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TRÊS
PERGUNTAS A CONSUELO TOMÁS (PANAMÁ, 1957)
Quais
as tuas afinidades estéticas com outros poetas hispano-americanos?
Suponho que se estão
vivos ou mortos isto não interessa. A obra transcende essa condição
de estar ou não estar. Maravilha de maravilhas. Comecei a amar a
poesia com Gabriela Mistral, José Martí, Góngora e
Quevedo, Juana de Asbaje, Gustavo Bécquer. Tinha talvez sete ou
oito anos. Logo encontrei José Asunción Silva, Rubén
Darío, Thiago de Mello, Alfonsina Storni, Eunice Odio. Mais tarde,
Roque Dalton, Otto René Castillo, Mario Benedetti, César
Vallejo (certamente), Vinicius de Morais, Rosario Castellanos, Juan Gelman,
Natalia Burgos, Luis Rogelio Nogueras, Chiqui Vicioso, Eliseo Diego, Paco
Morales Santos, Carlos Cortés, Jaime Sabines e sigo encontrando
afinidades porque sigo encontrando poetas que andam por aí regando
a alma por todos os lados com sua força e sua luz que chega até
mim por caminhos incríveis para me salvar.
Quais contribuições essenciais
existem na poesia que se faz em teu país que deveriam ter repercussão
e reconhecimento internacionais?
Do Panamá, é pouco o que se sabe em qualquer
parte. Um canal, uma invasão, ditadores e presidentes, interesses
vários, de vários interessados. Contribuições
há muitas. Porém não alcançam o mercado do
livro ou a feira das vaidades. Eis aí a obra de Rogelio Sinán,
que morreu de velho, há uns poucos anos atrás, e ainda seguimos
descobrindo o caminho que nos abriu a todos. Demetrio Herrera Sevillano,
que morreu pobre nos subúrbios da cidade que crescia na contramão
na década de 20, e que escreveu uma poesia que transcendia inclusive
as auriflamas do Modernismo. Em muito ele se adiantou às formas
de dizer. Duvido muito que uns versos como "com os lápis de minhas
pernas / vou traçando uma ferida que me leva até minha casa
/ minha casa de solidão e amor desenganado na penumbra", que tais
versos pudessem ser concebidos por outro que não saísse da
dor e da pobreza que lhe pertenceram a vida inteira.
Toda a poesia escrita nos anos 60, exacerbada por haver
um governo dentro de outro governo, cercas, tratados nefastos, soberania
hipotecada. Toda a poesia panamenha deste século fala de como é
viver em um país de trânsito (adeus, goodbye, so long, farewell,
hoje te vi, amanhã quem sabe), país armado, semeado de minas
e cercas de no tresspasing. Os poetas escreveram tudo, porque a recordação
histórica não é suficiente para contar a dimensão
do perdido, o tamanho da ferida e nossa capacidade para não regar
sangue desnecessário, negociando o pulmão com o amo mundial
fazendo uso da astúcia do pequeno. Não nos teria obtido sangue
para sustentar a soberba. Este tem sido um país aberto. Sempre multicultural,
salada de gente. Todo mundo tem algo de todo mundo. Os poetas têm
contato como é viver assim. Não fizemos revoluções,
nem conflitos de baixa intensidade, nem guerrilhas. Não rejeitamos
ninguém por sua cor ou origem, tivemos um ditador bom que pôs
nossa causa no mapa mundial e outro que demonstrou que ainda levamos o
subdesenvolvimento nas costas. Enfim, contribuições têm
havido muitas. Porém só descobrimos essas contribuições
para nós mesmos. É uma luta. Veremos neste século
o que conseguiremos.
O
que impede a existência de relações mais estreitas
entre os diversos países que conformam a América Hispânica?
Simón Bolívar já
o tentou. Uma única América Grande e Unida, dizia. E nada
conseguiu. Aparentemente, não basta ter um inimigo comum que venha
de fora. Não basta ter uma língua comum (embora nisto se
possa dizer que temos nos encontrado) e uma pobreza comum. Nossos próprios
inimigos internos, criados, induzidos, injetados, cozinhados nos impedem
a claridade para ver as coisas em sua justa dimensão. Me vem à
memória o caso da dívida externa. O caso das invasões
e intervenções estadunidenses. O caso do bloqueio a Cuba,
o embargo à Nicarágua, e outros casos. A Comunidade Centro-americana
não existe. Nunca pudemos fazer frentes comuns. Provavelmente, a
territorialidade, isso que trazemos nos instintos, transcende a cultura,
dá significado à política, permeia a economia. As
fronteiras não costumam estar nos mapas. Estão na cabeça.
Os interesses dispersos, não sei. Talvez nos encontremos na música,
na pintura, na poesia, no teatro. Ali nos conhecemos e aprendemos a nos
encontrar. Talvez.
DA PROPENSÃO AOS ESQUECIMENTOS
A felicidade - disseram-me -
é assunto de poetas bêbados.
Úteis apenas para cavalgar
a lua
Com tudo e seus acólitos noturnos.
Esconde-te atrás da porta,
me disseram.
Não cruzes a linha que separa
o enforcado
de seu meio-dia.
Foge do espelho e de seus enganos
Une-te a uma legião de imagens
promotoras da ausência.
Engole teu amor ao próximo
e seus dinossauros descalços.
Essas utopias já ninguém
as compra.
Se descobres um vôo de monarcas
coloridas
dá-lhes as costas
não escutes sua carícia
no ar
e o escândalo de suas asas acesas.
Poderias não te recuperar.
Ama a sombra e Segue suas instruções
protege-te em seu círculo das
tentações
que a luz produz.
Soma-te à sagrada lei do que
não se move
isso é o que perdura.
Tudo isto me disseram.
Porém minha nudez não
tinha algibeiras para
tanto.
Muito menos uma memória para
o pranto.
tenho seguido a rota das águas
em seu afã de mar e horizonte
E ainda não pude me deter.
DA PROPENSÃO À PONTUALIDADE
Não é que eu tenha nascido
em outra parte.
Muito menos, que me preocupe o tempo
em sua beleza de abstrata redondez
lunática.
É que os minutos me mordem
os calcanhares
formigas enfurecidas urgindo-me a
fazer
a não me deter em função
dos finais.
É muito certo
a pressa é um agulheiro na
calma do insone
uma muralha na planície dos
sonhos
um bebedouro de ilusões que
amiúde falham
Não é que me avassale
o medo do atraso
porém me esvai a magia
perdi as fórmulas os hieróglifos
as poções
a chave dos segredos que guardava
as coisas que o sábio Fritz
confiou a meus ossos
Confesso
Cada vez sou menos eu
E mais o que vivi.
Por isso é que me apuro
para não chegar tarde
ao que realmente fui
quando tudo acabar.
DA PROPENSÃO AOS LARGOS SILÊNCIOS
Repleta de escuridão minha boca
é uma pedra
Em sua imobilidade oculta dos absurdos.
Fujo de minha língua como da
ira
espanto as palavras para que não
pousem
no lábio da criança
que dorme
ignorando catástrofes e circos.
As espinhas do que foi dito
inundam a enorme gravidade do particípio
e nenhum verbo é voluntário
para resgatar juízo ou prejuízo.
Acomodada então
em meu ofício transitório
de partícula
vou me parecendo à noite
protetora de sombreados seres
que mataram a fome com acentos
e acalmaram sua sede nos sepulcros.
O silêncio é um peixe
em minha cabeça
felizmente alimentado com todas as
palavras
que não disse. |