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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
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MAGIA E DIGNIDADE NO OLHAR DE SANDRA ELETA

Consuelo Tomás

Eleta1.JPG (16190 bytes)Sandra Eleta (Panamá, 1942), conhecida em diversos âmbitos a nível mundial, mantém um selo que lhe é muito próprio. Os personagens de suas fotografias, literalmente, falam, perguntam, desafiam. Essa capacidade para refletir a luz interior é o produto de horas de trabalho de busca e perseguição. Sandra busca a alma em seus objetivos. Para ela, os seres humanos são uma fonte inesgotável de expressão única e original. O tema, seu tema: as pessoas. O desafio maior: deixar que as pessoas mostrem sua alma. "Mesmo em uma seção para um retrato de uma pessoa te interessa agarrar a alma dessa pessoa. Isso ocorre ou não ocorre, mas não basta que tu queiras ou tenhas a vontade de ir buscar a alma dessa pessoa, não vai acontecer por isso. Não se passa assim. O mais que podes fazer é estar disponível e que essa pessoa deixe sua alma surgir e então, de uma sacada para outra, saudar-se mutuamente e esperar que ocorra o milagre."

Precisamente essa capacidade para esperar com paciência e tenacidade que o milagre ocorra. Os personagens retratados por Sandra Eleta não fazem parte da apologia da miséria humana à qual se filiam muitos fotógrafos desde mediados deste século.

Dotothea Lange ou Diana Arbus, por exemplo, fixadoras de uma denúncia muito particular da capacidade dos seres humanos para a crueldade para com seus semelhantes. Arbus (USA, 1934) pôs em evidência a outra face do American way of life, retratando travestis do bás fond, anões de circo, homless, moribundos em hospitais de caridade, ladrões menores nas atestadas avenidas dos bairros de que os formadores da imagem do pujante bom vizinho no mundo se empenhou em apagar.

Não é essa a tônica dos retratados de Sandra Eleta. O seu é a busca da magia que pulsa na vida, na dignidade daqueles que são ignorados pelo establishment ou dos livros de história.

Eleta2.jpg (22628 bytes)"O olhar de Sandra Eleta é vital, positivo, cheio de carinho, solidariedade. Impulsiona-o um afã por revelar a beleza de sua gente." Resulta particularmente importante seu trabalho Portobelo (1977). Este lugar situado na costa Atlântica, antigo assentamento de férias nos inícios da colônia e povoado por descendentes de escravos, está nas pupilas da fotógrafa desde a infância, quando levada por seu pai visitava com recorrência a baía, escutava os cantos dos congos e se deixava fascinar por algo que ela sabia que lhe concernia. " Portobelo é o trabalho com que mais me identifico. Tem muitos significados para mim esse trabalho. Independentemente de que seja bom ou mal, bonito ou feio, é o que significa. Para mim é o mais importante. Foram muitos anos os que vivi. Eu não era uma pessoa que passava mas sim que vivia. Isso te dá raízes e te conecta com a gente. A gente de Portobelo foi minha família, e seguirá sendo. As amizades que se renovam. Vivi em outros lugares, conheci outras pessoas, muitas coisas em minha vida têm mudado, porém Portobelo segue como uma constância."

Para os que observam pela primeira vez suas fotografias de Portobelo é evidente sua conexão. "Sandra Eleta é testemunha do local: nenhuma imagem sua é prisioneira do dispositivo. Cada uma remete não só a outra, mas sim ao outro, cuja presença se deixa sentir, não como anzol da atenção, mas sim como imediação de uma distância. Por arte do presságio, a fotografia se converte em um amuleto."

Similar a Portobelo, é seu trabalho sobre os indígenas em Por los caminos del Chagres, Emberás, hijos del río (1987), distante das impudicas mostras antropológicas, ou da pátina turística dos livros de fotografias que mostram um Panamá multicolor e glamoroso com índios sorridentes ataviados para o coquetel de boas vindas, Sandra prefere deixar-se levar pela lógica da sobrevivência em um mundo onde as regras do jogo são outras. Onde a noite e o rio mandam mais do que a Constituição. Onde perder o caminho pode significar a morte. Nessa lógica, a lente de Sandra capta a magnificência daqueles que confiam mais em seu instinto do que nos políticos de turno, a sabedoria de quem não possui livros mas que sabem ler os signos do que se move entre as sombras. Revela em suas fotos uma "lição de conhecimento profundo de seu país", e o convencimento profundo de que o Panamá é muito mais e sua riqueza principal está naquilo que não vemos, a não ser que olhemos bem. "Quando se está criando há uma conexão muito forte entre o que se é e o que se faz. É possível criar a partir de um ego, a partir de uma careta, mas o trabalho sempre é tua marca. Quando estás conectado com tua essência, teu trabalho tem essa força."

Eleta3.jpg (13308 bytes)Com o audiovisual Sirenata en B (1982/83), Sandra Eleta mostra sua capacidade e afeição por contar histórias. Um conto perfeitamente narrado, quadro a quadro, em estrita linguagem de imagem com toda a dificuldade que implica significar o complicado universo polimorfo das culturas e subculturas urbanas do Panamá. Sirenata en B conta a história de um motorista de ônibus que anda buscando um decorador que possa pintar seu ônibus exatamente como ele tem sonhado. Em seus sonhos, o ônibus voa. "Eu havia fotografado o que queria, mas tinha que fazê-lo voar e isso para mim era muito difícil, quase impossível". Sandra trabalhou durante um ano na parte fotográfica sobre a base de um roteiro previamente escrito por ela mesma a partir do que chama o "caos original" e logo levou mais um ano na montagem em que ela selecionou a música e supervisionou a arranjos e seleção final dos efeitos especiais, juntamente com Toshi Sakai, um técnico da IBM que a princípio corroborou a impossibilidade do projeto, mas que, diante da força de convencimento de Sandra, conseguiu finalmente fazer voar, não somente o ônibus mas seu prestígio no mundo fotográfico internacional. O esforço quase épica de contar os sonhos de um motorista de ônibus da Ciudad de Panamá valeu a Sandra o prêmio Crystal Apple do New York Film Festival de 1985 para melhor fotografia criativa.

Eleta4.jpg (21317 bytes)Em El imperio nos visita novamente (1991), Sandra reafirma sua vocação para contar histórias, desta vez acrescentando-lhe um argumento. Em um símil fílmico que relaciona a invasão espanhola no século XVI com a recente invasão estadunidense no Panamá (1989), monta seu roteiro baseando-se em textos e crônicas da conquista com testemunhos atuais dos sobreviventes aos incompreensíveis ataques estadunidenses a uma população civil indefesa e inofensiva. A invasão estadunidense foi um fato de magnitude na cadeia história panamenha, ainda que não tenha sido um fato isolado. Sobre essa lógica, Sandra transcende a paixão simples do "há que dizer algo a respeito" ou o "há que denunciar", para situar o fato em perspectiva e tentar explicações além do conjuntural. Seu trabalho como diretora e realizadora imprime um selo ao filme que o salva de abonar a filmografia documental de sensacional sugestão jornalística ou friamente acadêmico para inclui-lo mais na tônica do cinema de autor.

Também com Toshi Sakai, outro audiovisual, AbyaYala (1992), foi amplamente apreciado na sala panamenha da EXPO Sevilla 92. AbyaYala tenta contar outras facetas do encontro de dois mundos. Com ternura e uma adorável seleção de paisagens, modelos e momentos, Sandra explora em minutos a multiplicidade étnica e cultural amparada por uma diversidade biológica sem comparação. Longe de cair no lugar comum ao estilo de agências de viagem, o respeito pelo caráter que convém e a possibilidade de modificar a errada percepção no olhar "do outro". Não somos selvagens, não nem melhores ou piores, simplesmente somos diferentes. Como expressa María Cristina Orive, "Sandra não inventa a cultura de seu país, a define; vai cosendo todas as pontas de um tecido revelador".

Profundamente enraizada, sem cair em localismo ou provincianismo, Sandra Eleta é considerada uma das fotógrafas mais importantes no âmbito latino-americano. Conta com o reconhecimento expresso dos centros especializados onde a fotografia é parte essencial de uma forma de ver e sentir a arte. Ponto de referência para muitos fotógrafos nacionais, sua arte nos é absolutamente imprescindível para a compreensão e defesa do melhor de nós.

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