jogo, potencializa uma aliteração aqui, reitera uma imagem lá. Mas é um servicinho de faxina muito modesto. Taí um bom resumo: o Clic e o faxineiro. 

Fressia2.JPG (19259 bytes)É capaz de nos dizer como reconhece o Valor de um poema?

Tem de acontecer duas coisas. A primeira é aquilo que o Coleridge chamava ‘a suspensão voluntária da descrença’ ("the willing suspension of disbelief"). Sem isso não há poesia (nem ficção nem arte alguma) que sobreviva. Quando a gente não ‘crê’, não pode crer, não consegue crer na obra que está sob nosso olhar, é melhor parar e dar o poema por muito ruim, ou a nós mesmos por maus leitores. O segundo momento se poderia denominar, para usar a mesma formulação do Coleridge, ‘a suspensão da suspensão da descrença’. Se depois de suspender a suspensão da descrença o leitor reconhece os procedimentos de que o autor usou, sua parte de originalidade, sua parte de obediência e de desobediência a uma tradição, sua habilidade e até sua genialidade, então é porque esse poema é mais do que um mero texto bem ‘amarrado’. A capacidade de comunicação profunda está subentendida nesses dois momentos, e a busca da ‘capacidade de comunicação’ é sempre um modo perigoso de ler. Mas é verdade que se encerra ali um mistério. E essa terceira instância, a do mistério, seria imprudente (porque também é inútil) querer revelar.
 
 

A ÚLTIMA CEIA

Um dia desses
me escapavam corvos dos bolsos
e um ovo na alma
como um mal-entendido, como a alma,
me obstruía o esôfago. Carrasco
dos corvos, antes ovo, e alma,
eles me anulavam como a um morto.
Escrevo a sombra da alma no esôfago.
Sou traidor, como uma viagem fabulosa
ao redor do corvo,
do ovo ou da morte.
Sou um ameaçador mal-entendido
e em perigo, um espantalho,
inútil como um ovo, depois corvo
ou a poesia.
 
 

OS EMIGRADOS

Mandamos dizer: Nossa história não passa pela úmida
Galiza das mães nem o pai conhece
sua Lombardia alcoólatra. Os dias
se exilaram em sua ordem de partida
e nunca foram nossas as linhas das mãos.
A baía em que a pobre mãe nos fez nascer
de frente para o mar para melhor aprender o
abandono
sobre ainda até nossos olhos e o passado
tramava desde sempre a futura
geografia do pó sem idioma.
Tampouco se arrependem as cifras da dor
nem é nosso o inverso correio das sombras
veladas nas fotos que nos apagam
a face do planeta.
 
 

 CARTÃO POSTAL

Vista noturna do centro
de Montevidéu, não reconheço o ar
violeta das ruas, mas uma dura
ametista de memória, e presa
resistente dos dias.
Não morrerei em Montevidéu,
porém as mãos me ensinam o caminho
ao pião quieto que girava com o mundo
(a vista noturna do tempo de minha infância)
Mas as fotos declaradas e a fé
amarela nas gavetas, irreconhecível
vista noturna em cima de minha cama, inverso
o mundo, em outro idioma, um pião
de mentiras: os olhos seguem presos à dura
memória de outros dias.
 
 

Veloz eternidad. Vintén Editor, Montevideo, 1999.

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