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Revista de Cultura nº 6
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Fortaleza/ São Paulo, ago/set 2000
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A NONA GERAÇÃO, DE ALFONSO PEÑA

Floriano Martins

Alfonso1.JPG (34778 bytes)Quantos personagens pontuam nossa existência com a lucidez fantasiosa de suas influências? Quantas vezes nos sentimos como protagonistas da mais absurda ficção? Creio que mais nos identificamos com a irrealidade suposta do ficcional do que propriamente nos reconhecemos em um ou outro personagem, esta última me parecendo quase sempre uma leitura meramente intelectualizada do assunto. De fato, consideramos mais irreal nossa existência do que real a ficção. A medida da realidade estaria então no grau de relacionamento do homem consigo mesmo. Indagar "como se faz um conto?" eqüivale a buscar um padrão de realidade.

As narrativas ora se esmeram na captação de um diálogo real, ora se definem justamente por seu mascaramento. Observa-se comportamento distinto entre países, épocas e autores. E por trás das distinções há sempre uns defensores de sua verdade incontornável. Cria-se então o dogma do "é assim que se faz", risível figura de linguagem que tanto equívoco tem impresso à leitura das obras. Nada em nosso cotidiano interrompe, retarda ou atropela a convivência do artista com os diversos tempos que compõem sua experiência criativa. Não por fatalismo, antes que me sugiram outro equívoco corrente. Nenhum diálogo se interrompe de todo. Transtorna-se, transforma-se. Tal fôlego irredutível apenas os grandes escritores conseguem tocar, e dar-lhe imutável forma.

O que temos em Alfonso Peña é uma compreensão depurada desse ardil que fantasia dissensão entre arte e vida. Disse Max Ernst que a arte é produto de um "intercâmbio de idéias". E eis aí sua relação intrínseca com a vida: ser todos e ao mesmo tempo nenhum. Não temer se misturar ao mundo, porque somente a partir de então é que se perceberá a si mesmo. Vale então recordar umas palavras de Michel Leiris, ao ressaltar como importância essencial da arte "tornar sensível o mistério dos elementos que põe em jogo". E o que pomos em jogo é nossa própria existência, seus focos obsessivos. A angústia de A, a paixão estarrecedora de B, o capricho mundano de C. Um mundo de anônimos. Talvez tenhamos mais a ver com os figurantes de uma narrativa do que propriamente com o arquétipo encarnado por seus protagonistas.

Ao lermos os relatos que compõe A nona geração, não importa tanto o nome daqueles personagens, mas antes nos anima o fato de nos percebermos entre eles. São uns desgraçados que ou põem em dúvida sua própria existência ou se encontram tão embevecidos por sua torpeza que mal dão conta de si. São absurdamente reais. Inaceitáveis, de tão patéticos. Não há carisma ou ar angélico algum. São pura e simplesmente patéticos. E em tal metáfora da existência humana é que radica a originalidade estética de Alfonso Peña.

Alfonso2.JPG (25762 bytes)Ao depurar personagens que mais funcionam como contra-personagens, gente sem glamour algum, sem nenhuma lição sublime de vida para exibir, foi tecendo uma galeria marginal de tipos, o comum dos mortais, que está ali apenas por estar, como em sua própria vida. Uma subversão de nossa precária idéia de transcendência. O anão fantasiando uma genealogia, os garotos acanalhando uma sessão de cinema, a mulher traindo o marido com um amigo dele, os dois irmãos vivendo encastelados em sua ilusão da realidade, músicos de bar, lutadores de boxe, poetas frustrados. Os desvãos da existência humana ali estão impregnados da mais vulgar realidade. São apenas o que são e não porque assim devam ser.

Contudo, ao narrar histórias de uns pobres diabos inumeráveis, Alfonso Peña não se dissocia do fato de que são histórias escritas. E aqui retornamos àquele esmero inicialmente referido no que diz respeito ao plano estético. Ao subverter um tratamento modelar o faz à sua maneira, recortando tempos, tipos e referências simbólicas, mesclando inúmeras formas de narração, freqüentando a intertextualidade com um peculiar sarcasmo, mas sobretudo exímio na definição estrutural do livro em si. Alfonso Peña não escreveu um livro de contos, dentro do habitual sentido de uma coletânea de narrativas. Soube dar à sua galeria de temas uma ambientação singular, estruturando o livro como uma peça única, que decerto cativará o leitor justamente por essa afinidade com sua vida mundana. A um só tempo somos todos e nenhum.

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A NONA GERAÇÃO
© Edições Resto do Mundo, 2000
Ilustrações (Eduardo Eloy)
Tradução e prólogo (Floriano Martins)
Capa & projeto gráfico (Socorro Nunes)
Pedidos pelo reembolso a Edições Resto do Mundo
Caixa Postal 52924 - Ag. Aldeota  Fortaleza, CE  60151-970 Brasil
floriano@secrel.com.br


ALFONSO PEÑA

Narrador e ensaísta, Alfonso Peña (1950) encontra-se hoje entre os grandes escritores de seu país, Costa Rica, reconhecido não somente por sua estética renovadora, mas também por sua ação, sendo ele um valoroso produtor cultural, possivelmente o mais ativo em seu meio. Durante os anos 80 dirigiu e editou a revista de arte e literatura latino-americana Andrómeda, que circulou em 33 números. Desde 1995, dirige as Ediciones del Taller de la Imaginación (Gráfica+Poesía), onde já foram editados mais de cem obras de artistas contemporâneos. Com dois livros de narrativa publicados, Noches de celofán (1987) e La novena generación (1997), Alfonso Peña tem sido incluído em importantes antologias internacionas, merecendo aqui uma especial referência à Anthologie de la Nouvelle Latinoamericane, publicada em 1992 pela Belfond/UNESCO, em Paris. Com sua obra parcialmente traduzida ao inglês, francês e italiano, Alfonso Peña chega agora ao Brasil.

EDUARDO ELOY

Desenhista, pintor, gravador e fabricante de papel artesanal, Eduardo Eloy (1955) estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Museu de Arte Moderna e na Fundação Calouste Gulbekian (RJ). Com exposições em países como França, Espanha, Portugal, Alemanha, Uruguai, Argentina e Estados Unidos, e tendo sua obra reconhecida por importantes críticos, Eduardo Eloy possui ainda destacada importância no que diz respeito ao ensino e difusão das técnicas de gravura, tendo ministrado cursos de papel e gravura na Espanha, no Brasil e na Argentina. Fundou e coordenou a oficina de gravura e papel artesanal do MAUC/UFC, onde desenvolveu pesquisas como reciclagem de papel e fibras vegetais. Na última década fundou e coordenou a Oficina Tauape, que deu origem a um grupo homônimo de gravadores. Atualmente preside o INGRAV/Instituto da Gravura do Ceará, do qual é um dos fundadores, sendo ainda professor de gravura e papel artesanal no Instituto Dragão do Mar de Arte e Cultura.

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FLORIANO MARTINS

Poeta, ensaísta e tradutor, Floriano Martins (1957) tem se dedicado, em particular, ao estudo da literatura hispano-americana, sobretudo no que diz respeito à poesia. É autor de livros como Escritura conquistada (Diálogos com poetas latino-americanos) e Escrituras surrealistas (O começo da busca), ambos publicados em 1998. Também nesta mesma data publicou suas traduções de Poemas de amor, de Federico García Lorca, e Delito por bailar o chá-chá-chá, de Guillermo Cabrera Infante. Sua poesia encontra-se reunida no volume Alma em Chamas (1998). É autor de uma biografia de Alberto Nepomuceno (2000). Com larga trajetória de colaboração à imprensa, no Brasil e no exterior, tem escrito artigos sobre música, artes plásticas e literatura. Atualmente é articulista do Jornal da Tarde (São Paulo), assim como integrante do conselho editorial da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro) e da coleção Clássicos Cearenses, da Fundação Demócrito Rocha (Ceará). É correspondente das revistas Común Presencia (Colombia), Matérika (Costa Rica) e Blanco Móvil (México).

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